ALGAS Uma alternativa para as comunidades pesqueiras?

Transformar pescadores em maricultores é uma tarefa que vem sendo tentada no Brasil desde a década de 70, quando ainda funcionava no país o Pescart – Plano de Assistência ao Pescador Artesanal. Desde aquela época a forma de atuar não mudou e as tentativas de engajar o pescador nas artes dos cultivos aquáticos têm sido praticadas por grupos multidisciplinares, onde especialistas da área social e técnicos em aqüicultura executam um trabalho conjunto de extensão. É difícil avaliar as razões exatas, mas, olhando para trás, o que dá para perceber é que nessas três décadas poucas dessas ações lograram êxito, e entre as exceções, destacaríamos os empreendimentos de cultivo de ostras e mexilhões nos litorais sudeste e sul do País. Por outro lado, no decorrer dos últimos 30 anos, aumentaram de forma significativa as dificuldades que os pescadores artesanais têm encontrado para se sustentar, diante da escassa captura de pescados. Torna-se, portanto, urgente a criação de oportunidades para que o pescador artesanal possa se integrar a algum processo produtivo, sem que perca os laços com a sua comunidade, nem tampouco com o mar.

O cultivo de algas marinhas em pequena escala no litoral nordeste do Brasil, iniciado em 1998 por intermédio da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), é uma das mais recentes tentativas de utilizar tecnologias alternativas para integrar as comunidades pesqueiras ao processo produtivo de pescados, através da maricultura. O Projeto Algas, como é conhecido, tem como executor a OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), cabendo a FAO o papel de agente financiador. Segundo Julio G. Pohl, assessor técnico da OCB, a FAO identificou que as comunidades litorâneas do Nordeste brasileiro tinham um excelente potencial para esse tipo de cultivo, que pode ser feito através de empreendimentos que demandam técnicas simples e baratas, aproveitando as excelentes condições climáticas e geográficas da região. Segundo o representante da OCB, inicialmente o trabalho está sendo feito junto a municípios de baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), cujas comunidades litorâneas já estejam envolvidas com a coleta e venda de algas, criando condições de trabalho, principalmente para mulheres sem qualificação profissional, de modo a agregar renda às famílias envolvidas. Além disso, o projeto visa também desenvolver experiências concretas de associativismo e cooperativismo, resgatando a cidadania, além de atuar na redução da extração indiscriminada de algas nos bancos naturais.

Agar-agar e Carragenas

As algas cultivadas, depois de secas, são processadas industrialmente com o objetivo de se obter basicamente dois produtos: o agar-agar e a carragena. O agar-agar é um hidrocolóide extraído de algas marinhas, largamente utilizado na indústria alimentícia. É obtido de diversos gêneros e espécies de algas marinhas vermelhas da classe Rhodophyta, denominadas agarófitas, com destaque para as algas do gênero Gracilaria. Segundo Jun Setogushi, da AgarGel (nova denominação da Agar Brasileiro Ind. e Com. Ltda), indústria localizada no distrito industrial de João Pessoa (PB), uma solução de agar-agar em água forma um gel característico, com temperatura de fusão de 85º a 95ºC e temperatura de gelificação de 32º a 45ºC. Esta propriedade física torna-o consideravelmente útil como ingrediente aditivo em diversas aplicações na indústria alimentícia, como produtos lácteos – sorvetes, pudins, iogurtes, leite fermentado, etc; confeitaria; patês; indústria de bebidas; panificação e, indústria farmacêutica.

As carragenas (kappa, iota e lambda) são também hidrocolóides extraídos das algas marinhas vermelhas dos gêneros Gigartina, Hypnea, Eucheuma, Chondrus e Iridaea, também utilizadas em diversas aplicações na indústria alimentícia como espessante, gelificante, agente de suspensão e estabilizante, tanto em sistemas aquosos quanto em sistemas lácteos. Em 2001, segundo dados da OCB, o Brasil importou cerca de US$ 15 milhões em algas e derivados, mostrando o potencial do cultivo de algas no Brasil, e sua importância para reforçar a balança comercial brasileira.

O Projeto Algas

Os estudos preliminares feitos pela FAO/OCB apontaram cinco localidades que se adequavam à implantação dos projetos pilotos, por possuírem bancos naturais próximos, com litoral protegido do forte batimento de ondas, além de existir uma comunidade pesqueira na região com capacidade ociosa de trabalho. Um estudo preliminar destacou as localidades das praias de Pitimbú e Acaú, na Paraíba, praia de Pititinga, no Rio Grande do Norte e praias de Fleixeiras e Guajirú, no Ceará. Segundo Julio G. Pohl assessor técnico da OCB, a seleção desses três estados se deveu às características físicas, ecológicas e sociais dessas áreas, que estão permitindo testar e avaliar mais rapidamente as comunidades com melhor potencial para o projeto. As áreas de expansão para outros estados serão definidas com base no que está feito nessas comunidades.

O Cultivo

A Gracilaria, produtora de agar-agar, tem sido a principal alga utilizada nos cultivos realizados pelo Projeto Algas, apesar de também estarem sendo feitos experimentos com a Hypnea, produtora de carragena.

O método flutuante de cultivo foi o escolhido, e consiste na utilização de cordas fixadas próximas à costa, onde são presas as mudas das algas coletadas nos bancos naturais. A implantação das mudas se dá de duas formas: entre as mechas da corda ou amarradas com fitas de nylon, e a manutenção deve ser realizada de duas a três vezes por semana, para a retirada de pequenos animais ou outras plantas que comprometem a qualidade e o crescimento do cultivo.

As algas são colhidas, em média, após 60 dias, quando chegam a pesar 600 gramas, e depois de limpas e secas, estão prontas para comercialização.

Ceará

No Estado do Ceará, o processo produtivo está sendo desenvolvido pela Associação de Produtores de Algas Flecheiras e Guajirú (APAFG), com assessoria do Instituto Terramar e dos demais órgãos envolvidos no processo, incluindo a Universidade Federal do Ceará.

Depois de um longo trabalho de testes de estruturas, os pesquisadores Dárlio Inácio Alves Teixeira e Toivi Masih Neto, do Instituto Terramar, adotaram o método que utiliza estruturas do tipo long-line. Cada família, das 11 que fazem parte da APAFG, cuida de um “módulo de produção” que é composto por 12 “estruturas”. Cada uma dessas estruturas de cultivo corresponde a um long-line de 50 metros na horizontal (corda principal) de onde, a cada metro, pendem 50 cordas secundárias de um metro cada (figura 1), com chumbos nas pontas para se manterem esticadas. Toda essa estrutura, evidentemente, é bem fixada ao fundo através de poitas e garatéias adequadas.

Alga do gênero Gracilaria em cultivo no Ceará
Alga do gênero Gracilaria em cultivo no Ceará

As mudas de Gracilaria birdiae são coletadas nos bancos naturais e presas nas cordas por fitas de nylon, distantes umas das outras em 20 cm. O peso inicial varia de 50 a 70 gramas cada muda e, após 60 dias alcançam de 600 a 800 gramas, podendo muitas vezes alcançar até 1.500 gramas. Ao término dos 60 dias do ciclo de crescimento, cada long-line tem em média 350 mudas presas na estrutura (contando as perdas).
Segundo os cálculos dos pesquisadores do Instituto Terramar, se estimarmos um peso médio de 600 g por muda (cálculo conservador), serão obtidos 210 kg de algas/estrutura/ciclo. Considerando que, após serem secas em secador solar, o peso final representará 15% do peso úmido, pode-se considerar que cada long-line com 100 metros de cordas (entre principal e secundárias) irá produzir 31,5 kg de algas secas.
Se considerarmos a idéia do módulo familiar composto por 12 cordas ou long-lines, cada família vai poder comercializar 378 quilos de algas secas em cada uma das quatro safras que irá colher anualmente.

A Indústria Processadora

No país existem apenas duas grandes indústrias processadoras de algas voltadas para a produção de agar-agar e carragena. Uma delas, o Laboratório Griffith, está localizada em Mogi das Cruzes (SP), e processa algas secas importadas das Filipinas para a produção de carragenas. A outra, AgarGel (antiga Agar Brasileiro), está localizada em João Pessoa (PB) e processa algas de arribação coletadas por “algueiras” ao longo do litoral do Nordeste (foto) para a produção de agar-agar e carragena, e importa também do Chile, para a produção de agar-agar, seu principal foco de produção.

Algas arribadas que chegam diariamente com a maré em grande parte do litoral nordestino. Foto menor: detalhe da mistura de algas arribadas
Algas arribadas que chegam diariamente com a maré em grande parte do litoral nordestino. Foto menor: detalhe da mistura de algas arribadas

Segundo Jun Setoguchi, a AgarGel está trazendo Gracilaria seca do Chile por não encontrar volume suficiente no Brasil para comprar. Sua empresa consome mensalmente 100 toneladas de matéria prima seca e, pelo menos a metade desse volume tem que ser importado. A alga chilena, diz Jun, tem uma qualidade muito boa decorrente da limpeza e secagem. Com 100 quilos de algas chilenas, a AgarGel obtém de 13 a 17 quilos de agar-agar. Já com as algas brasileiras, pela forma como são secas, o rendimento fica ao redor de 11-12 quilos. O empresário afirma, no entanto, que tem interesse em toda Gracilaria que venha a ser produzida no Brasil, principalmente se estiverem bem processadas e secas. A AgarGel paga hoje R$ 2,50 por cada quilo da alga importada do Chile, com impostos inclusos. No Brasil a empresa paga R$ 0,60 o quilo das algas arribadas, sem os impostos, que ainda irão incidir. Jun acha, porém, que o preço pode ser melhorado, já que esse preço é pago por uma mistura de algas que são secas de forma inadequada, o que não aconteceria caso fossem provenientes de um cultivo apenas de Gracilaria, onde os produtores teriam como processar de forma adequada para conseguir um melhor preço.

O empresário acredita que os produtores brasileiros têm que considerar a possibilidade de fazer cultivos em grande escala, uma coisa que ninguém conseguiu até hoje fazer no Brasil. Na sua opinião, isso ainda não ocorreu porque o dinheiro não está chegando aos pescadores para que eles possam investir e trabalhar. “É preciso áreas grandes e isso vai envolver um grande número de pessoas. Os outros países também começaram dessa forma como acontece aqui no Brasil. Inicia-se com 10 famílias, que depois viram 20, que viram 40 e logo depois 80 e ai o negócio funciona” diz o empresário.

Os principais paises produtores de algas são o Chile, Filipinas, Indonésia e um pouco na África do Sul. Geralmente o cultivo funciona bem onde a mão-de-obra é barata. Não dá pra fazer na costa da Califórnia, exemplifica. Aqui no Brasil, da Bahia pra cima existe essa mão-de-obra barata e espaço e, apesar da água ser um pouco turva, é possível produzir em grande escala. Sobre a possível concorrência de algas importadas, Jun fala que elas sempre serão mais caras e, diz não ter dúvidas sobre a qualidade. “O Brasil tem como fazer uma alga de grande qualidade por ser um país tropical e ter muito sol pra ajudar nesse trabalho. O problema é que, como a venda é por peso, muitas vezes as pessoas não secam adequadamente”.

 

Represantação esquemática de um long-line com a corda principal (50 metros) onde são penduradas as cordas secundárias de um metro cada
Represantação esquemática de um long-line com a corda principal (50 metros) onde são penduradas as cordas secundárias de um metro cada
Alternativas

Apesar da enorme demanda que leva as indústrias brasileiras a importarem algas secas de outros países, a comercialização tem sido difícil para os associados da APAFG. Após quatro anos de produção, os produtores de Flecheiras e Guajirú conhecem bem as dificuldades da comercialização. Segundo Marta Helena Dias Viana, presidente da APAFG e produtora da comunidade de Guajirú, e Raimundo Nunes, seu diretor, as dificuldades são, em parte, decorrentes da falta de escala de produção. O cultivador tem que fazer a manutenção do cultivo com muita freqüência e deixa de fazer as outras atividades que lhe remuneram. As dificuldades de comercialização acabam agindo como um fator de desestímulo, já que os principais entraves tecnológicos para a produção já foram superados.

Segundo o engenheiro de pesca Dárlio Teixeira, do Instituto Terramar, novos caminhos alternativos para a comercialização estão aparecendo, fugindo das grandes indústrias, e deverão ser de grande importância para viabilizar a produção em pequena escala obtida pelos associados da APAFG. Segundo Dárlio, hoje as algas estão sendo comercializadas para pequenas empresas de cosméticos a um preço médio de R$ 1,50 o quilo. Esse preço, diz Dárlio, ainda não é interessante para os produtores, que reivindicam a venda por pelo menos R$ 3,00 o quilo. A boa notícia para os produtores é que, recentemente, segundo Dárlio, duas empresas de cosméticos de São Paulo já se dispõem a pagar esse preço.

Marta Helena Dias Viana e seu marido Pedro Edvan com o fruto do seu trabalho: as algas secas como são comercializadas
Marta Helena Dias Viana e seu marido Pedro Edvan com o fruto do seu trabalho: as algas secas como são comercializadas

As dificuldades de comercialização já se fazem sentir na APAFG, na medida que hoje uma parte dos long-lines dos produtores de Guajirú e Flecheiras estão fora d’água, fora da produção. Para eles, há uma expectativa muito grande de que o fruto do trabalho seja remunerado adequadamente, na medida em que a alga que produzem venha a ser também reconhecida como um produto mais valorizado, diferente daquele extraído dos bancos naturais. “Nós, cultivadores, já temos consciência de que a alga que produzimos precisa ser diferenciada da que é coletada predatoriamente e jogada na areia para secar, para ser vendida por centavos de real o quilo. Essa nossa alga precisa ter um selo, talvez um selo ecológico, porque ela tem um valor social e ecológico”, diz, com muita propriedade, Pedro Edvan dos Santos Viana, produtor de Guajirú.

Para seguir adiante e cumprir com seus objetivos de oferecer ao pescador a oportunidade de se integrar a um processo produtivo, o cultivo das algas precisa ser apoiado por um programa ambicioso, seja ele do governo ou não. Tecnicamente é capaz de produzir resultados que poderão, num futuro não muito distante, surpreender seus críticos atuais. Além disso, se ainda não trouxe o retorno financeiro tão desejado pelas pessoas envolvidas, certamente já traz o benefício de atrair a lagosta e inúmeros peixes que andavam longe das linhas de pesca. Um estudo feito pelo pesquisador Toivi Masih Neto, do Instituto Terramar, mostrou que cada long-line atrai, em média, 100 puerulus de lagosta.

Puerulus de lagosta encontrado entre as algas
Puerulus de lagosta encontrado entre as algas