Acará disco, o rei dos aquários

Este título honorífico ao acará disco é uma homenagem que, segundo a maioria dos aquaristas, é merecida por sua conformação exótica, suas belas cores e pelo seu comportamento peculiar. A essas características soma-se outra de muita relevância, a de excelente lucratividade da sua produção. Uma boa parte dos produtores de peixes ornamentais deseja criar esta espécie, apesar de julgá-la de difícil produção: será isto um fato ou um mito? A seguir falaremos sobre esta espécie e seu cultivo, tentando responder a esta questão.


Por:
Manuel Vazquez Vidal Junior 
Universidade Norte Fluminense
e-mail: [email protected]


O termo acará disco engloba duas espécies, o Symphysodon discus e o Symphysodon aequifasciatus. A primeira espécie possui duas sub-espécies e a última possui três, todas restritas à bacia amazônica, ocorrendo em diversos rios como o Purus, Urubu, Madeira, Negro e Xingu, cujas águas caracterizam-se por possuir um baixo pH (entre 4,2 e 5,6), uma reduzida quantidade de sais e temperaturas elevadas com baixa amplitude térmica anual e diuturna (26 a 29°C).

Podendo atingir até 20 cm de diâmetro, o acará disco geralmente é de cor marrom amarelada, possuindo faixas verticais que lhe servem de camuflagem em meio às macrófitas de folhas estreitas. É comum que aquaristas, e mesmo os produtores novatos, pensem que todos os acarás discos capturados em ambiente natural não possuem cores intensas. Mas, em cada população é observada a presença de peixes com pontos vermelhos, azuis e verdes e, em algumas subespécies, a ocorrência de uma determinada cor é maior que das demais. Os exemplares selvagens que possuem cores mais intensas são, em geral, exportados e atingem valores elevados, destinando-se não só aos aquaristas dos países desenvolvidos, mas também aos grandes produtores destas espécies por aqüicultura, que os utilizam no desenvolvimento de novas variedades de acará disco ou para reduzir a endogamia em variedades já desenvolvidas.

Os principais países produtores de acará disco por aqüicultura são Cingapura, Tailândia, Alemanha e Estados Unidos. As variedades que foram desenvolvidas desde a década de sessenta ajudaram a popularizar esta espécie e são resultados do processo de seleção de exemplares em cada uma das subespécies e da hibridação entre elas. A princípio, variedades como a royal blue e a turquesa eram novidades e atingiam elevado valor no mercado. No entanto, as novas variedades lançadas posteriormente, contribuíram para que as variedades mais antigas fossem sofrendo acentuada redução no seu valor comercial, fato que também permitiu a sua popularização. As variedades citadas são vendidas atualmente pelos produtores numa faixa que vai de R$ 12,00 a R$ 25,00 reais o juvenil com 5 cm de diâmetro. Já as variedades mais recentes, como a malboro, a pele de cobra (snake skin) e a red spott atingem mais de 100 reais. Na faixa intermediária, estão a pigeon, a cobalto, a azul sólido, a verde oceano e outras.

Diversos aqüicultores que se dedicam à produção de peixes de corte podem também passar a explorar espécies ornamentais, dentre elas o acará disco. Em especial podemos sugerir essa diversificação para os produtores que operam em sistemas intensivos ou para aqueles que, por estarem em pequenas propriedades, têm cada vez mais dificuldades em se manter na aqüicultura dada a progressiva redução na margem de lucro dos peixes de corte.

Para a criação do acará disco é necessário dispor de água de baixa condutividade elétrica (abaixo de 80 m2/L), também conhecida como água mole, cujo pH deve ser corrigido para 6,0. É importante, também, que a água não possua teor de alumínio acima de 0,5 mg/L e que a temperatura se mantenha na faixa de 25 a 30°C.

Como a temperatura é o fator mais restritivo ao cultivo em tanques a céu aberto, é possível adotar o sistema asiático de produção de acarás disco, onde os reprodutores ficam permanentemente alojados em estufas e a engorda nos meses quentes e frios é feita em tanques externos e em tanques no interior de estufas, respectivamente (Foto 1). Os tanques externos de engorda devem ser dotados de telas que impeçam a ação de predadores como aves aquáticas e odonatas (Foto 2 ) . Já as estufas podem ser de alvenaria, e é importante que sejam dotadas de ventilação e de aquecimento, onde os peixes são mantidos em aquários de vidro ou, de preferência, em caixas de plástico ou de fibra, com capacidade entre 150 e 350 L.

Foto 1 Estufa com aquários
Foto 1 Estufa com aquários
Foto 2 – Tanques cobertos para impedir a presença de aves aquáticas e odonatas
Foto 2 – Tanques cobertos para impedir a presença de aves aquáticas e odonatas

Os reprodutores são alojados em grupos de seis a doze exemplares e a medida que os casais vão sendo formados, são transferidos para aquários ou caixas individuais, onde passarão toda a vida. A identificação do sexo dos indivíduos através do exame da papila genital não é difícil e, a simples colocação de um macho e uma fêmea em um aquário resulta na formação de um casal produtivo em não mais que 30% dos casos, o que justifica a adoção do manejo anteriormente citado, que aumenta este valor para mais de 50%.

O aquário do casal deve possuir um sistema de filtro ou ter um terço de sua água renovada diariamente. A alimentação dos reprodutores com ração (36 a 38% de PB e 3.100 Kcal/Kg) deve ser suplementada com alimentos vivos, como daphnias e tubifex, que podem ser cultivados.

Não se utiliza nenhum substrato no fundo do aquário, onde apenas é colocado um tubo de PVC de 75 mm em posição vertical, ou um vaso de barro invertido, que servirão de local para a deposição dos ovos, que nesta espécie são adesivos (Foto 3).

Foto 3 - Ovos depositados em vasos invertidos sendo cuidados pela fêmea de acará disco
Foto 3 – Ovos depositados em vasos invertidos sendo cuidados pela fêmea de acará disco

O casal vigia os ovos e posteriormente as larvas que, ao nascerem, permanecem aderidas ao ninho por dois dias e a seguir, já na fase de pós-larva, se alimentam do muco dos pais (Foto 4 ). É possível fazer a retirada da desova para incubá-la artificialmente, bem como a posterior criação das larvas. Este procedimento, entretanto, torna sua produção mais complexa.

Aproximadamente 20 a 30 dias após o nascimento, os alevinos não se alimentam mais do muco e podem ser transferidos para outras caixas ou para os tanques de cultivo. Essa transferência, porém, deve ser precedida da adaptação dos peixes à ração por no mínimo uma semana.

A ração para os alevinos e juvenis deve ter 40 a 42 % de PB, sendo a suplementação com alimentos vivos essencial para a intensificação da cor. Apesar da importância da alimentação natural, não devemos adotar a prática de adubação dos tanques de cultivo (externos ou não) uma vez que esta espécie é muito sensível à amônia.

Aos quatro meses de idade os juvenis já atingem o tamanho comercial, quando então devemos ter a precaução de transportá-los cuidadosamente em sacos plásticos acondicionados em caixas de isopor, minimizando o estresse e a variação de temperatura durante o transporte até o comércio.

O mercado de peixes ornamentais está em expansão ao redor do mundo, sobretudo nos países em desenvolvimento. No Brasil esta expansão vem sendo acompanhada pelo aumento progressivo no tamanho e na complexidade dos aquários comercializados, o que favorece sobremaneira não só a expansão do mercado do acará disco, como de outras espécies de porte relativamente grande.