A Mancha Branca em Santa Catarina

Por:
Walter Quadros Seiffert – LCM/UFSC
e-mail: [email protected]
Sergio Winckler – EPAGRI
Daniela Maggioni – LCM/UFSC
Fotos gentilmente cedidas pelo produtor Kleber Lemos


O vírus da síndrome da mancha branca (WSSV, white spot syndrome vírus) acaba de ser identificado no Brasil, em fazendas localizadas no município de Laguna, em Santa Catarina. Esse vírus é o agente patogênico que mais trouxe efeitos negativos aos cultivos de camarão ao redor do mundo, tendo afetado mais de 20 países. Entretanto, apesar de conhecido por seu efeito devastador, não foi capaz de paralisar a atividade em nenhum desses países, existindo hoje várias formas de cultivo possíveis de serem realizadas, mesmo com a sua presença. A literatura cita que o WSSV afeta diferentes espécies de camarões cultivados e caracteriza-se principalmente por altas e rápidas mortalidades nas populações infectadas, normalmente logo após os primeiros sinais clínicos que se caracterizam por animais moribundos que morrem durante a muda, coloração rosada ou avermelhada na cutícula e/ou pontos brancos na carapaça. O vírus ataca juvenis e adultos e sua transmissão pode ser tanto horizontal quanto vertical.

A enfermidade da mancha branca em Santa Catarina foi diagnosticada e notificada à Organização Internacional das Epizootias (OIE) em janeiro de 2005. Os sintomas da doença começaram a surgir em novembro de 2004 e tudo indica que problemas de qualidade da água e do solo foram determinantes para o aparecimento da enfermidade.

Desde setembro, os produtores da área afetada, 15 fazendas na Lagoa de Imaruí/Laguna-SC, estavam com problemas de abastecimento de água para suas fazendas. Técnicos da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina e da EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, estiveram por várias vezes na área afetada para tentar entender os problemas de mortalidade maciça que estavam acontecendo, onde apenas uma propriedade teve mortalidade de 100%. As demais propriedades, uma vez iniciada a mortalidade, despescaram imediatamente seus viveiros. Outras, entretanto, não tiveram mortalidades por não terem captado água naquele momento e mantiveram seus aeradores ligados durante as 24 horas diárias. Há uma indicação de que a partir da primeira fazenda afetada, as fazendas próximas foram contaminadas pela renovação da água, provavelmente devido a alta concentração de partículas virais livres naquele momento. A mortalidade ficou restrita a uma região e ao mês de dezembro, não atingindo outras fazendas na mesma lagoa, distantes três a dez quilômetros do foco.

Os relatórios elaborados para identificar o problema mostraram que as águas dos viveiros possuíam altos valores de sulfetos e as análises dos solos indicavam teores de material orgânico superiores a 10 %. As análises dos animais indicavam vibrioses e altas infestações de Gregarina. Durante este período, houve pânico geral por parte dos produtores que exigiam um posicionamento dos técnicos responsáveis, que por sua vez acreditavam que se tratava apenas de problemas de toxidez da água e do solo. Por outro lado, surgiam rumores de que a enfermidade que atingiu o nordeste do país, o vírus da mionecrose muscular (IMNV), havia chegado também ao Estado de Santa Catarina. Assim, a hipótese de que poderia ser a síndrome da mancha branca não foi cogitada, uma vez que os animais não apresentavam as manchas brancas na carapaça características do nome da doença. Os sintomas observados na mortalidade eram de animais avermelhados, boiando na coluna d’água.

No detalhe, exemplar morto de L. Vannamei em viveiro de engorda em Laguna, SC.
No detalhe, exemplar morto de L. Vannamei em viveiro de engorda em Laguna, SC.

Neste período surgiu, por parte de técnicos de uma empresa fornecedora de ração, a idéia de enviar amostras dos animais doentes para o Laboratório de Diagnóstico da Universidade Federal do Ceará e também para a Universidade do Arizona, centro de referência mundial na área de patologia de crustáceos. Durante o mesmo período, os técnicos da UFSC e da EPAGRI também enviaram amostras à Universidade do Arizona, mas na tentativa de descaracterizar a presença do vírus da mionecrose muscular, considerando que somente este centro de diagnóstico possuía instrumental necessário e kit específico de PCR para identificar o IMMV. Para surpresa de todos os técnicos catarinenses, a partir de 11 de janeiro de 2005, começaram a chegar os primeiros resultados das amostras enviadas ao Arizona, com resultados positivos para o vírus da mancha branca.

Ações de combate à enfermidade

Uma vez identificado o problema, por uma iniciativa integrada do governo do Estado, através da Secretaria da Agricultura, da Seap – Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca e do Ministério da Agricultura, foi instaurada uma comissão de inquérito epidemiológico para estudar e determinar as medidas pertinentes à situação, ficando proibida, até segunda ordem, a comercialização dos camarões do estado para estados vizinhos. As fazendas contaminadas foram interditadas e cloradas imediatamente e o repovoamento suspenso até setembro do corrente ano, promovendo assim o vazio sanitário. A região do foco, abrangendo 20 empreendimentos, foi isolada.

No final de fevereiro, através de uma ação conjunta entre a Seap, UFSC, Epagri e Guabi, os produtores da região receberam a visita do Dr. Carlos Pantoja, professor da Universidade do Arizona, centro de referência que diagnosticou a enfermidade da mancha branca em Santa Catarina. O Dr. Pantoja foi convidado para conhecer o que estava acontecendo com a mancha branca no estado, e sua visita foi de extrema importância para que técnicos e produtores pudessem ter um melhor conhecimento da enfermidade além de ter ajudado a fundamentar as medidas de controle e prevenção da doença.

Uma vez que o Laboratório de Camarões Marinhos da UFSC (LCM/UFSC) possui boas práticas de manejo e adota medidas de biossegurança que deverão ser ainda mais aprimoradas, as ações mais imediatas a serem tomadas são as de manter reprodutores e pós-larvas livres do vírus da mancha branca. E isso pode ser realizado com o monitoramento constante, através de PCR e histopatologia, para a detecção do vírus. O LCM acaba de inaugurar uma nova infra-estrutura, onde será possível fechar totalmente o ciclo de produção de pós-larvas em laboratório, não dependendo mais de reprodutores de viveiros de cultivo.

Até o momento, não existe tratamento profilático ou terapêutico para o WSSV. Existem diferentes produtos de grande potencial que estão disponíveis, entre eles o fucoidan bruto, extraído do Sargassum polycystum, um extrato vegetal composto de cinco plantas patenteado nos EUA, bem como vacinas de proteínas virais recombinantes. Entretanto é preciso tempo para testar as aplicações práticas e a efetividade desses produtos no campo.

Detalhe dos urópodos com coloração avermelhada, característico da infecção pelo WSSV nos viveiros de Laguna,SC.
Detalhe dos urópodos com coloração avermelhada, característico da infecção pelo WSSV nos viveiros de Laguna,SC.
Fatos intrigantes sobre o vírus em Santa Catarina

O primeiro fato inexplicável até o momento é a origem da enfermidade. Existem duas hipóteses aceitas. A primeira, é que o vírus já estivesse presente há alguns anos no estado, e através das larvas esteja sendo transmitido aos cultivos. Ainda nesta linha de pensamento, poderíamos dizer que o vírus chegou a Santa Catarina através do Uruguai. Este país recebe camarões congelados do Equador, onde a enfermidade é presente há quatro anos. Os efluentes e resíduos dos camarões comercializados neste país poderiam seguir por correntes marítimas até Santa Catarina e contaminar toda a produtividade aquática. Também não é descartada a hipótese das distintas empresas de beneficiamento do estado, que possuem um elo comercial forte com o Uruguai, terem trazido de forma clandestina algum container para reprocessamento no estado. Para estudar esta hipótese um plano de amostragem para as distintas espécies portadoras assintomáticas do vírus (siris, caranguejos, espécies de camarões nativos) e também para as demais fazendas de todo o estado está sendo desenvolvido com apoio da ABCC.

A segunda hipótese, sugere que tenha vindo com pós-larvas adquiridas de outros estados, que por terem condições de temperaturas mais elevadas, os sintomas da enfermidade não são visíveis. Nos últimos dois anos foram feitas várias importações de náuplios e pós-larvas de outros estados brasileiros. Se confirmada essa hipótese, igual esforço deverá ser feito para identificar a possível porta de introdução, podendo também, neste caso, estar presente há mais tempo, uma vez que desde 1998 o Brasil não importa material genético de outros países.

Outro fato intrigante quanto à mancha branca em Santa Catarina, tem a ver com o seu comportamento nada devastador até o momento. Há dois meses não existem registros de sintomas da doença, o que difere do que ocorreu em outros países. Massas de ar polar e frentes frias ocorreram durante os meses de janeiro, fevereiro e nos primeiros dias de março. A amplitude diária de variação de temperatura na água dos viveiros das fazendas já foi superior a 5 0C. A bibliografia afirma que o vírus da síndrome da mancha branca é praticamente inativo em temperaturas superiores a 32 graus. Em Santa Catarina, já tivemos temperaturas inferiores a 25 graus e quedas acentuadas abaixo de 30 graus durante os meses de janeiro e fevereiro. O efeito de mudanças bruscas de temperaturas, inferiores a 30 graus, seria devastador, segundo informações publicadas em diversas revistas internacionais. A especulação de que o problema da enfermidade já esteja em Santa Catarina há mais tempo toma força com este comportamento do vírus.

Exemplares de L. Vannamei atacados pelo WSSV, em Laguna, SC.
Exemplares de L. Vannamei atacados pelo WSSV, em Laguna, SC.

Da mesma forma, a presença de uma cepa de vírus mais tênue não é descartada. Até o momento, o vírus só se manifestou em ambientes com problemas acentuados de qualidade da água e do solo. Alguns especialistas do México afirmam que a cepa de vírus que estamos lidando em Santa Catarina tem semelhança com algumas cepas mexicanas, e não com as cepas espalhadas pela América Central cujo poder de devastação é imenso. No México, em 2004, mesmo com a presença do WSSV, o maior problema de enfermidades foi com a Taura e o NHP.
Ainda não sabemos se estamos num período de multiplicação viral no meio ambiente, ou se o vírus já está presente há algum tempo. O que sabemos é que este ano será um ano de expectativa para a carcinicultura catarinense. As incertezas são muitas, dentre elas a dúvida sobre qual o caminho a seguir, e se devemos trabalhar com material livre de vírus ou resistente a ele.

Caso o vírus já esteja em Santa Catarina há mais tempo, abandonar os ganhos obtidos após cinco anos de trabalho com o melhoramento genético feito com as linhagens catarinenses, para dar lugar à importação de material livre do nordeste, ou de outros países, poderá implicar em sérios prejuízos. Até porque, se o comportamento do vírus continuar assim, existe a possibilidade de convivência sem grandes prejuízos para a indústria, utilizando esse material genético, aparentemente resistente à enfermidade.

Do ponto de vista ambiental, é importante destacar que não existem dados na bibliografia mundial afirmando que o vírus provoca mortalidades em espécies no meio ambiente externo ao cultivo. Não há dúvida de que as condições de cultivo, adensamento e estresse são determinantes para o aparecimento da enfermidade, fato que não ocorre no ambiente natural, onde a densidade de animais é muito inferior à densidade de cultivo. Todos os trabalhos científicos afirmam que os portadores do vírus no ambiente externo são assintomáticos.