A Calagem dos Viveiros de Aqüicultura

Por:
Luis Vinatea,
Jesús Malpartida
Edemar R. Andreatta
Pesquisadores do Laboratório de
Camarões Marinhos da UFSC
e-mail: [email protected]
www.lcm.ufsc.br


Uma das práticas mais comumente empregadas para a correção do pH em aqüicultura é a adição de calcário agrícola, tanto na água quanto no fundo dos viveiros, processo conhecido como calagem. Os efeitos benéficos da calagem em viveiros de cultivo são diversos, e podem ser resumidos da seguinte forma:

• Incrementa o pH e a alcalinidade da água (poder buffer);
• Incrementa a disponibilidade de carbono para os processos fotossintéticos;
• Diminui a capacidade que o lodo tem de adsorver os nutrientes que são úteis para as plantas, principalmente fosfatos inorgânicos;
• Propicia um ambiente mais favorável para o crescimento microbiano, favorecendo a decomposição e mineralização da matéria orgânica dos sedimentos;
• Proporciona cálcio solúvel para os organismos que fazem parte do alimento natural do viveiro;
• Ajuda a clarificar águas turvas, facilitando a floculação e precipitação dos colóides orgânicos e da argila que se encontram em suspensão;
• A calagem, desde que feita com cal virgem ou hidratada, serve também como desinfetante para o viveiro.

As evidências sugerem que a água dos viveiros de cultivo de espécies de água doce deveria apresentar alcalinidade e dureza total de 50 a 75 mg/litro respectivamente, para assim poder garantir um bom crescimento dos organismos cultivados (Boyd 1992). Esta exigência não é válida necessariamente para cultivos de espécies marinhas ou de águas salobras, já que, de uma maneira geral, a alcalinidade e a dureza nestes casos são bastante elevadas. O fundo dos viveiros também necessita ter um pH perto da neutralidade para favorecer a decomposição da matéria orgânica. Desta forma, calcário sempre é aplicado, seja na água ou no fundo dos viveiros secos.

Qualidade do calcário

Em geral, três produtos são utilizados para a calagem dos viveiros de cultivo: calcário (calcítico ou dolomítico) pulverizado (CaCO3), cal virgem (CaO) e cal hidratada (Ca(OH)2). Os depósitos naturais de calcário se compõem puramente de carbonato de cálcio ou de uma mistura de carbonato de cálcio e de magnésio. Após a extração, a rocha calcária é moída e transformada em partículas com diferentes tamanhos (micragens). O calcário pulverizado é também conhecido como calcário agrícola e, de acordo com o percentual de óxido de magnésio presente (MgO), um calcário pode ser calcítico (menos de 5%), magnesiano (de 5 a 12%) ou dolomítico (acima de 12% de MgO).

A cal virgem é o resultado do aquecimento do calcário num forno, já a cal hidratada (hidróxido de cálcio) é preparada a partir do tratamento com água da cal virgem. Em contato com a água dos viveiros, estes materiais reagem vigorosamente para neutralizar a acidez, ou então combinam-se com o CO2 formando carbonatos, os quais, por sua vez, neutralizarão os ácidos presentes na água ou no solo dos viveiros.

Para fins de aqüicultura, dois são os critérios para se avaliar a qualidade de um calcário: a reatividade (RE) e o poder neutralizante (PN). A reatividade, também conhecida como taxa de finura, não é outra coisa senão o tamanho da partícula do calcário. Um calcário de boa qualidade é aquele que apresenta uma grande proporção de partículas menores que 0,3 mm. Já os calcários com partículas superiores a 2,0 mm apresentam reatividade zero. A Portaria 03 de 12 de junho de 1998, do Ministério da Agricultura estabelece os valores mínimos de reatividade (RE) para calcários: 100% do calcário deve passar pela peneira de 2,0 mm, 70% pela de 0,84 mm e 50% pela de 0,3 mm (Figura 1).

Figura 1. Peneiras usadas para determinar a reatividade (RE) ou taxa de finura do calcário
Figura 1. Peneiras usadas para determinar a reatividade (RE) ou taxa de finura do calcário

Por outro lado, o poder neutralizante (PN) é a capacidade que o calcário tem de neutralizar ácidos. Esta capacidade irá depender do grau de pureza do produto e do tipo de composto. O poder neutralizante de um determinado calcário pode ser determinado por meio do tratamento do mesmo com calor e ácido clorídrico 1N, para depois titular com hidróxido de sódio 1N, em presença do indicador fenolftaleína 1%. Quanto mais hidróxido de sódio a solução consumir, menor será o poder neutralizante do calcário. Em geral, um bom calcário (CaCO3) deveria ter um poder neutralizante superior a 65%. Na Tabela 1 são apresentados valores de reatividade e poder neutralizante de alguns calcários que são usados por aqüicultores no Brasil.

Tabela 1. Reatividade (%) e poder neutralizante (%) de alguns calcários usados por aqüicultores no Brasil.
Tabela 1. Reatividade (%) e poder neutralizante (%) de alguns calcários usados por aqüicultores no Brasil.

Multiplicando os valores (percentuais) da reatividade com o poder neutralizante, obtem-se o chamado Poder Relativo de Neutralização Total (PRNT), o qual, conforme o Ministério da Agricultura, pode variar de 45 para mais de 90%. Por exemplo, para um calcário com 90% de reatividade e 48% de poder neutralizante, temos um PRNT equivalente a 43,2% (0,9 x 0,48 = 0,432 = 43,2%)

Uso de calcário em aqüicultura

A calagem pode ser realizada tanto na água quanto no solo dos viveiros de cultivo. No solo o calcário (calcítico ou dolomítico), ou a cal (virgem ou hidratada), serão utilizados para corrigir o pH e desinfetar o fundo, respectivamente. Na água, apenas calcário calcítico ou dolomítico é usado, principalmente para corrigir a dureza ou a alcalinidade relativa.

Uso na Água – Alcalinidades superiores a 60 mg/L garantem um poder buffer minimamente aceitável. O poder buffer é a capacidade que uma substância tem de resistir a mudanças no seu pH. No caso da água, a presença de carbonatos e bicarbonatos evita que estas mudanças de pH sejam muito grandes. A elevação da alcalinidade pode ser particularmente importante em se tratando de cultivos em águas oligohalinas, muitas vezes também chamadas de “águas doces”, já que as águas marinhas ou salobras têm, em geral, valores bem mais elevados. Alcalinidades muito baixas prejudicam o ambiente de cultivo, sobretudo pelas bruscas oscilações do pH da água, decorrente da fotossíntese realizada pelas microalgas. Estas oscilações podem elevar o pH acima de 10, o qual é diretamente prejudicial à fisiologia dos animais, principalmente porque a amônia, principal produto de excreção dos organismos aquáticos, adota sua forma mais tóxica (NH3). Para se corrigir a alcalinidade da água costuma ser usado calcário calcítico ou dolomítico, porém, estes compostos demoram a dar resultados devido a sua baixa solubilidade. Outros compostos, tais como bicarbonato de sódio, são muito mais solúveis, porém, tem a desvantagem do elevado preço. Às vezes, após a correção da alcalinidade da água, observa-se que a mesma volta a cair após alguns dias da aplicação do calcário. Isto ocorre porque o pH do solo se encontra em condições ácidas, o que provoca, devido aos fenômenos de neutralização, um seqüestro constante de carbonatos e bicarbonatos existentes da água.

Uso no Solo – Quando nos referimos à calagem do solo, devemos pensar primeiro no objetivo que temos em mente: desinfecção do fundo ou correção do pH. Em se tratando de esterilizar o fundo de um viveiro, tanto cal virgem quanto cal hidratada podem ser usadas, geralmente na taxa de uma tonelada por hectare, quantidade suficiente para elevar o pH do solo acima de 10, o que irá provocar a morte da maioria dos organismos indesejáveis presentes no ambiente. Destes dois compostos, a cal virgem (CaO) é mais eficiente em termos de esterilização já que, além da elevação brusca do pH, provoca uma considerável reação exotérmica, liberando calor. O problema do uso deste composto é sua elevada periculosidade para o pessoal que o manuseia. Tanto cal virgem quanto cal hidratada não são eficientes para corrigir o pH do solo, pois seu efeito residual é muito curto. Estes compostos também não devem ser usados diretamente na água, sobretudo em grandes quantidades, pois podem provocar a elevação do pH para valores excessivos e com isso matar todos os organismos cultivados. Contudo, pequenas quantidades de cal hidratada costumam ser usadas (na faixa de 20 a 50 kg/ha) para precipitar colóides e microalgas e até para promover a muda em crustáceos.

pH do solo

Para se corrigir o pH do solo é necessário primeiro medir o mesmo. Para fazer isto é recomendável diluir 20 gramas de solo seco em 20 ml de água destilada, para depois de 30 minutos medir o pH do sobrenadante com um pHmetro digital.

Caso o pH do solo seja menor do que 5,9 (Boyd, 1995), será preciso calcular a quantidade de calcário a ser adicionado usando-se a metodologia da solução buffer, que consiste em diluir mais 20 gramas de solo seco em 40 ml de solução de p-nitrofenol (pH 8,0 ± 0,1)1. Após uma hora de agitação constante, determina-se a queda do pH da solução buffer e essa diferença multiplicada pela constante 6.000. Por exemplo, se o pH da solução buffer, que era de 8,0, cai para 7,7, então a quantidade de calcário a ser adicionada será de 1.800 kg de calcário por hectare (0,3 x 6000). Entretanto, já que nem todos os calcários disponíveis no mercado são 100% puros, uma correção do valor determinado anteriormente se faz necessário. Por exemplo, se a RE e o PN de um determinado produto forem de 75 e 80%, respectivamente, então:

* Em um litro de água destilada diluir 10 g p-nitrofenol, 7,5 g ácido bórico, 37 g cloreto de potássio e 5,25 g de hidróxido de potássio. Ajustar o pH da solução para 8,0 ± 0,1 por meio da adição de ácido clorídrico ou hidróxido de sódio 1N.
* Em um litro de água destilada diluir 10 g p-nitrofenol, 7,5 g ácido bórico, 37 g cloreto de potássio e 5,25 g de hidróxido de potássio. Ajustar o pH da solução para 8,0 ± 0,1 por meio da adição de ácido clorídrico ou hidróxido de sódio 1N.

Vemos, assim, que quanto menor a reatividade e o poder neutralizante de um calcário, maior quantidade de produto deverá ser utilizada por hectare para corrigir o pH do solo.

O viveiro do camarão marinho

Em geral, (Boyd 1995), viveiros inundados com águas marinhas ou salobras, pelo fato de apresentarem elevada dureza, com o tempo (dois a três cultivos) passam a não precisar de produtos de correção, visto que os carbonatos (CO3-2) e bicarbonatos (HCO3-) presentes na água irão neutralizar os ácidos produzidos pelo alumínio e ferro do solo (cátions de reação ácida), tal como se apresenta nas seguintes equações:

Conforme mencionado anteriormente, solos com pH superior a 5,9 não precisam de calagem. De fato, numa pesquisa realizada recentemente com viveiros de camarão marinho na região norte do Estado de Santa Catarina foi constatado que apenas viveiros novos (nunca antes inundados) precisam de correção do pH. De um universo de 79 viveiros de cultivo de camarão marinho (inundados com água salobra e com durezas maiores de 2.000 mg/L), foi encontrado que 77,3% deles apresentavam solos com pH médio de 6,93. Já os viveiros novos, 22,7% do total, tiveram uma média de pH de 4,32.

Figura 2. Coleta de solo de viveiros de camarão marinho para a  determinação do pH (Fazenda Yakult, UFSC, setembro de 2004).
Figura 2. Coleta de solo de viveiros de camarão marinho para a  determinação do pH (Fazenda Yakult, UFSC, setembro de 2004).

Deve-se mencionar que os solos com pH superior a 5,9 não necessariamente eram resultado de calagens anteriormente realizadas, pois houve casos em que os viveiros nunca tinham recebido calcário. O fato de estes viveiros terem pH mais perto da neutralidade pode ser explicado pela elevada dureza da água. Os resultados desta pesquisa sugerem que as práticas rotineiras de calagem, que são feitas nas fazendas de cultivo de camarão marinho, deveriam ser revistas, pelo menos no que tange à suposta correção da acidez dos solos.


Referências

BOYD, C. Water quality in warmwater fish ponds. Agricultural Experiment Station. Auburn University. Opelika, Alabama, USA, 1990. 359p.
BOYD, C. Shrimp pond bottom soil and sediment management. In: J. Wyban (Ed.). Special Session on Shrimp Farming. The World Aquaculture Society, Baton Rouge, USA, 1992. p. 166-181.
BOYD, C. Bottom soils, sediment, and pond aquaculture. Chapman and Hall : New York, 1995. 348 p.
TACON, A. Nutrição e alimentação de peces e camarones cultivados. Manual de Capacitação. Proyecto Aquila II, Documento de Campo nº4, GCP/RLA/102/ITA. FAO-Italia. Brasilia, 1989. 572 p.