Aqüicultura Integrada:

Possíveis Problemas de Saúde Devido ao Uso de Excretas na Aqüicultura

Por: Paulo Sérgio Ceccarelli
e-mail: [email protected]
Leonardo Baracho Figueira
e-mail: [email protected] 1CEPTA/IBAMA –
Centro Nacional de Pesquisa de Peixes Tropicais


A piscicultura é a atividade de produção de peixes sob condições controladas. Entre os diferentes tipos de criação de peixes o sistema de integração com outros animais vem sendo bastante utilizado nos últimos cinco anos, possivelmente devido aos baixos custos de produção.

A utilização de excrementos de animais em viveiros, com o objetivo de aumentar a produção de peixes, teve seu início na China, onde praticamente não existe desperdício; o desperdício por lá é considerado como um recurso mal aproveitado que deve ser convertido em outros produtos.

A integração do cultivo de outros animais com a aqüicultura também vem sendo bastante utilizada no Sudeste da Ásia, Índia e Europa. Neste sistema, os peixes podem comer o excremento dos animais de uma forma direta, aproveitando ingredientes não digeridos ou, de uma forma indireta, através de alimentos que se formam com a ação de bactérias que agem sobre a matéria orgânica, transformando-a em nutrientes inorgânicos, favorecendo o crescimento do fitoplâncton, base alimentar para o desenvolvimento do zooplâncton e outros organismos que, por sua vez, servem de alimento para os peixes.

Embora a utilização de excremento de animais na criação de peixes tenha sofrido avanços tecnológicos e contribua significativamente na produção mundial de pescados, é preciso nunca esquecer que os mesmos contêm uma variedade de patógenos virais, bacterianos, protozoários e helmintos, que podem ser transmitidos para o homem pela água ou organismos aquáticos, podendo representar um grande perigo para a saúde pública.

Existem quatro grupos de pessoas que correm riscos de se contaminar através de pisciculturas que utilizam excremento nos viveiros:

1. Pessoas que consomem organismos aquáticos crus ou mal cozidos;

2. Pessoas que consomem carnes cruas ou mal cozidas de animais domésticos que são alimentados com pescados crus ou plantas infectadas;

3. Pessoas com exposição ocupacional em viveiros ou lagoas onde se utilizam excrementos animais na produção de peixes;

4. Pessoas que manipulam ou preparam produtos aqüícolas contaminados ou infectados.

Poucos estudos foram desenvolvidos nesta área, a maior parte deles superficiais, e não existem até hoje estudos epidemiológicos conclusivos associando o uso de excrementos em aqüicultura à enfermidades humanas. No Brasil, suspeita-se que existe um grande número de pessoas portadoras de enfermidades provenientes do consumo de peixes, ou de ambientes de criações de peixes, porém estes números exatos ainda não foram apurados. Acredita-se que no mundo existem mais de 50 milhões de pessoas afetadas por trematódeos (FBT – Fishborne Trematode) contraídos pelo consumo de peixes inadequadamente processados, crus ou mal cozidos. O ciclo de vida desses trematódeos é bastante complicado, podendo envolver dois ou mais hospedeiros intermediários. Os peixes podem servir de hospedeiro final e, neste caso, trematódeos na fase adulta são facilmente encontrados no trato digestivo. Entretanto, os peixes podem servir de hospedeiros intermediários para larvas (cercárias e metacercárias) e, nesta forma, transferirem o parasito para os humanos e outros animais.

O risco de se adquirir uma infecção varia com o tipo de patógeno que, antes de manifestar a enfermidade, pode determinar uma complicada cadeia de eventos que dependem da concentração de patógenos no excremento, do tempo ocorrido entre a excreção e o contágio pelo hospedeiro, da taxa de sobrevivência do patógeno no ambiente aquático, bem como da sua habilidade de reprodução nesse novo ambiente. Além disso, muitas patogenias requerem um ou mais hospedeiros intermediários antes de representar uma ameaça para o homem. Por outro lado, tanto a prática de manipulação dos alimentos e a sua preparação, como o nível sanitário e a forma de consumo desses alimentos, influenciam significativamente no risco de infecção. Finalmente, o grau de imunidade do ser humano determinará se a enfermidade conseguirá prosperar ou não.

A maioria dos trabalhos escritos por especialistas no assunto, afirma que patogenias virais e bacterianas de animais de sangue quente, não causam enfermidades em organismos aquáticos e, que os organismos aquáticos podem servir de portadores passivos e transmissores mecânicos de patógenos até ao homem, sem intervenção de um hospedeiro intermediário.

Para as espécies de vermes do fígado, tais como Clonorchis sinensesOpistorchis felineosO. viverrini, os hospedeiros intermediários são caramujos e peixes de água doce, enquanto os cães, gatos, porcos, animais selvagens e seres humanos são os hospedeiros definitivos, onde os vermes se instalam e se desenvolvem nos dutos biliares do fígado. Essas verminoses são endêmicas nos países do Sudeste Asiático e na China, Coréia, Japão e antiga Rússia.

Os sintomas das infecções podem variar de acordo com o ciclo de vida do parasita. Entretanto, geralmente as infecções crônicas podem causar problemas no duto biliar, problemas gastrointestinais, icterícia, febre, fadiga, pneumonia e vários outros problemas respiratórios. Nas tabelas é possível conhecer algumas infecções importantes que podem ter sua dispersão aumentada pelo uso de excrementos in natura diretamente nos viveiros de criação de peixes.

No Brasil, nos últimos anos, a piscicultura vem crescendo de uma forma vertiginosa e, devido ao alto custo dos insumos necessários à produção, os piscicultores estão optando pelo uso do sistema de produção integrada de peixes com outros animais que têm o meio aquático como habitat natural ou eventual (ex. aves aquáticas, búfalos, porcos, capivaras, etc.), colaborando com seu esterco no aumento da produção primária dos viveiros. Apesar de lucrativo, este tipo de criação precisa respeitar os critérios sanitários relacionados aos peixes e aos animais a eles consorciados. Na falta de mecanismos de controle, deve-se utilizar esterco curtido, pasteurizado ou submetido a técnicas de compostagem, biodigestor, entre outras, como por exemplo a técnica chinesa de biodigestão aeróbica. Da mesma forma devem ser consideradas as práticas piscícolas de desinfecção e limpeza periódica das instalações utilizadas, bem como deve ser levado em conta o aspecto altamente impactante para o meio liquido, o que já vem se tornando um problema grave em países que possuem um grande desenvolvimento nesta área. Embora no Brasil este tema, salvo em algumas áreas, não tenha despertado a consciência dos produtores e autoridades, em breve se fará necessário profundos estudos para garantir a boa qualidade da água, não só para piscicultura, mas também para o consumo humano e animal.

Atenções especiais devem também estar direcionadas para aspectos de saúde pública, evitando-se o aparecimento de doenças e, para isso, existem várias possibilidades para se reduzir os riscos para a saúde, entre eles:
• O uso de excrementos livres de patógenos;
• Controle da dispersão de patógenos através de educação sanitária e interação veterinária;
• Manejo e limpeza periódica da vegetação das lagoas;
• Aumento da cadeia alimentar;
• Depuração dos organismos aquáticos antes do aproveitamento para consumo;
• Manipulação e processamento higiênico dos produtos e subprodutos aquáticos e,
• Evitar ou precaver-se do consumo de espécies aquáticas sem cozimento prévio.

As referências bibliográficas podem ser solicitadas aos autores através de seus e-mails.