Ainda não foi desta vez

O artigo a seguir reflete as impressões de Fernando Kubitza sobre esta última safra da piscicultura, à luz de informações obtidas com produtores,proprietários de pesqueiros, transportadores de peixes, processadores de peixes da piscicultura, pessoas do mercado atacadista, alguns técnicos e uma infinidade de gente que o autor conversou durante o último mês de abril. Kubitza não teve a pretensão de que esta seria uma matéria fechada e acredita que ao longo do tempo, com outros dados sendo coletados e, com as impressões de outros aqüicultores, este painel será ainda mais claro e animador. O fato é que não há dúvidas de que existem grandes transformações ocorrendo no mercado de peixes vivos para pesque-pagues. É certo também, que produtores entusiasmados estão renovando seus estoques, que frigoríficos têm aumentado suas compras e que o mercado de rações está aquecido. Tudo aponta para resultados de uma safra ainda melhor para este ano.


A safra 99/00 terminou e não se concretizou a previsão de que a produção da piscicultura excederia a demanda dos pesque-pagues, estimulando assim a consolidação do canal de vendas entre produtores e frigoríficos. Nos pesqueiros, em geral, o giro de peixes parece ter ficado abaixo do volume comercializado na safra anterior e nas pisciculturas, que estavam capitalizadas para segurar a alta das rações desde o início da safra, o clima foi de satisfação com o aumento na demanda e dos preços pagos pelos peixes vivos. A princípio este quadro parece bastante contraditório. Pesqueiros vendendo menos, enquanto os piscicultores falam da dificuldade em atender a demanda por peixes vivos nesta última safra.

Parece correto afirmar que a alta no preço das rações, o resquício de incerteza causado pela desvalorização cambial e a crise na agricultura, atividade que em muitas propriedades auxiliava no custeio da safra da piscicultura, deixaram o produtor mais cauteloso e conservador no planejamento inicial da safra. Descapitalizados, alguns deixaram de produzir como na safra passada, enquanto outros até mesmo abandonaram a atividade.

Os produtores que estavam capitalizados e apostaram no mercado asseguram ter produzido e comercializado mais peixes na safra atual do que na safra anterior. Afirmam ainda que, se dispusessem de mais peixes, poderiam comercializá-los facilmente a preços bem razoáveis. Após o carnaval, muitos produtores animados com a grande demanda, renovaram seus estoques e intensificaram a produção, apostando no aumento da procura e dos preços pelo peixe vivo e num possível atraso na entrada do inverno. É possível que a próxima safra inicie com estoques altos, regularizando a oferta de peixes vivos e, até mesmo, gerando um excedente para vendas a frigoríficos e atacadistas.

O ano de 99 marcou a entrada de novas empresas na disputa pelo mercado de rações. Os fabricantes fecharam o ano de 99 comercializando 91.000 toneladas de ração para peixes, 17.000 toneladas ou 23% mais que no ano anterior. Isto deve ter repercutido em um ligeiro aumento na produção da piscicultura, que poderia ter sido ainda maior se os preços das rações não tivessem subido tanto.

O caminho do processamento

Na safra 99/00 ficou a impressão de que houve um aumento nas vendas de peixes cultivados para os frigoríficos. Fica difícil, no entanto, afirmar se isto ocorreu em volumes significativos a ponto de prejudicar a oferta de peixes vivos para os pesque-pagues. O inverno prolongado até o início de novembro/99 atrasou a comercialização de peixes vivos. No Paraná este atraso parece ter resultado em maior oferta de tilápias aos frigoríficos nos meses de setembro e outubro, comparado ao mesmo período no ano anterior. Sem dúvida isto diminuiu a oferta de peixes vivos aos pesqueiros.

O volume cada vez mais reduzido da pesca e a desvalorização do real desencadearam uma alta nos preços do pescado para mesa. Isto deveria aumentar o interesse dos supermercados e frigoríficos pelos produtos da piscicultura, que permaneceram com seus preços em reais ainda atrativos, mesmo com a alta no preço das rações.

Algumas pisciculturas deixaram de atender exclusivamente aos pesque-pagues, e destinaram parte dos seus peixes às redes de supermercados ou a plantas processadoras próprias ou de terceiros. Na Região Sudeste, pelo menos três frigoríficos de pescado estão operando com peixes de piscicultura. Um deles exclusivamente com tilápia, com mercado na região metropolitana de São Paulo. Outro já vem exportando filés de tilápia para os Estados Unidos desde o ano passado, e se confessa otimista em relação ao mercado interno para este produto. No entanto, seus proprietários vêm enfrentando grande dificuldade em obter matéria-prima em quantidades adequadas e com boa regularidade, mesmo para atender uma pequena fração da demanda hoje existente por filés de tilápia. Estas dificuldades também incidiram sobre os atacadistas que tentaram, este ano, trabalhar com peixes da piscicultura: falta constância no volume e na freqüência de entrega destes produtos. Além disso, os atacadistas continuam reclamando do elevado custo dos peixes cultivados.

Mesmo assim, no Paraná, os frigoríficos de tilápia parecem estar se equilibrando após terem enfrentado em safras anteriores, uma considerável dificuldade em obter volume adequado de matéria-prima. Em Santa Catarina também há um frigorífico processando e comercializando carpas e filés congelados de tilápia. Em São Paulo, pelo menos três associações de piscicultores já dispõem de planos para implantação de frigorífico próprio. Uma delas inclusive, com a infraestrutura quase completa, embora ainda não tenha entrado em operação, principalmente devido à falta de matéria prima nesta safra. Vale ressaltar também os esforços isolados de inúmeros produtores no processamento e comercialização de parte da sua produção, explorando as oportunidades de mercados locais.

Também cresceu a demanda dos pesque-pagues por filés de tilápias servidos aos clientes na forma de petiscos ou mesmo incluso no cardápio dos restaurantes de diversos pesqueiros. Enfim, a piscicultura nacional parece estar, pouco a pouco, entrando no tão esperado caminho da industrialização, dando ares de que poderá seguir o exemplo de outras indústrias do peixe cultivado no mundo, como a do bagre-do-canal nos Estados Unidos.

Comparando nossa piscicultura à industria do bagre-do-canal

O marco inicial da produção do bagre-do-canal (catfish americano) foi o ano de 1963, quando a área de cultivo girava ao redor de 900 hectares. Inicialmente, a produção era comercializada em mercados locais e até mesmo em pesque-pagues de terceiros ou instalados na própria piscicultura. Em 1985, a produção ultrapassava 70.000 toneladas com uma área de viveiros pouco acima de 9.000 hectares, ou seja, um aumento de 900% na área de produção em 22 anos, e um crescimento médio anual de aproximadamente 18%.

Os primeiros frigoríficos comerciais eram dimensionados para processar pouco mais de 1 tonelada de peixe por dia. Estes abriram o caminho da industrialização para os atuais frigoríficos com capacidade de processamento entre 60 a 130 toneladas de bagres/dia. Em 1989, 193.000 toneladas de peixes foram produzidas em uma área de viveiros superior a 60.000 hectares. A produção mais do que dobrou, crescendo em média 29% ao ano num período de 4 anos. Impressionante resposta aos grandes investimentos realizados nas fazendas de produção, nos frigoríficos, fábricas de rações e intensificação do marketing e promoção do produto. Atualmente 300.000 toneladas são produzidas, após um crescimento anual médio de quase 5% na última década. Os preços do filé de catfish no varejo são bastante competitivos em relação ao filé de frango e a carne suína.

Ração30

Embora as estatísticas sobre a piscicultura nacional ainda careçam de precisão, a evolução da produção de rações pode servir como um indicador do crescimento no cultivo de peixes no país. Em 1997, 63 mil toneladas de ração de peixes foram produzidas. Em 1998 este número superou 74 mil toneladas, um aumento de 17%. Em 1999 as indústrias de rações registraram um aumento de 23% na produção de rações para peixes, fechando suas vendas em 91 mil toneladas. Nestes valores não estão incluídas as produções de fábricas de rações de pequeno porte não cadastradas junto a ANFAL (Associação Nacional dos Fabricantes de Alimentos para Animais).

Assim, em uma previsão bastante conservadora, se projetarmos um crescimento médio anual ao redor de 15% nos próximos 5 anos e 5% a partir destes, daqui a 10 anos a piscicultura brasileira deverá produzir ao redor de 230 mil toneladas de peixes contra as prováveis 90 mil toneladas atualmente produzidas. Se considerarmos que a nossa piscicultura de fato teve início ao final da década de 80, estará completando 30 anos em 2010, quando atingir estes números.

A tilápia deverá liderar este crescimento, embora o cultivo do pintado nas regiões centro-oeste, sudeste e sul venha crescendo e recebendo consideráveis investimentos. Também merece atenção o trabalho pioneiro que a Amazonas Ecopeixe vem desenvolvendo com o pirarucu no Estado do Amazonas. Este peixe reúne potencial para surpreender a aqüicultura mundial no médio e longo prazo. Se não faltarem investimentos, este desenvolvimento deverá ser entre 8 a 10 anos mais precoce do que o ocorrido na indústria do catfish americano. O início da indústria do catfish americano, demandou grandes esforços no desenvolvimento de conhecimento técnico em diversas áreas relacionadas à produção.

A piscicultura brasileira vem se beneficiando da tecnologia desenvolvida no cultivo de peixes como a tilápia, as carpas, o catfish americano e a truta arco-íris em diversos países. A piscicultura e os pesque-pagues nacionais também se valeram dos conhecimentos básicos sobre o transporte e a fisiologia do estresse sobre diversas espécies cultivadas em outros países. Embora o transporte de peixes vivos seja uma das operações mais importantes no atual estágio da piscicultura nacional, pouca atenção foi dada ao assunto no Brasil. Salvaguardamos alguns esforços de instituições como a ESALQ-USP, o CAUNESP e o CEPTA, em São Paulo, onde é intensa a comercialização de peixes vivos para os pesque-pagues.

No cultivo das espécies autóctones, a adaptação das estratégias e sistemas de produção e os conhecimentos sobre a nutrição e controle de doenças para outras espécies tem sido de grande utilidade. Embora ainda há muito a ser feito, devemos reconhecer o empenho dos pesquisadores brasileiros em encontrar respostas aos problemas enfrentados pelos produtores e pela indústria, no que diz respeito à reprodução, nutrição e controle de doenças e parasitoses na produção de peixes nativos. Vale, no entanto, cobrar um maior empenho das instituições governamentais federais e estaduais de apoio à pesquisa no sentido de facilitar aos técnicos, professores e pesquisadores brasileiros, a realização de visitas técnicas, programas de especialização, mestrado e doutorado em países onde existe tecnologia de produção compatível com a realidade da piscicultura nacional.

Houve um significativo corte nos recursos destinados a promoção de intercâmbios científicos e tecnológicos na última década. Investimentos neste sentido acelerariam o desenvolvimento da aqüicultura nacional e reduziria os gastos com pesquisas que apenas vêm repetindo o que já é conhecido no exterior. Além do conhecimento técnico, a disponibilidade de capital para investimentos é de fundamental importância para o crescimento da piscicultura. Neste requisito a piscicultura brasileira ainda está muito atrás do poder de fogo dos americanos. Só como exemplo: no Alabama, num esforço conjunto entre 15 produtores, foi instalada no ano passado uma fábrica de rações para catfish com investimento de US$ 7 milhões. Vizinho a esta fábrica, opera um frigorífico que processa cerca de 70 toneladas de catfish/dia e que demandou investimentos na ordem de US$ 10 milhões de reais, também com grande parte do capital vindo de piscicultores.

No Brasil já é manifesta a intenção de alguns produtores e associações de produtores em investir, embora de forma um pouco mais modesta, na instalação de frigoríficos e, também, fábricas de rações. A expectativa é reduzir os custos de produção e aumentar os lucros com a venda do peixe processado. Para que estas iniciativas não sucumbam como outras do passado, será preciso um grande comprometimento dos produtores/acionistas para com os frigoríficos, além de uma política justa de remuneração pelo peixe fornecido por produtores associados. Do contrário, será difícil para os mesmos resistir aos preços atrativos hoje oferecidos pelos pesque-pagues.

Muitos produtores ainda vivem a ilusão de que frigorífico e fábrica de ração próprios são a resposta para os problemas e a garantia de lucro na piscicultura. Antes disso é preciso aprender a fazer o dever de casa. Aprender a produzir de forma eficiente, corrigindo problemas básicos da produção, se capacitando tecnicamente para operar e gerenciar uma piscicultura empresarial. Educar-se para desenvolver um trabalho associativo, onde cada participante deve ter sua importância reconhecida, não importa quão grande ou pequeno este seja. Estes são alguns dos requisitos para conquistar competência para oferecer produtos de boa qualidade a preços condizentes. Competência para garantir a constância no fornecimento e na qualidade do produto, criando assim o hábito de consumo e conquistando a credibilidade do consumidor. Primeiro vamos arrumar a casa para poder atrair outros parceiros organizados e competentes. Senão, será apenas mais uma iniciativa mal sucedida na história da nossa piscicultura.

Esta ainda não foi a safra que marcou a fase industrial da piscicultura brasileira. No entanto, muitos empresários já iniciaram o caminho nesta direção. Não há dúvidas que nesta década o Brasil se tornará um dos mais importantes países produtores de peixe cultivado. O caminho é irreversível.