Aqüicultura : Ciência ou tecnologia

O que significa aqüicultura? Consta no dicionário “Aurélio” da língua portuguesa que a palavra aqüicultura deriva da junção de aqü(i)- + cultura, que significa “arte de criar e multiplicar animais e plantas aquáticas”. Já para a FAO – Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, é definida como “o cultivo de organismos aquáticos, incluindo peixes, moluscos, crustáceos e plantas aquáticas”, afirmando ainda que “a atividade de cultivo implica a intervenção do homem no processo de criação para aumentar a produção, em operações como reprodução, estocagem, alimentação, proteção contra predadores, etc.”

Levando-se em consideração a acepção do dicionário, a aqüicultura viria a ser uma arte e, portanto, “o resultado da capacidade que o homem tem de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria, ou, a utilização de tal capacidade, com vista a um resultado que pode ser obtido por diferentes meios (…)”. Na definição da FAO, fica claro que a intervenção do homem é indispensável à produção de organismos aquáticos. Neste caso, o termo techné (criado por Aristóteles) poderia ser aplicado, já que esta palavra, segundo o filósofo norte-americano Thomas Ransom, significa “no sentido mais geral, qualquer coisa criada propositalmente por seres humanos, em contraste com aquilo que resulta da natureza, ou, em termos precisos, o conhecimento sobre como fazer ou fabricar algo”.

criar… cultivar…

Os termos criar e cultivar, presentes nas duas definições, exprimem a necessidade de se atingir uma meta, o que é próprio da ação humana. Vemos assim, que a aqüicultura é praticada propositalmente pelos homens tendo por meta a multiplicação de organismos aquáticos (muitos peixes de poucas espécies, em pequenos espaços), em contraste com aquilo que resulta da natureza (poucos peixes de muitas espécies, em grandes espaços).

Assim, aqüicultura poderia ser definida dentro do contexto do techné, como uma criação do homem, que exige um conhecimento específico e que resulta na produção abundante de organismos aquáticos, mas por caminhos diferentes dos da natureza.

Fazendo uma analogia com a agricultura (agri: campo de terra + cultura: cultivo), vemos que esta significa “o cultivo da terra” e, de acordo com isso, é válido pensar que aqüicultura (aqüi: água + cultura: cultivo) seja o “cultivo da água”. Sabemos que a necessidade de conhecimentos mais profundos acerca da agricultura deu lugar a agronomia, que é definida como o conjunto das ciências e dos princípios que regem a sua prática. Se aqüicultura é o cultivo da água, como então deveria se chamar o conjunto das ciências e dos princípios que regem a prática da aqüicultura? “Aqüanomia”? Eis aqui um tema de pesquisa para os lingüistas.

A cada dia que passa, a aqüicultura requer conhecimentos cada vez mais amplos e complexos que tornam a sua prática muito mais científica. Então, podemos fazer a seguinte comparação: o aqüicultor dedica-se a criar peixes dentro de um corpo de água e o “aqüônomo” a estudar como esta criação é feita, objetivando seu aperfeçoamento.

A aqüicultura é ciência ou tecnologia?

O sociólogo Alfonso Trujillo afirma que “ciência é todo um conjunto de atitudes e de atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação”. Já o filósofo argentino Mario Bunge, caracteriza a ciência como um campo de conhecimento, como um setor da atividade humana dirigido a obter, difundir ou utilizar conhecimento de alguma classe, seja este verdadeiro ou falso. Obviamente, a aqüicultura (a que se dedica à pesquisa) se encaixa nestas duas definições, fato que a tornaria uma ciência. Entretanto, a ciência propriamente dita tem por meta a verdade pela própria verdade, ou seja, que sua procura de conhecimentos não implica, necessariamente, aplicação para uso imediato, contenta-se apenas em obter conhecimentos. Mas no caso da tecnologia, se tem por meta a verdade útil a alguém, isto é, conhecimento que pode ser aplicado e que possui alguma utilidade prática.

Analisando os objetivos de pesquisa da aqüicultura, vemos que quase a totalidade dos trabalhos publicados em revistas especializadas, das teses de mestrado e doutorado, das apresentações em congressos, etc., são de natureza tecnológica por tratarem sobre espécies aquáticas com valor alimentício e econômico, ou seja, que servirão, em última instância, a alguém. Dificilmente, uma pesquisa em aqüicultura investigaria, por exemplo, os neurotransmissores presentes no cérebro dos peixes (biologia), ou a natureza paradoxal da molécula da água (química), ou a geomorfologia de uma determinada bacia hidrográfica (geologia). Mas pode perfeitamente investigar, as condições físico-químicas de uma barragem, objetivando utilizar estes conhecimentos para o cultivo de peixes, a natureza hormonal de um determinado organismo de cultivo com a finalidade de aumentar seu crescimento ou sua eficiência reprodutiva visando o incremento na produção. Como podemos observar, a busca da verdade útil a alguém é muito evidente nas pesquisas em aqüicultura, portanto, esta poderia ser considerada uma tecnologia.

De acordo com Bunge, um corpo de conhecimento é uma tecnologia se, e somente se, é compatível com a ciência contemporânea e controlável pelo método científico, e, é empregado para controlar, transformar ou criar coisas ou processos, naturais ou sociais. Assim, a simples prática artesanal de criar organismos em corpos de água (aqüicultura) estaria longe de ser uma tecnologia. No entanto, a criação destes organismos aquáticos, com base na pesquisa (aqüanomia), ficaria mais perto deste conceito de tecnologia.

Outro ponto que reforça o caráter tecnológico da “aqüanomia” seria o fato desta possuir e produzir conhecimentos científicos. Segundo o historiador francês Paul-Eugène Charbonneau, o conhecimento científico se carateriza por três elementos essenciais:

a) Pelo ponto de vista em que se coloca para atingir seu fim – O ponto de vista da ictiologia é o estudo da vida dos peixes, já o da piscicultura, “piscinomia”, seria o estudo do cultivo dos peixes.
b) Pela organização sistemática dos fatos analisados e das idéias que eles sugerem – O conhecimento acumulado pela “aqüanomia” será expresso por uma linguagem organizada que se adaptará aos fenômenos para poder traduzi-los, prevê-los e, eventualmente, manipulá-los.
c) Pelo rigor do raciocínio e a solidez da prova que esse raciocínio estabelecer – Só admite como verdadeiro o que é rigorosamente provado por meio da pesquisa experimental.

De acordo com a bióloga brasileira Paula Brügger, a tecnologia vem a ser uma sistematização de conhecimentos práticos, artefatos ou instrumentos destinados a otimizar o trabalho humano e buscar maior produtividade. A tecnologia é mais ampla e engloba a ciência.

A tecnologia tem também um caráter mais interdisciplinar, mais intuitivo e se concretiza mais a curto prazo que a ciência. Verifica-se então que as tecnologias são, necessariamente, originadas a partir das ciências. Por exemplo: a maioria das engenharias descende da física e da química; a farmacologia e bromatologia, da bioquímica; a agronomia, medicina e bioengenharia, da biologia. A maioria das tecnologias precisa dos conhecimentos não de uma, mas de várias ciências e, nenhum de seus ramos está isolado ou surgiu do nada. Toda tecnologia deve ser entendida em suas relações com seus vizinhos próximos (outras tecnologias) e dos seus antecessores imediatos (as ciências).

Para podermos entender a aqüicultura, devemos determinar claramente suas relações com seus vizinhos próximos e a natureza dos seus antecessores imediatos. A “aqüanomia” tem como parente a agronomia, por compartilharem a mesma concepção geral, ou seja, estudar o cultivo e a criação de seres vivos úteis aos homens. Já a simples “aqüicultura” teria como parente a agricultura, pois ambas se limitam apenas a cultivar seres vivos. Entretanto, cabe destacar a existência de práticas de cultivo de organismos aquáticos que, sem possuir maiores conhecimentos científicos (oriundos da pesquisa experimental), são ricos em conhecimentos empíricos altamente precisos (p. ex., os policultivos de carpa praticados na China).

Muitas vezes se menciona a pesca como sendo parente próximo da aqüicultura, causando uma verdadeira confusão. Tanto nos currículos acadêmicos das ciências agrárias, quanto nos da engenharia de pesca (e também nos de oceanografia e/ou oceanologia), encontramos a aqüicultura como sendo uma conseqüência lógica de tais campos de conhecimento. Igualmente, em numerosos países, o desenvolvimento da aqüicultura fica como sendo responsabilidade ora dos ministérios de agricultura, ora dos de pesca. É incorreto relacionar aqüicultura com pesca, pois o paradigma desta (captura de seres selvagens para alimentação) é o mesmo que a caça e a colheita, atividades que foram comuns antes do neolítico. Reconhecendo a agricultura como parente da aqüicultura e a agronomia como parente da “aqüanomia”, fica mais fácil extrapolar, do campo para a água, conceitos, experiências e procedimentos (p. ex., capacidade de carga, calagem, fertilização, melhoramento genético, etc.).

Isto não significa que os profissionais da pesca são incapazes de trabalhar em aqüicultura, até porque estes profissionais são responsáveis hoje por boa parte do desenvolvimento da atividade (p. ex. no nordeste brasileiro, os engenheiros de pesca muito tem contribuído para o crescimento da carcinicultura marinha). Na verdade, a “aqüanomia” pode ser praticada por agrônomos, engenheiros de pesca, biólogos, zootecnistas, veterinários, oceanólogos, etc. Cada um destes profissionais contribuirá com uma parcela do seu amplo conhecimento a serviço do estudo da aqüicultura.

Se a agronomia tem como antecessor imediato a biologia, e se a “aqüanomia” é parente da agronomia, logo a “aqüanomia” também descende da biologia. Este fato, sugere que para estudar aqüicultura devemos dar a justa atenção aos conhecimentos vindos das ciências biológicas. Isto deveria ser observado, sobretudo, nos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação em aqüicultura. Definitivamente, a criação científica de organismos aquáticos pode ser melhor operacionalizada conhecendo-se a natureza desses organismos e a ecologia do meio onde estes se desenvolvem. Adotando-se uma visão interdisciplinar (não só biológica), pode-se conseguir um grande avanço nesta atividade.

Aqüicultura: uma tecnologia interdisciplinar!

Somente os conhecimentos biológicos, no entanto, não são suficientes. A necessidade que se tem de confinar os organismos em espaços restritos e um tanto diferentes do ambiente original, seguindo a lógica da intensificação, exige conhecimentos específicos sobre hidráulica e engenharia. Já o manejo dos cultivos, irá demandar do aqüicultor conhecimentos sobre nutrição, qualidade da água e administração. Muitos desses conhecimentos são melhores aplicados na aqüicultura quando se conta com a ajuda da informática, fato que demanda também conhecimentos a respeito do uso de softwares. No caso da pesquisa, ou seja na “aqüanomia”, na maioria dos temas de investigação, a metodologia e a estatística experimental, sobretudo a paramétrica, são fundamentais na compreensão dos fenômenos que estão sendo estudados.

Portanto, fazer e estudar aqüicultura demanda conhecimentos específicos de um bom número de disciplinas científicas e tecnológicas. Praticar cientificamente aqüicultura não significa conhecer uma disciplina 100%, mas sim, conhecer 1% de cem disciplinas diferentes. É fundamental que entendamos que a interdisciplinariedade possui dois sentidos: um intrínseco e outro extrínseco. O intrínseco centra sua atenção no objeto; em aqüicultura, equivale dizer que se utiliza todo tipo de recursos e de conhecimentos para se ter êxito no cultivo dos organismos. Já a interdisciplinariedade extrínseca olha para fora dos cultivos, ou seja, para a sociedade e para o meio ambiente. Afinal, é a sociedade que vai se beneficiar com os produtos e é por causa dela que existe a aqüicultura (bocas que alimentar, força de trabalho, geração de emprego, financiamentos, arrecadação de impostos, cursos de graduação e pós-graduação, etc.). Igualmente, as unidades de cultivo não são constituídas em outros planetas, mas sim neste planeta, portanto, elas se encontram intimamente ligadas a um ecossistema. Entender o que se passa fora dos cultivos significa entender o que se passa dentro, já que segundo a primeira lei da ecologia, tudo está ligado a tudo.

Conclusão

Dessa reflexão, concluimos que a palavra Aqüicultura refere-se apenas ao sentido prático da atividade, ou seja, “o cultivo da água”. Seria necessário discutir a possibilidade de se criar um novo termo que discrimine a diferença existente entre “o cultivo da água” e o “estudo do cultivo da água”. Frente a constatação que a aqüicultura é uma tecnologia que descende das ciências biológicas e que é parente da agronomia, sua pesquisa deveria estar mais orientada, à procura da verdade, útil a alguém, levando em consideração, sempre, o seu objeto: o cultivo de organismos aquáticos. A prática (aqüicultura) e o estudo (aqüanomia) dos cultivos se reveste de um caráter interdisciplinar; isto significa que, conhecendo “do todo um pouco”, é possível tornar a nossa atividade coerente e com mais êxito.