Aqüicultura sem Fronteiras

ONG comemora dois anos com muitos progressos

Por: Michael New, OBE
Presidente da OIG Aquaculture without Frontiers
[email protected]
www.aquaculturewithoutfrontiers.org


Micheal New na palestra de abertura  da WAS 2003, realizada em Salvador,  BA, quando divulgou seus planos de  criar a ONG Aqüicultura Sem Fronteiras
Micheal New na palestra de abertura  da WAS 2003, realizada em Salvador,  BA, quando divulgou seus planos de  criar a ONG Aqüicultura Sem Fronteiras

A ONG, Aqüicultura sem Fronteiras (AwF, na sigla em inglês), foi lançada no Havaí em 2004, tendo como principal objetivo auxiliar na diminuição da pobreza através da aqüicultura responsável de pequena escala. Atualmente, a AwF está desenvolvendo projetos em Bangladesh, Índia e Indonésia, e em breve dará início a um projeto na Tailândia. A AwF desenvolve também atividades em algumas localidades na América Latina e na África. Atua individualmente ou em conjunto com outras ONG’s, e tem como base de apoio o serviço voluntário de pessoas oriundas do setor da aqüicultura. Nesse artigo, Michael New, seu presidente e fundador, fala da atuação desta instituição e nos progressos alcançados nos seu primeiros dois anos de existência.

A utilização, nos países em desenvolvimento e em transição, dos serviços voluntários de especialistas em aqüicultura, foi uma idéia que nasceu inspirada na atuação exemplar dos Médicos sem Fronteiras, e foi apresentada pela primeira vez ao público durante a palestra que proferiram na abertura do congresso da Sociedade Mundial de Aqüicultura (WAS), realizada no Brasil em 2003.

Encorajado com a grande receptividade da idéia, o grupo fundador, composto por profissionais de diversos países, partiu para a elaboração dos princípios básicos da entidade, que foi oficialmente lançada no ano seguinte no Havaí. Atualmente, a AwF está registrada como “instituição de caridade” no Reino Unido e, como “instituição sem fins lucrativos”, nos EUA.

Princípios

A AwF atua no fornecimento de consultoria técnica voluntária, além de outros recursos, para apoiar o desenvolvimento de práticas responsáveis e sustentáveis de aqüicultura que tenham o potencial de aliviar a pobreza e melhorar as condições de saúde, através do cultivo familiar de subsistência e a geração de renda. A AwF reconhece o papel que a mulher desempenha na aqüicultura e nas demais atividades relacionadas, tendo como público alvo os pequenos produtores locais. O seu compromisso é com o respeito às culturas locais, com a não-discriminação e o não alinhamento religioso e político. Quando oportuno, a AwF poderá atuar em conjunto com outras organizações no complemento dos seus objetivos.

Voluntários e fundos

Muitas pessoas do setor da aqüicultura têm oferecido seu tempo livre para atuar em trabalhos de campo ou mesmo para prover consultas técnicas através da Internet, com o intuito de atender os objetivos da AwF. Atualmente, o seu corpo de voluntários é constituído de 120 profissionais de uma ampla variedade de especialidades, comunicando-se em diversos idiomas. Além disso, muitos estudantes também têm se oferecido como voluntários para trabalhos de campo.

Inicialmente, a maior parte dos recursos para os trabalhos da AwF foram obtidos através da doação de pessoas ou de organizações ligadas ao setor da aqüicultura, como a Seção de Cultivo de Peixe da “American Fisheries Society”, a “Aquaculture Engineering Society” e três Capítulos da Sociedade Mundial de Aqüicultura (WAS). A AwF é particularmente agradecida ao trabalho de captação de recursos feito por estudantes nos Estados Unidos e na Europa, bem como a ajuda proveniente de diversos setores da indústria da aqüicultura. Além disso, merece registro o aumento das contribuições feitas pelo público em geral através de recursos obtidos com a realização de atividades diversas, como a regata de “dragon boat” realizada em Marlow, Inglaterra, promovida pela diretora da AwF, Dophie Varley, que arrecadou cerca de R$ 12 mil (£3,000), e a exposições de arte, como a que foi realizada em Monpellier, França por Denis Lacroix, pesquisador do IFREMER e um dos voluntários participantes da AwF.

 Regata de “dragon boat” realizada em Marlow,  Inglaterra, para arrecadar fundos para a Awf (Foto Michael New)
Regata de “dragon boat” realizada em Marlow,  Inglaterra, para arrecadar fundos para a Awf (Foto Michael New)

Exposição de obras de arte realizada em Monpellier, França. O valor das obras vendidas foram revertidos para a AwF. (Foto Denis Lacroix)

Exposição de obras de arte realizada em Monpellier, França. O valor das obras vendidas foram revertidos para a AwF. (Foto Denis Lacroix)Atualmente a AwF opera com recursos limitados, sem sede própria ou empregados remunerados. Ela é gerenciada por diretores da Austrália, EUA e Reino Unido. Embora uma administração frugal seja louvável para uma nova organização, já dá para perceber que novos passos não poderão ser dados sem novas mobilizações para angariar fundos, além de um escritório com equipe dedicada.

Atividades de campo

O primeiro projeto de campo foi implantado na Índia e está sendo coordenado pelo voluntário, M.C. Nandeesha. Este projeto é uma atividade em cooperação com a “St. Xavier’s Bishramganj”, e está localizado próximo de Agartala, a capital do estado de Tripula, Índia. Na primeira fase, trinta produtores de peixes e suas respectivas esposas foram treinados em técnicas de cultivo de peixes. Com o conhecimento adquirido, eles reformaram os viveiros existentes, utilizados previamente para o armazenamento de água e para a captura de espécimes silvestres, através de práticas adequadas de aqüicultura. Algumas espécies de carpa, junto com outras espécies previamente selecionadas, foram introduzidas para garantir a sustentabilidade da atividade. Os criadores foram encorajados a utilizar fontes de alimento disponíveis no local e promover a integração de viveiros de peixes com outras atividades agrícolas. Na segunda etapa do projeto (2006), tais atividades foram estendidas para beneficiar 50 famílias.

O sorriso e o fruto da atuação da AwF em cooperação com a St. Xavier’s Bishramganj, no Estado de Tripula, Índia (Foto M.C. Nandeesha)
O sorriso e o fruto da atuação da AwF em cooperação com a St. Xavier’s Bishramganj, no Estado de Tripula, Índia (Foto M.C. Nandeesha)
Lançamento da segunda fase do projeto AwF – Bishramganj, Índia (Foto M.C. Nandeesha)
Lançamento da segunda fase do projeto AwF – Bishramganj, Índia (Foto M.C. Nandeesha)

A AwF, possui dois projetos em andamento em Bangladesh. O primeiro, em conjunto com a “Caritas-Bangladesh”, envolve a capacitação de mulheres em práticas de aqüicultura integrada (cultivo de carpa em viveiros). O segundo projeto é uma atividade conjunta com uma ONG local, denominada “Organização Voluntária para o Desenvolvimento Social” e mais uma vez o foco principal é o envolvimento da mulher na aqüicultura. O objetivo principal é a introdução da tecnologia de cultivo de baixo custo utilizando tanque-rede para engorda de tilápias revertidas. Trinta e cinco mulheres de baixa renda foram selecionadas, e o que se espera é a melhoria da qualidade alimentar e das suas condições de vida.

Mulheres sendo treinadas em Bangladesh para cultivarem tilápias em tanques rede (Foto Tamanna Khatun)
Mulheres sendo treinadas em Bangladesh para cultivarem tilápias em tanques rede (Foto Tamanna Khatun)

Embora o auxílio a catástrofes não seja a atividade prioritária, a AwF foi consultada pela WAS quanto à possibilidade de administrar o fundo de auxílio criado pela Yellow Springs Incorporated (YSI) para as vítimas do terremoto em Aceh, na Indonésia. Vários projetos estão sendo apoiados, incluindo projetos piloto, reconstrução de viveiros, restauração de duas larviculturas de camarão e a introdução do cultivo de macroalgas. Além disso, a AwF vem fornecendo assistência técnica para outras duas ONG’s em Aceh – “Professionals International” e “MercyCorps”. Consultas in loco vêm sendo realizadas por um voluntário da AwF (atualmente diretor) Kevin Fitzsimmons, enquanto que sugestões pela internet vêm sendo apresentadas por outro voluntário da AwF, Dallas Alston. A utilização dos recursos doados pelo Capítulo Latino Americano e Caribenho da WAS está em fase de negociação, para auxiliar um grupo de criadores de camarões indianos que foram atingidos pela tsunami.

A destruição das instalações de aqüicultura pelo  tsunami foi total (Foto Agus Budhiman)
A destruição das instalações de aqüicultura pelo  tsunami foi total (Foto Agus Budhiman)

A Sociedade Européia de Aqüicultura (EAS) tem disponibilizado recursos com o intuito de apoiar estudantes voluntários de universidades da Europa. O primeiro apoio financeiro foi dado a um estudante de pós-graduação Queniano, da Universidade de Wageningen. A AwF, juntamente com a empresa Nutreco, está financiando um estudo sobre o potencial para a montagem de uma larvicultura, para a produção de alevinos de peixe para o cultivo e para o repovoamento dos estoques no Lago Naivasha.

O diretor da AwF, Geoff Allan, está trabalhando atualmente com a “World Vision Thailand (WVT)” e com o Departamento de Pesca, visando finalizar os acertos relativos ao apoio da AwF, com o objetivo de expandir o primeiro programa de treinamento da WVT para a carente região Noroeste da Tailândia.

Voluntários da AwF já enviaram por e-mail um grande número de sugestões para pessoas físicas e organizações de vários países, incluindo Colômbia e Peru. Wagner Valenti, membro do Grupo Fundador da AwF, está preparando uma proposta de projeto para a AwF no Brasil.

Conclusões

Desde a sua formação em 2004, progressos sucessivos foram obtidos através dos diversos projetos iniciados em diferentes países, e está claro que os conceitos que precederam a formação da AwF eram acertados. Existe uma demanda grande por auxílio, que nós podemos atender. Cientistas, bem como outras pessoas do setor da aqüicultura, estão muito interessados em oferecer seus conhecimentos de forma voluntária, seja através de trabalho de campo, seja através de comunicações. Nesse aspecto já é possível afirmar que o setor da aqüicultura é apoiador, tanto moralmente como financeiramente. Doações de pessoas físicas, sociedades de aqüicultura e corporativas foram obtidas, o que demonstra que o público em geral está dando apoio para a AwF. Caso as pessoas desejem doar parte de seu tempo e energia para organizar a captação de recursos, esse é um tipo de trabalho que precisa se expandir no mundo.

Os diretores da AwF estão atualmente fazendo o planejamento para médio e longo prazo. Teoricamente, as atividades podem continuar dentro do nível atual por tempo indeterminado, se a carga de trabalho vier a ser dividida entre os Diretores e os membros fundadores. Entretanto, dimensionar a AwF de modo a atender todas as necessidades já identificadas, irá demandar uma estrutura administrativa diferenciada. Entre as possibilidades a serem consideradas, está a sinergia com outras organizações internacionais dedicadas ao desenvolvimento responsável da aqüicultura. Para mais informações visite o site www.aquaculturewithoutfrontiers.org