A multiplicação dos peixes, o milagre atual

DIÁRIO DA MANHÃ
WANDELL SEIXAS
 03/09/2013

A piscicultura ou criação de peixes é mais uma alternativa de renda para os produtores brasileiros. O Ministério da Pesca e Aquicultura é responsável pela implantação de uma política nacional pesqueira e aquícola, transformando esta atividade econômica em uma fonte sustentável de trabalho, renda e riqueza. A instituição foi criada, sem dúvida, pela crescente demanda dos interessados no fomento da criação de peixes no País. Havia um departamento de pesca no Ministério da Agricultura que foi desmembrado em 2009 e culminou com a nova instituição.

 Em Goiás, a Agência Goiana de Assistência Técnica, Extensão Rural e Pesquisa Agropecuária (Emater) já vinha proporcionando atenção há alguns anos aos pequenos e mini produtores do setor. A Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA) criou recentemente a Associação Goiana de Piscicultura, num trabalho coordenado pelo ex-prefeito de Rubiataba, Adilon de Souza, um dos grandes conhecedores e apaixonados pelo tema. Sentindo a crescente importância da piscicultura no Estado, o secretário de Planejamento, Giuseppe Vecci, “comprou” a idéia e o governo de Goiás tornou-se um dos incentivadores.

O campo é promissor para a piscicultura. Veja o contexto geográfico brasileiro, com uma extensão territorial de  8.514.215 quilômetros quadrados; extensão da costa: 8.500 Km; área da ZEE :  4.500.000 Km2; participação de água doce do Planeta:13,7%; área com água represada:10 milhões de hectares; população:195.755.799 de habitantes (2010). O contexto econômico é favorável: Produto Interno Bruto: US$ 2.200 bilhões; PIB do Agronegócio: US$ 491 bilhões (22,34% do total); PIB do Setor Pesqueiro: 7% do PIB do Agronegócio. Os dados são do IBGE e foram levantados em 2010.

Pelos levantamentos do Ministério da Pesca, mercado é o que não falta, observando que o consumo de pescado está em alta no mundo inteiro.  O pescado é um alimento saudável e cada vez mais procurado pela população, em todas as faixas de renda. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o consumo anual de pescado de pelo menos 12 quilos por habitante/ano. O brasileiro ainda consome abaixo disso.

Entretanto, houve um crescimento de 6,46 kg para 9,03 kg por habitante/ano entre 2003 e 2009. O programa “Mais Pesca e Aqüicultura”, do Ministério da Pesca e Aqüicultura (MPA), previa o consumo de 9 kg por habitante/ano apenas em 2011.  Portanto, esta meta foi atingida com dois anos de antecedência.

A previsão é de que até 2030 a demanda internacional de pescado aumente em mais 100 milhões de toneladas por ano, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). A produção mundial hoje é da ordem de 126 milhões de toneladas. O Brasil é um dos poucos países que tem condições de atender à crescente demanda mundial por produtos de origem pesqueira, sobretudo por meio da aquicultura.

Segundo a FAO, o Brasil poderá se tornar um dos maiores produtores do mundo até 2030, ano em que a produção pesqueira nacional teria condições de atingir 20 milhões de toneladas.

Em Goiás, a Emater desenvolve um trabalho digno de crédito junto com a Ceasa (Central de Abastecimento) relativo a conter os gargalos sentido pelos produtores. O sistema de comercialização é um deles. A instituição procura contornar esse problema recomendando a venda direta nas feiras dos próprios produtores, situadas em várias cidades do Estado. Ceres, Goianésia, Minaçu, Rubiataba são exemplos de feiras que apresentam bons resultados.

 Com os produtores, sobretudo com os pequenos se congregando em associações, o seu dia a dia é mais facilitado. O produto é mais valorizado. A qualidade, no entanto, tem que ser seguida à risca e se possível agregar valor. Em Goianésia, por exemplo, a feira, onde os produtores vendem praticamente de tudo, 180 famílias estão vinculadas a 12 associações rurais.

Esta feira é coberta e funciona a partir das 17 horas às quartas e sextas. Os produtos são fresquinhos, portanto atrativos e o público comparece em cheio. Em Goianésia, o prefeito Jales Fontoura patrocina o transporte dos feirantes, o que culmina por favorecer a renda. A feira tradicional, como se vê noutras cidades, funciona normalmente noutros dias da semana. É, portanto, mais um meio do produtor comercializar a sua mercadoria, embora não seja propriamente sua.

A qualidade de vida desses produtores tem melhorado sensivelmente. Segundo depoimentos que ouvi pessoalmente, muitos deles passaram a dispor de maior conforto doméstico, dispondo de geladeira, máquina de lavar roupa, carro. O sistema passou a envolver mais a mulher e os filhos e assim contribuindo para conter o êxodo rural dos jovens. A média de renda por família ao ano é de R$163.229 e o volume comercializado pelas associações ascende a R$1 milhão, segundo dados levantados pela extensionista rural Ana Maria de Brito Mendes, da Emater em Goianésia.

Acostumado a percorrer cotidianamente as diferentes regiões de Goiás, o secretário da Agricultura, Antônio Flávio Camilo de Lima, vê nesta feira uma referência nacional. As linhas de crédito para os piscicultores estão abertas através das agencias do Banco do Brasil e da Caixa Econômica.

Se os abnegados técnicos da Emater ensinam a melhor maneira de criar peixes, o seu processamento, onde se inclui a desossa total, o que significa também a remoção das temíveis espinhas, as extensionistas sociais dão cursos completos sobre a sua elaboração. É surpreendente o vasto cardápio oferecido: filé de tilápias, almôndegas, tortas, enfim uma gama imensa do pescado.

Enfim, o ministro da Pesca e Aquicultura, Marcelo Crivella, quando esteve em Goiânia, resumiu numa passagem bíblica a importância da multiplicação dos peixes no mundo contemporâneo. Segundo ele, Deus não multiplicou os bovinos, nem os suínos e muito menos as aves. Ele multiplicou, isto sim, os peixes.

Há um público faminto por proteínas e vitaminas e o Brasil – e Goiás está neste contexto – tem as condições ideais para a multiplicação real dos peixes, no mundo contemporâneo.

(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)

Fonte: Diário da Manhã

http://www.dm.com.br/texto/142318-a-multiplicaaao-dos-peixes-o-milagre-atual