A China mostrou porque é o lar da aqüicultura

A capital chinesa abriu suas portas de 23 a 27 de abril para abrigar a World Aquaculture 2002, conferência anual da Sociedade Mundial de Aqüicultura , na sigla em inglês WAS – World Aquaculture Society. Segundo John Cooksey, Diretor Executivo da WAS, 3.100 pessoas participaram do evento, realizado no Beijing International Convention Center, vindos de 90 diferentes países. Ainda segundo Cooksey, 1.500 chineses prestigiaram o evento, além de 60 brasileiros.

O papel da aqüicultura

Já na cerimônia de abertura, os participantes do World Aquacuture 2002 foram presenteados com a palestra inaugural do Dr. Michael Crawford, diretor do Institute of Brain Development and Human Nutrition da University of North London. O tema abordado pelo Dr. Crawford foi o “O papel dos pescados e da aqüicultura para garantir a saúde e as habilidades das futuras gerações”. Segundo seus estudos, o cérebro humano precisa ser alimentado de lipídeos e não de proteínas e minerais, já que 60% da sua composição é de gorduras, com o predomínio dos ácidos docasahexanoico (DHA) e araquidônico, respectivamente os ácidos graxos de cadeia longa ômega 3 e ômega 6, também presentes em todo o sistema nervoso. O estudo mostra o roteiro da ocupação das sociedades humanas através do planeta, saindo do sul da África em direção a Eritréia, e mostra que todas as rotas migratórias seguiam através do litoral, evidenciando a importância da presença dos pescados ao longo da evolução humana. Para Crawford, o consumo de pescados pelos humanos sempre esteve relacionado, principalmente, à provisão desses ácidos graxos e de outros nutrientes essenciais para assegurar a saúde e o pleno desenvolvimento mental e, secundariamente, deve ser visto como saciador da fome dos seres humanos. Ainda, segundo os estudos do Dr. Crawford, para a engorda, ou formação de massa muscular, bastaria aos humanos que se alimentassem de proteína de origem vegetal, tomando como exemplo os rinocerontes herbívoros que facilmente atingem uma tonelada de peso convertendo apenas vegetais, mantendo um cérebro de apenas 300 gramas de peso, ao contrário da 1.200 gramas do cérebro humano. Imagens apresentadas pelo Dr. Crawfford na abertura do Word Aquaculture 2000 mostraram ainda que as regiões com os mais baixos índices de consumo de pescados são também aquelas que registram os maiores índices de deficiências e retardamento mental relacionados à má formação cerebral.

Fome e pobreza

A primeira sessão técnica a abrir o evento de Pequim, na tarde do dia 23 de abril, foi justamente a que relacionou a aqüicultura à segurança alimentar, enfatizando o seu importante papel mitigador dos impactos causados pela pobreza. O tema pode soar estranho a muitos aqüicultores acostumados a temas emergentes como a otimização de lucros, expansão de mercados e às tecnologias de ponta disponíveis. Mas muitos especialistas, entre eles David Little da Universidade de Stirling, mostraram neste fórum o importante papel que tem a aqüicultura quando utilizada estrategicamente por alguns países, principalmente aqueles com recursos hídricos limitados, a exemplo da Índia e do Sri Lanka. A população da Índia já ultrapassou o primeiro bilhão de pessoas e segundo o pesquisador Bhatta Ramachandra da Universidade de Ciências Agrárias de Mangalore, tem sido muito importante o papel da aqüicultura para o país. Segundo ele, “a aqüicultura na Índia cresceu muito nos últimos anos apesar da disponibilidade de alimento para a população estar diminuindo ano após ano”. É justamente a aqüicultura que permite que a população da Índia tenha um consumo anual per capta de pescados de 8,52 quilos, maior que o do Brasil. Por considerar a aqüicultura uma atividade estratégica, a Índia já se tornou responsável por 70% da produção dos países do Sul da Ásia, beneficiando-se também das exportações decorrentes. Além da China e da Índia, muitos outros países recebem auxílio organizacional e técnico da FAO e outras agências através de programas que estimulam o aproveitamento dos recursos hídricos para gerar alimentos e divisas.

Contribuições brasileiras

Durante os quatro dias do evento, 12 salas do Beijing International Convention Center funcionaram simultaneamente para abrigar as 59 sessões técnicas, onde foram feitas 644 apresentações orais, além da seção permanente de pôsteres que expôs 389 trabalhos, dos quais 23 realizados por pesquisadores brasileiros. A produção científica brasileira exposta em Pequim apresentou poucas contribuições relacionadas aos cultivos de camarões e moluscos, ao contrário das relacionadas à piscicultura, que se detiveram principalmente nos aspectos de cultivo e na fisiologia de algumas das nossas espécies como o pacu, tambaqui, pirarucu, matrinxã, pintado e tilápia. Um pouco da carcinicultura brasileira, no entanto, pode ser vista através da apresentação oral feita por Enox Maia, da Carcinicultura Compescal de Aracati – CE. Sua pesquisa, realizada em conjunto com Luciano Aragão, Eudes Correia e Alfredo Olivera mostrou a viabilidade do cultivo superintensivo do L. vannamei através dos resultados de dois ciclos de engorda com densidades de 150 camarões por m2 utilizando até 21 HP por hectare de aeradores, substratos artificiais e sem troca de água. Produtividades que variaram de 9 a 19,7 toneladas por hectare por ciclo foram apresentadas pelos pesquisadores.

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Uma boa parte dos brasileiros presentes ao evento da China estava com os olhos voltados para as informações a respeito dos cultivos de camarões, uma tarefa dificultada pelas barreiras das línguas chinesa e inglesa. Muitos dos brasileiros viajaram através do “Programa de Viagem ao World Aquaculture 2002” organizado pela Purina do Brasil como parte das comemorações dos 35 anos da sua atuação na área de nutrição animal no País. O grupo contou com a participação de empresários de fazendas de camarões, técnicos, empresários da indústria de beneficiamento e comercialização e dirigentes do setor (foto).

O lar da aqüicultura

A China e tudo o que o país representa para a aqüicultura foi a grande homenageada da WAS, que grafou a frase “China, o lar da aqüicultura”, em todas as chamadas do evento. Em suas boas-vindas aos participantes na solenidade de abertura, o Dr. Song Jian, presidente de honra do comitê organizador chinês, lembrou que os primeiros registros da atividade aqüícola em seu país remontam a 1100 a. C. O primeiro livro sobre aqüicultura, um tratado sobre o cultivo de peixes, foi escrito pelo chinês Fan Li em 460 a. C., há mais de 2.400 anos. Song Jian mostrou o extraordinário progresso que a aqüicultura chinesa experimentou nos últimos anos, ressaltando que muito ainda deverá ser feito neste início de século, já que somente daqui a 30-40 anos deverá ser estabilizado o atual ritmo de crescimento populacional do país, hoje habitado por 1,25 bilhões de pessoas. Segundo Song Jian, nas próximas 3 ou 4 décadas outros 400 milhões deverão somar-se à população atual, que tem a aqüicultura como um dos setores mais confiáveis para a segurança alimentar do país. A estratégia de desenvolvimento levada a cabo nos últimos anos já permitiu que a China liderasse na última década o ranking mundial da produção aqüícola. Surpreendentemente, a China é também o único país do mundo onde a produção aqüícola é maior que toda a produção oriunda da pesca extrativa, com um perfil produtivo que poucos países somente experimentarão daqui a algumas décadas.

Apesar da tradição milenar, o atual crescimento da aqüicultura na China se deu mesmo a partir da década de 70, tendo sido responsável pela elevação, nos últimos 20 anos, do consumo per capta de pescados de 10 para os atuais 30 quilos anuais, segundo dados divulgados no World Aquaculture 2002 por Miao Weimin, membro da Academia Chinesa de Ciências do Pescado.

O vasto perfil de ocupação dos diversos ambientes pela aqüicultura pode ser visto nos quadros divulgado por Weimin.

Águas Doce e Salgada A aqüicultura continental produziu em 2000 15,17 milhões de toneladas, aumentando em 7% a produção do ano anterior. O predomínio da produção foi das carpas que representaram 12 milhões de toneladas, ou 80% do total produzido em água doce. As tilápias somaram 629 mil toneladas, os caranguejos de rio (Eriocheir sinensis) 232 mil toneladas, as enguias 160 mil toneladas, o peixe mandarim (Siniperca chuatsi) 98 mil toneladas, o camarão de água doce Macrobrachium rosenbergii 97 mil toneladas e a tartaruga de casco mole (Trionyx sinenese) 92 mil toneladas.

Em 2000, a aqüicultura marinha produziu 11 milhões de toneladas, mostrando um aumento de 9% em relação a 1999. A produção de moluscos foi responsável por 81% ou 8.9 milhões de toneladas, sendo 3.3 milhões de ostras. A produção de algas somou 1,2 milhões de toneladas seguidos dos peixes marinhos que somaram 426 mil toneladas e dos crustáceos (camarões e caranguejos) que somaram 343 mil toneladas.


Área total (em milhões de hectares) dos diferentes ambientes utilizados na aqüicultura chinesa e a produção total em cada um desees ambientes (em milhões de toneladas) no ano 2000. Fonte: Miao Weimin e colaboradores

Segundo Chen Shuping, da Infoyu (China) em artigo publicado na Infofish International, em 2000 a aqüicultura chinesa exportou o equivalente a 1,5 bilhões de dólares ou 39% do total das exportações do país em termos de valor. Os camarões foram o mais importante produto da pauta de exportações de produtos aqüícolas até 1993, quando a carcinicultura do país foi atingida por doenças com perdas que chegaram a 340 milhões de dólares com a rápida queda das 220 mil toneladas produzidas em 1992 para as 63 mil toneladas de 1994. A recuperação da carcinicultura chinesa tem sido lenta mas em 2000 já foi possível exportar US$ 200 milhões, um bom resultado se comparados com os US$ 150 milhões exportados em 1995. Apesar de estar se recuperando, a carcinicultura chinesa acaba de sofrer restrições internacionais por conta do uso indevido de cloranfenicol que representarão danos ainda não calculados no seu comercio exterior.

Segundo Chen Shuping, a recente entrada da China na Organização Mundial do Comércio obrigará o país a reduzir suas taxas para entrada de pescados para 10-12%, dos atuais 19-20%. Isso trará novos desafio para a aqüicultura chinesa que será obrigada a reduzir os custos de produção de muitos produtos face a uma grande disputa no seu mercado interno com os pescados produzidos a baixos custos nos países dos Sudeste da Ásia.


Espécies e sistemas de cultivo usualmente utilizados na China. Fonte: Miao Weimin e colaboradores