A Maricultura do seculo XXI

Por Malcolm C M Beveridge1, Trevor C Telfer1 e Philip C. Scott2
1 – Institute of Aquaculture,
University of Stirling, Stirling, Scotland, UK
e-mail: [email protected]; [email protected]
2 – Instituto de Ciências Biológicas e Ambientais,
Universidade Santa Úrsula, Rio de Janeiro, Brasil
e-mail: [email protected]


O seguinte artigo é baseado numa conferência do Dr. Malcolm Beveridge, realizada na USU – Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, dia 23 de maio de 2000. Este evento foi patrocinado por um convênio entre o British Council e a CAPES, num programa especial entre a USU e a University of Stirling, Scotland.

O tanque-rede é o sistema mais amplamente utilizado nas criações de peixes marinhos em todo o mundo. É relativamente barato e oferece boas condições de cultivo, proporcionando ainda aos criadores a flexibilidade de rapidamente expandir sua produção, à medida que o seu negócio se desenvolve. Estima-se que apenas na Europa existam aproximadamente 40 mil tanques-rede, utilizados nas criações de salmões e pargos. Desde o final dos anos 60, quando o sistema foi largamente aceito pela indústria de maricultura, houve consideráveis mudanças na sua forma e nos materiais empregados na sua construção. Gradualmente aumentaram em tamanho, à medida que a experiência demonstrou que os peixes têm melhores performances em tanques-rede maiores. Além disso, os tanques-rede maiores são também mais baratos se considerarmos a relação de unidade por volume, além de estarem mais alinhados com as operações típicas das mariculturas modernas, cuja produção anual muitas vezes alcança algumas centenas, senão milhares de toneladas. Atualmente, a maioria dos tanques-rede das mariculturas em operação tem volume de 1.000 a 3.500 m3.

Nos anos 80, as estruturas de madeira foram substituídas por outras mais resistentes, feitas com aço galvanizado. Já nos anos 90, o aço foi substituído por materiais plásticos de perfil circular, mais robustos e baratos, que otimizaram o uso do material e do espaço. Embora o desenho dos tanques-rede continue a ser melhorado, as margens de lucro têm sido cada vez menores. A falta de apoio para a pesquisa, oriunda de fontes governamentais, reduziu o passo das inovações.

Desvantagens

Embora ainda permaneçam como a peça mais importante quando se trata de piscicultura marinha, os tanques-rede têm suas desvantagens e seu uso no futuro não pode ser garantido sem que sejam respondidos os ataques ferozes de seus críticos, de dentro e de fora da indústria. Entre as desvantagens destacam-se os custos operacionais, que podem ser maiores se comparados a outros sistemas, devido a perda de ração e os altos custos da manutenção das redes devido às incrustações. Além disso, são ainda vulneráveis a tempestades, acidentes, vandalismos e furtos.

Fabricantes e operadores de tanques-rede devem encontrar soluções para responder às demandas crescentes, que vão desde a redução do capital e dos custos operacionais, até as preocupações com o meio ambiente por parte daqueles que compartilham o mesmo espaço e que podem exigir a sua retirada das áreas mais congestionadas e poluídas da zona costeira.

Mar aberto

Há muito se fala sobre o cultivo em mar aberto (offshore), pois diversos países têm poucas áreas costeiras protegidas. Essas águas costumam ser um pouco mais frias, com a saturação de oxigênio ao redor de 100%. A salinidade estará sempre mais próxima das condições oceânicas por serem áreas menos afetadas pelas águas continentais. Estes parâmetros também são menos variáveis a curto-prazo, o que é importante para muitos peixes. Além disso, as áreas em mar aberto são menos congestionadas, menos poluídas e, as eventuais ocorrências de poluição e blooms de algas tóxicas, podem passar rapidamente sem causar maiores danos. Correntes mais fortes geralmente prevalecem, e até certo ponto isto é benéfico, pois promove crescimento mais rápido além de melhorar a qualidade da carne dos peixes cultivados. O ambiente mais dispersivo também assegura menos riscos de autopoluição.

Legisladores tendem a uma visão mais favorável a propostas que envolvem criações em mar aberto, ao contrário da expansão da produção em áreas costeiras e abrigadas. No entanto, os cultivos em mar aberto devem estar prontos para suportar correntes mais fortes e um ambiente mais destrutivo, com ondas maiores. Sendo assim, diversas soluções técnicas surgiram durante os anos e, entre elas, os projetos de estruturas com armações flexíveis.

As armações de borracha cheias de gás, sustentando as redes, se deformam à medida que as ondas passam, dissipando a energia para a própria estrutura, chegando as poitas apenas alguma energia residual. Estas estruturas vêm funcionando bem, embora alguns críticos questionem se os movimentos excessivos das paredes e do chão da rede, sob algumas condições de mar, não perturbariam ou machucariam os peixes.

FarmOcean - Modelo de sistema semi-submerso da empresa sueca para cultivos em mar aberto
FarmOcean – Modelo de sistema semi-submerso da empresa sueca para cultivos em mar aberto

Uma alternativa a este modelo é o desenho do fabricante sueco FarmOcean, que apresenta tanques-rede semi-submersíveis com capacidades de 2.500 a 6.000 m3. O saco da rede é sustentado por um sistema de aço cheio de gás, que fica a vários metros da superfície. Como qualquer pessoa com experiência em mergulho deve saber, o movimento a 3-4 metros abaixo da superfície, mesmo em mares bravos, é relativamente pequeno. Assim, o tanque-rede permanece estável, mesmo em condições de mar bravo. Uma outra característica deste tanque-rede é o sistema de dispersão de ração, que continua funcionando, mesmo quando as condições de tempo estão ruins e impossibilitam a visita dos tratadores ao tanque-rede.

OceanSpar - Sea Cage System
OceanSpar – Sea Cage System
Sistema semi-submerso para mar aberto da OceanSpar
Sistema semi-submerso para mar aberto da OceanSpar

Um outro modelo que pode ser classificado como semi-submerso é o apresentado pela empresa norte-americana Ocean Spar, onde apenas o topo do sistema de flutuação e a rede permanecem na superfície. Este sistema oferece pouca resistência a ondas e correntes, sendo mantido por âncoras tencionadas por bóias e pesos que amortecem o movimento. São tanques-rede de grandes dimensões. Recentemente foi instalado na Irlanda um tanque-rede com 22.000 m3. Esta estrutura é mantida em posição por oito âncoras de 1 tonelada, cada qual com 1 tonelada de correntes, mais duas âncoras afixadas ao substrato rochoso. Este tanque-rede aparentemente pode manter 90% de seu volume sob correntes de 1.75 m/s. A Ocean Spar Technologies também fabrica uma Sea Station semi-submersível.

No entanto, a tecnologia para mar aberto pode ser complexa, restritiva e nada barata. As armações e o apoitamento têm que ser considerados como partes do todo e devem ser instalados por especialistas, de preferência os próprios fabricantes dos tanques-rede, até porque, em caso contrário, não dão nenhuma garantia. O grande porte destes tanques-rede para mar aberto (offshore) significa também que, do ponto de vista de manejo, eles não são tão flexíveis como seus congêneres menores e mais convencionais. Finalmente, devem ser considerados os custos de capital e operacional, incluindo combustível e tempo associados à viagem ao sítio offshore, antes de optar por este sistema.

SeaStation TM modelo de sistema submerso fabricado pela empresa norte-americana OceanSpar para cultivos de peixes marinhos.
SeaStation TM modelo de sistema submerso fabricado pela empresa norte-americana OceanSpar para cultivos de peixes marinhos.

Custos operacionais

Entre os custos operacionais, que são mais altos para tanques-rede do que para qualquer outro sistema, estão aqueles ligados ao manejo das incrustações. A incrustação é maior em águas mais quentes, e onde haja salinidade oceânica. Entre os organismos incrustantes estão incluídos algas, crustáceos, moluscos, cordados e equinodermas. Dezenas de quilos podem ficar incrustados num único m2 de panagem de rede, somando toneladas de peso a um tanque-rede típico. A incrustação pode impedir a troca de água em até 90% e levar as redes, e até mesmo sistemas inteiros, a desabarem.

O custo para manter a incrustação sob controle pode ser alto. Muitos sistemas de manejo da incrustação foram desenvolvidos ao longo dos anos, especialmente tanques-rede rotativos, mas se mostraram pouco práticos ou caros demais. A prática comum é usar uma variedade de métodos, incorporando algum tipo de antiincrustante além da limpeza regular. A limpeza pode ser feita in situ, usando a convencional lavagem com mangueira de alta pressão. Entretanto, isto pode resultar num acúmulo adicional de detritos orgânicos nas proximidades dos tanques-rede, que pode ser prejudicial aos animais estocados e vir a ser proibido pelas autoridades reguladoras. Como resultado, as redes têm que ser removidas e levadas para terra para serem lavadas. Isto é oneroso em termos de mão-de-obra e redes adicionais. Em alguns locais esta troca poderá ser necessária a cada poucas semanas em certas épocas do ano. No entanto, com um planejamento cuidadoso em relação a troca das redes, estes custos podem ser reduzidos. Os antiincrustantes oferecem uma grande ajuda. Aqueles usados na aqüicultura gradualmente evoluíram em relação aos antiincrustantes que usam substâncias tóxicas como o cobre e o TBT. São substâncias a base de silicone que, de tão escorregadias, impedem que os organismos incrustantes se fixem. A busca por novos compostos antiincrustantes extraídos de algas e incorporados diretamente nos polímeros utilizados na fabricação das redes está em desenvolvimento e testes com vários produtos comerciais estão sendo feitos na Austrália.

Ração não consumida

Como prevenir é sempre o melhor remédio, as tentativas de reduzir as perdas de ração e a elaboração de alimentos com maior digestibilidade são soluções mais práticas e mais baratas do que o desenvolvimento de sistemas de recuperação de dejetos sólidos (ração e fezes). Embora alguns desses sistemas tenham sido elaborados, poucos foram usados em sistemas marinhos expostos e sua praticidade ainda está por ser avaliada. Além do mais, o que fazer com os dejetos coletados? Na teoria, poderiam ser usados como fertilizantes, mas estão contaminados por sal. Além disso, os custos para transportar esses dejetos, que possuem alto teor de água, podem não ser economicamente viáveis.

Durante anos, os piscicultores trataram os tanques-rede como caixas-pretas, por onde o alimento era despejado e de onde se colhia peixe. Muitos criadores confiaram cegamente nas orientações dos fabricantes de ração, que aconselhavam a quantidade que deveria ser utilizada para tipos e tamanhos de peixes, em diferentes condições ambientais, especialmente em diferentes temperaturas. Essas orientações geralmente eram expressas em um percentual da biomassa por dia. As informações do sistema (feedback), especialmente nos casos onde a alimentação é feita manualmente, eram também algumas vezes utilizadas para modificar a taxa de alimentação e assim reduzir a quantidade de alimento necessária para produzir uma tonelada de peixe (TCA – taxa de conversão alimentar ou FCR). Nas indústrias estabelecidas há mais tempo, como a do salmão e do pargo, as TCA’s vêm caindo gradativamente. Apesar desse progresso, uma quantidade considerável de alimento oferecida aos peixes em cativeiro não é ingerida. Para solucionar este problema, novos sistemas estão sendo desenvolvidos, alguns conhecidos como ‘alimentadores inteligentes’. Eles utilizam o feedback da caixa preta (o peixe e o tanque-rede) para ajustar quando e que quantidade de alimento que deve ser oferecido. Entre os sistemas mais famosos está o Aquasmart. A ração não ingerida é detectada por um sensor no tanque-rede e a informação é codificada em algoritmos, para dizer ao alimentador quando deverá ser a próxima refeição, e que quantidade deverá ser servida. Desta forma, o alimentador segue o apetite do peixe, ofertando ração somente quando os peixes precisam dela. Ensaios com várias espécies em cultivo mostram que a redução nas perdas pode ser de reduzida em até 18% (ver Beveridge and Kadri, 2000).

As inovações descritas voltaram-se para os problemas fundamentais com os tanques-rede. Mesmo assim, eles continuarão a ser criticados, especialmente em relação aos dejetos que compreendem não apenas as fezes e a ração não consumida, mas também os peixes que escapam. Existem, no entanto, poucas alternativas. Raceways flutuantes que funcionam bombeando águas de estruturas não permeáveis no mar, têm ainda que demonstrar que são seguros e capazes de produzir peixes a baixo custo. Já os sistemas de bombeamento para terra só são realmente viáveis em áreas próximas ao mar e com baixa variação de maré. Tais sistemas poderão se tornar uma alternativa cada vez mais prática ao cultivo no mar.

Mais informações: Beveridge, M. C. M. 1996. Cage Aquaculture. Fishing News Books, Oxford Beveridge, M. C. M. & Kadri, S. 2000. Reducing feed losses in aquaculture. International Aquafeeds, 1, 8-10.

E também… http://www.oceanspar.com/home http://www.farmocean.se http://www.aquasmart.com.au