Aqüicultura cubana e brasileira

Ensilados a partir de resíduos de processamentos pesqueiros na alimentação de peixes

Por: José Toledo Pérez1,
Rose Meire Vidotti2,
José Llanes Iglesias1 e
Mirta Vinjoy Campa1
1Centro de Preparación Acuícola Mampostón.
e-mail: [email protected]
2Depto de Zootecnia da Faculdade de Zootecnia
e Engenharia de Alimentos-USP e-mail: [email protected]


Desde 1980 pesquisadores cubanos vêm desenvolvendo experimentos de nutrição e alimentação de peixes. As pesquisas estão relacionadas aos requerimentos nutricionais, digestibilidade, dieta a base de sub-produtos agrícolas e industriais e técnicas de alimentação com diferentes espécies, como tilápias (Oreochromis aureus e niloticus), tilápia vermelha, bagre de canal (Ictalurus punctatus) e bagre africano (Clarias gariepinus).

Devido a estes antecedentes, a partir de 1998, sobre o auspício da FAO – Organização para as Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, passou-se a desenvolver no CPAM – Centro de Preparación Acuicola de Mampostón, do Ministério da Indústria Pesqueira, o projeto denominado “Alimentação de Peixes por Métodos Alternativos não Convencionais”. O CPAM é o único centro de pesquisas aqüícolas de Cuba a se dedicar à substituição total ou parcial da farinha de pescado, nas dietas para peixes

Os objetivos do projeto foram a construção de um Laboratório de Nutrição de Peixes no CPAM, e o desenvolvimento de experimentos com sub-produtos agroindustriais (farelos de trigo e arroz, melaço, etc.) e resíduos de pescado de processamento pesqueiro, onde foi empregada a tecnologia colombiana utilizada na alimentação de trutas.

Os experimentos realizados com a tilápia vermelha e o bagre africano, foram muito animadores, obtendo-se dietas para essas espécies, com boas taxas de crescimento e conversão alimentar. Além disso, produtores das diferentes fazendas de cultivo de peixes do país receberam treinamento e, para ajudá-los, foi preparado um atlas de sub-produtos agrícolas e industriais da República de Cuba, para ser utilizado, principalmente, na alimentação de peixes.

Desde agosto de 2001, dando seguimento ao projeto anterior, está em andamento o projeto “Produção em escala industrial de alimentos não convencionais para peixes” patrocinado pelo PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e a FAO. O objetivo deste projeto é a construção de uma planta piloto de produção de alimento úmido, a partir de ensilados de resíduos de pescado, com uma capacidade de 2 a 3 ton/dia no CPAM e, dependendo dos resultados obtidos nesta planta de preparação de alimento, serão construídas outras plantas no interior do país. Além disso, o projeto prevê também a realização de um workshop para produtores cubanos em 2002, e outro, em 2003, para um público internacional, com o objetivo de agrupar os envolvidos no desenvolvimento dos ensilados de pescado na América Latina.

No transcurso deste projeto, estão sendo realizadas visitas a diferentes países, como a Colômbia, Peru (Instituto Tecnológico Pesqueiro) e o Brasil (Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimento da Universidade de São Paulo, em Pirassununga), para que se possa conhecer e assimilar a valiosa experiência destes países nas técnicas de ensilados de pescado, e realizar trabalhos conjuntos, que permitam desenvolver um Projeto Regional sobre as técnicas de ensilados de dejetos de pescado, de forma a poder eliminar total ou parcialmente a farinha de pescado nas dietas para peixes, devido aos altos preços que este insumo vem alcançando atualmente no mercado internacional.

Ensilados no Brasil

A industrialização de tilápias, na forma de filés congelados, iniciou-se na década de 90 na região de Toledo, no Estado do Paraná e, ao longo dos últimos anos tem se expandido nas Regiões Sul e Sudeste com a implantação de pequenas plantas processadoras nas próprias pisciculturas. Na filetagem da tilápia, a quantidade de resíduos varia em função do tipo de processamento, oscilando de 65 a 70% do total de peixe processado, e o material residual pode gerar um problema ambiental, pois são oferecidos “in natura” aos peixes no tanque de produção ou são enterrado na propriedade onde eles são gerados.

A silagem de peixe pode ser uma forma alternativa de aproveitamento desses resíduos, pois a tecnologia de obtenção é simples e não implica na utilização de maquinários específicos, podendo ser produzida nos locais onde os resíduos são gerados. Outra vantagem da produção de silagem de peixe em relação à produção da farinha é que o seu processamento não gera odores indesejáveis, evitando o aparecimento de moscas no local em que são produzidas.

Atualmente a USP, em Pirassununga – SP, está se realizando, com o financiamento da Fapesp – Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo, o projeto “Produção contínua de ensilado de peixes e sua variação nutricional para juvenis de tilápia do Nilo”. Esse projeto foi elaborado a partir de resultados obtidos em pesquisas que foram desenvolvidas no Centro de Aqüicultura da UNESP, utilizando-se ensilados biológicos e químicos úmidos, a partir de resíduos de processamentos de tilápia, nas dietas balanceadas para pacu e girinos. Os resultados dos experimentos realizados com o pacu, registraram coeficientes de digestibilidade aparente de proteína bruta de 73,56 % utilizando ensilado biológico e 79,25 % utilizando o químico. O coeficiente de digestibilidade aparente acima de 70% indica que o animal tem um aproveitamento satisfatório desse nutriente.

Com relação aos girinos, foram comparadas três dietas: a primeira delas foi uma dieta prática, onde a única fonte de proteína animal utilizada foi a farinha de pescado; na segunda dieta, 50% da proteína de origem animal era proveniente da farinha de pescado e 50% proveniente de ensilado de resíduo da filetagem da tilápia úmido (químico). Na terceira dieta, 100% da fonte de proteína animal foi proveniente de ensilado. Os resultados mostraram que não existem diferenças significativas entre esses tratamentos, sendo possível concluir que as dietas que empregam tradicionalmente a farinha de pescado como fonte de proteína de origem animal podem ser substituídas em 50% por ensilados de resíduos do processamento de tilápias. Esses resultados indicam ainda que o aproveitamento dos resíduos da filetagem torna-se uma boa alternativa, principalmente se utilizados na alimentação animal no local onde são gerados, reduzindo os custos de produção e elimi-nando problemas ambientais relacionados aos descartes na natureza, muitas vezes feitos de forma inadequada.


1 Peso dos exemplares no começo do experimento. 2 Peso dos exemplares ao final do experimento. 3 Peso Final dos exemplares – Peso Inicial dos exemplares. 4 Fator de Conversão do Alimento (FCA): Alimento oferecido/Ganho de Peso. 5 Eficiência Alimentar: (EA): Ganho de Peso/alimento oferecido. 6 Números de exemplares no início – Números de exemplares no final.

Cuba

Durante as pesquisas com dietas úmidas à base ensilado de pescado realizadas em Cuba, foi realizado um experimento com duração de 60 dias, com o objetivo de comparar três dietas para tilápias. A DI, era uma dieta comercial de tilápia com 24,90% de proteína bruta, cuja formulação continha 20% de farinha de pescado; a DII possuía 21.98% de proteína bruta e era composta por ensilado bioquímico (EB) e 60 % da dieta DI. A dieta DIII, com 19,87% de proteína bruta, era composta de EB e um núcleo farináceo elaborado com farelo de trigo, farelos de soja e trigo e premix de vitaminas e minerais.

Como pode ser observado na tabela 1, os resultados obtidos com a dieta de ensilado (DIII), com relação ao Ganho de Peso e o Fator de Conversão do Alimento, foram menores do que os obtidos com as dietas onde se empregou a dieta comercial de tilápia (DI). Esta diferença se deu porque a DIII contém um menor percentual de proteína bruta (PB) (o requerimento de PB para a tilápia é de 28-30 %) e um maior percentual de umidade. Considerando estas diferenças observou-se que os peixes ingeriram menos matéria seca e um maior percentual de água. Por sua vez, entre a DIII e a DI há uma diferença de 5% de PB e, não obstante, os fatores de conversão de alimento são muito parecidos nos três tratamentos, o que parece indicar que o emprego deste ingrediente aumenta a eficiência da assimilação dos nutrientes da dieta.

Partindo desses resultados obtidos em Cuba, pode-se deduzir que os ensilados de pescado a partir de resíduos pesqueiros constituem uma alternativa de baixo custo de produção para a alimentação de tilápias, sem o emprego da farinha de pescado e reduzindo o impacto da contaminação ambiental resultante do descarte desses resíduos.