A Ranicultura Brasileira

Tem a liderança tecnológica falta conquistar o mercado externo.

Por: Samuel Lopes Lima


A criação de rãs no Brasil passa por uma importante fase de transição. De um hobby exercido por meros amadores, passa a ser hoje uma das mais lucrativas atividades da aqüicultura brasileira.

No final da década de 70 e no início da de 80, a ranicultura foi marcada por um período de euforia, com a implantação de quase dois mil ranários, cujos proprietários foram influenciados pela divulgação de reportagens otimistas e nem sempre verdadeiras.

Entretanto, a adoção de uma tecnologia empírica (principalmente instalações inadequadas), resultou em inúmeros fracassos na ranicultura. Hoje os ranários estão reduzidos a cerca de 600, mas apresentam, uma produção bem superior ao passado, graças ao incremento da produtividade (até 20kg. de rãs/m2/ano), fruto do recente avanço tecnológico propiciado pelo sistema Anfigranja de criação intensiva (Lima & Agostinho, 1988,89).

O fracasso dos ranários pioneiros não foi em vão. O entusiasmo dos ranicultores contagiou investigadores que passaram a se dedicar a atividade. Desta forma, foi rompido o ciclo vicioso existente até pouco tempo. “Sem uma tecnologia definida, não se formam técnicos; sem técnicos não se desenvolve uma tecnologia”. Este fato ocorria porque não se contava com técnicos especializados. Por outro lado, com uma técnica incipiente, não era possível se formar técnicos habilitados. Pouco a pouco, os pesquisadores foram se somando e hoje passam de duas dezenas, que atuam investigando ou fomentando a ranicultura brasileira (Membros da ABETRA – Academia de Estudos Técnicos em Ranicultura).

O resultado deste trabalho é que atualmente o Brasil possui a mais avançada tecnologia de criação intensiva de rãs. As perspectivas futuras são extremamente favoráveis porque: – O clima é favorável a criação de rãs em quase todo o território brasileiro. – Infra-estrutura de apoio existente: possuímos fábricas de rações, redes de abatedouros e empresas para processamento e distribuição da carne e outros produtos. – Tradição na atividade: a ranicultura é praticada no Brasil desde a década de 30. Os produtores contam com o apoio de associações de classe, instituições governamentais de pesquisa e fomento da ranicultura. A caça destes animais é proibida por lei em todo o território enquanto que o cultivo é estimulado por gerar receitas. – Recursos humanos: A massa crítica já consolidada possui capacidade de multiplicar este potencial formando novos técnicos, fato fundamental para expansão da atividade. – Domínio tecnológico: Todo processo de criação, abate, processamento e comercialização está consolidado, faltando apenas recursos financeiros de forma a aumentar a nossa produção para atender ao reprimido mercado.

Apesar da privilegiada situação da ranicultura, o produtor brasileiro ainda não conquistou o mercado internacional. Atualmente a comercialização da carne de rã no mercado externo é dominado por países que ainda permitem a caça de animais na natureza (Indonésia, Banghladesh, Turquia, Cuba entre outros). Isto ocorre pelas seguintes razões: – Os preços praticados por esses países no mercado internacional é bem menor que o do ranicultor brasileiro no mercado interno. – O custo de produção de carne de rãs no Brasil é muito superior ao dos países que praticam a caça, pois estes nada gastam nesta atividade. – o volume da produção brasileira (200 t. em 1992), é insignificante frente a demanda, não conseguindo atender o mercado interno. Sendo assim não há interesse em exportar.

A ranicultura brasileira corre um grande risco de perder sua liderança tecnológica pois países vizinhos já estão investindo maciçamente na atividade e em breve poderão superar o Brasil. Vários já enviaram seus técnicos ao nosso país para absorverem a tecnologia aqui desenvolvida. Alguns já iniciaram seus trabalhos como é o caso do México, com uma equipe de investigadores em Mérida; Cuba que já implantou um ranário experimental no Centro de Aqüicultura de Havana; Espanha, com uma equipe na Universidade de Leon; e Chile na Universidade de Concepcion.

Outros países estão se estruturando também, como a Tailândia, que enviou uma comitiva de oito técnicos, que percorreram os principais ranários do país.

Inúmeros ranicultores estrangeiros tem estado aqui e já estão investindo em seus ranários por iniciativa própria nos seguintes países: Equador, Colômbia, Argentina, Uruguai, Venezuela, Itália, França e Turquia. Tal fato aumenta os riscos da transição atual da ranicultura que se caracteriza pelo impasse criado em conseqüência da crise econômica que o nosso país atravessa. Descapitalizado, o ranicultor não tem condições para reformar ou ampliar suas instalações, e novos produtores que poderiam investir não se interessam, porque preferem aplicar na ciranda financeira.

Fato mais grave é o sucateamento dos laboratórios que não recebem nenhum recurso para pesquisas há mais de dois anos nem a correção dos salários dos pesquisadores. É o caso da Universidade Federal de Viçosa, que mesmo com vários projetos aprovados no CNPq e na FINEP não tem recebido o financiamento para executar as pesquisas, muitas delas temas de tese de estudantes de pós-graduação.

Deve-se lembrar que é considerável o volume de recursos já aplicados na ranicultura brasileira pois somente na implantação dos ranários de médio e grande porte (2 a 40 ha.), foram investidos pela iniciativa privada mais de 10 milhões de dólares. Muito mais foi gasto na implantação e custeio de centenas de ranários de pequeno porte e experimentais das instituições de pesquisas e universidades. Isto sem contar os abatedouros especializados em processar rãs (atualmente cinco com serviço de inspeção).

Temos que aceitar o nosso destino de país subdesenvolvido? Logo agora que a ranicultura pode deslanchar, gerando empregos, lucros para o produtor e divisas para o nosso país? Acreditamos que não, pois é durante a crise que aprendemos o quanto é importante a união e o trabalho de todos. Basta que juntos, produtores e pesquisadores, lutemos para obter os recursos necessários para ampliar rapidamente a nossa capacidade de produção.

Temos todas as condições para que de três a cinco anos sejamos o maior produtor mundial de carnes de rãs produzidas dentro da mais avançada tecnologia e processada dentro das normas higiênico-sanitárias internacionais, e com uma grande vantagem: sem prejudicar o ambiente, preservando as populações naturais de rãs.