A Doença do Caranguejo Letárgico

Pesquisas demonstram que a mortandade de caranguejos que assola o litoral brasileiro não é causada por vírus relacionado ao vannamei


Como tem sido amplamente noticiado na imprensa, a Doença do Caranguejo Letárgico, também conhecida como DCL, vem promovendo extensas mortandades nas populações de caranguejo-uçá na costa nordeste do país, em especial entre os estados da Paraíba e Bahia.

A DCL encontra-se em expansão, especialmente no sentido norte sul, tendo atingido no verão de 2004-2005 as populações desta espécie de caranguejo no sul da Bahia e este ano (verão de 2005-2006) chegou ao Estado do Espírito Santo. A presença desta enfermidade nos manguezais de São Mateus (ES) foi confirmada recentemente pelo Laboratório de Ecologia Molecular e Parasitologia Evolutiva (LEMPE), do Grupo Integrado de Aqüicultura e Estudos Ambientais, da Universidade Federal do Paraná (GIA-UFPR).

Injeção do filtrado de tecido de animais enfermos com a DCL em caranguejos saudáveis durante o experimento de prospecção de eventuais vírus patogênicos
Injeção do filtrado de tecido de animais enfermos com a DCL em caranguejos saudáveis durante o experimento de prospecção de eventuais vírus patogênicos

Tal padrão de expansão, associado a outras características da doença, indica que esta seja uma enfermidade infecto-contagiosa. Isto tem levado diferentes grupos a sugerir agentes infecciosos distintos para a DCL. A equipe do LEMPE tem apresentado evidências robustas de que um fungo dematiáceo, do grupo das leveduras negras, é de fato o agente causador da enfermidade. Estas conclusões são baseadas em análises histológicas, microscopia óptica e eletrônica, morfológicas, de seqüências de DNA, cultivo e experimentos realizados e outros que ainda estão em andamento. A primeira publicação sobre o assunto (Boeger et al., 2005) está disponível online, na revista científica Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (http://www.scielo.br).

No ano de 2004, entretanto, uma equipe da Universidade de São Paulo – USP apresentou a hipótese de que a DCL estaria associada a enfermidades que assolam camarões de cultivo, especialmente vírus de Litopenaeus vannamei. Esta idéia foi primeiramente veiculada no II Simpósio Brasileiro de Oceanografia (ver box) e depois continuamente difundida, através de palestras, por todo o país.

Apesar desta hipótese do grupo da USP ser baseada apenas em evidências circunstanciais, a idéia não poderia ser descartada sem a realização de análises laboratoriais mais apuradas. Infecções por leveduras em crustáceos e outros organismos são comumente encontradas em conjunto com infecções de origem viral.

A seguir a tradução do resumo do trabalho realizado pela equipe de pesquisadores tendo a frente a Dra Yara Schaeffer-Novelli, professora da USP. O trabalho foi apresentado no II Simpósio Brasileiro de Oceanografia, realizado em São Paulo, no ano de 2004.
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A mortandade de caranguejo-do-mangue no Nordeste do Brasil: Evidências circunstanciais para uma epizootia com origem relacionada à produção de camarão peneídeo marinho

Por: Schaeffer-Novelli, Y.1
Cintrón-Molero, G.2
Coelho-Jr, C.3
Almeida, R.4
Menghini, R.P.51BIOMA Associate Professor, University of São Paulo, Brazil; [email protected], 2US Fish and Wildlife Service, Department of the Interior, USA; BIOMA Associate; 3BIOMA Graduate Student (FAPESP PhD fellowship); 4.BIOMA Graduate Student (CAPES MSc fellowship). 5.Nas últimas décadas vêm ocorrendo um aumento nos relatos sobre doenças que afetam ecologicamente e economicamente importantes organismos marinhos, que resultaram em dramáticas alterações nas estruturas dos estoques das comunidades selvagens. A extrema simplificação de sistemas naturais também provoca a deflagração de mortalidades por doenças. A aqüicultura em geral, e a carcinicultura marinha em particular, são exemplos clássicos onde a simplificação extrema de um sistema natural complexo na direção do monocultivo, levou a grandes problemas de doenças infecciosas. No Brasil, a rápida propagação de uma mortalidade em massa de origem desconhecida que iniciou em 1997, afetando populações selvagens do caranguejo do mangue (Ucides cordatus L. 1763). Mortandades em massa foram registradas desde o sul do Estado da Bahia até o Piauí e esses eventos são acompanhados de drásticas mortalidades e o colapso das populações em alguns locais. Em geral, a quantidade limitada de informações disponíveis, desafia bastante a nossa habilidade de distinguir se estes eventos são manifestações de uma nova enfermidade, um aumento da virulência de uma doença predominante, se representa uma alteração de hospedeiro de um patógeno já conhecido (como resultado do aumento dos transportes de animais em todo o mundo e inclusive de seus patógenos), ou se não estão associados a causas biológicas, como a degradação de habitats ou o estresse induzido por agentes poluentes.

Existem algumas similaridades entre o caranguejo do mangue e os camarões peneídeos em termos de relacionamentos filogenéticos, habitats, fisiologia e históricos de padrões de vida. Embora os catadores de caranguejos do mangue saibam que as populações de caranguejo variam ciclicamente, os colapsos catastróficos e a diminuição local das populações, não eram relatadas antes de 1997.

Realizamos uma comparação simples entre os principais sintomas registrados por várias fontes para as dez principais doenças em camarões cultivados, incluindo HPV, IHHNV, MBV, BPVS, WSSV, TSV, NHP, NIM, Black Death e Vibriosis, e os sinais macroscópicos proeminentes apresentados pelos caranguejos infestados mortos e moribundos, ao longo da costa do Nordeste do Brasil (incluindo os danos no sistema digestório, hepatopâncreas, outros órgãos internos, anorexia, comportamento letárgico, e alteração de cor da carapaça). Consideramos que as coincidências entre estas doenças dos camarões e os principais sinais visuais manifestados pelo caranguejo do mangue, insinuam que um agente biológico infeccioso é o agente causador da deflagração de mortandades massivas, e que não são ocorrências isoladas ou respostas locais ao uso de substâncias agro-químicas ou de sobreexplotação desses recursos naturais.

As autoridades competentes devem explorar a possibilidade de um caminho da doença partindo do camarão de fazenda para o caranguejo. O monitoramento acessível das populações selvagens de caranguejo do mangue e de camarões cultivados deve ser iniciado com uma base de rotina para a identificação de potenciais reservatórios naturais e de caminhos das doenças.

 

Apesar da equipe do LEMPE não ter detectado NENHUMA evidência de infecção de origem viral em análises histopatológicas (microscopia óptica e eletrônica) e em experimentos preliminares, foram realizadas análises visando responder a duas perguntas:

1) Existe alguma evidência de que a DCL seja causada primariamente por um vírus, sendo, neste caso, a levedura apenas uma infecção secundária?

2) Existe alguma espécie de vírus que afeta o Litopenaeus vannamei presente nos tecidos dos caranguejos enfermos?

Para responder a essas perguntas, amostras de caranguejos enfermos foram encaminhadas para análise de prospecção de vírus em geral, através de aplicação de filtrado de tecido de animal doente em um cultivo de células (em colaboração com a equipe do Laboratório Marcos Enrietti, da Secretaria de Agricultura do Estado do Paraná), e de vírus patogênicos conhecidos para L. vannamei, através do uso de diagnóstico molecular (análises realizadas pela equipe do Dr. Donald Lightner, da Univesidade do Arizona, nos Estados Unidos).

Micrografia em microscópio de varredura de uma colonia de fungo negro isolada da hemolinfa de animais enfermos pela DCL
Micrografia em microscópio de varredura de uma colonia de fungo negro isolada da hemolinfa de animais enfermos pela DCL

Complementarmente, um experimento de infecção experimental em laboratório foi realizado através da injeção de filtrado de tecido de caranguejo-uçá enfermo pela DCL em animais saudáveis, capturados em região distante da área de ocorrência da doença. Vírus são organismos muito pequenos, muito menores do que os outros tipos de agentes patogênicos. Assim, filtrando o tecido homogeneizado de animais enfermos em filtros de abertura muito reduzida (ex. 22 micrômetros) remove-se todas as particulas grandes, deixando apenas partículas muito pequenas, dentre elas as partículas de vírus. Se existissem vírus patogênicos neste homogeneizado, a injeção deste filtrado em caranguejos saudáveis deveria resultar na sua morte, antecedida pelos sintomas clássicos da DCL. Este experimento foi realizado utilizando-se 10 animais, nos quais foi injetado este filtrado e 10 animais controle, nos quais apenas solução salina foi injetada.

Os resultados de todas estas análises e do experimento rejeitam a hipótese de que exista algum vírus, conhecido ou desconhecido, promovendo o aparecimento da DCL. Não houve resultado positivo para vírus nem nos testes de infecção de células vivas em cultura (vírus em geral), nem nas diagnoses moleculares (vírus conhecidos de L. vannamei). O experimento com caranguejos vivos também não foi capaz de demonstrar que animais nos quais foi injetado o filtrado de animais doentes tenham morrido em uma taxa maior do que aquela observada nos animais controle.

Microfotografia de corte histológico do tecido cardíaco de um caranguejo enfermo pela DCL. O fungo da DCL pode estar na forma de células leveduriformes ou de hifas, como nesta fotografia
Microfotografia de corte histológico do tecido cardíaco de um caranguejo enfermo pela DCL. O fungo da DCL pode estar na forma de células leveduriformes ou de hifas, como nesta fotografia

Assim, vai por água abaixo a teoria que associa enfermidades virais, não só de L. vannamei, como também de qualquer outra origem, com a DCL. Por outro lado, experimentos ainda em andamento continuam a dar suporte às evidências de que a DCL seja uma doença causada por fungos.
A origem deste fungo no meio ambiente está sendo analisada através de uma grande prospecção de espécies animais, vegetais e amostras de solos, que vem sendo realizada nos estuários do Estado de Sergipe. As análises incluem também camarões L. vannamei coletados diretamente de viveiros de cultivo de fazendas sergipanas. Este trabalho, financiado pelo Governo de Sergipe, e as coletas, foram realizadas em parceria com o Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Nordeste – CEPENE d(IBAMA).

Ao final dos experimentos de infecção experimental e deste estudo epidemiológico será possível compreender melhor como esta espécie de levedura negra afeta os caranguejos e onde esse fungo está presente na natureza.

Para quem deseja mais informações é só acessar a página do GIA (http://gia.bio.ufpr.br).