A aquicultura brasileira e a mulher de Cesar

João Manoel Cordeiro Alves
Aquabusiness Consulting
joaomanoel@aquabusiness.com.br
João Manoel Cordeiro Alves
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“À mulher de Cesar não basta ser honesta, precisa parecer honesta”. Atribuída a Júlio Cesar no ano 63 A. C., a frase pode ser adaptada para ilustrar muitas situações em que se precisa não apenas executar corretamente uma ação, mas também dar ampla visibilidade a essa virtude. Seguindo o raciocínio, quero dizer que ao Brasil hoje não basta ser sustentável, precisa também parecer sustentável. E aqui cabe destacar que a sustentabilidade tem obrigatoriamente três faces: é preciso ser economicamente, socialmente e ecologicamente sustentável.


Atualmente, os princípios ESG – do inglês Environmental, Social and Governance (ambiental, social e governança) – formam um conjunto de padrões e boas práticas que visam a definir se um país, negócio ou empresa é socialmente consciente, sustentável (nos três aspectos) e corretamente (eu diria justamente) gerenciado.

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A aquicultura brasileira tem crescido ano a ano por décadas a fio, graças ao trabalho de muita gente: o produtor, o pesquisador, os técnicos de campo que difundem formas de produzir com mais eficiência, a indústria que também investe e consegue manter à disposição dos produtores rações, aditivos, equipamentos, materiais e serviços bem adequados, e mais uma turma, anônima, que rema esse enorme barco que avança.

A internet tem sido nossa aliada na disseminação de bons resultados, das técnicas que levaram ao melhor desempenho, as discussões nos grupos, os cursos, palestras, lives e tantas outras coisas boas que conseguimos com essa ferramenta. A internet também ajuda a espalhar na mesma velocidade (ou até mais rapidamente) notícias que não gostaríamos de dar: crimes contra as pessoas, o ambiente, os animais, acidentes e toda sorte de más notícias. Também amplifica problemas, como foi o recente caso da Doença da Urina Preta, que fez o consumo de pescado cair muito, levando dificuldades a todo o nosso setor. Foi pela internet também que consertamos o estrago: muitas mensagens de pesquisadores respeitados contradisseram o risco enorme que se propagava à época. Tudo esclarecido, o consumo de pescado voltou ao normal. A notícia era verdadeira, mas o risco era mínimo. 

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O mundo está de olho no Brasil e não é de hoje. Eu era criança e ouvia dizer: Brasil – celeiro do mundo! Estamos vendo isso, nossas exportações do agronegócio vão muito bem: grãos, como milho e soja, proteínas de origem animal que, no fundo, são quase tudo milho e soja. Nossas produções agrícola e pecuária estão entre as mais eficientes do mundo. Mas temos algumas máculas. Há bastante preocupação com desmatamento para produção de soja, principalmente. Precisamos esclarecer isso, precisamos mostrar que estamos no caminho certo ou então aceitar que não estamos certos e brecar isso. Precisamos ganhar a confiança e os pedidos de compra dos outros povos, e não ganhar a discussão. Porque a discussão o comprador facilmente ganha: não vou comprar do Brasil, eu decido e pronto! 

Precisamos continuar pesquisando, provando nossas teses ou aceitando as outras e mostrar para o mundo que concordamos que é preciso preservar. Vamos ter, nós brasileiros, que fazer a preservação que o resto do mundo não fez? Provavelmente sim, estamos no mesmo barco. Vamos atender e negociar compensações por isso.

A água é um bem de todos, será que estamos cuidando bem dela? O que estamos fazendo a favor dela? O uso de biorremediadores está resolvendo os problemas? E as bacias de sedimentação? E as espécies que estamos produzindo, como estão os escapes? Que risco representam?

Precisamos mostrar para todos que estamos preocupados, que estamos recuperando o que foi impactado e que nos novos projetos já estamos produzindo com impacto menor, que estamos no caminho certo.

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Lembremos da mulher de Cesar e concordemos que à aquicultura brasileira também não basta ser sustentável, é preciso parecer sustentável aos olhos do mundo que nos observa. Então vamos ser e mostrar que somos responsáveis pela parte que nos toca na preservação do planeta.

O recente caso de funcionários em condição análoga à escravidão ocorrido em algumas vinícolas do Brasil respingou em todas as outras. Eu mesmo, que me considero um sujeito informado e esclarecido, deixei de comprar vinho de um fabricante porque tive dúvida se ele estava entre os três ou não. Na dúvida, não comprei. E ele não estava envolvido. Pagou pelos outros.

Nossa aquicultura beirou um milhão de toneladas no ano passado (2022), um grande êxito, mas não é nada perto do nosso potencial. Precisamos crescer com bases ESG, precisamos trazer gente de fora para ver o que fazemos, precisamos seguir as regras, nossa aquicultura é boa.

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Estamos construindo um negócio para dar orgulho a todos, pelo crescimento, pelo potencial que representamos, pelo cuidado que temos com as pessoas, com os animais, com o ambiente e com a rentabilidade.