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Nunca que me passaria pela cabeça que nosso órgão ambiental federal comercializaria a sua logomarca para ajudar uma indústria a vender mais os seus produtos, muito menos automóveis. Mas, isso é outro papo. Onde quero chegar é que o gênio da publicidade que negociou aquele contrato não teve outra intenção a não ser a de passar a mensagem de que nós, incautos telespectadores e possíveis consumidores, estávamos diante de uma indústria sustentável certificada pelo Ibama, apesar de cuspir diariamente milhares de veículos que se embebedam de combustível fóssil e saem por aí despejando “zilhões” de toneladas de CO2. Alguém lá na agência de publicidade descobriu que sustentabilidade, antes de mais nada, é uma palavra que vende.
Mas o que, afinal, se esconde debaixo desse enorme guarda-chuva chamado “sustentabilidade”, e de que forma a aquicultura se abriga sob ele?
Segundo Wagner Valenti, professor da UNESP, de Jaboticabal-SP, e seus colaboradores, em artigo nesta edição, a simples adoção de práticas e de sistemas que consideram conceitos da sustentabilidade, como o uso de boas práticas de manejo (BMP), são uma forma de caminhar em direção à sustentabilidade, mas, por si só, não é o bastante. Para eles, é essencial que se possa medir a sustentabilidade dos sistemas usados, das técnicas de manejo e das novas tecnologias que vêm sendo geradas e adotadas, para que se possa avaliar o grau de sustentabilidade do empreendimento.
Fernando Kubitza aborda esse tema no seu aspecto mais pragmático, face ao grande desafio que a aquicultura tem, ao ter que triplicar, até 2050, a sua produção atual de forma a atender as necessidades de consumo de pescado para alimentação humana. Segundo Kubitza, é preciso enfrentar grandes desafios para reduzir a dependência de recursos naturais não renováveis, minimizar a emissão de efluentes, utilizar rações cujos ingredientes não concorram diretamente com a alimentação humana, entre outras medidas importantes.
Fiz questão também de incluir nesta edição um artigo publicado na renomada revista Science, que aborda os avanços da carcinicultura rumo à sustentabilidade, que hoje já permitem que a produção de camarões seja feita praticamente sem efluentes, em áreas distantes do litoral, mudando completamente a má reputação que a carcinicultura carrega nas últimas décadas.
A sustentabilidade, portanto, não é apenas um conceito da moda para ser usado quando se deseja incorporar valor e incrementar as vendas de um produto. Como disse Wagner Valenti, o desafio para se construir uma aquicultura realmente sustentável passa por um aprendizado contínuo e pela capacidade de criar sistemas capazes de responder às mudanças ambientais, sociais e econômicas que ainda estão por vir.
A todos uma boa leitura,
Jomar Carvalho
Filho
Biólogo e Editor |
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