AquaSur 2016

Evento atrai participantes de todo o mundo em torno da salmonicultura chilena


Por:
Jomar Carvalho Filho
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Biólogo e editor

A nona edição da AquaSur, realizada de 19 a 22 de outubro, repetiu o sucesso das edições anteriores e atraiu milhares de pessoas de 40 diferentes países à cidade de Puerto Montt, na Região de Los Lagos, no sul do Chile. A AquaSur acontece a cada dois anos e, segundo o Grupo Editorial Editec, organizador da feira, trata-se do maior evento aquícola realizado no Hemisfério Sul, que este ano recebeu a visita de 22 mil pessoas. Estiveram presentes aproximadamente 1.000 empresas, distribuídas em 254 estandes, muitas delas expoentes da indústria aquícola mundial, todas de olho nas inúmeras oportunidades oferecidas pela aquicultura chilena, principalmente a salmonicultura.

Expectativa

Apesar da tradição, havia uma grande expectativa ao redor da AquaSur 2016. O setor ainda sente os reflexos da grande mortalidade decorrente do aparecimento, no primeiro trimestre deste ano, de uma floração (bloom) de algas nocivas, da espécie Pseudochattonella verruculosa. Esse fenômeno natural foi responsável pela morte de aproximadamente 100 mil toneladas de salmão, algo em torno de 10% da produção anual chilena, causando um forte impacto nas finanças do setor.
Sob forte influência do El Niño, as temperaturas se mantiveram mais altas ao longo de 2015 e início de 2016. Esse quadro, associado a ausência de chuvas, aumento da radiação solar e muita disponibilidade de nutrientes, criou condições extremamente favoráveis para a grande proliferação da alga e as suas consequências desastrosas para os salmões nas gaiolas.

Os mecanismos exatos que levaram a morte dos salmões ainda estão sendo estudados, e algumas possibilidades estão sendo consideradas. A rápida proliferação do fitoplâncton pode privar a água do oxigênio, sufocando os peixes, mas também é possível que a imensa colônia de algas tenha produzido neurotoxinas, como a brevetoxina, que pode ter sido mortal para os peixes. Além disso, há também a hipótese dos animais terem sido asfixiados, não apenas pelo esgotamento de oxigênio na água, mas também pelo acúmulo de muco em suas brânquias.

Na mesma ocasião, florações de outra alga também prejudicou o cultivo de ostras e mexilhões. As mesmas condições ambientais que favoreceram a floração de Pseudochattonella verruculosa, também permitiram o florescimento da alga Alexandrium catenella, responsável pela produção de uma toxina paralisante, extremamente perigosa para quem se alimenta dos moluscos. As medidas de interdição da extração dos estoques naturais, e a proibição das despescas dos cultivos de mexilhões e ostras afetaram tanto pescadores como aquicultores, e geraram problemas econômicos e sociais na região.

O fato é que as florações do primeiro semestre provocaram uma tensão que ainda se mantém viva neste final de 2016, com a proximidade do verão. As condições ambientais, com temperaturas mais elevadas, falta de chuva e muita insolação estão se mantendo, e alertas de novas florações já estão sendo dados pelas autoridades. Na verdade, há um sentimento de que isso vá novamente acontecer e, por conta disso, as autoridades chilenas acabaram de baixar normas que determinam como deve ser a rápida remoção de peixes mortos, caso as mortalidades em massa ocorram novamente.

A semana AquaSur

O que se viu em Puerto Montt foi uma festa em torno da AquaSur 2016, numa demonstração de que a indústria está suficiente madura para superar os problemas.

A semana que antecede a feira, como de costume, reserva uma programação sempre muito interessante para os visitantes. Empresas locais de alimentos para peixes, produção de smolt, engorda, processadoras e distribuidores de produtos, costumam abrir suas portas para receber clientes selecionados ou interessados em conhecer mais aprofundadamente a dinâmica da indústria local. E é nessas horas que um bom QI (quem indicou) abre muitas portas em Puerto Montt. Assim, alguns visitantes da AquaSur acabam fazendo visitas técnicas e conhecendo pelo menos uma instalação de cada uma dessas categorias.

Nas vésperas da AquaSur algumas empresas também se dispõem a oferecer seminários, lançar produtos ou inaugurar instalações, como foi o caso da Cargill, que aproveitou a presença de expoentes da aquicultura de vários países, para inaugurar, no dia 18 de outubro, em Calbuco, pequena localidade costeira a 60 km de Puerto Montt, um centro de pesquisa e inovação no estudo de doenças de peixes, chamado Cargill Inovation Center (CIC), que, segundo especialistas, atualmente é o mais moderno do mundo. (ver matéria a seguir)

Pavilhão da Dinamarca na AquaSur 2016
Pavilhão da Dinamarca na AquaSur 2016

Visitando a feira

A AquaSur, como de costume, é um ótimo playground para quem gosta e está envolvido no mercado da aquicultura, e não foi diferente para os cerca de 30 brasileiros que foram a Puerto Montt.
Os visitantes se depararam com o pavilhão da Dinamarca, com dezenas de empresas mostrando classificadoras de peixes, sistemas de remoção de odores por ultra-violeta, sistemas de recirculação (RAS), filtros de tambor, equipamentos de extrusão de ração (Andritz), entre outros. A Dinamarca cada vez mais avança no mercado mundial, oferecendo a sua expertise, seus produtos e serviços.

Nas alamedas da feira, por todo canto eram vistos serviços e equipamentos para quem cria peixes em tanques-rede. Tratamento contra incrustação, câmeras submarinas de monitoramento, equipamento para a contagem e avaliação instantânea de biomassa e robôs para a limpeza de redes eram as vedetes se exibindo nos corredores. Outra vedete foi o tanque feito com placas metálicas pintadas com tinta à base de vidro. O acabamento vitrificado é garantia de 10 anos de uso ininterrupto, sem uso de mantas. Uma variedade de equipamentos de incorporação de oxigênio, desde oxigênio líquido, sopradores, conjunto de difusores de ar e produtos de emergência à base de água oxigenada, também chamaram a atenção dos visitantes, muitas vezes atraídos aos estandes pelos deliciosos canapés e cervejas artesanais.

Eduwaldo Jordão e Eliane Jordão da Wenger - Brasil com um chef da SalmonChile
Eduwaldo Jordão e Eliane Jordão da Wenger – Brasil com um chef da SalmonChile

Para relaxar e ao mesmo tempo divulgar o salmão chileno e sua versatilidade na cozinha internacional, a SalmonChile promoveu um concurso gastronômico onde os chefs eram expositores da feira. O concurso foi realizado num clima de festa, num espaço simpático e amplo, reservado para uma plateia bastante atenta e interessada nas diferentes formas de preparo do peixe. “Concorrentes” de diversos países foram selecionados entre os expositores, e o Brasil foi muito bem representado por Eduwaldo Jordão, presente na feira com o estande dos equipamentos de extrusão da Wenger. Mesmo muito aplaudido, seu prato não conseguiu vencer o ceviche de salmão preparado pelas peruanas Alicia Pulido e Maribel Teran, da Revista Pesca y Medio Ambiente.

Felipe Sandoval, presidente da SalmonChile, definiu muito bem, em sua palestra da abertura da feira, o que estava por acontecer. Era a celebração de um esforço árduo de milhares de trabalhadores que contribuem com a alimentação saudável de todos os habitantes do planeta.

Como AquaSur é um evento que ocorre a cada dois anos, o próximo encontro da indústria do salmão, em 2017, será na AquaNor, como de praxe, em Trondheim, na Noruega.