A RÃnicultura

Por: Samuel Lopes Lima


Aspectos Gerais do Animal

Apreciada pelo homem pelas qualidades de sua carne, pouco a pouco as rãs deixam de ser um produto da atividade extrativista (caça) para ser explorada zootecnicamente. Já é possível encontrar nos supermercados e delicatessens, carne de rãs em embalagens sofisticadas, processadas dentro das normas internacionais, procedentes de criatórios comerciais (ranários).

Diferentes dos sapos (Bufonidae) e das pererecas (Hylidae), as rãs comestíveis são espécies que podem pertencer a família Ranídae (a mais conhecida é a rã-touro) ou Leptodactylidae (rã manteiga, rã pimenta, etc.). Geralmente são de grande porte (100 a 1.000 g), com pele úmida e lisa, o que as diferenciam dos sapos, que entre outros aspectos possuem uma glândula venenosa, pele seca e áspera, podendo se afastar da água, chegando a viver em regiões áridas. Já as pererecas são pequenas e arborícolas por possuírem ventosas nos dedos e também não são comestíveis.

As rãs são animais anfíbios que possuem dois tipos de vida bem distintas: a aquática (girinos) e a terrestre. Para se adaptarem ao segundo ambiente, sofrem uma metamorfose, transformando-se de girino a imago (rãzinha). Tal processo consiste na mudança da forma do corpo, que adquire membros articulados, do hábito alimentar (herbívoro, iliófago ou onívoro para carnívoro) com drásticas modificações no tubo digestivo (passa a ser monogástrico) e do sistema respiratório, passando de branquial para pulmonar e cutânea, possibilitando assim que respire o ar atmosférico.

Ciclo de Vida no Ranário

O ciclo de vida das rãs em um ranário (figura 1), se inicia no setor de reprodução. Das baias de mantença onde permanecem durante todo o ano, os reprodutores são transferidos para os compartimentos de acasalamento onde ocorre o amplexo nupcial (reprodução). Concluído o acasalamento, a desova é transferida para o setor de girinos.

Os ovos passam por vários estágios de desenvolvimento: embriões, larvas, girinos em fase inicial, crescimento e metamorfose. Concluída a metamorfose tem-se os imagos (rãzinhas), que são transferidos para o setor de recria, onde passarão pelo processo de engorda, alojados primeiramente nas baias iniciais e após 40 g nas baias de crescimento e terminação. Alcançando o peso de abate, as rãs são coletadas e transportadas para o abatedouro, onde serão processadas e posteriormente comercializadas. A carne finalmente chega ao prato do consumidor.

Técnica de Criação

A tecnologia empregada na ranicultura possui dois aspectos peculiares a outros animais já domesticados pelo homem.

Na fase aquática (setor de girinos), é muito semelhante a empregada no cultivo dos demais organismos aquáticos, principalmente os peixes, razão por ser enquadrada como uma especialidade da aqüicultura. Já na fase terrestre (setor de cria), ela é muito semelhante a empregada para os demais organismos monogástricos, particularmente os frangos. Tal fato, tem uma importância fundamental para o desenvolvimento acelerado da tecnologia de criação de rãs pois, ao buscar a metodologia empregada para os animais já domesticados, cujas técnicas estão mais avançadas, os pesquisadores avançam muito mais rapidamente em suas investigações.

Vamos abordar resumidamente alguns aspectos da tecnologia de criação de rãs em caráter intensivo, baseados nas propostas de manejo descritas por Lima & Agostinho (1988 e 1992) para o sistema anfigranja, tecnologia genuinamente brasileira.

1- Setor de Reprodução

Quando atingem a maturidade sexual, os machos passam a adotar o comportamento de atração das fêmeas para o acasalamento. Inflam a região gular e cantam para atraí-la. Disputam seu território com outros machos.

Estimulada pelas condições ambientais, o ovário da fêmea se desenvolve e elimina os óvulos, aliás, ovócitos, para seu oviduto. Nesta hora ela escolhe o macho e iniciam o acasalamento, com o abraço ou amplexo nupcial do macho sobre suas costas. Caso não encontre um macho que lhe agrade ou que não consiga concluir o acasalamento, ela irá “abortar”, ou seja eliminar seus ovócitos.

No ranário, este acasalamento pode ocorrer coletivamente, ou seja, em uma baia onde os reprodutores permanecem durante todo o tempo, acasalando-se quando as condições ambientais são favoráveis. Outra opção, é a utilização de baias de acasalamento individualizadas, que permite a ocorrência de apenas um acasalamento de cada vez.

É importante que o ranicultor tenha sempre um plantel de reprodutores, preferencialmente em baias onde os animais não tenham condições de se acasalarem (baias de mantença). Nelas o número de animais é elevado tornando o espaço restrito para este ato reforçado pela grande competição entre os machos. Assim, quando transferidos para uma baia de acasalamento, a possibilidade de ocorrer a reprodução é maior. Caso necessite, o ranicultor pode induzir artificialmente o acasalamento. Neste caso, terá que aplicar hormônios gonadotróficos sintéticos ou de hipófises retiradas de rãs doadoras. Se estiverem realmente preparadas, as rãs irão desovar no prazo de 24 a 48 horas.

Nas duas condições o ranicultor deverá saber escolher entre os reprodutores, aqueles que estiverem mais bem preparados para o acasalamento. Para tal, poderá empregar índices como o fator de condição que relaciona peso total com comprimento do corpo ou outro que relaciona o diâmetro do olho com o perímetro do abdômen. As fêmeas que apresentarem os melhores índices, serão aquelas que devem estar mais aptas para o acasalamento.

Nos casos dos machos, devem ser escolhidos aqueles que apresentam o comportamento típico de cantar e tenham as esponjas nupciais bem desenvolvidas apresentando ainda o reflexo de apertar, mostrando que estão prontos para o amplexo na fêmea.

2- Setor de Girinos (fase aquática)

No setor de reprodução, o acasalamento ocorre na água, com fecundação externa. O macho abraça a fêmea pelo dorso, enquanto esta fica mergulhada, liberando os óvulos. Simultaneamente, o macho libera os espermatozóides e assim vai se formando a desova, um conjunto de ovos que flutua na superfície da água. Uma a duas horas depois do acasalamento, a coleta da desova pode ser realizada pelo tratador, com o auxílio de uma vasilha plástica ou peneira, sendo então transportada para o setor de girinos em bandeja ou balde plástico.

Ao chegar, o primeiro procedimento será a limpeza, retirando possíveis fragmentos de vegetação, pequenos animais e grumos de ovos que não foram fecundados. Em seguida, o ranicultor deverá contar os ovos por amostragem do volume ou peso. Anotando o peso total, retira-se uma pequena amostra e realiza-se a contagem de todos os ovos. Com uma regra de três simples, tem-se o número estimado do total de ovos. A densidade recomendada para esta fase é de 2 ovos para cada litro de água.

Embriões

Após fecundado, o ovo se divide várias vezes e se desenvolve formando o embrião dentro de uma cápsula gelatinosa. Chamamos esta fase de incubação, quando são utilizadas incubadeiras horizontais, que tem como vantagem manter os ovos bem próximo a superfície, facilitando a respiração dos animais. Podem ser instaladas diretamente no tanque de criação ou em salas especiais denominadas estufas, onde os ovos permanecem até a eclosão. Utiliza-se também incubadeiras dentro de tanques-rede que além de facilitar o manejo após a eclosão, diminui a ação dos predadores.

Outra alternativa para esta fase é a incubação em caixas ou bandejas plásticas em local sombreado e bem ventilado.

Larvas

Dentro da cápsula gelatinosa, o embrião inicia os batimentos cardíacos e as contrações esporádicas do corpo, tomando gradativamente a forma de larva. Na seqüência do desenvolvimento, as larvas eclodem, ou seja, saem da cápsula e procuram se fixar nos substratos ou paredes do tanque. Nesta hora o ranicultor deve liberá-las da incubadeira.

Nesta fase o animal ainda possui reserva de vitelo no seu abdômen, portanto não se alimenta. Possui brânquias externas necessitando de água bem oxigenada e para isso, o ranicultor deve manter a água circulando continuamente, entrando por cima e saindo por baixo do tanque.

Girinos – Fase Inicial

Seguindo seu desenvolvimento, as larvas transformam-se em girinos. Suas brânquias agora funcionam internamente no corpo e nadam ativamente pelo tanque a procura de alimento. É hora do ranicultor iniciar o manejo alimentar com cuidado, pois ele está a procura de alimento natural, basicamente constituído de microorganismos. A medida que o estoque de alimento natural diminui, as larvas passam, aos poucos, a se alimentar de ração, que não deve ser oferecida em excesso para não fermentar e poluir a água. Durante esta fase, a água deve circular continuamente.

Logo que atinjam 0,3 g, o ranicultor deve retirá-los do tanque-rede ou, se os colocou diretamente no tanque, deve trocar a tela por uma malha maior (3 mm), o que favorece a limpeza e a retirada de impurezas do fundo do tanque.

Girinos – Fase de crescimento (G1)

Os girinos crescem rapidamente, multiplicando seu peso em poucos dias, por isto chamamos de fase de crescimento, ou simplesmente G1.

A partir de 0,5 g, o manejo fica mais fácil para o ranicultor, pois com este tamanho, o animal resiste mais ao estresse provocado pelo impacto da água corrente, permitindo aumentar a circulação de água no tanque.

No sistema anfigranja, desenvolveu-se tanques especiais, que podem ser retangulares ou circulares, cuja principal característica é facilitar o manejo da água. Possuem uma forte inclinação no fundo, com uma extensa canaleta de drenagem com a saída da água por cotovelo roscável.

Diariamente o ranicultor drena os resíduos para a canaleta central com conseqüente saída pelo cotovelo. A operação é auxiliada pela entrada da água pelo fundo através de um conjunto de tubos com esguichos que formam uma corrente em direção ao dreno. São retirados de 10 a 20 % do volume de água. Durante o reabastecimento, a entrada da água pelo fundo promove um grande movimento ascendente circular oxigenando-a, retirando os gases tóxicos e uniformizando a sua temperatura. Durante o período mais quente do ano, este procedimento deverá ser repetido duas a três vezes por dia, com o objetivo de abaixar a temperatura da água do tanque.

Girinos – Fase de Metamorfose

Após a fase de crescimento, os girinos iniciam o processo de metamorfose, que consiste nas mudanças da forma e da fisiologia de seu corpo, passando pelos sub-estádios de G2, G3, G4 e G5.

Externamente, o que pode ser observado é o crescimento das duas patas posteriores; as pernas traseiras estão maiores e, simultaneamente, as anteriores também estão se formando dentro do corpo. O clímax da metamorfose inicia-se quando as anteriores aparecem.

Além dessas, outra modificações ocorrem internamente: as brânquias vão desaparecendo e os pulmões e o coração vão se desenvolvendo para ampliar a capacidade de retirar o oxigênio do ar atmosférico, também retirado pela respiração cutânea e região interna do papo (gular), onde existe grande vascularização. O tubo digestivo, antes alongado, fica mais curto para ser capaz de digerir outros tipos de alimento. Aliás, neste momento, o animal pára de se alimentar, pois sua boca também está se modificando; durante alguns dias ele se nutre do material que transforma de sua cauda, que gradativamente vai sendo absorvida.

O ranicultor, caso tenha interesse em acelerar este processo, pode induzir a metamorfose utilizando hormônio tireoidiano (tirosina), na dosagem de 10 microgramas para cada 1 quilograma de biomassa, misturada à ração.

Imagos

No clímax da metamorfose, quando absorve a cauda, o animal necessita de muita tranqüilidade. Nesta hora, o ranicultor poderá empregar uma vegetação flutuante (o aguapé, por exemplo) ou os coletores de imagos – caixas onde os animais encontram as condições ideais para concluírem a metamorfose. Nelas estarão protegidos das variações extremas de temperatura e poderão ser coletados mais facilmente.

Concluída a metamorfose o imago será transportado para o setor de recria após uma triagem, onde os “refugos’’ (animais debilitados ou com deformações) são eliminados. Aqueles que ainda não concluíram a metamorfose, são devolvidos para o tanque.

Manejo alimentar

A ração utilizada para alimentar os girinos pode ser oferecida em pó ou em péletes. Se em pó, deverá ser moída em partículas bem finas de aproximadamente 0,2 mm (tipo fubarina), de modo que ao ser colocada no tanque, forme uma película sobre a superfície da água, possibilitando a fácil ingestão pelos animais e minimizando a competição entre eles.

O alimento deve ser servido 4 vezes ao dia, pois os girinos da rã-touro distribuem-se por todo o tanque, em constante atividade, comendo seguidamente.

Seu aparelho digestivo necessita de constante disponibilidade de alimento.

Num ranário onde é possível o perfeito controle da temperatura a 25 ºC, o ranicultor poderá utilizar a tabela que indica a quantidade de ração a ser oferecida diariamente, baseando-se no peso médio dos girinos (figura 2).

Entretanto, nos ranários comerciais, os animais estão sujeitos às variações diárias da temperatura ambiente que ocorrem entre o dia e a noite, provocando constantes flutuações na temperatura da água. Nestes casos, a quantidade de alimento a ser consumido pelos girinos pode variar diariamente. Tal fato exige que o ranicultor verifique constantemente a quantidade de alimento que foi consumido em cada tanque e, se houve sobra, deve diminuir a oferta. Se, por outro lado, todo alimento foi totalmente consumido, deve ser acrescentado um pouco mais no dia seguinte. Assim, a tabela citada serve apenas como referência.

Uma das maneiras para solucionar tal impasse é a utilização dos cochos submersos, empregando-se a ração fina, mas em forma de péletes ou agregada.

A vantagem dos cochos submersos (pequenas bandejas plásticas), é de facilitar o controle do consumo da ração. A desvantagem fica por conta da maior competição entre eles na captura do alimento. Tal competição pode provocar um “efeito de dominância” resultando em uma desuniformidade no crescimento em função da dificuldade que os girinos menos agressivos têm, de acesso ao alimento, pela ação daqueles mais fortes ou dominantes. Para diminuir este inconveniente, os cochos devem ser colocados em número proporcional à densidade de girinos dentro de cada tanque e distribuídos em posições eqüidistantes.

3- Setor de Recria (fase terrestre)

O setor de recria possui dois tipos de baias: a inicial, para rãs de até 40 g e a de crescimento e terminação para rãs de 40 a 200 g. Na baia inicial, o cocho deve estar bem perto da água. Depois que as rãs crescem, entretanto, esta disposição deve se modificada para que o cocho fique distante da piscina evitando que molhe e acarrete perda de ração.

Pode-se também construir um ranário com uma baia mais versátil, que permita recriar as duas fases. Neste caso, quando as rãs atingem 40 g, o ranicultor terá que alterar o nível da água, afastando-a do cocho, e ampliar a área dos abrigos.

É nos abrigos que as rãs se refugiam dos estranhos, descansam e dormem, mas, tecnicamente, sua principal função é distribuir uniformemente os animais em toda a extensão da baia, assim, ao saírem, encontram alimento sem muita competição. Os cochos mais modernos da anfigranja passaram a ser longitudinais, permitindo maior facilidade no manejo diário. Podem ainda receber um mecanismo de vibração, que ainda está em fase de teste, que consiste em um fio central, movimentado por um conjunto elétro-mecânico, e tensionado na outra extremidade. Sua vibração movimenta levemente a ração.

O ranicultor pode optar também pelo artifício de condicionar as rãs a se alimentarem somente com ração, oferecendo as larvas de mosca apenas nos primeiros dias, reduzindo gradativamente até que todas se condicionem a capturar os péletes de ração sem o movimento. A larva de mosca continua a ser a melhor opção, pois é um importante suplemento alimentar.

Nas piscinas, as rãs se hidratam absorvendo água pela pele, regulam sua temperatura corporal, defecam e eliminam a urina, portanto sua profundidade deve variar de acordo com o tamanho dos animais, oferecendo maior conforto para que possam realizar suas necessidades fisiológicas.

Manejo alimentar

Também nesta fase, utiliza-se a ração de truta porque pouco se conhece sobre as exigências nutricionais da rã-touro. Existem várias empresas que produzem estas rações em péletes de vários tamanhos. As rações extrudadas são mais eficientes. Para as rãs na fase inicial, os péletes devem ser de 3 a 5 mm, e na fase de crescimento e terminação, acima de 7 mm. No caso do uso da larva de mosca, adiciona-se de 2 a 3 % do peso da ração a ser oferecido em cada cocho, para estimular a sua ingestão.

O ranicultor deve efetuar duas triagens dos animais durante a fase de recria. A primeira, na fase de imagos, eliminando os que apresentarem deformações ou aspecto debilitado, e na medida do possível colocando em cada baia imagos do mesmo tamanho, uniformizando ao máximo o plantel. A segunda triagem ocorre quando os animais alcançam um peso médio de 40 g. Aqueles que não atingiram este peso, retornam para a mesma baia, enquanto que as outras são transferidas para a baia de crescimento e terminação.

A desuniformidade no crescimento observada nos lotes de rã touro, ainda é decorrente da grande variabilidade genética das linhagens, deficiência das instalações do ranário ou no manejo alimentar, o que tem provocado, nos ranários tradicionais, o canibalismo, trazendo prejuízos aos ranicultores.

Recomendações ao Ranicultor

A fuga de animais de um ranário representa prejuízo para o ranicultor e riscos para a natureza, portanto, o ranicultor deve instalar telas, caixas protetoras e filtros para evitar que desovas, girinos e rãs saiam de seu estabelecimento.

Outra recomendação importante, são as medidas preventivas contra a proliferação de doenças no ranário. As rãs mortas devem ser retiradas imediatamente das instalações, em vasilhame exclusivo para tal, e lançadas em uma fossa séptica exclusiva para este fim.

Uma medida importante é utilizar um conjunto de material de limpeza para cada baia, principalmente as vassouras. A mesma regra deve ser seguida para cada um dos setores. O material deve ser periodicamente desinfetado.

Na entrada de cada setor, deve se instalar um pedilúvio, contendo desinfetante a base de cloro e/ou iodo.

O uso do uniforme, além de ter um importante papel estético, é um importante protetor a saúde do tratador. A bota e a roupa devem ser utilizadas apenas dentro do ranário para evitar que tragam de fora material que possa contaminar o ambiente.

O ranicultor deve se lembrar que a simples observação no aumento do número de mortes deve ser o aviso suficiente para solicitar a ajuda de um veterinário.

Panorama da RÃnicultura Brasileira

A tecnologia de criação de rãs tem se desenvolvido rapidamente na última década. De meros “galinheiros” (cercados rústicos), os ranários modernos são verdadeiras “granjas” de rãs, com instalações e manejo sistematizados. O abate e processamento atualmente é realizado dentro das melhores condições higiênico-sanitárias, atendendo as normas internacionais de processamento animal, até chegar a mesa do consumidor. O mercado da carne, o principal produto das rãs, tem duplicado a demanda a cada ano, na medida em que se conquista novos consumidores o que por sua vez vem estimulando o aumento da produção.

No Brasil, ainda líder nessa tecnologia, tal evolução se deve ao esforço da comunidade científica e do ranicultor. Considerado como utópico, sonhador, exótico e outros adjetivos, o ranicultor acreditou na potencialidade da ranicultura, investiu, trabalhou muito, cobrou ajuda das instituições de pesquisa e agora tem a resposta: lucros.

Os índices de produtividade gradativamente estão se otimizando. A produção tem crescido rapidamente, mas a demanda está se ampliando mais rápido ainda. Os preços atingem valores estratosféricos. A um custo de produção estimado entre R$ 3,69 e R$ 4,80, cada quilo de carne está sendo comercializado entre R$ 10,00 a R$ 12,00 (preço do ranicultor), e acima de R$ 18,00 a nível de consumidor. Mas, nem sempre foi assim: há poucos anos atrás, vários investimentos fracassaram. Os ranários tradicionais foram desativados, pois a tecnologia era muito incipiente. Só nos últimos anos, com a atuação dos pesquisadores é que a atividade começou a se consolidar empresarialmente. O preço do pioneirismo tem sido muito caro para aquele ranicultor que continua na atividade.

Para alcançar o sucesso, o empresário tem que investir em tecnologia e manter-se atualizado. Dentro deste contexto, a participação dos pesquisadores tem atendido as reivindicações dos ranicultores brasileiros, pois grande parte do aumento da produção foi possível, graças aos trabalhos de pesquisas que propiciaram significativos ganhos na produtividade.

Sistemas de criação utilizados

Considerando-se que um sistema compreende o conjunto de técnicas empregadas para a criação de rãs, particularmente quanto às instalações e ao manejo, pode-se afirmar que, atualmente, os ranários brasileiros não possuem um sistema padrão, com exceção daqueles que adotam o sistema anfigranja. Na maioria dos casos o ranicultor construiu seu criatório de acordo com as informações que obteve em breves visitas e contatos com ranicultores, ou retalhadas da escassa literatura. Normalmente ele próprio projetou suas instalações, pois são raros os técnicos especializados. O que existe na literatura são algumas propostas de instalações específicas para a fase de recria, que por si só não constituem um sistema completo da criação. Os principais tipos de instalações que podem ser encontradas, para esta fase, nos ranários atuais são:

• Tanque-ilha (Fontanelo et al, 1980): são baias que consistem em um cercado, geralmente com tela de náilon com um formato quadrado, com dimensões que podem variar de 9 a 100 m2 em piso de terra. Internamente possui um tanque formando uma ilha central (piso de cimento) onde as rãs recebem o alimento. A piscina apresenta uma profundidade de aproximadamente 50 cm e largura de 50 a 100 cm. Mais recentemente os autores passaram a recomendar a utilização de cobertura plástica para ampliar a temperatura para 41 ºC e otimizar a produtividade (Fontanelo et al,1993).

• Confinamento (Oliveira, 1982,1984): cercado em placas de cimento pré-moldado, possui um formato retangular com piso totalmente em concreto e suas dimensões podem variar de 4 a 12 m2. Internamente possui um tanque raso (5 a 20 cm de profundidade) em uma extremidade, ocupando cerca de 20 a 30% da área. No restante do espaço, as rãs recebem o alimento, onde existe uma pequena cobertura com telhas de fibrocimento. Mais recentemente os ranicultores passaram a utilizar cochos e abrigos nesta área.

• Anfigranja (Lima & Agostinho, 1988): construídas sob coberturas tradicionais (galpões) as baias de recria possuem uma disposição linear de seus elementos básicos (cocho, abrigo e piscina) e dimensões que podem variar de 12 a 40m2. Mais recentemente os autores passaram a investigar instalações e manejo para o setor de girinos e reprodução, objetivando constituir a proposta anfigranja em um sistema de criação padronizado para todas as fases da criação (Lima & Agostinho, 1992).

• Ranabox – Desenvolvido em 1991 pelo ranicultor Haroldo Aguiar (Contagem-MG), que requereu patente e comercializa o equipamento, é também destinado para a engorda ou recria das rãs. Consiste em um conjunto de peças sobrepostas verticalmente (telha de fibroamianto ou fibra de vidro), com espaços de aproximadamente 30 cm, formando uma bateria. As ondulações da telha formam os cochos e outras, a piscina. O inventor tem procurado aperfeiçoar o equipamento, desenvolvendo cocho vibratório, controle de temperatura e fotoperíodo. Apesar de ser uma proposta muito interessante, efetivamente, pouco se conhece dos resultados de produtividade. O que tem se observado é que os compradores estão encontrando dificuldades em manejar o equipamento que na maioria estão desativados.

É interessante salientar que as instalações citadas acima foram colocadas para o domínio público pelos pesquisadores, que reconhecem que a tecnologia ainda está em fase de consolidação, portanto cada tipo de instalação tem suas vantagens e limitações. Falta uma tomada de postura mais integrada, somando os esforços para buscar uma padronização da tecnologia, ganhando-se tempo, economizando-se recursos e avançando mais rapidamente nas soluções dos problemas.

Sendo assim, um observador que visitar os ranários brasileiros poderá, com facilidade, verificar que não existe uma padronização nas instalações. Na maioria dos casos, cada qual fez seu próprio projeto, mesclando as alternativas propostas. Quase todos estão em fase de expansão, remodelando suas instalações, absorvendo os avanços tecnológicos resultantes das pesquisas, procurando otimizar os índices de produtividade e buscando ampliar a produção. O resultado é que os ranários pioneiros são hoje híbridos, em suas instalações. E esse processo continua, os proprietários dos ranários mais novos ainda tentam copiar o que viram ao visitar os ranários pioneiros. Está chegando a hora do investidor levar em consideração que todo projeto precisa de um especialista para orientá-lo.