A Larvicultura e a Alevinagem do Pintado e do Cachara

Por: Luís Antônio Kioshi Aoki Inoue1
e-mail: [email protected]
Paulo Sergio Ceccarelli2
e-mail: [email protected]
José Augusto Senhorini2
e-mail: [email protected]

1 Universidade Federal de São Carlos
Programa de Pós-Graduação 2
Centro de Pesquisa e Gestão de
Recursos Pesqueiros Continentais (Cepta/Ibama)


A produção de peixes como atividade comercial vem se expandindo ano a ano no Brasil, paralelamente ao crescente desenvolvimento e conseqüente melhoria das técnicas de piscicultura, em particular as práticas relacionadas com a produção de ovos, larvas e alevinos.

Neste cenário, os peixes siluriformes (bagres) têm despertado muito interesse, com destaque para o pintado Pseudoplatystoma corruscans e a cachara Pseudoplatystoma fasciatum, por apresentarem um dos melhores potenciais para a exploração comercial, com destaque para o sabor da sua carne desprovida de espinhos, que os colocam na lista dos melhores peixes comestíveis do mundo. Além disso, são, entre os peixes nativos, aqueles com o maior número de apreciadores nas regiões onde são encontrados, mesmo apresentando alto valor comercial no mercado.

O pintado e a cachara são piscívoros por excelência no ambiente natural, alimentando-se de uma grande diversidade de peixes de menor porte. Em cativeiro, têm demonstrado crescimento satisfatório em sistemas de criação onde são alimentados com ração contendo alto teor de proteína de origem animal.

A produção comercial dessas espécies vem crescendo cada vez mais no país, apesar de existirem vários aspectos relacionados à criação desses peixes que requerem cuidados, principalmente nas fases iniciais, quando se deseja obter boas sobrevivências na transformação das larvas em juvenis prontos para serem utilizados na engorda.

Reprodução

O pintado e a cachara são conhecidos por serem grandes migradores no ambiente natural. Para a reprodução induzida, portanto, são adotados os mesmos procedimentos utilizados para os peixes reofilicos (que habitam águas correntes), utilizando os hormônios gonadotróficos e hipofisários. Segundo a literatura, o macho atinge a primeira maturação sexual no segundo e a fêmea no terceiro ano de vida. Quando cultivados, observamos machos atingindo a maturação inicial no primeiro ano e fêmeas no segundo ano de vida.

Os procedimentos iniciais para a propagação artificial consistem na seleção dos reprodutores nos viveiros de criação, observando, nas fêmeas, o volume abdominal, flacidez da região ventral e papila urogenital hiperemiada (bem irrigada de sangue), podendo ser realizada a canulação (foto 1), também uma das formas de certificar se é fêmea, pois às vezes os peixes estão muito gordos e o macho não libera esperma.

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Foto 1 – Canulação em uma fêmea de pintado, P. coruscans

Nos machos é observada a fluidez do sêmen (foto 2) sob uma leve pressão abdominal.

Foto 2 - Macho liberando líquido espermático
Foto 2 – Macho liberando líquido espermático

O tratamento hormonal mais utilizado é aquele obtido com a aplicação intraperitonial de extrato hipofisário, com dosagens de 5,5 mg por quilo de fêmeas, divididos em duas doses, sendo 0,5 e 5,0 mg/kg, em intervalos de tempo que podem variar de 8 a 14 horas, dependendo da temperatura da água e período reprodutivo. A dose única para machos é de 1,0 a 2,0 mg/kg, simultaneamente aplicação da segunda dose das fêmeas. A desova ocorrerá entre 180 e 230 horas-grau e os ovos, de coloração amarelo claro, devem ser incubados em incubadoras de fluxo de água vertical, tipo húngaras, onde a eclosão ocorre por volta de 450 horas-grau.

A fase de indução à reprodução dos pintados e cacharas não apresenta grandes dificuldades. Geralmente as porcentagens de sucesso na obtenção dos produtos sexuais é bastante satisfatória, alcançado índices de acerto ao redor de 90%. A produção de óvulos de pintado e cachara, é ao redor de 10% do peso bruto da fêmea. Uma fêmea pesando 5 quilos tem em média 500 gramas de óvulos, sendo que cada grama possui em média 2.200 óvulos, conseqüentemente esta fêmea produzirá cerca de um milhão e cem mil óvulos.

Foto 3 - Extrusão de óvulos de uma fêmea pesando 15 kg (produziu 2,3 kg de óvulos)
Foto 3 – Extrusão de óvulos de uma fêmea pesando 15 kg (produziu 2,3 kg de óvulos)

Quando toda a seqüência, desde a criação dos reprodutores, seleção dos reprodutores, dosagem hormonal e extrusão, é realizada de maneira correta, obtém-se uma sobrevivência média de ovos a larvas de 85 a 95%.

Larvicultura

Na fase larval do pintado e da cachara são encontradas as principais limitantes tecnológicas para a criação desses peixes. Ao contrário de muitas espécies nativas como o pacu, tambaqui e matrinxã, onde as larvas, após quatro a cinco dias de idade, são colocadas em viveiros até se tornarem alevinos prontos para a engorda, as larvas do pintado e da cachara necessitam ser criadas em laboratório e tanques tipo raceway até que se tornem alevinos, já que os melhores resultados em viveiros de engorda estão sendo obtidos quando são estocados peixes entre 12 e 20 cm de comprimento total.

As larvas de pintado (foto 4) nascem com tamanho médio de 2,6 a 3,0 mm e após 2-3 dias de idade, e com tamanho de 4,5 mm, já iniciam a alimentação exógena (alimentos encontrados no ambiente). Nas primeiras semanas de larvicultura náuplios de Artemia salina são comumente empregados para alimentar as larvas, obtendo-se resultados bastante satisfatórios. A seguir descrevemos as metodologias usuais de larvicultura que têm alcançado relativos sucessos.

Foto 4 - Larva de pintado
Foto 4 – Larva de pintado
Sistema 1

As larvas, após dois dias de idade, são transferidas para caixas circulares ou retangulares de fibra de vidro com aeração e renovação de água constantes (fotos 5 e 6), numa densidade média de 15 larvas por litro, sendo alimentadas de sete a dez vezes ao dia com náuplios de Artemia salina, na quantidade de 500 náuplios para cada larva.

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Fotos 5 e 6 – Recipientes tipo calhas ou circulares ou construídos em fibra de vidro utilizados para a criação de larvas de pintado e cachara


Após oito a dez dias de criação é iniciada a alimentação com o plâncton (cladóceros e copépodos) coletado em viveiros especialmente preparados. O oferecimento alternado da artêmia e do plâncton é feito de forma que a artêmia seja totalmente substituída pelo plâncton. Esta fase de criação dura de quinze a vinte dias, quando atingem o tamanho total médio de 2,5 a 3,0 cm, com índices de sobrevivência de 50 a 80%. Após essa fase, deve ser diminuída a densidade de estocagem para 3-4 peixes com tamanho médio de 2,5 a 3,0 cm por litro, momento em que já pode ser iniciado o treino com alimento inerte (ração).

Nesta segunda fase de criação, a aceitação pelos alevinos do alimento artificial completo é a principal meta na criação dessas espécies. Uma das principais estratégias utilizadas no início do treinamento alimentar dos peixes é a inclusão de ingredientes extremamente atrativos na dieta. Os alevinos, nesta fase, recebem de oito a doze alimentações diárias à base de plâncton e alimento artificial úmido, constituído de uma ração para larvas com alto teor de proteína bruta (acima de 40%) associada a um atrativo, que pode ser gônadas de peixe, peixe finamente moído, sardinha, coração e bofe de boi e plâncton congelado.

Quadro 1. Sobrevivência média alcançada durante a criação de larvas e alevinos de pintado e cachara utilizando o sistema 1 (criação realizada totalmente dentro do laboratório).
Quadro 1. Sobrevivência média alcançada durante a criação de larvas e alevinos de pintado e cachara utilizando o sistema 1 (criação realizada totalmente dentro do laboratório).

Nos primeiros 10 dias dessa fase o manejo alimentar consiste em administrar junto com o plâncton a alimentação artificial na forma de pasta. A partir deste período, o plâncton é retirado gradativamente até que se alimentem somente com ração. Neste momento então, inicia-se novamente outro treino alimentar para substituir a ração em pasta por uma ração seca e extrusada. Nesta fase de criação continua sendo muito importante o manejo rotineiro para a retirada dos alevinos maiores, evitando-se o canibalismo. A sobrevivência média de juvenis prontos para serem comercializados é ao redor de 30 a 40%.

Sistema 2

Este sistema de criação de larvas exige menos cuidados e é comumente praticado por produtores com pequenas instalações de laboratório. Consiste na criação das larvas como descrito no Sistema 1, até o ponto em que atingem o tamanho de 2,5 a 3,0 cm. Em seguida, são colocadas em viveiros previamente preparados para a produção de plâncton onde, em conjunto com os alevinos são também estocadas larvas forrageiras de peixes de menor valor comercial, como piau, curimbatá, tambaqui e lambari. São estocadas dez larvas forrageiras para cada alevino de pintado ou cachara e, após 30 a 40 dias de criação, os viveiros são despescados, com sobrevivência em torno de 15 a 20%.

Os alevinos com tamanho médio de 12 a 15 cm são então levados e estocados novamente no laboratório (foto 7), em ambientes (caixas circulares ou receway) com aeração e renovação de água constante, numa densidade média de 1 alevino para cada 2-3 litros. Neste momento é iniciado o treinamento alimentar para que os peixes aceitem alimentação artificial (ração). Resultados bastante satisfatórios têm sido obtidos quando é utilizado como alimento, uma mistura de ração comercial com proteína bruta acima de 40% e sardinha moída. A mistura, 80% de ração e 20% de sardinha, é fornecida úmida para os peixes, oito a dez vezes por dia, em pequenas quantidades. Quando já estiverem aceitando este alimento, deve ser retirada gradativamente a sardinha, da mesma forma que também é diminuída a umidade da ração, até que se chegue a ração seca, sem adição de sardinha, coincidindo com o momento em que os peixes estarão prontos para comercialização. Nesta fase de treinamento alimentar é possível obter sobrevivências médias de até 80%.

Quadro 2. Sobrevivência média alcançada durante a criação de larvas e alevinos de pintado e cachara utilizando o sistema 2 de criação.
Quadro 2. Sobrevivência média alcançada durante a criação de larvas e alevinos de pintado e cachara utilizando o sistema 2 de criação.
Manejo do ambiente de criação

Apesar de parecer fácil, às vezes acontecem grandes perdas nesta fase de criação devido a descuidos, tanto na qualidade da água da criação, como na falta de um manejo sanitário adequado. Deve ser lembrado também que nem sempre é possível conseguir ração de boa qualidade para ser fornecida aos peixes, o que dificulta o processo do treinamento alimentar.

Para a prevenção de doenças, é muito importante que os ambientes de criação (caixas, receway, etc) sejam auto limpantes, ou seja, a própria água que entra se encarrega de levar os restos de alimento para fora do sistema (foto 6). Ainda assim, estes ambientes devem ser lavados diariamente, pois os alimentos acumulados e não utilizados pelos peixes entram em deteriorização, podendo causar focos de doenças. É muito importante, portanto, um rígido e contínuo controle da higiene e da profilaxia dos ambientes de criação se considerarmos que a prevenção é a melhor forma de garantir a saúde dos peixes.

Dentre os principais fatores que interferem na prevenção de doenças dos Pseudoplatystomas podemos considerar:

Densidade de estocagem: como estas espécies são criadas dentro do laboratório durante a larvicultura e alevinagem, é comum o produtor querer estocar grandes quantidades de larvas e/ou alevinos, para aproveitar espaço e diminuir os custos de construção do laboratório. As conseqüências são desastrosas, pois podem ocasionar acúmulos ou excesso de excrementos na água; aumento do consumo de oxigênio; agressividade e estresse, que ameaçam o delicado equilíbrio em que os peixes estão submetidos. Nessas condições, um pequeno desequilíbrio pode levar a morte todos os peixes em questão de horas. Os fatores mais comuns de desequilíbrio são: variação brusca de temperatura; o declínio do oxigênio; o corte repentino do abastecimento de água, mesmo que por pouco tempo; mudança na alimentação, etc…

Alimentação incorreta: são vários os problemas relacionados com a alimentação e, dentre eles, o excesso é o erro mais cometido pelos criadores, principalmente porque os restos de comida interferem na qualidade da água e, mais grave ainda, servem de meio de cultura para o desenvolvimento de patógenos.

É muito importante observar diariamente nos tanques de criação a quantidade de água que está entrando e se a mesma é suficiente. Da mesma forma deve ser observada a ocorrência de peixes mortos; anormalidades no comportamento dos peixes; peixes pouco reativos aos estímulos externos e, se há concentração de peixes na entrada de água.

Dentre os principais sinais de comportamento anormal facilmente observados nos pintados e cacharas podemos listar: letargia (insensibilidade), anorexia (falta de apetite), perda de equilíbrio (nado em espiral ou vertical), agrupamento na superfície, respiração agitada (maior batimento opercular), abdome inflado (algumas vezes cheios de líquido), erosão na pele e/ou nas nadadeiras, apatia (pouco reflexo a estímulos), boqueamento na superfície ou na entrada de água, peixes isolados de cardume e qualquer outra mudança de comportamento.

Aspectos Sanitários

As maiores ocorrências de mortalidades de pintados e cacharas provocadas, principalmente por enfermidades, têm sido verificadas durante o final do outono, quando há grandes oscilações diárias de temperatura na água e, no inverno, quando a temperatura está inferior aos 200C, chegando a alcançar até 120C. Esta faixa de temperatura favorece a proliferação de diversos parasitos, que, nessas condições, encontram maior susceptibilidade ao estabelecimento de infestações. Essa condição bioecológica é desfavorável aos peixes que não estão totalmente adaptados em ambientes de criações.

Entre as principais enfermidades que vêm ocorrendo em pintados e cacharas são destaque a ictiofitiríase, trichodiníase, mixoxporidiose, dactilogirose, argulose, columnariose e a bactéria Plesiomonas sigeloides.

Outro problema que vem ocorrendo com freqüência nas criações e causando prejuízos, é a grande incidência de peixes com má formação, como a escoliose e lordose. Essa má formação pode ser proveniente de diferentes causas como, por exemplo, a alta pressão na entrada de água nas incubadoras ou canaletas de contenção de larvas, problemas relacionados à consangüinidade decorrente do cruzamento de parentais, incidência de parasitos, principalmente os mixosporídeos, deficiência de vitamina C, triptofano e cálcio, sendo que, esse último pode ser agravado em águas com alcalinidade baixa (menor que 20 mg/l). Existem evidências de má formação óssea na fase inicial das larvas devido ao uso de antibióticos ainda na incubação e no alimento inicial das larvas. Mais estudos, entretanto, devem ser realizados nessa área, para uma melhor compreensão desse fato.

A incidência intensa de luz diretamente sobre os peixes deve ser evitada, pois pode provocar mortalidades. É importante a pigmentação na fase inicial da larva para prevenir a incidência maléfica dos raios ultra-violeta nos ambientes com exposição demasiada, que podem provocar uma insolação na região dorsal dos peixes, causando lesões inflamatórias que podem alcançar as meninges e lóbulos ópticos. As lesões na região dorsal, geralmente são acompanhadas de ulcerações que facilitam infecções bacterianas causando grandes perdas. Essas mortalidades podem ser evitadas mantendo pouca luminosidade nos pavilhões de reprodução e incubação, como também um sombreamento parcial nos tanques e viveiros em ambientes abertos. Não é excluída, também, a possibilidade do efeito da fotosensibilização de origem alimentícia. Este fato ocorre principalmente em peixes retirados dos ambientes naturais e confinados em cativeiros, já que esses peixes não estão adaptados a esses ambientes, ao contrário dos peixes oriundos de cinco ou mais gerações de reprodutores, que foram criados em pisciculturas: os chamados peixes “domesticados”. Esses peixes apresentam maior rusticidade ao manejo de criação e são mais resistentes às manifestações de enfermidades. Por esse motivo, é aconselhável que os piscicultores que estejam iniciando ou pretendem iniciar a engorda de pintados ou cacharas, adquiram alevinos de produtores idôneos que estejam no mercado há bastante tempo. A genética desses peixes pode influenciar diretamente no sucesso da criação.

Muito embora a tecnologia de criação de larvas e alevinos de pintado e cachara, pareça ser complicada e bastante onerosa, ela é relativamente simples, necessitando de instalações adequadas e dedicação por parte do criador.

No Brasil somente a partir da década de 90 é que se intensificaram os estudos para a viabilização destas espécies por Instituições de pesquisa e universidades. A produção em larga escala de alevinos e modelos aplicados de transformação de alevinos em peixes para consumo, inclusive com produções satisfatórias, já é realidade, principalmente por produtores particulares no Mato Grosso do Sul.