Aqüicultura Brasil 2000

O Aqüicultura Brasil 2000, realizado em Florianópolis de 28 de novembro a 1º de dezembro, reuniu o XI Simpósio Brasileiro de Aqüicultura – SIMBRAq, o IV Encontro Sulbrasileiro e o V Encontro Catarinense de Aqüicultura, além do II Festival Nacional da Ostra e da Cultura Açoriana, a Fenaostra, num evento que congregou 745 técnicos e especialistas, brasileiros e estrangeiros. Em todas as noites, a Fenaostra atraiu, com shows de artistas populares, um grande público ao Centro de Convenções, onde também foram montados estandes de diversos restaurantes de Florianópolis, que serviam dezenas de pratos a base de ostras, vieiras (coquilles) e mexilhões. Além do ótimo nível técnico, os participantes puderam se divertir e degustar as ostras das mais variadas formas.

O setor elétrico esteve presente ao evento, num painel dedicado à produtividade aqüícola nos reservatórios hidrelétricos. Mesmo sabendo que as produtividades pesqueiras nos reservatórios brasileiros são baixíssimas, variando de 5 a 50 kg de peixes por hectare, e que o impacto ambiental já causado por esses reservatórios tem a sutileza de um peru de Natal servido sobre um pires de xícara de cafezinho, ainda assim foi possível perceber uma resistência do setor em permitir a utilização dos reservatórios para instalação de tanques-rede. Como a normatização da legislação das águas públicas está emperrada nos gabinetes palacianos, é muito difícil prever como será em breve o relacionamento dos produtores com as hidrelétricas. Uma coisa ficou clara: estão de pé-atrás. Enquanto isso, a tônica do setor é o velho “trabalho de repovoamento de reservatórios, que deve ser precedido por estudos de monitoramento e dinâmica de populações de peixes, pelo tempo considerado necessário, bem como conduzido visando a re-introdução de espécies nativas”, conforme deixou claro o representante da Gerasul – Centrais Geradoras do Sul do Brasil

Nesse mesmo painel sobre o papel dos reservatórios das hidrelétricas na produção de pescado, Carlos Eduardo Proença, do DPA, apresentou dados reveladores. Proença apresentou um estudo de caso onde avaliou a capacidade de suporte do reservatório de Tucuruí, no Pará, para cultivos em tanques-rede. A capacidade de suporte é o “nível máximo de produção que um ambiente aquático pode sustentar, respeitadas as normas estabelecidas para conservação e uso de suas águas, bem como os limites de tolerância da(s) espécie(s) cultivada(s)”.

A área estudada tinha 1.165 km2, profundidade média de 17,3 metros e tempo de residência da água de aproximadamente 51 dias. Os cálculos levaram em consideração um cultivo fictício de tilápia do Nilo com produtividade esperada de 150 kg/m3/180 dias e conversão alimentar de 1,5:1. Proença levou também em consideração que este cultivo elevaria, no máximo, a quantidade de fósforo em 5 µg /L (microgramas por litro), ficando ainda o reservatório com o teor de fósforo muito aquém do limite máximo estabelecido pela Resolução CONAMA 020/86 para a Classe II que é de 25 µg /L. Como resultado, Proença concluiu que o Reservatório de Tucuruí poderia gerar 143.630 toneladas de tilápia/ano e, que para essa produção seriam necessários 478.766 m2 de tanques-rede, que necessitariam estar em um parque aqüícola com uma área mínima de 2 km2, o que representa apenas 0,17% da área total do reservatório. Resumidamente, 0,17% da área do Reservatório de Tucuruí poderia gerar por ano o equivalente a 1/5 da produção total anual de pescado oriundo de toda a pesca extrativa no Brasil.

E foi justamente o teor de fósforo proveniente dos cultivos que levou Albert Bartolomeu, da CODEVASF, a lembrar que um dos principais motivos que fazem com que a piscosidade dos reservatórios brasileiros seja baixa, e continue baixando mais ainda, é justamente a baixa produtividade primária em decorrência de baixos teores de fósforo. E jogou no ar a pergunta: será que os tanques-rede não podem ser benéficos para aumentar a produtividade primaria e, conseqüentemente, a piscosidade desses reservatórios? A pergunta ainda permanece no ar.

O Aqüicultura Brasil 2000 também levou a Florianópolis os principais dirigentes das principais instituições que oferecem crédito ao aqüicultor: BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Banco do Brasil e BNB – Banco do Nordeste. Sobrou spreads para todos os cantos. (mas não se assuste leitor, se você não souber o que significa spread, (pois a maioria presente também não tinha a menor idéia). Mas se um incauto tivesse assistido as apresentações desses senhores, poderia facilmente achar que a atividade é muito bem assistida em termos de créditos e spreads. Mas quem, de fato, vive o dia-a-dia da atividade sabe que o aqüicultor está, na verdade, muito longe desses recursos. O que se vê, na realidade, são créditos de difícil acesso, limitados e que não levam em consideração a maior necessidade do produtor: o custeio da sua produção. Após o evento catarinense, a revista Panorama da AQÜICULTURA tentou apurar como têm sido utilizados os recursos do Procamol (Programa de Apoio ao Desenvolvimento da Produção de Tilápias, Camarão Marinho e Moluscos), os tais disponibilizados em cerimônia solene pelo Ministro da Agricultura, para a Safra 2000-2001. “A tomada desses recursos foi insignificante”, revelou uma fonte do BNB.

Para a surpresa dos presentes, ao final do painel de financiamento, eis que apareceu um pequeno produtor catarinense de camarões marinhos para assinar, sob flashs fotográficos e aplausos, um contrato de empréstimo com recursos do Procamol, via banco do Brasil. O momento merecia mesmo as fotos. Pelo que pudemos apurar, aquele foi um momento raro.

Rastreabilidade foi uma das palavras mais ouvidas durante o painel de comercialização, onde estiveram presentes representantes da rede Carrefour, das indústrias Leardini e da Marepesca. Em futuro bem próximo, a confiabilidade da origem se tornará uma grande arma para os aqüicultores na hora da comercialização. Os produtos vendidos em muitas lojas da rede Carrefour já passam por esse processo e os fornecedores recebem visitas freqüentes de auditores independentes pra checar passo a passo o processo de produção. Quando o assunto foi a baixa qualidade do tratamento que muitas vezes é dado aos pescados nos supermercados, valeu o comentário de Atílio Leardini, que alertou para que, a todo custo, a imagem da aqüicultura não seja prejudicada por falta de cuidados dos estabelecimentos. Para ele o aqüicultor deve procurar parceiros que dêem continuidade a qualidade da aqüicultura, e deu o exemplo do filho que é criado com amor e depois é entregue nas mãos de bandidos. Atílio Leardini fala de cadeira, pois é responsável por uma linha extensa de pescados vendida em cadeias de supermercados, alguns desses vindos de cultivo. Quando o tema foi o alto preço de alguns produtos aqüícolas para o consumidor final, mais uma vez Albert Bartolomeu, da CODEVASF, lembrou que o preço ainda é alto pois o nível tecnológico da aqüicultura brasileira ainda não alcançou uma situação que pode abaixar os custos de produção. Lembrou que o frango na década de 70 custava 4,5 dólares e hoje tem um custo muitíssimo menor.

No painel sobre alimentação de peixes, o frango também foi citado por Ângelo Cantelmo do CEPTA. Na sua opinião não tem sentido conversões alimentares altas, acima de 1,5:1 na piscicultura. E citou a avicultura mostrando que o frango tem um gasto energético muito superior ao dos peixes e ao ser criado converte o alimento ao redor de 2:1. No mesmo painel, Fernando Kubitza lembrou que apesar da indústria de ração ter crescido bastante nos últimos anos, de 51.100 toneladas em 1996 para 108 mil toneladas em 2000, ainda não se tem o mínimo de conhecimento das necessidades nutricionais de algumas das espécies que se formulam. Ainda assim citou os avanços da indústria ao produzir rações para as diversas fazes de desenvolvimento com diversos níveis de proteína, tentando explorar o melhor potencial de crescimento do animal em suas diversas fases, aumentando o numero de safras anuais e minimizando o impacto sobre a qualidade da água. Silvio Romero, Gerente da Mogiana Alimentos, lembrou que hoje existem 69 empresas fazendo rações de peixes no Brasil. Dessas, um grupo de cerca de 8 empresas formam o Coaqui – Comitê de Aqüicultura do – Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal SINDIRACOES. O Coaqui tem a meta de difundir, entre os produtores, as técnicas corretas de alimentação e, para isso, criou um guia que pode ser solicitado gratuitamente. O endereço do Sindirações é Rua Cláudio Soares, 160, Pinheiros, São Paulo – SP, cep 05422-030 a/c do Coaqui.

À boca pequena falou-se da possível presença de Streptococcus na tilapicultura brasileira. Nega daqui, suspeita dali, sobra a incerteza no ar. Pelo certo e pelo errado, é bom tirar a dúvida. Streptococcus é coisa séria e pode causar grandes prejuízos na indústria emergente. A terapia com antibióticos tem se mostrado ineficiente, havendo rápida resistência a oxitetraciclina, furazolidona e erithromicina. Existem, entretanto, tratamentos preventivos com vacinas em combinação com antibióticos e imunoestimulantes que, associado a um bom manejo, pode ser bastante efetivo. É bom que especialistas tomem a frente desse assunto porque a coisa é séria e temos mania de achar que a aqüicultura brasileira é imune a doenças. E não é.

E por falar em doenças, Marcos Rigolino da Estação de Truticultura do Instituto de Pesca em Campos do Jordão, acredita que a ausência de doenças na truticultura brasileira pode ajudar para que iniciemos a exportação de ovos embrionados para grandes centros produtores. Nesses países é muito difícil conseguir ovos de junho a agosto, período em que aqui no Brasil acontece a reprodução. Nos países europeus, o verão reduz drasticamente a produção de ovos e aumenta a demanda. A turma do camarão marinho também tem esse privilégio. Se partirem para exportar pós-larvas ou náuplios, vão ter um mercado interessante, já que por aqui ainda estamos a salvo dos vírus da mancha branca.

No último dia do Simbraq aconteceu a Assembléia Geral da Associação Brasileira de Aqüicultura – Abraq, convocada por Roberto Carlos Barbieri Junior, presidente eleito no último Simbraq realizado em Recife. A desmotivação, possivelmente gerada pela péssima gestão da última diretoria, fez com que somente 35 pessoas atendessem ao convite. Uma única chapa, encabeçada pelo piscicultor goiano Adilon de Souza, tendo como vice-presidente Itamar de Paiva Rocha, atual presidente da ABCC – Associação dos Criadores de Camarões. Em seu discurso de posse, Adilon, que também ocupa o cargo de presidente das Câmaras Nacionais dos Pólos de Aqüicultura, disse esperar contar com o apoio de uma frente parlamentar integrada por 149 deputados, estaduais e federais, para obter a tão necessária representatividade do setor. Sugeriu que a Abraq realizasse um workshop para definir uma missão para a associação e a composição de um conselho consultivo de ex-presidentes. Além disso, a exemplo do outros ex-presidentes, pretende formar coordenadorias estaduais que porão em prática um programa de filiação de novos associados. A nova diretoria já anunciou que o próximo Simpósio da Abraq – Simbraq, em 2002, será realizado em Goiânia. Até lá, o novo presidente prometeu a realização de Simbraqs regionais para levantamento dos atuais problemas visando um grande evento em 2002.

Da esquerda para a direitia: Adilon de Souza, presidente eleito da ABRAq; Astor Grumann, presidente do evento e Geraldo Bernardino, coordenador de aqüicultura do DPA
Da esquerda para a direitia: Adilon de Souza, presidente eleito da ABRAq; Astor Grumann, presidente do evento e Geraldo Bernardino, coordenador de aqüicultura do DPA