Aquicultura pode salvar espécies

21/8/2013
Por: Carlos Vianna Junior

Da lista de sete espécies de peixes em risco de extinção na Bahia, publicada na edição de terça-feira, 20, da Tribuna da Bahia, apenas uma conta com um projeto  que estuda a recuperação de seus cardumes. É um trabalho a nível nacional, voltado para o mero, cujos resultados, no entanto, só serão sentidos em longo prazo. A pesquisa que gerou a lista indicava o consumo consciente como forma de combater o declínio das espécies citadas. Contudo, o assessor de projetos institucionais da Bahia Pesca, Eduardo Rodrigues, afirma que o caminho para proteger as espécies é o investimento em aquicultura, que é o cultivo de organismo em meio aquático. A Bahia, no entanto, apesar de ter o maior litoral entre todos os estados brasileiros, ocupa apenas a sexta colocação neste tipo de cultivo, que ainda não contempla as espécies em risco.

Rodrigues confirma o que os pesquisadores do Projeto Coral Vivo (que executaram a pesquisa em Porto Seguro) informaram como sendo a causa do desaparecimento do mero-gato, do cherne, da garoupa, do cioba, do dentão, do badejo e daguaiuba.
“Sim, é resultado do aumento do consumo e atinge muitas espécies em todo o planeta”. Ele, no entanto, não concorda que a maneira de combater o declínio dessas espécies seja através do consumo consciente. “Isso seria uma vertente de combate secundária. Para se obter melhores resultados, se faz necessário diminuir a captura, o que só é possível com a substituição da pesca extrativista pela aquicultura”, pondera.

Ele ressalta, no entanto, que esse processo já vem acontecendo e que não significa o fim da pesca como se conhece hoje na Bahia e que é fonte de renda de milhares de famílias. “Será um processo gradativo em que os próprios pescadores poderão escolher se vão continuar com a pesca nos moldes atuais ou participar da expansão da aquicultura no estado”, explicou. Segundo Rodrigues, esta é uma tendência mundial e que já está bastante avançada em outros países.

Aquicultura
A pesca extrativista tem decrescido acentuadamente no mundo, ao passo que a aquicultura segue em plena expansão. Há projeções que indicam que a produção da aquicultura superará a da pesca em todo mundo até 2017. Em 2001, a aquicultura mundial produzia 35 milhões de toneladas; em 2010 essa produção subiu para 60 milhões, ou seja, um crescimento de 73%. Já a pesca, em 2001 produzia 91 milhões de toneladas e em 2010 alcançou um decréscimo de 2%, com 89 milhões de toneladas.

No Brasil a aquicultura cresceu 129% nos últimos dez anos. Em 2001, eram 209 mil toneladas e em 2010, 479 mil. Já a pesca, contrariando a tendência global, não alcançou um declínio ainda. Cresceu 8% na última década, saindo de 730 mil toneladas em 2001 e alcançando 785 mil toneladas em 2010. Segundo Eduardo Rodrigues, a produção da aquicultura brasileira deve superar a da pesca em 2016. “Dois anos depois do que havia previsto o Ministério da Pesca que apostava que o objetivo seria alcançado em 2014”, acrescenta.

Bahia não acompanha o ritmo
Na Bahia, o crescimento da aquicultura, que poderia salvar as espécies em risco de extinção se configura lento e não acompanha o ritmo nacional, se colocando bem abaixo no ranking de produção de estados com litorais menores como o Ceará, por exemplo, que é o maior produtor nacional, com 38 mil toneladas. Na última década o crescimento foi de 87%, saindo de 12 mil toneladas em 2001 e alcançando 23 mil toneladas em 2010. A pesca por sua vez, contrariando a lógica mundial de decréscimo, ou de pequeno crescimento nacional, cresceu 58% nos últimos 10 anos, deixando de produzir 58 mil toneladas em 2001, para produzir 92 mil toneladas em 2010.

Segundo Rodrigues, a Bahia tem investido na aquicultura, mas seu desenvolvimento encontra obstáculos. “Enfrentamos problemas com licenciamento ambiental e de infraestrutura”, conta.Ele, no entanto, afirma que o estado vem se empenhado em resolver esses “gargalos”. “Estamos reestruturando unidades de produção de alevinos, sobretudo de espécies marinhas e estamos investindo em novas tecnologias de produção”.

Rodrigues acrescenta que também falta ao estado investir mais em unidades de beneficiamentos de pescados e em fábricas de ração. De acordo com o assessor, se os investimentos não forem intensificados, a produção da aquicultura no estado só conseguirá superar a pesca extrativista em 30 anos.

Dentre as medidas de fortalecimento da aquicultura, no entanto, não há nenhuma direcionada ainda a produção das espécies com risco de extinção na Bahia. A única iniciativa que pode ter um impacto positivo nas espécies em risco, segundo Rodrigues, é o Projeto Mero do Brasil. Mas nele a Bahia é apenas parceira do Ministério da Pesca e da Petrobras numa pesquisa sobre reprodução de mero cujos resultados são esperados em longo prazo.

Ele, contudo, informa que a Bahia Pesca tem projetos de pesquisas com pelo menos duas das espécies em risco, o badejo e a garoupa, que não podem ser iniciados. “Estamos esperando a reestruturação do nosso laboratório de reprodução de peixes”, explicou. Sem informar quando será concluída a reestruturação, Rodrigues ressalta que a previsão de resultados de tais pesquisas é de longo prazo.

Fonte: Tribuna da Bahia

http://www.tribunadabahia.com.br/2013/08/21/aquicultura-pode-salvar-especies