Ah, vida dura!

Foi-se o tempo em que o sucesso de uma pescaria dependia das águas de um rio. A prática da pesca esportiva em pesque-pagues, tem crescido no Estado de São Paulo desde 1973, quando foi inaugurado o primeiro pesqueiro da região. Hoje, segundo informações da ABRAPPESC – Associação Brasileira de Piscicultores e Pesqueiros, podem ser contabilizados cerca de 1.300 pesqueiros no estado, um filão de mercado que movimenta grandes somas de dinheiro e que surpreende à todos aqueles que julgavam que o negócio seria apenas um modismo de vida curta, direcionado somente para o pescador amador.

A concorrência exacerbada e com muitas opções para escolha, gerou um mercado paralelo além da proposta da pescaria pura e simples, quando se percebeu que aquele pescador solitário e silencioso agora procura encontrar também nos pesqueiros, um local saudável para o convívio com sua família. Hoje, não bastam lagos e muitos peixes, é preciso oferecer infra-estrutura de lazer e consumo, proporcionando outros serviços como bons banheiros, lanchonetes, piscinas e playgrounds, que garantam o divertimento completo de fim-de-semana e conforto para as mulheres e crianças, que crescem tomando gosto pela pesca, ajudando a perpetuar esta atividade milenar.

Os pesque-pagues, onde a natureza próxima é uma boa oportunidade para se fazer amigos, tem atraído pessoas de todas as idades, inclusive idosos, cujo programa lhes proporciona uma qualidade de vida a mais. Geralmente, dispondo de mais tempo livre e um convívio social mais restrito, os idosos encontram na pescaria dos pesque-pagues, uma forma de ampliarem seus relacionamentos, trocando dicas e experiências sobre equipamentos, que há muito transformaram as simples varinhas em sofisticados artigos, quase sempre importados.

Profissionalização

A profissionalização da atividade cada vez mais exige que o lazer seja compatível com a qualidade dos peixes oferecidos e isso vem despertando em alguns comerciantes o interesse pela piscicultura. A experiência adquirida ao longo do tempo, lembra à esses proprietários que a origem dos animais na hora da compra e os cuidados no transporte são fundamentais para que se obtenha peixes saudáveis que evitem problemas futuros. Alguns, inclusive, começam a trabalhar com alevinos próprios para que possam ter um controle rigoroso da produção, diminuindo assim os riscos com doenças. Desta forma, precisam conhecer melhor o manejo dos sistemas hidráulicos, planejar seus tanques, prevenirem-se quanto a qualidade da água e controlar as espécies de peixes indesejáveis.

Trutas

Um fato curioso é que a preferência dos pesqueiros por determinadas espécies está determinando o aumento de seu cultivo, ou seja, o piscicultor está tendendo a engordar espécies que ele sabe, serão bem aceitas pelo mercado da pesca esportiva. Segundo dados de João Scorvo Filho do Instituto de Pesca – SP, o número de espécies disponíveis nos pesqueiros paulistas cresceu muito nos últimos anos, graças a possibilidade de engorda de peixes nativos como os Brycons (matrinchã, piracanjuba, piraputanga) e os bagres do Pantanal (pintado, cachara).

Para o inverno, outrora período de dificuldades para os donos de pesqueiros, estão sendo desenvolvidas técnicas de controle da qualidade da água e de manejo dos estoques nos lagos de pesca para oferecer peixes mais nobres como o salmão e a truta. Para essas espécies, tem sido adotado um manejo com baixa densidade de estocagem (0,45 kg/m2) e alta renovação de água, na ordem de 1 litro por minuto para cada quilo de peixe – ou 75 litros/segundo/ha – podendo ainda ter a ajuda de outras formas de oxigenação.

Os preços dos peixes vivos variam de acordo com as espécies. A tabela 1 mostra os preços pagos pelos pesque-pagues aos piscicultores paulistas. Na tabela 2 podem ser observados os preços do quilo dos peixes, bem como o preço médio do ingresso, cobrados pelos pesque-pagues.

Novas modalidades

Além dos “pesque-pagues” também tem sido muito difundido os “pague e pesque”. Nesse sistema, adotado pela facilidade de controle, são utilizados geralmente peixes mais populares e baratos. É cobrado apenas a entrada e a pesca é livre. Esta opção geralmente é adotada por pesqueiros que dispõem de infra-estrutura mais diversificada, onde a pesca é apenas uma das atrações do negócio e não a atividade principal. Nos pesqueiros em que a pesca é o carro-chefe, é necessário um rígido controle dos estoques, que deve ser farto para que não haja queda da freqüência de público e conseqüentemente de lucros.

O “pesque e solte” é mais uma nova forma de cobrança que está sendo posta em prática. Nessa modalidade o pescador tem a oportunidade de praticar somente a pesca esportiva podendo optar em soltar ou levar o peixe pescado. Muito difundido pela televisão, com o objetivo de incentivar a prática da pesca ecológica e orientar o pescador sobre a importância da preservação do meio ambiente, o “pesque e solte” exige que se use anzóis sem farpas, para que o peixe não saia machucado demais da pescaria. Por outro lado, o crescimento desta modalidade não favorece o piscicultor, que terá diminuída a demanda para a reestocagem dos lagos dos pesqueiros.

Num universo de 1.300 pesqueiros, não é difícil de imaginar que estratégias de marketing e muita criatividade são determinantes na briga para seduzir o cliente. Todos sabem que o importante, ao fim de tudo, é que o pescador e sua família saiam do pesqueiro felizes e realizados para que retornem no fim-de-semana seguinte – caso contrário, quem ficará feliz será o pesqueiro ao lado.