Alimentação para Camarões Marinhos Parte III

Ajustando as taxas de alimentação

Autor: Alberto J. P. Nunes, Ph.D. Gerente Técnico
Aqüicultura Agribrands do Brasil Ltda. [email protected]


O Ajuste por Meio de Bandejas

O ajuste nas taxas de alimentação por meio de bandejas baseia-se no monitoramento do consumo de ração ocorrido entre o último período da oferta do alimento e o arraçoamanto seguinte. Ou seja, a quantidade de ração a ser distribuída no período seguinte de alimentação deve obedecer a quantidade restante de ração observada em cada bandeja na hora da oferta do alimento.

As taxas de alimentação são então modificadas conforme a Tabela 1.O consumo de ração em bandejas pode variar no início do cultivo de 1kg/ha/dia a 7kg/ha/dia, para camarões com peso médio de 2,5g (20 dias de engorda). A partir deste estágio, o consumo aumenta gradativamente, especialmente durante os períodos de muda da população.

Tabela 1 Procedimentos e ajustes nas taxas de alimentação, com base no arraçoamento exclusivo em bandejas de alimentação (fonte: Rocha e Maia 1998)
Tabela 1 Procedimentos e ajustes nas taxas de alimentação, com base no arraçoamento exclusivo em bandejas de alimentação (fonte: Rocha e Maia 1998)

O manejo alimentar torna-se mais crítico nas fases intermediária e final do ciclo de engorda, onde a biomassa de camarões estocada é mais elevada e portanto, o consumo de ração é maior. A fim de evitar estimativas equivocadas do consumo de ração, é necessário um rigoroso combate a predadores e (ou) competidores. Para um melhor acompanhamento do consumo, os funcionários devem ser treinados para determinar visualmente a quantidade de ração (100g, 200g, 300g, etc) não consumida em cada bandeja. Isto permite modificar a quantidade de ração administrada por bandeja e por horário de arraçoamento. A fim de auxiliar no controle do consumo, podem ser utilizados pequenos medidores fixados nas varas que posicionam as bandejas (Fig. 1).

Na Fig. 1 foram fixados três medidores que representam três horários de alimentação, 0700 h, 1100 h e 1500 h. Foi arbitrado para cada argola um valor equivalente a 100g de ração ofertada. A argola branca representa um valor neutro, indicando simplesmente a direção na qual as outras argolas devem ser movidas. Os arraçoadores foram orientados para adicionar 300g de ração em cada bandeja ou conforme o consumo observado. 1 – Às 0700 h, 100 g de ração não consumida foi observada e coletada de uma bandeja, derivada da alimentação (300g) do dia anterior. Foi então ministrado 200g de alimento e movida duas argolas para o lado oposto do medidor das 0700 h, a fim de representar a quantidade de ração ofertada. 2 – No arraçoamento das 1100 h foi observado na mesma bandeja 100g de ração não consumida. Neste horário o arraçoador baseia-se no número de argolas presentes no medidor das 0700 e no consumo observado, para adicionar apenas 100 g de ração. Uma argola foi movida para o lado esquerdo para representar a quantidade ofertada, sendo o que restou na bandeja removido para descarte. Às vezes alguns arraçoadores fazem a opção de manter o alimento não consumido na bandeja, apenas completando a refeição. Esta prática não é recomendada por motivos já discutidos (edição 63).

Figura 1 Desenho ilustrativo de medidores utilizados para auxiliar no ajuste das taxas de consumo em bandejas de alimentação. Os medidores são zerados na primeira alimentação do dia
Figura 1 Desenho ilustrativo de medidores utilizados para auxiliar no ajuste das taxas de consumo em bandejas de alimentação. Os medidores são zerados na primeira alimentação do dia

O número de medidores instalados em cada bandeja deve variar conforme a freqüência alimentar utilizada, ou seja, para três alimentações diárias são utilizados três medidores por vara. Entretanto, atualmente muitas fazendas estão adotando apenas um medidor por bandeja. Os medidores são feitos de arame em forma de “U”, presos a uma base de madeira, possuindo pequenas argolas de cores variadas para expressar arbitrariamente a quantidade de ração ofertada, consumida ou restante na bandeja.

O método de ajuste alimentar aqui apresentado está geralmente associado a distribuição de ração exclusiva em bandejas, mas pode ser adaptado a distribuição por voleio. Isto é aplicável nos casos em que o arraçoamento exclusivo em bandejas não é viável, seja por questões técnicas ou econômicas. Para isto, é necessário introduzir de 6 a 8 bandejas/ha, sendo o mínimo de 3 bandejas por viveiro, independente da área de cultivo existente. Cerca de 3,0% a 5,0% da refeição diária deve ser dividida uniformemente pelo número de bandejas utilizadas. Esta quantidade deve ser ofertada exclusivamente em bandejas, sendo o restante distribuído por meio de lanços em toda a área de cultivo. As bandejas devem ser inspecionadas de 2,0 h a 2,5 h após a oferta do alimento, sendo as taxas de alimentação alteradas conforme a Tabela 2.

Tabela 2 Ajustes nas taxas de arraçoamento para a distribuição por voleio baseados no uso de bandejas de alimentação
Tabela 2 Ajustes nas taxas de arraçoamento para a distribuição por voleio baseados no uso de bandejas de alimentação
Método das Tabelas de Alimentação

Um manejo efetivo de rações por meio de tabelas de alimentação baseia-se em amostragens precisas e contínuas da população cultivada de camarões. Um conhecimento da biomassa, durante o ciclo de produção, é crítico para calcular a quantidade de ração que deve ser ofertada, e assim definir a taxa de alimentação. Alimentar uma biomassa que não existe é uma das principais causas da poluição de viveiros, ocasionada pelo método de ajuste de ração por tabelas. Este método está geralmente associado a distribuição de ração por voleio, mas pode também ser utilizado em conjunto com a distribuição exclusiva em bandejas. O crescimento da população é determinado por amostragens rotineiras, enquanto a sobrevivência pode ser estimada baseada em cálculos anteriores de estimativas da demanda de ração, pelo uso de redes de tarrafa para a amostragem da densidade ou por informações padronizadas de sobrevivência (Tabela 3).

A sobrevivência é uma das variáveis da produção mais difíceis de estimar. Estes fatores, juntamente com os parâmetros que afetam o consumo alimentar dos camarões, comprometem a precisão das tabelas de alimentação.

Projeções de ciclos anteriores podem dar um bom indicativo dos níveis de sobrevivência. Por exemplo, quando as informações indicam que 60% dos camarões sobreviveram da estocagem até a despesca, assume-se, salvo perdas catastróficas que uma sobrevivência semelhante será obtida. Durante o decorrer de um ciclo de produção as perdas são computadas baseadas em uma mortalidade de 40% sobre o número total dos animais inicialmente estocados. As perdas são geralmente maiores nos estágios iniciais do ciclo de produção, logo após o estresse associado com a transferência e devido aos animais estarem mais vulneráveis a predadores. Durante esse período alguns cultivadores utilizam redes de sobrevivência, um pequeno cercado contendo um número conhecido de pós-larvas, para estimar a sobrevivência dos camarões. O uso de redes de tarrafa para estimar as condições de saúde, crescimento e sobrevivência baseia-se na amostragem periódica (i.e., semanalmente) da população cultivada. Os camarões devem ser capturados aleatoriamente no centro do viveiro e próximo aos taludes. No mínimo 50 indivíduos/ha devem ser coletados para pesagem e análise visual (muda, cor, odor, presença de enfermidades). Deve-se examinar também se está havendo ganho de peso (se a cauda está magra ou gorda), e se os estômagos estão cheios com ração, após 30 min a 1 h da alimentação. Durante as amostragens deve-se observar as condições do viveiro e a presença de predadores. Para obter resultados confiáveis de sobrevivência, são necessários de 4 a 5 tarrafadas/ha, mas este valor dependerá da variação observada em cada amostra, ou seja, quanto maior forem as variações no tamanho e no número de camarões, maior deve ser o número de tarrafadas/ha. A área coberta pela tarrafa é computada através da seguinte formula: A=  x R2, onde A = área,   = 3,1416 e R = raio estimado de abertura da rede durante o tarrafeio no viveiro. Uma grande limitação no uso deste método é a distribuição espacial dos camarões no viveiro, especialmente em condições de baixa densidade de estocagem.

As tabelas de alimentação (Tabela 4) são comumente utilizadas para calcular a refeição diária, porém quando associadas ao consumo de ração, oferecem uma boa referência dos níveis de sobrevivência. Por exemplo, em um viveiro de 7ha foi estocada uma população de 1.260.000 camarões. Após 115 dias de engorda, observou-se camarões com 12g de peso médio e um consumo de 307kg de ração/dia. Seguindo a Tabela 4.4 (fonte 3), encontramos uma taxa de alimentação de 2,6% (camarões com 12g). Com estes dados, podemos estimar uma biomassa estocada de 11.808kg de camarão (307kg ÷ 2,6% x 100), uma população de 984.000 camarões (11.808kg ÷ 12g) e uma sobrevivência de 78% (% de 984.000 sobre 1.260.000 camarões). Uma vez determinada a sobrevivência e o peso médio da população, pode ser seguida a Tabela 4, de acordo com a densidade de estocagem utilizada. Ou seja, para um camarão com 7g estocado em um viveiro de 5 ha a uma densidade de 30 indivíduos/m2, a taxa de alimentação deve ser de 3,6% da biomassa/dia (Tabela 4, fonte 6). Com uma sobrevivência projetada em 63%, teremos uma população de 945.000 indivíduos (63% de 1.500.000 camarões) e uma biomassa de 6.615kg de camarão (7g x 945.000 indivíduos).

Devemos então distribuir 238kg de ração/dia (3,6% de 6.615kg de camarão). As tabelas de alimentação podem também auxiliar nos cálculos de oferta de ração em bandejas. Neste caso, aplica-se a seguinte formula (F1): quantidade de ração (QR, em kg) = % do peso médio dos camarões (PC, seguir tabela de alimentação) x biomassa da população (BP). Para utilizar as tabelas de alimentação (Tabela 4) nos cálculos da refeição diária, é inicialmente necessário determinar a sobrevivência e o peso médio da população cultivada. Em um segundo exemplo, para um camarão com 7g estocado em um viveiro de 5 ha a uma densidade de 30 individuos/m2, a taxa de alimentação deve ser de 3,6% da biomassa/dia (Tabela 4, fonte 6). Com uma sobrevivência projetada em 63%, teremos uma população de 945.000 indivíduos (63% de 1.500.000 camarões) e uma biomassa de 6.615kg de camarão (7g x 945.000 indivíduos).

Devemos então distribuir 238kg de ração/dia (3,6% de 6.615kg de camarão). Para estimar a quantidade de ração a ser ofertada em cada bandeja e em cada horário de arraçoamento (QRBA, em g), temos a formula (F2): QRBA = QR ÷ n° de bandejas (NB) ÷ n° de arraçoamentos/dia (AD). Como exemplo, para uma população de 1.440.000 camarões com 3g de peso médio, devemos arraçoar 6,2% da biomassa estocada (Tabela 3, fonte 6). Aplicando a formula F1, teremos: QR = 6,2% x (1.440.000 camarões x 3g) = 6,2% x 4.320kg = 268kg. A ração é distribuída 3 vezes/dia e são utilizadas 30 bandejas/ha. Em um viveiro com uma área de 6,0 ha, temos um total de 180 bandejas. Calculando a refeição por bandeja e horário de arraçoamento, teremos: QRBA = 268kg ÷ 180 bandejas ÷ 3 vezes ao dia = 0,49kg ou 500g.

Armazenando a ração

A qualidade da ração deteriora-se rapidamente, caso esta não seja armazenada de forma correta. As rações devem ser mantidas protegidas do sol em uma área seca e bem ventilada. O local de armazenagem deve possuir uma circulação de ar adequada, capaz de manter constante a temperatura das rações estocadas. Temperaturas elevadas afetam diretamente a qualidade de vitaminas e lipídeos presentes no produto. Nos viveiros, a ração deve ser mantida abrigada sob tendas ou abrigos ou ainda em pequenos silos. Este último, facilita o manuseio, podendo reduzir os custos de mão-de-obra e transporte da ração até os viveiros. Os sacos de ração devem ser empilhados em paletes (pranchas de madeira), longe do contato direto com chão ou paredes. O empilhamento não deve exceder a 10 sacos, a fim de não comprometer a integridade física dos peletes. Os períodos de armazenamento não devem passar de 3 meses e idealmente as rações devem ser utilizadas dentro de 2 semanas a um mês, após sua fabricação. A implantação de um controle do inventário permite que as rações mais velhas sejam utilizadas antes das mais novas. Quando as rações são armazenadas por um período muito longo ou sob condições inadequadas, podem surgir problemas sérios tais como, a perda de vitaminas, a contaminação por toxinas ou a rancificação de óleos. Os contaminantes mais comuns de rações são fungos e micotoxinas. Toxinas são produzidas por fungos ou mofos, os quais podem crescer nos ingredientes utilizados na fabricação de rações formuladas. Os fungos mais comuns encontrados em rações são espécies do gênero Aspergillus. Vários ingredientes, incluindo o farelo do caroço de algodão, a farinha de amendoim, os subprodutos do milho e os grãos de cereais, são susceptíveis a estes tipos de fungos. Todas as rações devem ser examinadas para detectar sinais de mofo de descoloração ou de um aumento anormal da umidade ou da temperatura. Devem ser descartadas todas as rações que apresentem qualquer sinal de mofo. As perdas financeiras com o uso de uma ração ruim podem ser mais elevadas do que o seu descarte.


Devido a sua extensão este artigo foi dividido em três edições consecutivas, são elas:

Edição 62: Introdução Aspectos Biológicos: o sistema alimentar dos camarões; a detecção, o consumo e a digestão; os hábitos alimentares; os requerimentos nutricionais.

Edição 63: Desenvolvendo um Plano Alimentar – Os fatores que afetam o consumo: o alimento natural; a qualidade da água; a qualidade da ração; o tamanho do camarão; a atividade de muda. – A freqüência alimentar – Os horários de alimentação – Os locais de distribuição – Os métodos de arraçoamento: bandejas de alimentação; lanço ou voleio.

Edição 64: Ajustando as Taxas de Alimentação – O ajuste por meio de bandejas – Método das tabelas de alimentação Armazenando a Ração