Apontamentos de viagem: A piscicultura na Hungria

Por: Marcelo Chammas


Após vivenciar o cultivo de carpas em Israel, onde a maior parte da produção é proveniente do cultivo com tilápias, tecnologia que não pode ser empregada em regiões com baixas temperaturas, tive a oportunidade de conhecer, nos primeiros dias de abril, a piscicultura húngara, uma das mais tradicionais do mundo.

A Hungria é um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes, dos quais aproximadamente 2 milhões vivem em sua capital Budapeste, apresentando um consumo per capta de peixe da ordem de 3,5 kg por habitante por ano.

Ela vem se destacando no cenário da piscicultura mundial com trabalhos pioneiros desde 1880 quando T. Dubics elaborou o método de reprodução semi-artificial da carpa comum, por isso, até hoje, os tanques em que se realizam esse processo são chamados, em sua homenagem, de tanques de Dubics.

Outros trabalhos atestam a determinação dos húngaros no desenvolvimento da piscicultura: o de P. Purgly, em 1904, com ninhos artificiais para desova da lucioperca; os de E. Woynarovich e B. Entz, em 1948, com a técnica de incubação dos ovos da lucioperca em câmaras borrifadoras e os de E. Woynarovich, em 1961, sobre a dissolução da camada pegajosa dos ovos de carpa. Merecem também destaque a fundação do primeiro centro voltado para a industrialização da produção de pós-larvas e alevinos, por A. Antalfi na cidade de Dinnyes em 1962; os primeiros trabalhos sobre preparação de viveiros de terra para cultivo de pós-larvas por L. Horváth e G. Tamas, em 1972, e a publicação do manual da FAO, em 1980, sobre a propagação de peixes de águas tropicais de autoria de E. Woynarovich e L. Horváth.

Só a partir de 1989 a Hungria retornou ao regime capitalista e nestes primeiros anos, houve uma perda do controle de suas estatísticas de produção devido a privatização de vários empreendimentos. É interessante notar que as empresas detentoras de bancos genéticos foram consideradas empresas estratégicas, de modo que caso elas viessem a ser privatizadas o controle acionário majoritário (51%) permaneceria nas mãos do governo. Atualmente o Ministério da Agricultura empenha-se na retomada das estatísticas, mas a sua efetivação deve levar mais três anos. De toda forma, estima-se que ela explore comercialmente em torno de 25 espécies de peixe, em aproximadamente 30.000 ha de viveiros, nos mais diversos sistemas de cultivo. Entre as espécies mais importantes, podemos destacar: as carpas chinesas, a carpa comum em suas diversas variedades, a tinca (Tinca tinca), o bagre europeu (Silurus glanis), o lúcio (Exsox lucius), a lucioperca (Lucioperca lucioperca), a enguia (Anguilla anguilla) e o esturjão (Aspius aspius). Dentre as diversas variedades que eles produzem a que mais me chamou a atenção foi uma carpa capim preta que se alimenta de animais do bentos e detritos animais e vegetais, entre eles escamas e ossos, desempenhando uma função biológica importante nos policultivos húngaros, principalmente com os bagres.

Os húngaros possuem em média cinco meses efetivos de engorda por ano, com temperaturas superiores a 20 oC. Devido as baixas temperaturas da água, na Hungria se aproveitam as fontes de águas termais e as águas utilizada nas usinas geradoras de energia elétrica para realizarem com sucesso alguns cultivos indor em sistema super-intensivo, mas a grande parte de sua produção é proveniente de policultivos extensivos em viveiros de grande porte.

Nestes sistemas o peixe pode levar até três anos para atingir o tamanho comercial de aproximadamente 1,5 kg para a carpa comum, ou 15 meses no sistema húngaro de contagem de tempo, onde eles só levam em conta os meses efetivos de engorda. Em experimentos com água aquecida em viveiros externos conseguiu-se obter um peso final de 1,5 kg para carpa húngara aos 8 meses de cultivo, embora este sistema não tenha se mostrado viável economicamente.

Atualmente os preços para o produtor e para o consumidor final são de aproximadamente: US$ 1,50 e US$ 2,10 para a o quilo das carpas comum e carpa capim; US$ 0,70 e US$ 1,10, para a prateada e cabeça grande; e US$ 3,70 e US$ 4,50 para o bagre europeu .

A Hungria vem se destacando na exportação de peixes tendo como grandes compradores a Alemanha para a tinca e a Polônia para a cabeça grande, mas seus embarques de peixes vivos chegam até a França.

Tive o prazer de presenciar o primeiro embarque de peixes para a Bósnia após a sua guerra, com aproximadamente 7 ton. de carpas e bagres. O mercado húngaro é bem diversificado e oferece ao produtor a possibilidade de se especializar em determinadas etapas do cultivo, já que há disponibilidade desde pós-larvas até reprodutores, passando por alevinos I e II, juvenis e peixe gordo.

Outro aspecto que me chamou a atenção foi como se organizam os pescadores esportivos do país. Eles se agrupam em associações que podem requerer junto ao governo a concessão, por períodos renováveis, para a pesca em determinado trecho do rio ou lago, se responsabilizando pelo controle da limpeza da natureza na referida área, além da fiscalização da pesca no que diz respeito aos períodos de defeso, quantidades máximas e tamanhos mínimos de captura, etc. Com as taxas cobradas de seus associados ou através de auxílio governamental, estas associações se encarregam de políticas de repovoamento destes ambientes, gerando assim, outra boa fonte de renda para os piscicultores.

Para finalizar, não há como não notar o excelente padrão zootécnico das carpas húngaras que fariam a grande maioria das nossas carpas se esconderem de vergonha.