Artemia no Brasil: do extrativismo ao cultivo

Por Marcos Rogério Câmara
UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte
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O gênero Artemia, Leach 1819, é um complexo de espécies bissexuais e partenogenéticas definidas pelo critério de isolamento reprodutivo. Há pelo menos quatro formas bissexuais com isolamento reprodutivo em Artemia: Artemia salina, Artemia urmiana, Artemia persimilis e Artemia franciscana. Artemia franciscana é a espécie dominante nas Américas e no Caribe, com várias populações também estabelecidas em países da América do Sul, inclusive no Brasil. De pequeno tamanho (os indivíduos adultos medem cerca de 1 cm), o “camarão de salmoura” Artemia desenvolveu mecanismos fisiológicos altamente especializados por conta das condições extremas encontradas nos ambientes onde vive. Por exemplo, é um animal euritérmico (4 oC – 37 oC); eurihalino (5 ‰ – 250 ‰); e que consegue sobreviver em ambientes com baixas concentrações de oxigênio dissolvido na água (até 1 mg/litro). Além disso, sua reprodução, que normalmente se dá através de larvas (ovoviviparismo) passa a ocorrer através de cistos (oviparismo) em condições de estresse ambiental.


O mercado mundial de Artemia

Em 1947, Alvin Seale do Aquário Steinhart em São Francisco (Califórnia, EUA) descobriu que a forma encistada (estágio de blástula) do microcrustáceo Artemia permaneceria viável por vários anos quando processada e armazenada adequadamente, e que retomaria o seu desenvolvimento larval após imersão em água do mar. Desde então, os cistos de Artemia têm sido coletados em ecossistemas aquáticos hipersalinos e comercializados como fonte de alimento vivo para a aquariofilia e aqüicultura em todo o mundo.

No início dos anos ‘50, as fontes comerciais de Artemia se restringiam às salinas da baía de São Francisco (Califórnia) e ao Grande Lago Salgado (Utah) nos Estados Unidos e os cistos eram comercializados a preços relativamente baixos (< US$ 10 por kg). Em meados dos anos ‘70, os preços dos cistos aumentaram como conseqüência do crescimento da aqüicultura (especialmente do cultivo de peixes e camarões marinhos) e de safras decrescentes no Grande Lago Salgado (GSL). Em 1980, novas fontes naturais na Argentina, Austrália, Canadá, Colômbia, França, e China e nos países nos quais o microcrustáceo Artemia foi inoculado (e.g. Brasil, Tailândia), passaram a ser exploradas. Ao mesmo tempo, tecnologias industriais de colheita e processamento de cistos passaram a ser empregadas no GSL, resultando em um incremento da produção deste biótopo natural, que de cerca de 200 toneladas anuais de cistos processados, passou a produzir safras acima de 1.000 toneladas e tornou-se responsável por mais de 90% do suprimento mundial de cistos.

Cistos de Artemia armazenados em salmoura
Cistos de Artemia armazenados em salmoura

Ao longo da última década, com o crescimento exponencial dos cultivos de peixes e camarões, o consumo mundial de cistos de Artemia atingiu valores em torno de 2.000 toneladas anuais. Aproximadamente 85% deste consumo é resultante das larviculturas de camarão marinho nas Américas e Ásia, com o restante sendo destinado às larviculturas de peixes marinhos na Europa e Ásia (10%) e ao mercado mundial de aquariofilia (5%). O GSL permanece como responsável pelo suprimento de 90% desta demanda, com os 10% restantes sendo originários de vários biótopos com capacidade limitada de produção e processamento, especialmente em lagos salgados na China, Irã, Sibéria, Casaquistão e Turcomênia; e em salinas nos Estados Unidos (baía de São Francisco), Vietnã (delta do Mekong) e Brasil (RN).

Artemia no GSL

O GSL é um lago hipersalino de enormes dimensões (3.650 km2). As mudanças ambientais (inclusive climáticas) neste biótopo têm resultado em produções imprevisíveis de cistos de Artemia ao longo dos últimos anos (Tabela 1). Em alguns anos, os 1.750 km2 da porção norte do lago apresentaram salinidade excessiva (240 ‰) e incompatível com a produção de cistos de Artemia. Em outros, a baixa salinidade (< 90 ‰) na parte sul (2.900 km2) permitiu a entrada de predadores naturais de Artemia (e.g. peixes e insetos da família Corixidae), o que afetou a composição populacional e o modo de reprodução deste microcrustáceo e reduziu a capacidade de flutuação dos cistos de Artemia produzidos. A conjunção destes fatores reduziu a produtividade no GSL de 2.200 toneladas em 1996 para 400 toneladas de cistos (peso seco) em 1999 (Tabela 1). Embora haja sinais de recuperação para o período de pesca em curso, com estimativas que a produção de cistos de Artemia no GSL chegue a um recorde de 2.900 toneladas (peso seco), é pouco provável que os preços atuais (US$ 100 por kg) sejam reduzidos substancialmente ou que as safras vindouras sejam igualmente expressivas.

Tabela 1. Colheitas de cistos de Artemia (em toneladas de cistos processados) no Grande Lago Salgado (Utah, EUA) de 1998 a 2000.
Tabela 1. Colheitas de cistos de Artemia (em toneladas de cistos processados) no Grande Lago Salgado (Utah, EUA) de 1998 a 2000.
Artemia parthenogenetica

Como alternativa ao GSL, outros ecossistemas aquáticos hipersalinos passaram a ser intensivamente explorados para a produção de cistos de Artemia. Os países da Ásia, por exemplo, têm procurado suprir uma fatia do mercado anteriormente ocupada por parte da produção do GSL. No entanto, a espécie de Artemia de ocorrência preponderante nos lagos salgados asiáticos (Artemia parthenogenetica) produz cistos de qualidade inferior ao do tipo clássico oriundo do GSL (Artemia franciscana). Entre outras restrições, os cistos de Artemia asiáticos não são passíveis de descapsulação (remoção do córion e conseqüente otimização das taxas de eclosão dos cistos), o que impede a utilização desta técnica em larviculturas de peixes e camarões; tampouco podem ser utilizados nas fases iniciais do desenvolvimento larval dos peixes e camarões, já que o tamanho de seus náuplios é maior do que o do tipo produzido no GSL; e principalmente, apresentam um perfil nutricional (em relação à presença de ácidos graxos poliinsaturados das séries ômega-3 e ômega-6) inadequado à sua pronta utilização em larviculturas de peixes marinhos.

Acima - Biomassa congelada / Abaixo - Cistos de Artemia acumulados em evaporador de salina
Acima – Biomassa congelada / Abaixo – Cistos de Artemia acumulados em evaporador de salina
Artemia no Brasil

Como resposta ao uso crescente de cistos de Artemia na aqüicultura, esse anostráceo foi introduzido pelo homem em áreas onde previamente não existia. Este foi o caso das salinas existentes no nordeste brasileiro, colonizadas a partir de inoculações feitas em Macau (RN) em 1977, com cistos de Artemia franciscana (origem: São Francisco, Califórnia, EUA). Através de pássaros aquáticos, e disseminação pelo homem e pelo vento, este crustáceo se dispersou por todas as salinas da região. Assim, já no final do anos ‘70 e início dos anos ‘80, duas das principais salinas do RN (CIRNE e Henrique Lage) passaram a coletar cistos de Artemia, processá-los e vendê-los (US$ 30 e US$ 60 por kg) para os Estados Unidos e Japão. Durante este período, a produção anual de cistos variou entre 10 e 5 toneladas. A partir do final dos anos ‘80, com a dispersão gradual das populações de Artemia, os cistos também passaram a ser colhidos nas salinas dos municípios de Grossos e Areia Branca. Ao mesmo tempo, com a adaptação gradual das populações de Artemia às condições ambientais encontradas nas salinas do RN, a produção de cistos de Artemia se estabilizou em torno de 2 toneladas anuais.

Atualmente, o extrativismo (coleta) de cistos de Artemia no Brasil é conduzido de forma mais acentuada por empreendimentos familiares (de baixo capital financeiro e tecnológico) localizados em Grossos (RN). Esta mudança tem causado uma perda substancial no padrão de qualidade (e.g. apresentação, pureza) dos cistos produzidos. Assim, mesmo mantendo um excelente perfil nutricional, i.e. náuplios de pequeno tamanho e de alto conteúdo de ácidos graxos poliinsaturados das séries ômega-3 (e.g. 20:5w3) e ômega-6 (e.g. 20:4w6), os cistos de Artemia produzidos no RN são vendidos no mercado interno por R$ 100 por kg (US$ 50), o que representa em média 50% do preço dos cistos importados.

Salina artesanal em Grossos - RN
Salina artesanal em Grossos – RN

O consumo de cistos de Artemia no Brasil é centrado em sua quase totalidade (> 95%) nos laboratórios de produção de larvas de camarão marinho. Em 2000, o Brasil produziu 5 bilhões de pós-larvas de Litopenaeus vannamei e foram necessárias 4 toneladas de cistos de Artemia para cada bilhão de pós-larvas de camarão produzidas Para os próximos anos, com a expansão prevista da área de cultivo das fazendas de camarão brasileiras dos atuais 9.000 ha para 12.000 ha (até o final do ano 2001), 21.000 ha (2002), e para até 35.000 ha no final do ano 2003, a capacidade instalada das larviculturas brasileiras deverá passar dos atuais 5 bilhões para 20 bilhões de pós-larvas por ano. Concomitantemente, o consumo de cistos de Artemia nas larviculturas deverá aumentar de 20 para 80 toneladas anuais. Até o final da década, com o provável crescimento da área de cultivo de camarão para 50.000 ha de viveiros, serão necessários pelo menos 30 bilhões de pós-larvas e consequentemente, 120 toneladas anuais de cistos de Artemia para abastecer o mercado brasileiro.

A fazenda de Artemia da ABCC

O mercado brasileiro de cistos de Artemia, da ordem de 20 toneladas anuais, é basicamente abastecido por importações, já que as 2 toneladas de cistos produzidas anualmente no RN representam pouco mais do que o consumo mensal médio da carcinocultura brasileira. Portanto, a imprevisibilidade no suprimento mundial de cistos de Artemia tem repercutido com intensidade na carcinocultura brasileira, já que dependendo do manejo utilizado em cada laboratório, este insumo pode representar até 50% do custo de produção das pós-larvas de camarão usadas na estocagem das fazendas de camarão brasileiras. Levando em conta que a produção brasileira de cistos de Artemia não apresenta perspectivas de aumento a médio prazo, uma vez que depende unicamente da produtividade natural (extrativismo) das salinas do RN; e por outro lado, fazendo bom uso do capital natural, recursos humanos e acervo tecnológico disponíveis no RN, a Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), tendo como parceiros a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o Programa Brasileiro de Intercâmbio em Maricultura (BMLP) e a empresa BioArtemia Ltda., está construindo em Grossos (RN), a primeira fazenda de cultivo de Artemia do Brasil. A tecnologia de cultivo a ser empregada para a produção de cistos de Artemia na fazenda experimental da ABCC em Grossos foi desenvolvida no Artemia Reference Center (Universidade de Gent, Bélgica), em conjunto com o Instituto de Ciências Marinhas (Universidade de Can Tho, Vietnã) e vem sendo utilizada com sucesso nas salinas localizadas no delta do Mekong (Vinh Chau, Vietnã) desde 1997.

Náuplio de Artemia bioencapsulado com emulsão lipídica
Náuplio de Artemia bioencapsulado com emulsão lipídica

Adaptada às condições encontradas na região salineira do RN e sob a responsabilidade técnica da UFRN, esta tecnologia utilizará a espécie Artemia franciscana e ciclos de cultivo de 4-5 semanas (10 ciclos anuais) em viveiros de produção de 0,8 ha sob regime semi-intensivo. A produtividade média esperada é da ordem de 100 kg de cistos por hectare/ano. A fazenda constará de uma área de fertilização e evaporação de 1,3 ha, três viveiros de produção de 0,8 ha cada, estação de bombeamento, canais de adução e drenagem, além de infra-estrutura de apoio e laboratório. Em última análise, o objetivo geral da fazenda de Artemia da ABCC é fornecer subsídios econômicos, científicos e tecnológicos para balizar a implementação de fazendas de cultivo de Artemia na região salineira do RN.