A Tilapicultura Cearense:

Uma reflexão sobre a capacidade de suporte dos reservatórios

Por:
Mauricio Mussi Molisani*, e-mail: [email protected]
Luciano J. Amorim Leite* , e-mail: [email protected]
Eduardo G. Gentil de Farias* , e-mail: [email protected]
* Instituto de Ciências do Mar – Universidade Federal do Ceará


A Região Nordeste vem assistindo a rápida expansão da tilapicultura, principalmente no Ceará, onde um número crescente de tanques-rede vem ocupando os inúmeros reservatórios do Estado. Entretanto, muitos desses reservatórios foram construídos muito recentemente e pouco se sabe sobre a complexidade do seu metabolismo, quase sempre sujeitos a um complexo regime pluvial, onde secas muito prolongadas se alternam com chuvas volumosas e intensos sangramentos dos seus vertedores. O presente artigo mostra a complexidade desses ecossistemas e alerta para a necessidade de se relacionar os intricados processos ecológicos desses ambientes aquáticos com as atividades de produção de pescado.

A tilapicultura, atividade de produção de tilápia em cativeiro vem se consolidando como uma das principais atividades de aqüicultura no mundo. Além da grande rusticidade que lhe é característica, conferindo um ótimo desenvolvimento zootécnico, a tilápia apresenta um filé de coloração branca, bastante apreciada no mundo, e que está suprindo, cada vez mais, a limitação de pescados brancos de captura.

No Brasil, a produção de tilápia está concentrada, em sua maioria, na Região Nordeste do país, sendo o Estado do Ceará o principal produtor nacional. A produção brasileira gira em torno das 100.000 toneladas anuais, onde o Ceará participa com aproximadamente 40% desse total. O sistema de cultivo predominante na região é o de gaiolas ou tanques-redes instalados em reservatórios. Um grande fator que justifica a crescente produção da tilapicultura no Estado do Ceará, além das condições climáticas, que é extensiva a toda a Região Nordeste, é a grande quantidade de reservatórios disponíveis para a atividade. Segundo a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, em todo o Estado do Ceará existe em torno de 1.300 açudes com área acima de 20 ha, dentro de um universo de quase 5.000 reservatórios, se considerarmos os corpos de água menores.

Diante da tendência de crescimento da tilapicultura nos reservatórios do Estado do Ceará devemos fazer uma análise crítica sobre a capacidade destes ambientes aquáticos em “suportar” taxas crescentes de produção, mantendo o funcionamento dos processos ecológicos e as condições de qualidade das águas. Essa análise se faz extremamente necessária pelo fato de que as águas dos reservatórios no Ceará, principalmente os reservatórios públicos, são prioritariamente utilizadas para o consumo humano, fato que exige a preservação da qualidade ambiental do recurso hídrico, como também a sustentabilidade da produção a médio e longo prazo.

A introdução de uma atividade econômica em reservatórios requer estudos sobre a capacidade de suporte de corpos lacustres visando o processo de produção dessa atividade, bem como a influência relativa das atividades existentes no entorno e ao longo da bacia de drenagem. É preciso também analisar os possíveis efeitos causados por essas atividades nas características físicas, químicas e biológicas dos reservatórios. Sendo assim, inicialmente precisamos conhecer as condições de qualidade das águas do corpo hídrico e dos processos ecológicos que determinam estas condições. Porém, a disponibilidade destas informações no Estado do Ceará, principalmente as relacionadas a dados de longo período, é muito reduzida. Os poucos dados existentes estão dispersos em órgãos ambientais, sendo freqüentemente gerados e analisados para outros fins. Diante do crescimento da atividade se faz urgente a criação de um banco de dados para o Estado que englobe informações técnicas sobre a produção e manejo da tilapicultura e as condições ambientais dos reservatórios cearenses, de forma que essas informações conjugadas sirvam como ferramentas de estudo sobre a capacidade de suporte destes ambientes.

Metabolismo de ambientes lacustres

A análise do metabolismo dos reservatórios cearenses passa, principalmente, pelo conhecimento sobre as variáveis ambientais abióticas e bióticas, o entendimento da relação entre estas variáveis e, por fim, pela influência do clima semi-árido e do regime de chuvas. Este entendimento poderá viabilizar o manejo e a maximização da produtividade de atividades como a tilapicultura, que utilizam a estrutura ecológica de um reservatório.

Considerando que estes corpos aquáticos têm ligações com áreas a montante da bacia de drenagem através do escoamento superficial e do fluxo dos rios, é importante ressaltar que os ambientes lacustres não são sistemas homogêneos nem isolados, e que o metabolismo destes ambientes podem ser determinados por fatores naturais e antrópicos, localizados no próprio reservatório, ou até mesmo em áreas distantes.

A disponibilidade hídrica ocasionada pela formação dos inúmeros reservatórios cearenses leva a introdução de várias atividades no entorno desses reservatórios ou em áreas próximas, como os perímetros de irrigação, piscicultura, assentamentos populacionais, entre outros. Essas atividades podem se tornar fatores determinantes do metabolismo destes ambientes aquáticos.

O extenso período de ausência de chuvas e, consequentemente, de entrada de água pelos rios, ocasiona variações sazonais nos níveis de água dos reservatórios. O período de seca impõe um aumento da importância dos processos internos de um reservatório, enquanto que durante o período de chuvas aumenta a influência de fatores naturais e antrópicos externos ao reservatório, determinando modificações no seu metabolismo. Esses fatores interferem também na sustentabilidade das atividades realizadas nesses corpos d’água.
Muitos reservatórios cearenses são relativamente recentes, e, por isso mesmo, deve-se pensar que ainda estão sendo definidas as sua condições ecológicas e que a introdução de atividades nessas águas podem gerar importantes impactos ecológicos.

Tilapicultura e o aporte de nutrientes para reservatórios

Alguns estudos sugerem a influência da piscicultura em tanques-rede no aumento nas concentrações de fósforo, nitrogênio e matéria orgânica tanto na água quanto nos sedimentos de reservatórios (Gui & Li, 2003, Aquaculture, 226, 201-212). Um outro estudo mostra o aumento nas taxas de sedimentação do material particulado em suspensão e nas concentrações de nitrogênio amoniacal e fósforo total e na tendência de acidificação (Alves & Bacarin, 2006, Ecologia de Reservatórios, cap. 15, 329-347). Estes dados mostram que os impactos nas condições de qualidade das águas podem se estender em até 50 metros a partir da área de produção. Considerando que a legislação brasileira libere até 1% da área de um reservatório para a introdução de tanques-rede, devemos atentar que possíveis impactos gerados pela atividade podem se estender por uma área maior que a área liberada para o uso.

Por outro lado, um estudo (Hakanson et al, 1998, Aquacultural Engineering, 17, 149-166) mostra a ausência de aumento esperado das concentrações de fósforo dissolvido nas áreas de produção, indicando que os ambientes lacustres têm a capacidade, embora limitada, de tamponar possíveis efeitos negativos da tilapicultura. Deste modo, a análise dos estudos disponíveis sugere que a piscicultura realizada de maneira adequada, e que respeita a capacidade de suporte de cada ambiente, se mostra viável.

Tempo de residência e suscetibilidade

O principal impacto relativo à tilapicultura é o aporte adicional de nutrientes para a coluna d’água, devido à ração não incorporada pela biomassa produzida e pela liberação das fezes e secreções dos peixes. Embora o tipo de ração utilizada e as práticas de alimentação variem entre as áreas de produção, em geral, a carga de nutrientes oriundos da emissão pela criação de tilápia em tanques-rede pode ser atribuída a alguns fatores, como por exemplo, a baixa digestibilidade de algumas rações.

A capacidade de suporte de um reservatório está relacionada também com a capacidade do corpo hídrico em diluir essa carga extra de nutrientes via ração não incorporada pela biomassa produzida e pelas fezes e secreções metabólicas, e/ou por outras emissões provenientes das atividades humanas no seu entorno. Esta capacidade de diluição é relativa não só ao volume d’água do reservatório, como também ao tempo de renovação dessas águas. Estes parâmetros podem ser obtidos através do balanço hídrico de um reservatório, que é determinado pela relação existente entre as águas que entram via rios e chuva e pelas águas perdidas através da evaporação e vertimento pela barragem.

Devido ao clima semi-árido, os reservatórios do Estado do Ceará não recebem água dos rios contribuintes e da precipitação durante a estação de seca, que pode se prolongar por vários meses ou até anos. Do mesmo modo, o regime climático impõe aos reservatórios cearenses altas taxas de evaporação e, de acordo com o regime de operação das barragens, muitos dos reservatórios públicos do Ceará liberam água pelas barragens somente em casos de “sangramento”.

Partindo do balanço hídrico podemos entender o tempo de residência das águas em um reservatório, que é o tempo necessário para se renovar por completo todo o volume de água armazenado. Esta variável ambiental é usualmente utilizada para se determinar a susceptibilidade de um ambiente aquático, por exemplo, a eventos de eutrofização. Em grandes reservatórios como o de Castanhão (volume médio de 4,4 bilhões de m3), o tempo de residência no período de chuvas pode chegar a 132 dias, enquanto que no período de seca a renovação completa das águas levará mais do que 1.000 dias, ou seja, todo o período de estiagem. Deste modo, há a necessidade de um manejo adequado das atividades como a tilapicultura, pois possíveis alterações ambientais, como os eventos de eutrofização, podem persistir por longos períodos.

Açude Castanhão (foto Jomar C. Filho)
Açude Castanhão (foto Jomar C. Filho)

Assim, análises criteriosas devem ser feitas para a escolha de áreas preferenciais para localização dos tanques-rede dentro de um corpo hídrico. Parâmetros como área, volume, profundidade, direção de correntes e ventos devem ser considerados para se estabelecer o tempo de residência, capacidade de dispersão e diluição de efluentes em uma área a ser escolhida dentro de um reservatório. Essas informações junto às análises físico-químicas e biológicas em áreas de produção e em áreas de controle, e a condição de manejo de cada estação de produção, proporcionarão uma análise integrada da influência da piscicultura nas condições ambientais e nos processos controladores.