A Dança dos números da Piscicultura Paranaense

Por:
Antonio Ostrensky – Grupo Integrado de Aqüicultura e
Estudos Ambientais – UFPR. E-mail [email protected]
Luis de Souza Viana – Emater-PR.
e-mail: [email protected]


Assim como faz há quase dez anos, sempre com grande esforço e competência, a EMATER-PR finalizou recentemente o levantamento estatístico anual dos dados sobre a produção e comercialização de peixes cultivados no Estado do Paraná para a safra 2003-2004.

Esse é um trabalho digno de aplausos, não só porque poucos estados do país conseguem fazer algo semelhante, mas, principalmente, porque é difícil conceber a idéia de que os governos tentem implantar programas minimamente eficientes, voltados para o desenvolvimento de uma determinada cadeia produtiva, se não possuírem as informações setoriais mais elementares a respeito da atividade básica sobre a qual essa cadeia está centrada, no caso, peixes cultivados.

Como já havíamos feito com os dados levantados pela EMATER-PR em relação à safra 2001-2002 – textos publicados na revista Panorama da AQÜICULTURA (edições 71 e 72), utilizaremos os dados atuais para uma avaliação mais cuidadosa sobre a piscicultura paranaense.
No artigo publicado em julho de 2002 (edição 71), após analisarmos o painel geral da safra paranaense daquele ano, concluímos que o produtor local lucrava, em média, cerca de R$ 406,00/ano com a produção de peixes cultivados, ou o equivalente a R$ 1,13/dia.

Utilizando a mesma metodologia para avaliar os dados gerados agora pela EMATER-PR, podemos concluir que a situação mudou positivamente desde então. Os cálculos, apesar de simplistas, são ilustrativos dessa nova realidade: o Paraná tem, de acordo com os dados da EMATER-PR, 22.930 piscicultores, que produziram 16.597 toneladas, na safra 2003-2004 (Tabela 1). O preço médio de venda de tilápias na Região Metropolitana de Curitiba ficou, nesta safra, por volta de R$2,50/kg. Considerando esse valor, os produtores geraram uma receita total de cerca de R$57.325.000,00, ou o equivalente a exatos R$2.500,00/produtor/ano.

Tabela 1 - Evolução da produção da piscicultura no Estado do Paraná (toneladas)---Fonte: EMATER-PR, 2004
Tabela 1 – Evolução da produção da piscicultura no Estado do Paraná (toneladas)—Fonte: EMATER-PR, 2004

O grande problema, tanto em 2002 como hoje, é saber o quanto o produtor efetivamente lucra com a atividade. Como o sistema de produção de peixes no estado envolve quase sempre o uso de ração comercial, o custo de produção costuma oscilar, segundo os cálculos mais otimistas, entre R$ 1,60-2,10. Assim, considerando uma margem média de lucro de 40% (talvez já bastante exagerada em relação à realidade do estado), cada produtor estaria ganhando, em média, R$1.000,00/ano com a atividade, ou R$83,33/mês, ou R$2,78/dia.

Apesar dos números mostrarem que em apenas dois anos, a renda dos piscicultores teve aumento real de quase 80% (já descontada a inflação acumulada no período que, segundo o IGP-M, foi de 36,5%), esse valor já indica que a imensa maioria dos piscicultores paranaenses não tem na piscicultura a sua única ou mesmo a principal fonte de renda. Para uma grande massa de produtores, a piscicultura é apenas mais uma das muitas atividades desenvolvidas na propriedade.

Números da Safra 2003-2004

Contudo, sempre que se está diante de dados estatísticos, deve-se tentar enxergar não só o que os números mostram, mas, principalmente, aquilo que eles teimam em esconder.

No caso da safra 2003-2004, várias informações chamam a atenção. Dentre elas, algumas mais evidentes, como o fato da tilápia, depois de ter andado meio em baixa nos anos de 1999 e 2000, estar se consolidando cada vez mais, como o principal peixe da piscicultura paranaense. Nesta última safra, a tilápia representou 74% das 16.597 toneladas de peixes produzidas. Os outros 26 % foram de carpas, bagres e outras espécies menos cotadas (Gráfico 1).

Gráfico 1 - Participação das espécies na produção de peixes no Estado do Paraná (%)---Fonte: EMATER-PR, 2004
Gráfico 1 – Participação das espécies na produção de peixes no Estado do Paraná (%)—Fonte: EMATER-PR, 2004

Além disso, outras informações devem ser analisadas mais cuidadosamente:
– Nas seis últimas safras, a produção do Paraná bate o ponto na casa das 16-18 mil toneladas. Na verdade, a produção desta última safra foi praticamente a mesma da safra de 1998 (Tabela 2);

Tabela 2 - Evolução da área de cultivo (ha) e produção de peixes (t), no Estado do Paraná---Fonte: EMATER-PR, 2004
Tabela 2 – Evolução da área de cultivo (ha) e produção de peixes (t), no Estado do Paraná—Fonte: EMATER-PR, 2004

– Em relação à área cultivada, a safra 2003-2004 assemelha-se àquela de 1997, pouco mais de 7.751 ha de área alagada para a produção de peixes cultivados;

– Na safra de 1998, a produtividade média era de 2.026 kg/ha/ano. Em 2003/2004 chegou a 2.141 kg/ha/ano (Gráfico 2). Ou seja, um aumento de apenas 6% em 6 anos. Considerando a tilápia como exemplo, 2.026 kg/ha significam 4.052 peixes de 500 g por hectare, ou 0,4 peixes/m2. Tecnicamente, é muito pouco… É índice zootécnico de regime extensivo sendo obtido com os custos de um regime semi-intensivo de produção. Traduzindo: é esforço demais, para resultado de menos.


Dos pesqueiros para a indústria de processamento

Mas é em relação ao destino da produção que vem o dado mais intrigante. Obviamente, o lucro (ou o prejuízo) do produtor vem da venda de seu produto. Até aí nenhuma novidade. O fato que suscita uma maior reflexão é que, como já era absolutamente previsto, a comercialização de peixes para os pesque-pague (conhecidos como pesqueiros em algumas regiões) vem caindo, quase que linearmente, ano a ano. Em 2000, 67% dos peixes produzidos no Paraná foram destinados ao abastecimento dos pescadores de final de semana. Em 2003, essa taxa havia caído para 50%. E quem passou a comprar os peixes? A indústria, cuja contribuição subiu de 19%, em 2000, para 36% do mercado regional em 2003. Ou seja, os 17% da safra que deixaram de ser vendidos para os pesque-pague passaram a ser comprados pela indústria nesse período (Gráfico 3).
O que deveria ser motivo de alegria, pois a indústria tem, sabidamente, a capacidade de gerar uma demanda maior, mais estável e mais organizada para garantir a sua matéria-prima (que é o peixe), é também motivo de grande preocupação.

Todos sabem que no pesque-pague o peixe é destinado primariamente ao lazer. Ninguém vai a um pesqueiro comprar o peixe para preparar no jantar, mas sim para se divertir. O peixe acaba sendo só a isca para atrair o consumidor ao pesqueiro e fazê-lo gastar com vara de pescar, cerveja e salgadinho. A presença do peixe na mesa de jantar é, na maioria das vezes, um mero efeito colateral da diversão. A indústria de beneficiamento, por sua vez, só terá sucesso financeiro se o consumidor realmente sentir vontade de consumir peixe (e não vara de pescar ou salgadinho).

Os parâmetros de competição e de comparação em cada um desses setores são bem diferentes. Com relação ao lazer, é mais difícil se estabelecer o quanto as pessoas acham justo ou se dispõem a gastar por algumas horas de diversão junto à família ou aos amigos, no final de semana. Por outro lado, é só entrar em qualquer supermercado, e o consumidor pode comparar se o peixe vindo da pesca é mais caro ou mais barato que a tilápia produzida no pesqueiro. Ou, o que é pior, o quanto o quilo da tilápia é mais caro que o quilo do peito de frango. A tendência é que o pesque-pague consiga sempre remunerar melhor o produtor de peixes, do que a indústria processadora. Pelo menos até agora sempre foi assim.

O que preocupa, portanto, não é o fato de que em quatro anos a indústria processadora tenha abocanhado 17% do mercado que era dos pesqueiros, mas sim o fato de que isso aconteceu sem que tenha havido qualquer aumento significativo de produção ou de produtividade nesse período. Na prática, sob o ponto de vista do produtor, o mercado substituiu um comprador que paga mais e que é relativamente menos exigente com relação à qualidade do seu produto, por outro que, além de mais exigente, não o remunera da mesma forma. Não se produziu mais peixe para atender a demanda dessa indústria. Pelo contrário, os números podem estar indicando que foi a indústria que se aproveitou da queda da demanda dos pesqueiros.

O Modelo Paranaense

O caso do Paraná é emblemático. Ao envolver cerca de 23.000 produtores, a maioria pequenos e micro produtores, a piscicultura ressalta seu papel social, cuja importância talvez seja até maior que a econômica. No entanto, sem capacitação técnica, sem organização e sem orientação adequada, esses produtores, que são a base da cadeia produtiva da piscicultura, não terão condições de se manter nesse novo cenário que começa a ser delineado. Sem oferta regular de matéria prima de qualidade, a indústria quebra. Ou seja, o problema é que o modelo que aí está (se é que há algum), é um modelo nada sustentável de desenvolvimento de uma cadeia produtiva.

Além disso, há uma questão macroeconômica que não pode ser negligenciada: em que se diferenciam os investimentos na área de piscicultura que dão resultados reais e os que apenas destroem, lenta e continuamente, o capital investido? Seguramente a resposta está, em maior ou menor grau, vinculada à capacidade do empreendedor. O mercado de peixes já permitiu, mas dá sinais de que não permitirá mais, erros ingênuos, feitos por intuição ou calcados na simples vontade de dar certo. O grande empreendedor, independentemente do tamanho do seu capital ou do seu patrimônio, é aquele que possui uma visão estratégica do seu negócio, não se limitando a satisfazer somente suas expectativas pessoais, mas que consegue entender que está inserido num ambiente dinâmico, volátil e altamente dependente de sua capacidade de se relacionar com os diversos segmentos que compõe a sua atividade.

É importante que o empreendedor, seja ele do setor produtivo ou da indústria de transformação do pescado, entenda que a profissionalização nos processos de gestão e operação é a chave para o sucesso do seu empreendimento.

Mas como o pequeno piscicultor pode sozinho modificar essa sua realidade? Infelizmente, não pode. Há necessidade de que o poder público compreenda a real dimensão social da piscicultura no país e faça sua parte, o que, via de regra, simplesmente não vem sendo feito. É evidente que os problemas da piscicultura não se limitam ao setor produtivo. Por exemplo, um levantamento da Associação de Comércio Exterior do Brasil (ACEB) aponta que as despesas com transporte, armazenagem e distribuição representam até 35% do preço final dos produtos destinados à exportação. É mais que o triplo do peso da logística para as empresas de países desenvolvidos. Lá fora, o impacto dos custos logísticos no valor final da mercadoria varia de 10% a 12%. Tamanha diferença acaba reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros. Com o setor aqüícola brasileiro não é diferente. Com um setor produtivo enfraquecido, um setor de transformação limitado pela falta de matéria prima e sem competitividade para brigar pela conquista de novos mercados, a cadeia produtiva da piscicultura paranaense e brasileira tende a continuar patinando em um patamar muitíssimo inferior ao seu tão propalado potencial de desenvolvimento.

Se o poder público nacional pretende fazer algo mais concreto do que apenas repetir indefinidamente e à exaustão a já desgastada ladainha de que o país tem 12% das reservas de água doce do planeta, um imenso potencial para o desenvolvimento da piscicultura, etc… essa é a hora de parar com a falácia e partir para a ação! Os números mostram claramente que o sinal amarelo está aceso.

Ah! E com relação ao aumento real de 80% na receita média dos produtores paranaenses, que chegou a R$ 2,78 ao dia na safra 2003-2004, é importante dizer que a Organização das Nações Unidas considera que está abaixo da linha da pobreza todo o cidadão que vive com menos de um dólar por dia. Estamos quase conseguindo chegar lá! Como os R$ 2,78/dia equivalem hoje a mais ou menos US$ 0,91, falta muito pouco para os produtores de peixes do Paraná atingirem a linha da pobreza. Ainda bem que os piscicultores paranaenses não dependem da venda de peixes para viver…