A Ciranda do Mercado Norte-Americano

À exceção do Estado de Santa Catarina, que vem contabilizando sistematicamente a sua produção, os demais estados brasileiros desconhecem a sua produção aqüícola fazendo com que nesta virada de milênio o Brasil ainda esteja longe de conhecer o quanto produz. A falta de estatísticas impede que possamos dizer com precisão qual é a produção brasileira de tilápias. As tentativas para quantificar esta produção têm levado sempre em consideração os resultados das vendas de alevinos e rações, dados estes também difíceis de serem quantificados, bem como as taxas finais de sobrevivência nos viveiros espalhados pelo país. Há, entretanto, um consenso de que o Brasil deve produzir neste ano, cerca de 45 mil toneladas de tilápias cultivadas que poderão ser somadas a um volume possivelmente semelhante de tilápias capturadas pela pesca artesanal nos reservatórios, açudes, lagoas e outros corpos d’água espalhados de norte a sul. Por outro lado, as tímidas exportações garantem que todo esse volume de tilápia é consumido em território nacional e, principalmente, num pequeno raio ao redor do local onde foi produzida ou capturada, já que também é tímida a sua presença nas grandes cidades brasileiras.

A exemplo de outros países, os filés de tilápia vêm sendo muito bem aceitos pelos consumidores brasileiros e, principalmente, por um grande número de chefes de cozinha que reconhecem não só a leveza do paladar do filé, mas também a boa relação custo/benefício, o que estimula a sua presença nos cardápios dos melhores restaurantes nacionais. Tal empatia do produto entre os brasileiros deverá manter por bastante tempo a produção nacional voltada para o mercado interno, levando o aqüicultor a não ter pressa para seguir a tendência dos principais países produtores, que direcionam grande parte da sua produção para o milionário mercado norte-americano.

Mercado Norte-americano

O grande interesse demonstrado pelos países produtores de tilápia pelo mercado norte-americano se justifica, já que a tilápia ocupa o terceiro lugar na lista de importações de pescados cultivados, atrás apenas do camarão marinho e do salmão do Atlântico. No ano passado, os EUA importaram 37.570 toneladas de tilápias, inteiras e em filés (ou 60.785 toneladas em equivalente em peso vivo), um volume 55% maior que do que o importado em 1998, movimentando um mercado de 82 milhões de dólares.

Taiwan tem sido, desde 1994, o maior fornecedor de produtos para o mercado norte-americano, tendo abastecido o país no ano passado com 25 mil toneladas, ou 66% das importações. A indústria taiwanesa, que domina especialmente o mercado de peixe inteiro congelado (22 mil toneladas), terá em breve, como principal concorrente nesta categoria, a indústria chinesa que já vem demonstrando seu grande interesse. Em 1997 a China exportou para os EUA apenas 30 toneladas de tilápias inteiras congeladas e apenas dois anos depois exportou 4.940 toneladas, numa clara demonstração do seu apetite.

Importação de tilápias para o EUA por países e tipo de produto
Importação de tilápias para o EUA por países e tipo de produto

No segmento de filés frescos, algumas mudanças também estão sendo esperadas. Até 1999, a Costa Rica manteve a liderança ao abastecer o mercado com 2.310 toneladas, ou mais da metade de todo o mercado de filés frescos, que totalizou 5.300 toneladas e movimentou 28.8 milhões de dólares. Atrás deste filão corre por fora, e aceleradamente, a indústria equatoriana, que já em 1999 abasteceu o mercado com 1.805 toneladas de filés frescos. O Equador, com sua grande e abalada indústria camaroneira, vem procurando diversificar sua produção aqüícola e, segundo observadores, caso sejam mantidos os fortes preços do filé fresco no mercado norte-americano, cada vez mais viveiros de camarões equatorianos tendem a tornarem-se produtores de tilápias. Alguns produtores de camarão estão buscando adaptar a infra-estrutura já existente nas fazendas, realizando algumas adequações na tecnologia utilizada, de forma a obterem uma boa produção de tilápias, e com isso amenizarem os prejuízos adquiridos com suas perdas. Sabem, porém, que para isso será preciso um grande investimento financeiro pois a salinidade dos viveiros dificulta a criação da tilápia, mesmo para o cultivo do híbrido desenvolvido no Equador, que possui condições de ser criado em água salgada. Apesar do Equador ser um dos principais produtores de tilápia fresca e do seu volume de produção estar bem na frente da produção conquistada por Honduras e pela Jamaica, os produtores equatorianos estão em desvantagem em relação aos produtores desses países, já que estes contam com fretes mais baratos e um serviço de transporte aéreo regular para os EUA, fundamental para atender um mercado de produtos frescos.

No segmento de filés congelados o mercado norte-americano é dominado pelas importações de Taiwan e da China. Taiwan dobrou sua importação de 1998 para 1999 e a China saiu do zero em 1997 para 740 toneladas no ano passado. Há uma expectativa de que as importações desses dois países cresçam em 2000 pois claramente aproveitam a atual tendência norte-americana para importar cada vez mais pescados para, dessa forma, obter mais lucros comercializando produtos com valor agregado.

Para o ano 200, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, é esperada uma importação de 43 mil toneladas (ou 74 mil toneladas equivalentes em peso vivo) que deverá movimentar 100 milhões de dólares.