A Era do Penaeus vannamei

Camarão marinho expande suas fronteiras de sul a norte do Brasil e mostra grande potencial para ser cultivado até em água doce.

A indústria do cultivo de camarões marinhos no Brasil, duas décadas depois da implantação das primeiras fazendas, fechará o ano de 1998 despescando 7.260 toneladas (tabela 1), oriundas de 4.320 hectares de viveiros (1.680 kg/ha/ano). Sem dúvida, a produção experimentou um crescimento expressivo (98,9%), já que no ano passado foram produzidas 3.650 toneladas numa área alagada de 3.540 ha (1.031 kg/ha/ano).

O destaque ficou por conta do manejo para o aumento da produtividade, que parece ter sido a principal preocupação dos produtores, que esse ano sofreram sérias baixas em decorrência do Vírus da Síndrome de Taura (VST), um problema que afeta grande parte dos cultivos de Penaeus vannamei ao redor do mundo e com o qual os produtores estão aprendendo a conviver.

Para dar um suporte a essa indústria, atualmente estão em funcionamento 16 laboratórios produtores de pós-larvas (Pls), que juntos reúnem uma capacidade instalada capaz de produzir anualmente 3 bilhões 820 milhões de Pls. Neste ano, para atender a atual demanda, essas empresas produziram 1 bilhão e 560 milhões de Pls, num mercado onde a oferta abundante já determinou a queda nos preços desse insumo. No início do ano, cada mil Pls custava ao produtor R$ 7,00 e, atualmente, já podem ser adquiridas a preços que oscilam entre R$ 4,00 e R$ 5,00.

As previsões da ABCC – Associação Brasileira dos Criadores de Camarão, segundo seu presidente Roberto Carlos Barbieri, é que no próximo ano sejam despescadas cerca de 13.700 ton. de camarões, oriundos de uma área de aproximadamente 6.700 hectares.

Segundo alguns produtores, o aumento de 63 % na média da produtividade também pode ser atribuído a uma considerável melhoria na qualidade dos alimentos disponíveis. Entretanto, a queixa é geral quando se discute os preços das rações, hoje ao redor de R$ 0,90/kg (ou US$ 0.75), bastante superior aos preços pagos por produtores de outros países latino americanos produtores de camarões (US$ 0,55 – 0,65/kg).

Vannamei

A dinâmica do crescimento da indústria do cultivo de camarões no Brasil traz ainda, segundo Barbieri, mudanças no perfil dos produtores. A partir da introdução da espécie exótica Penaeus vannamei, o setor viu aumentar a participação dos micros e pequenos produtores dentro das estatísticas, representando hoje 23 % da superfície produtiva do país, mostrando outra face da atividade, até então vista como elitista e predadora. Uma boa amostra do que pode ser feito por esse pequenos produtores pode ser vista na região ao redor da Lagoa de Guaraira no Rio Grande do Norte, a 60 km ao sul de Natal. Lá, viveiros rústicos anteriormente utilizados para represar as marés e cultivar peixes, passaram a ser povoados com o P. vannamei trazendo prosperidade a quase uma centena de produtores, hoje reunidos em uma cooperativa.

O Brasil inteiro

As mudanças na face da indústria com a introdução do P. vannamei no entanto não param por aí, e estão fazendo com que um importante estigma que sempre acompanhou a criação de camarões marinhos no Brasil esteja se modificando. Até então, ouvia-se que somente as Região Nordeste e Norte reuniam condições para o desenvolvimento da carcinicultura marinha e afirmações dessa natureza atraíram para lá a maioria dos atuais investidores. Hoje entretanto, experimentos já realizados no Estado do Rio de Janeiro, Paraná, São Paulo e Santa Catarina, mostram que não existem mais limites para o cultivo do P. vannamei que pode até ser cultivado em viveiros de águas doces.

Não restam dúvidas que as Regiões Nordeste e Norte concentram as melhores condições ambientais para o pleno desenvolvimento da atividade, permitindo aos produtores, em alguns casos, obter até 3,2 safras anuais de camarões com peso médio de 12 gramas. Nos estados do Sudeste e Sul, entretanto, as duas safras anuais possíveis de serem obtidas, são mais do que suficientes para viabilizar um cultivo, que pode ainda ser direcionado para a obtenção de camarões com peso médio ao redor de 18 gramas. Além disso, a produção próxima dos principais centros consumidores de camarões traz ainda as vantagens da sensível diminuição dos custos de frete, hoje representando 15 a 17% dos preços dos camarões produzidos na Região Nordeste.

México

Lições de como o P. vannamei pode impulsionar uma indústria, podem ser aprendidas com os produtores mexicanos, que hoje já contam com uma área alagada de 20.000 ha de viveiros. Os principais cultivos mexicanos concentram-se nos estados de Sinaloa e Sonora, localizados na Região Noroeste do País, próximos da fronteira com os EUA, portanto uma região já temperada onde as temperaturas ao longo do ano variam de 14 a 30 oC.

Lá as temperaturas começam a cair a partir de outubro, chegando a 14 oC em meados de janeiro. No início de fevereiro, quando a temperatura atinge novamente os 20 oC, os viveiros são povoados para o ciclo primavera-verão mexicano, que vai de fevereiro até junho, quando são despescados camarões após 140 dias de cultivo, pesando em média 18,4 gramas.

O segundo ciclo anual, verão-inverno, tem seu povoamento em julho, quando as temperaturas estão ao redor dos 30 oC. Este ciclo se encerra no início de dezembro, com águas que podem estar ao redor de 18 oC, com despescas após 140 dias de engorda e peso médio de 18 gramas.

Atualmente, 80 % dos viveiros mexicanos se encaixam nesse perfil e, a performance obtida pelos produtores mexicanos nessas condições, muito parecidas com as encontradas no litoral sudeste-sul brasileiro, lhes assegura um bom retorno de seus investimentos.

Em outubro último, no II Simpósium Internacional de Acuacultura realizado na cidade sinaloense de Mazatlan, foram discutidos os problemas que afetam a carcinicultura marinha mexicana. Em nenhuma ocasião o clima foi tratado como problema, restando apenas aqueles que se assemelham aos enfrentados pelos produtores brasileiros. Lá, os altos custos com o transporte terrestre para o translado do produto ao mercado consumidor, as tarifas energéticas e os impostos que incidem sobre a mão de obra, barram um crescimento ainda maior da atividade e impedem que o produto mexicano possa concorrer em iguais condições no mercado norte-americano com o produzido em outros países onde existe um apoio decisivo para este setor.

Os produtores mexicanos não perderam a oportunidade para solicitar aos governos estaduais e federal um tratamento igual ao oferecido aos setores que recebem tratamento prioritário como a agricultura sinaloense e o petróleo no Golfo do México.

Água Doce

Alimentação com bandejas, manejos adequados às variações climáticas, a nutrição, biotecnologia e doenças foram temas de destaque no II Simpósium Internacional de Acuacultura, patrocinado pela empresa mexicana Terramar. Entretanto, o cultivo de P. vannamei em água doce apresentado pelo biólogo Miguel Avila Tamayo despertou grande interesse, já que a possibilidade do uso das águas continentais multiplica o potencial de cultivo dessa espécie até limites inimagináveis.

Tamayo, em junho de 1996, produziu na Aquagranjas, um laboratório de sua propriedade situado no estado de Colima, montado para a produção de Macrobrachium rosenbergii, os primeiros lotes de P. vannamei, lá mesmo aclimatados a água doce. Como nesse estado não existem viveiros de águas salgadas, Tamayo povoou os viveiros de três fazendas dedicadas ao camarão de água doce, uma delas situada a 400 metros de altitude. Em menos de 120 dias, as três fazendas obtiveram rendimentos de 1260-1500 kg/ha.

Atualmente, o manejo é feito com o povoamento de 12 a 24 pós-larvas por m2 e os resultados de despesca podem ser vistos na tabela 2.

Segundo Miguel Tamayo, a tolerância e adaptabilidade do P. vannamei a amplos parâmetros da água é bastante conhecida e reportada em inúmeras publicações, com o parâmetro salinidade variando de 5 a 60 ppm. Para o êxito das engordas desse camarão em água doce, é indispensável que o metabolismo da pós-larva seja totalmente adaptado a água doce e não somente aclimatada antes do povoamento, processos bastante diferentes. A larvicultura, segundo Tamayo, é realizada de maneira tradicional até o estágio pós-larva 4, etapa na qual se inicia a adaptação à água doce por um mínimo de 15-18 dias.

Após dois anos de povoamentos e despesca, não foi detectado populações com sintomas da Síndrome de Taura bem como é quase nula a presença de necroses.

Segundo o biólogo Miguel Tamayo, as mortalidades que ocorrem estão sempre associadas a causas operacionais e a aparência, textura e sabor dos camarões despescados são excelentes, alcançando sempre bons preços.

Futuro

O cultivo de P. vannamei em água doce está se espalhando por diversos países da América Central mas poucos resultados foram publicados, como os apresentados acima. Sabe-se entretanto que a dureza da água é determinante no sucesso dos empreendimentos. Os cultivos no estado de Colima no México utilizam água com dureza ao redor de 300 mg/l e “fala-se” que a dureza mínima para o sucesso de um cultivo seja 60 mg/l.

Como vemos, as informações são poucas e pouco fundamentadas. Os testes no campo, feitos aqui e acolá, poderão trazer mais informações e estímulo para a implantação desse tipo de cultivo no Brasil. A própria EPAGRI, no Estado de Santa Catarina, promete ainda para este ano testes dessa natureza na sua estação experimental no Balneário Camboriú.