Artemia no Brasil: em busca de um modelo auto-sustentável de produção

Por Marcos Rogério Câmara
Biólogo e Prof. do Depto. de Oceanografia e
Limnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte .
E-mail: [email protected]


Mais de 95% da água existente no globo terrestre é marinha. Do restante, a maior parte é água doce, uma menor fração é água salobra, e uma porção ainda menor é de água hipersalina. Há diferenças marcantes entre estes tipos de água com relação à diversidade de sua flora e fauna. Com o aumento da salinidade, a alta concentração de sais é um fator preponderante para a redução drástica da diversidade de espécies. Entre as poucas formas de vida que habitam os ecossistemas hipersalinos encontra-se um pequeno organismo, o crustáceo Artemia (Anostraca: Artemiidae). De distribuição cosmopolita, ele ocorre em todos os continentes, exceto na Antártica, habitando lagos salgados interiores, lagoas costeiras e salinas.

O anostráceo Artemia é um organismo popular como material experimental e é amplamente usado em pesquisa básica e aplicada em áreas como biologia molecular, ecologia, toxicologia, fisiologia e genética. De fato, Artemia é o crustáceo mais conhecido do ponto de vista molecular e um dos organismos aquáticos mais estudados até hoje, o que justifica a sua caracterização como “a Drosophila aquática”. No entanto, a maior razão para o interesse em Artemia é certamente o seu relevante papel como alimento vivo e de uso prático em aqüicultura. De fato, a despeito do recente progresso na confecção de rações larvais inertes, é pouco provável que estas venham a substituir integralmente o anostráceo Artemia, dado o seu valor e plasticidade nutricional, facilidade no uso, e longa vida de prateleira, entre outras qualidades. Assim, tanto em sua forma larval (náuplios eclodidos a partir de cistos) como no estágio adulto (biomassa), o “camarão de salmoura” Artemia é considerado o mais versátil e popular de todos os alimentos usados em aqüicultura. Ele é utilizado na alimentação de larvas de peixes e camarões, da mesma forma que na indução à reprodução e na engorda de indivíduos adultos. Além disso, esse microcrustáceo tem sido usado como vetor para bioencapsular – via emulsões lipídicas – vários componentes profiláticos e nutricionais em um número crescente de organismos aquáticos.

A produção de cistos de Artemia no Brasil e no mundo

As colheitas comerciais de Artemia alcançam hoje valores anuais acima de 1.000 toneladas de cistos. O maior produtor mundial são os Estados Unidos (90% da produção), com participações crescentemente minoritárias da China, Vietnã e Tailândia. Nos Estados Unidos, o Grande Lago Salgado (GSL) no estado de Utah, com 900 toneladas de cistos coletadas em uma boa safra, responde por quase toda a produção americana. A maior parte dos cistos GSL é exportada como Tipo A (US$ 120 por kg e taxa de eclosão > 85%), Tipo B (US$ 60 por kg e 70 a 85% de taxa de eclosão), ou Tipo C (US$ 30 por kg e taxa de eclosão < 70%), ou armazenada (para posterior comercialização em anos de baixa produção). Os cistos de qualidade inferior (taxa de eclosão < 70%) são reinoculados no lago ou usados na confecção de rações inertes. Ainda nos Estados Unidos, a baía de São Francisco na Califórnia, mesmo quantitativamente menos importante, produz cistos de alta qualidade e padrão nutricional (Tipo Especial), que são comercializados por até US$ 150 por kg (todos os preços indicados são FOB nos E.U.A). Anualmente se consomem mais de 700 toneladas de cistos de Artemia em todo o mundo, com o consumo centrado em larviculturas de camarões (85%) e peixes (10%), e em lojas de aquários (5%). Apesar de uma disponibilidade anual de pouco mais de 1.000 toneladas, há hoje um quase total desabastecimento de cistos de alta qualidade. Durante parte das décadas de 70 e 80, os cistos de melhor padrão nutricional, i.e., aqueles que proporcionam náuplios de menor tamanho e de alto conteúdo de ácidos graxos poliinsaturados essenciais das séries w-3 (e.g. ácido eicosapentaenóico, 20:5w3 ) e w-6 (e.g. ácido araquidônico, 20:4w6), eram produzidos no Brasil. No entanto, o declínio na produção de cistos de Artemia nas salinas do nordeste do Brasil, e o progressivo desabastecimento de cistos de qualidade mediana, procedentes em sua quase totalidade do Grande Lago Salgado em Utah (EUA), onde a gestão hidrológica e os câmbios climáticos acarretam uma incerteza em relação à qualidade dos cistos produzidos a cada ano, têm afetado o desenvolvimento de muitos projetos de aqüicultura em todo o mundo, e especialmente na América do Sul, onde os países são obrigados à uma dispendiosa importação de cistos de Artemia (em sua maioria, de baixo padrão nutricional), bem como de emulsões lipídicas usadas para o enriquecimento (bioencapsulação) de náuplios de Artemia nutricionalmente deficientes.

Os anos dourados da produção de Artemia no nordeste do Brasil

Como resposta ao uso crescente de Artemia em aqüicultura, esse anostráceo foi introduzido pelo homem em áreas onde não existia previamente. Este foi o caso das salinas existentes no Rio Grande do Norte, colonizadas a partir de inoculações feitas em Macau (RN) em 1977, com cistos de Artemia originários da baía de São Francisco, Califórnia, EUA. Através de pássaros aquáticos locais, e disseminação pelo homem e pelo vento, este anostráceo se dispersou por várias salinas nos estados do Rio Grande do Norte e Ceará. Assim, o “camarão de salmoura” Artemia passou a ser produzido nos evaporadores das salinas como um subproduto da indústria de extração de sal, o que explica a aplicação dos termos “cultivos oportunísticos” ou “extensivos” para descrever tais sistemas de produção. Em um sistema típico de produção de cistos de Artemia no nordeste, água do mar ou estuarina de 35 a 40 0/00 é bombeada para cercos de evaporação (evaporadores ou chocadores). Por gravidade e/ou bombeamento, a água flui através de uma seqüência de cercos, e um gradiente de salinidade é estabelecido. A cristalização do sal é finalmente obtida em cercos menores (cristalizadores) a partir da concentração desta salmoura. Os locais usuais para coleta de cistos de Artemia são evaporadores com salinidade entre 100 e 160 0/00. Os cistos de Artemia depositados flutuam e são acumulados pela ação dos ventos nas extremidades dos evaporadores, de onde são colhidos com redes, sacos de algodão e/ou pás. Após uma lavagem inicial para retirada de detritos, os cistos viáveis são armazenados em salmoura para posterior processamento, secagem, embalagem e comercialização. As favoráveis e peculiares condições ecológicas encontradas na região de Macau (RN) foram fundamentais para a bem sucedida inoculação do crustáceo Artemia e sua conseqüente disseminação por toda a área salineira adjacente, indicando o potencial de biótopos similares para a sua produção em consórcio com a exploração do sal marinho. A faixa de temperatura encontrada naquela região, por exemplo, se situa entre o nível considerado ótimo para esse crustáceo, que é de 25 ºC a 30 ºC. Igualmente apropriado, o pH varia de 7.0 a 8.2. As elevadas salinidades (45 O/00 a 160 0/00) encontradas nos evaporadores das salinas, por outro lado, funcionam como barreira ecológica contra organismos predadores e/ou competidores de Artemia. Este gradiente de salinidade é alcançado em função da alta taxa de evaporação (>6 mm.dia-1) e baixa pluviosidade (<1,000 mm de chuva por ano). Além disso, a contínua incidência de ventos alísios auxilia a evaporação, ao mesmo tempo que proporciona níveis adequados de oxigênio nos cercos salinos. A grande quantidade de pássaros existente também contribui para uma constante dispersão desse anostráceo na região, não apenas por transporte externo, como também por ingestão de alimento, uma vez que parte dos cistos ingeridos são excretados pelos pássaros , sem perder sua viabilidade. Ademais, o relevo plano, característico das áreas de salina, contribui para uma maior dispersão de cistos através do vento. Finalmente, ao serem abastecidos por águas provenientes de área de mangue, a produtividade primária dos evaporadores iniciais das salinas é elevada a níveis que proporcionam o alimento básico (microalgas do gênero Dunaliella) necessário à manutenção de altas densidades populacionais de Artemia. Estas características ambientais permitiram que a produção de cistos processados (ovos em diapausa) nos três anos seguintes à introdução de Artemia no Rio Grande do Norte excedesse 10 (dez) toneladas anuais, gerando uma receita no período de aproximadamente US$ 1.800.000,00. Essa produção ocorreu basicamente nas duas maiores salinas da região – Cirne e Henrique Lage -, ambas localizadas no município de Macau.

O declínio na produção e qualidade dos cistos de Artemia do Brasil

Náuplio de Artemia bioencapsulado com emulsão lipídica

Apesar de uma crescente dispersão e de um maior esforço extrativista, a produção de cistos de Artemia no nordeste do Brasil declinou de 10 (dez) toneladas anuais no final da década de 70 para cerca de 5 (cinco) toneladas em meados dos anos 80, e para cerca de 1 (uma) tonelada nos anos 90. De modo interessante, ao mesmo tempo em que diminuía, a produção de cistos migrou das grandes salinas industrializadas para as pequenas salinas artesanais. Dado que as salinas artesanais são empreendimentos familiares com baixo capital tecnológico, esta mudança tem causado uma perda substancial no padrão de qualidade dos cistos hoje produzidos. Assim, mesmo mantendo o mesmo perfil de ácidos graxos poliinsaturados que os tornaram “ovos de ouro” (cistos Tipo Especial) no mercado internacional nas décadas de 70 e 80, e oferecidos a preços entre R$ 60 e 70 por kg, a produção brasileira tem atualmente seu mercado reduzido às lojas de aquários e pequenos aqüicultores sem acesso aos cistos importados.

A produção de cistos (ovos em diapausa) por Artemia é um mecanismo de sobrevivência relevante em populações expostas a condições ambientais desfavoráveis. Assim, a oviparidade (produção de cistos) ocorre em populações submetidas a um forte ciclo sazonal de temperatura (e.g. Lago Mono na Califórnia e Grande Lago Salgado em Utah, E. U. A.) ou salinidade (e.g. baía de São Francisco, Califórnia, E. U. A.). No Brasil, é provável que adaptações fenotípicas e/ou genotípicas das populações locais de Artemia às estáveis condições ambientais prevalecentes nas grandes salinas nordestinas, tenham resultado em uma habilidade reduzida para produção de cistos (oviparismo) nesses ambientes. Essa suposição está de acordo com o declínio na produtividade de cistos observado em vários biótopos tropicais inoculados com Artemia. De fato, a oviparidade tem sido usualmente observada como o modo de reprodução dominante em fêmeas que habitam grandes salinas com condições favoráveis durante o ano inteiro em várias partes do mundo. Por outro lado, uma menor produção de cistos nas salinas do Rio Grande do Norte também tem levado a um incremento no esforço de coleta (sobrepesca) de cistos, provavelmente acarretando a remoção de genótipos predispostos à oviparidade e contribuindo para um declínio ainda maior da produção.

A sustentabilidade econômica, social e ambiental da produção de Artemia no nordeste do Brasil

O Rio Grande do Norte produz anualmente cerca de 4 milhões de toneladas de sal marinho e é responsável pelo abastecimento de aproximadamente 90% do mercado brasileiro de sal. Na verdade, a temperatura elevada, a falta de chuvas e de solos adequados à agricultura tradicional, tornam a exploração de sal marinho uma das poucas alternativas que viabilizam a geração de emprego e renda na região salineira do Rio Grande do Norte.

No entanto, com a mecanização das grandes salinas (subsidiada pelo governo federal após 1964) favorecendo a concentração da atividade entre os grandes produtores – atualmente apenas um grupo é responsável por cerca de 50% da produção nacional de sal -, e o acirramento da competição em um mercado globalizado, os preços desta commodity (sal) estão hoje incrivelmente baixos (R$ 14,00 por tonelada). Nesse quadro, os pequenos salineiros , que produzem sal de qualidade inferior e a um custo relativamente maior do que nas salinas industrializadas, enfrentam a sua pior crise nos últimos anos. Circunstancialmente, a produção brasileira de cistos de Artemia está hoje concentrada em algumas destas pequenas salinas artesanais. De um lado, isto representa o primeiro obstáculo a ser superado para a consolidação da atividade de produção de Artemia no nordeste, na medida em que são necessários grandes esforços de transferência de tecnologia para um público (pequenos salineiros) tradicionalmente pouco receptivo à inovações. Do outro, a incipiente produção de cistos de Artemia por cerca de uma dezena de pequenos produtores – em um universo de aproximadamente 150 salinas artesanais somente no Rio Grande do Norte – indica que este é o caminho que deve ser seguido para a produção sustentável de cistos de Artemia no RN, e que eventualmente poderá ser utilizado em outros estados (e.g. Maranhão) do nordeste do Brasil. Uma vez desenvolvidas atividades de cultivo em número razoável de pequenas salinas em uma determinada área, a instalação de uma unidade central de processamento de cistos possibilitará o controle de qualidade hoje inexistente, e o conseqüente escoamento da produção a preços competitivos. Nessa confluência, a bem sucedida produção de cistos de Artemia nas pequenas salinas familiares do Vietnã (especialmente no delta do Mekong) e da Tailândia, através de um modelo cooperativista de produção, processamento e comercialização, sugere que uma estratégia similar nas salinas artesanais brasileiras poderá viabilizar as quantidades de cistos de Artemia com a qualidade e o padrão nutricional que a aqüicultura brasileira necessita.

Em conclusão, ao maximizar o uso múltiplo dos recursos naturais encontrados nas pequenas salinas do nordeste, a produção de Artemia nesses ambientes atenderá os requisitos essenciais de uma aqüicultura verdadeiramente sustentável, gerando empregos (sustentabilidade social), lucro (sustentabilidade econômica), e deixando essa possibilidade aberta para o usufruto de gerações futuras (sustentabilidade ambiental).