E ninguém tinha lernea nos viveiros… – Editorial #179

Negar a existência de um problema é como não tê-lo?


Ao longo dos anos 1990 um crustáceo parasita, a lernea, dominava praticamente sozinho o cenário das doenças que impactavam a piscicultura. Na ocasião, Walter Boeger, professor da UFPR e especialista na biologia desse parasita, revelou aos leitores da Panorama da AQÜICULTURA que, mesmo após ter sido espalhada por vários estados, dificilmente alguém reconhecia publicamente possuir lernea nos seus viveiros. Era tanta a negação do setor produtivo que um de seus alunos de doutorado teve que mudar a sua tese “porque NINGUÉM reconhecia que os seus peixes estavam infestados por esse parasito”.

De lá pra cá muita coisa mudou e um enorme número de parasitos, fungos, bactérias e, mais recentemente, vírus, passou a compor o portfólio de agentes patogênicos da piscicultura. Aliás, isso é o que se espera encontrar em uma indústria zootécnica florescente e dinâmica. O que não mudou, foi a forma dos produtores lidarem com as infestações, pois raramente admitem publicamente quando estão infectados por algum desses agentes.

Nesses 31 anos à frente da Panorama da AQÜICULTURA, nunca consegui uma explicação plausível que justifique o comportamento negacionista – pra usar uma palavra da moda, diante do aparecimento de doenças sérias no setor aquícola brasileiro. Foi assim também com vários vírus da nossa carcinicultura, como o da NIM e, mais recentemente, o da Mancha Branca, cuja presença foi reiteradamente negada pelo setor produtivo enquanto assistia à sua disseminação pelo país. “Não vai chegar”, era o mote repetido até as vésperas dos surtos.

Falo disso porque os tilapicultores brasileiros acabam de receber o diagnóstico da presença do ISKNV, um Iridovírus que afeta as tilápias nas suas fases iniciais, fato que causa grande impacto no bolso dos produtores, apesar de não fazer nenhum mal à saúde do consumidor de tilápia. Mesmo não estando clara a extensão dos danos que esse vírus pode provocar, percebo que produtores com quem conversei, já se apressam para minimizar suas consequências, algo que só o tempo e mais estudos poderão esclarecer. 

Não me ocorre doença que tenha inviabilizado totalmente uma criação. Elas fazem parte da rotina de todas as atividades zootécnicas e precisam ser pesquisadas para que toda a cadeia se mantenha saudável e ativa. Isso nos deixa mais convictos de que o melhor remédio está na clareza das informações. Conhecer de perto esse vírus, que já se encontra presente em diversos estados, compartilhar os conhecimentos a respeito, ouvir e ser ouvido, é o melhor que os produtores podem fazer para avaliar a dimensão do novo desafio que, segundo especialistas, já afeta parte da oferta de alevinos no Brasil.

Por esse motivo, e por acreditar que a informação e o conhecimento são essenciais para lidar com desafios sanitários, entrevistei nessa edição o médico veterinário José Dias, líder da equipe que atendeu os primeiros produtores que se depararam com as mortalidades resultantes da contaminação pelo ISKNV. Estou certo de que as informações que pude obter e que aqui são compartilhadas, poderão ajudar na maneira como os tilapicultores conduzirão seus manejos daqui pra frente. 

Com esse exemplar, voltamos ao modo impresso da Panorama da AQÜICULTURA que, por conta da pandemia, teve suas duas edições anteriores oferecidas apenas de forma digital. Espero que você, assinante, tenha recebido o e-mail que enviamos com o link para baixar diretamente o seu exemplar em nosso site. Caso não tenha recebido, entre em contato conosco, que faremos o reenvio para que você não perca suas edições.

A todos uma boa leitura,

Jomar Carvalho Filho | Biólogo e Editor