A pesquisa científica em aqüicultura

Por:
Luis Vinatea – Laboratório de Camarões Marinhos – LCM
Depto de Aqüicultura, CCA,
Universidade Federal de Santa Catarina
e-mail: [email protected]


Nos tempos atuais, em que a ciência e a tecnologia estão cada vez mais presentes na vida das pessoas, determinando decisivamente os destinos da maioria das nações do planeta, refletir sobre o processo de pesquisa na aqüicultura equivale a adentrar nas “entranhas” desta tecnologia, isto é, na sua identidade epistemológica e nos seus posteriores desdobramentos. E, a melhor forma de fazermos isto, é focar a sua natureza gnosiológica1 , a fim de chegarmos à essência do seu próprio objeto, que deve ser entendido como “tudo o que pode ser apreendido por meio do conhecimento”.

 

A aqüicultura é formada por dois objetos, um material e outro formal. O objeto material, o que pode ser percebido através dos sentidos é, evidentemente, o organismo aquático (peixe, crustáceo, molusco, alga, etc.). O objeto formal, por sua vez, refere-se ao verbo ou ao método que, para a aqüicultura, como a palavra em si já revela, é o cultivo. Sendo assim, podemos afirmar que a aqüicultura se aproxima da pesca porque ambas compartilham o mesmo objeto material, porém, não compartilham o mesmo objeto formal, já que o objeto formal da pesca é a extração e não o cultivo. Da mesma forma, podemos dizer que a aqüicultura se parece também com a agricultura por compartilharem o mesmo objeto formal – o cultivo – mas o objeto material de ambas as atividades difere, já que o da agricultura é a planta e não o organismo aquático.

Por meio do estudo dos objetos fica mais fácil determinar o campo de ação de cada uma das principais profissões que convergem na prática da aqüicultura, a saber: biologia, agronomia, zootecnia, engenharia de pesca, oceanografia e medicina veterinária. De acordo com o objeto material, todas estas profissões teriam em comum os organismos aquáticos, porém, apenas alguns servem de alimento aos homens ou possuem algum tipo de valor comercial. Assim sendo, os biólogos dedicados à aqüicultura teriam como meta o estudo (objeto formal) das espécies aquáticas com valor econômico. Já os agrônomos e zootecnistas se interessam no desenvolvimento dos métodos de cultivo, a fim de racionalizar e otimizar a produção desses organismos aquáticos de valor comercial. Já os oceanógrafos, se interessam pelo estudo dos organismos aquáticos marinhos com valor comercial. Este tipo de analogia pode ser feita com as profissões que possuem alguma relação com a aqüicultura.

Uma característica inerente às tecnologias é que estas derivam das chamadas “ciências básicas”. Como o objeto material da aqüicultura são os organismos aquáticos, e já que estes têm sido descritos e/ou estudados pelas ciências da vida, não restam dúvidas de que a aqüicultura possui uma forte conotação biológica. Podemos antecipar que um bom embasamento biológico a respeito das espécies aquáticas de cultivo, assim como dos ambientes onde estes se desenvolvem, pode garantir o sucesso dos empreendimentos de aqüicultura. Mas devemos destacar também o caráter multidisciplinar desta tecnologia. Para praticar aqüicultura não basta conhecer a biologia das espécies e dos ambientes aquáticos, precisa-se muito mais do que isso. Não poucas vezes o aqüicultor precisará recorrer a conhecimentos oriundos das engenharias, das ciências econômicas, da física, etc. Este caráter multidisciplinar precisa ser muito bem articulado para que os cultivos tenham o êxito esperado. Por meio da melhor articulação desta diversidade de conhecimentos, a aqüicultura pode evoluir para o nível interdisciplinar, condição em que todo o universo de conhecimentos converge ordenadamente para uma finalidade concreta: a produção viável de organismos aquáticos em ambientes controlados.

Resta saber agora, se esta finalidade possui justificativas econômicas e sociais. Isto pode ser determinado por meio da análise da sua racionalidade. Logo, com base nos objetos e na racionalidade da aqüicultura, estaremos em condições de refletir a respeito das atividades de pesquisa desta tecnologia, tema do presente artigo.

Racionalidade

Por meio da racionalidade podemos entender a “razão de ser” da aqüicultura, e assim tentar justificar melhor a existência da mesma. Portanto, a aqüicultura poderia ser explicada por meio do seguinte raciocínio:

“Alguns organismos aquáticos são comestíveis, o que lhes confere automaticamente um valor econômico e comercial. As crescentes necessidades alimentares dos seres humanos cria uma demanda cada vez maior destes organismos, fazendo com que os estoques naturais sejam constantemente submetidos à processos de extração cada vez mais intensos. O aumento da demanda, que gera um incremento nas atividades de extração, acaba esgotando as populações naturais. Este esgotamento provoca a escassez destes recursos e, pela lei da oferta e da demanda, estes acabam aumentando de preço. Quanto mais caro, menos democrático se torna este tipo de alimento. Uma saída para este impasse seria que, ao invés de esgotar ainda mais as populações naturais, algumas espécies pudessem ser selecionadas e cultivadas, a fim de voltar a aumentar a oferta e, conseqüentemente, diminuir os preços, o que necessariamente acabaria aumentando a acessibilidade destes alimentos para todos os segmentos da sociedade.”

Não há dúvidas que esta racionalidade pode soar um tanto utópica, já que os organismos aquáticos de cultivo necessariamente possuem valor comercial. Por vivermos numa sociedade de consumo é muito provável que o produtor (aqüicultor) corra atrás do chamado “máximo lucro”. Aumentando-se os preços, a fim de “ganhar mais”, a aqüicultura corre o risco de tornar-se fortemente elitizada. Esta distorção poderia acabar contribuindo com a expansão da fome no mundo. Eis aqui que a ética torna-se um elemento insubstituível no momento de se planejar as estratégias de desenvolvimento da aqüicultura. Mas, para planejar este desenvolvimento, é imperativo saber o que podemos e devemos pesquisar.

O que se pode pesquisar?

Desde o momento em que a aqüicultura (técnica) evoluiu para o nível de tecnologia (engenharia da aqüicultura e profissões afins), o seu conhecimento, necessariamente, passou a ser construído por meio da pesquisa científica. Em outras palavras, conforme a colocação de Lakatos (1990), através da “investigação sistemática levada a efeito no universo real” (pesquisa), no intuito de contribuir com o aumento do “conhecimento de objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação” (ciência).

Fica claro, então, que a aqüicultura resume-se, basicamente, ao cultivo de organismos aquáticos com valor comercial, portanto, a pesquisa neste campo tecnológico deveria ser operada no âmbito dos organismos aquáticos de cultivo.

A seguir, tentaremos identificar melhor os temas de pesquisa relativos à aqüicultura. De acordo com Volpato (1998), nos meios acadêmicos costuma-se empregar muito a dicotomia ciência básica-ciência aplicada. Por exemplo, se uma pesquisa for direcionada ao estudo da alimentação de peixes de cultivo, poderia surgir a seguinte situação: se o estudo enfocar os mecanismos internos de estimulação de ingestão alimentar, a pesquisa poderia ser classificada como ciência básica; porém, se o estudo enfocar o tipo de ração que resulta num melhor crescimento de uma espécie, a pesquisa estaria dentro dos moldes da ciência aplicada. Volpato critica esta divisão afirmando que, vista como processo de aquisição de conhecimentos, a ciência é uma só.

De fato, tanto a primeira como a segunda pesquisa terá como resultado a geração de conhecimentos. Aceitando então, que não existe a dicotomia ciência básica – ciência aplicada, resta saber quais as pesquisas que pertencem ao campo de conhecimento das disciplinas estritamente científicas e quais as que seriam estritamente tecnológicas. Este problema pode ser resolvido através da fórmula defendida por Bunge (1980), que nos diz que “a busca da verdade pela própria verdade” seria incumbência da pesquisa científica e, “a busca da verdade útil a alguém”, seria objeto da pesquisa tecnológica. Acreditamos que a dicotomia ciência – tecnologia é muito mais pertinente do que a velha distinção ciência básica-ciência aplicada, conforme sugerido por Volpato.

Se admitirmos que a pesquisa científica é diferente da tecnológica, podemos concluir que, já que os organismos de cultivo são úteis a alguém, a pesquisa que é realizada em aqüicultura é preponderantemente tecnológica. Assim sendo, o estudo dos mecanismos internos de estimulação de ingestão alimentar nos peixes (qualquer peixe que não seja de cultivo) corresponderia a uma pesquisa científica; já o mesmo estudo, realizado em peixes de cultivo seria, para todos os efeitos, uma pesquisa tecnológica. Esta diferenciação é obvia, já que dificilmente alguém poderia justificar a realização de uma investigação em aqüicultura enfocando, por exemplo, o comportamento alimentar dos peixes abissais, pelo simples fato destes não serem de cultivo, nem comestíveis, nem muito menos possuir valor comercial. Entretanto, este estudo poderia ser perfeitamente aceito pela pesquisa biológica ou oceanográfica, pelo fato dessas ciências buscarem a “verdade pela própria verdade”.
Estas colocações podem levar alguém a se perguntar: já que existe uma pesquisa considerada científica, a pesquisa tecnológica não seria científica? A resposta é que, se a pesquisa tecnológica aplica o método científico(2), esta passa a ser igualmente científica. Vemos aqui uma limitação semântica de classificação que precisaria ser resolvida por profissionais ligados à área de línguas. Por enquanto, para efeito da nossa compreensão:

· Pesquisa científica: busca sistemática da verdade pela própria verdade mediante a aplicação do método científico.
· Pesquisa científico-tecnológica: busca sistemática da verdade útil a alguém mediante a aplicação do método científico.

Pesquisa Científica x Pesquisa Científico-tecnológica

Partindo do pressuposto que todo efeito tem uma causa, a pesquisa (científica ou científico-tecnológica) é sempre motivada pela constatação da existência de um problema, cuja causa geralmente nos é desconhecida. Portanto, uma pesquisa começa quando formulamos corretamente uma pergunta, no intuito de esclarecer as causas possíveis que se encontram por trás do problema abordado. No caso da pesquisa científica, este problema pode ser apenas o desconhecimento de um fenômeno factual (relativo a fatos reais) ou ideal (matemático). Segundo isso, o primeiro que fazemos é formular uma pergunta da forma mais correta possível. Com base numa pergunta específica, o conjunto de materiais e processos que iremos usar para realizar a pesquisa (metodologia) fica automaticamente direcionado num determinado sentido(3) . Podemos presumir que a metodologia a ser empregada nos mostrará, além do rumo, os “limites” que toda pesquisa possui. Analisemos agora de maneira mais precisa o que acontece com uma pesquisa quando ela se enquadra no contexto tecnológico, cujas verdades a serem elucidadas deverão ser, necessariamente, úteis a alguém. A seguir, sistematizaremos um exemplo de pesquisa em aqüicultura observando os passos lógicos de observação e identificação do problema, pergunta, hipótese (resposta provisória), objetivo, métodos, conclusão, comprovação e recomendação.

Suponhamos que, quando produzidas em laboratório, as larvas de camarão marinho de certa espécie apresentam mortalidades na ordem de 50 a 90%. Observadas ao microscópio, as larvas mortas exibem necrose da glândula digestiva (hepatopâncreas). Temos então, um problema tecnológico que merece uma pesquisa apoiada pelo método científico. A pergunta óbvia que poderíamos fazer é: o que está provocando (causa) a mortalidade das larvas (efeito)?

Se constatamos um quadro de necrose, podemos suspeitar de uma infecção de tipo bacteriano; assim, a nossa hipótese (palpite) poderia ser: “as larvas estão morrendo devido ao ataque de bactérias patogênicas”. Seguindo a direção assinalada pela pergunta e pela hipótese, ficamos em condições de traçar o objetivo da pesquisa: “demonstrar que a mortalidade das larvas de camarão é devida a uma infecção bacteriana e, em caso positivo, determinar a espécie de bactéria (patógeno) envolvida no quadro de necrose da glândula digestiva das larvas de camarões marinhos.” Desta forma, o problema que chamou a nossa atenção já está, em parte, resolvido.

Agora que sabemos onde queremos chegar (objetivo), devemos nos preocupar em como chegar até lá, isto é, dar resposta à pergunta formulada. É aqui que entra a metodologia, entendida como o “conjunto de regras úteis para a investigação”, ou como “procedimento cuidadosamente elaborado, visando provocar respostas na natureza a fim de entender sua lógica e leis.” Já que a nossa hipótese sugere que uma infecção bacteriana é a causa da mortalidade das larvas, devemos nos esforçar em montar um experimento microbiológico capaz de levar-nos a atingir o objetivo almejado. Tal experimento consistiria no isolamento do órgão afetado para que posteriormente seja preparado um extrato, que seria colocado numa placa de Petri contendo agar nutritivo para bactérias. Uma vez surgidas as colônias bacterianas no meio de cultivo, estas poderiam ser identificadas por meio de provas bioquímicas. Uma vez determinada a “flora bacteriana” presente nos órgãos necrosados, esta poderia ser comparada com a flora de larvas saudáveis. Obviamente, se a flora bacteriana dos animais doentes chegasse a apresentar uma espécie diferente da flora dos animais normais, poderíamos concluir que a espécie em questão pode ser o patógeno que estávamos procurando.

Com base nesta conclusão poderíamos continuar a pesquisa no intuito já não de testar hipóteses científicas, mas de encontrar soluções concretas ao problema inicialmente identificado. A pesquisa seguinte poderia tentar reproduzir a doença em laboratório mediante a infecção experimental de larvas saudáveis, usando a bactéria encontrada na primeira pesquisa. Se este experimento chegar a ter sucesso, a causa da doença estaria sendo comprovada e, assim, ficaríamos em condições de testar vários tipos de antibióticos ou probióticos, a fim de escolher aqueles aos quais a bactéria isolada é mais sensível. Uma vez identificado o remédio, precisaríamos determinar a dose adequada, ou seja, a quantidade de antibiótico ou probiótico a ser recomendado, que seja capaz de matar as bactérias, mas não as larvas de camarão.

Eis aqui que a solução do problema, encontrada por meio da pesquisa científico-tecnológica, poderia ser vislumbrada: para diminuir significativamente a mortalidade das larvas, estas devem ser tratas com um antibiótico ou probiótico específico na dose recomendada tal. Se a pesquisa anteriormente descrita fosse realizada, por exemplo, numa determinada espécie de peixe que não possuísse a mínima possibilidade de ser cultivado algum dia, esta não teria o caráter tecnológico que a obriga a encontrar uma utilidade prática, isto é, o tratamento terapêutico. Se a espécie em questão fosse uma lesma abissal, uma daquelas que vive a mais de 8.000 metros de profundidade, a investigação poderia parar após a verificação da capacidade infectante do agente patogênico. Com isto, a Ciência, cujo objetivo é “a verdade pela própria verdade”, ficaria satisfeita, pois o conhecimento gerado através desta pesquisa passaria a formar parte do universo de conhecimentos das ciências biológicas. Podemos ter certeza que nenhum biólogo iria se interessar por pesquisar o tratamento das lesmas doentes, visto que isso pressuporia que tais animais poderiam vir a ser tratados no seu meio natural, o qual não deixa de ser um absurdo, pelo menos nos tempos atuais, devido à falta de utilidade prática e ao exorbitante custo que isso implicaria.


1Gnosiologia: teoria do conhecimento; conjunto de princípios fundamentais de uma arte ou ciência.2Método científico: formulação de perguntas decorrentes da observação de fenômenos e busca de respostas a estas perguntas por meio da comprovação experimental de hipóteses (palpites ou respostas provisórias); as respostas assim encontradas devem ser suscetíveis de comprovação em experimentos posteriores (Charbonneau, 1986).

3É por esta razão que alguns preferem chamar a pergunta científica de “questão norteadora”.


Referências Bibliográficas:

Bunge, M. Tecnologia e filosofia. In: Epistemologia: curso de atualização. São Paulo:EDUSP, 1980. p. 185-210.
Charbonneau, P. Curso de filosofia: lógica e metodologia. São Paulo: EPU, 1986.
Lakatos, E. Sociologia geral. 6 ed. São Paulo: Atlas, 1990.
Vinatea, L. Aquaculture philosophy. World Aquaculture, set., v.35, n. 3, 2004.
Volpato, G. Ciência: da filosofia à publicação. 1 ed. Jaboticabal: FUNEP, 1998.