Artemia Um ser vivo excepcional

Por: Juan Enrique Vinatea,
PHD Aquivest Ltda


O microcrustáceo Artemia, ao longo dos anos, com seus 10 mm de comprimento e 3 mg de peso, tem conquistado um lugar de destaque na aqüicultura mundial. Hoje é considerado um alimento praticamente indispensável nas larviculturas de diversos organismos de importância comercial (peixes, camarões de água doce e salgada, etc.), devido principalmente à facilidade com que pode ser estocado (sob forma de cistos) e ao seu elevado valor nutricional: contém proteínas de alto valor biológico ( 65% em matéria seca), ácidos graxos poli-insaturados, vitaminas e minerais essenciais. Mas que animal é este tão importante e tão conhecido na maioria das hatcheries do mundo? O que realmente sabemos da biologia e história natural deste “insignificante” animal?

TAXONOMIA

É com surpresa que constatamos nos livros especializados em sistemática que a espécie Artemia salina deixou de existir na face da terra, possivelmente há mais de 150 anos. Segundo Bowen e Sterling (1978), quando Linnaeus descreveu o organismo em 1758, Artemia salina era abundante nas lagoas de Limington (Inglaterra), mas estas secaram no século passado, eliminando assim as populações ali existentes (as quais foram utilizadas por Linnaeus). Devido a isto, na atualidade ninguém pode afirmar que as artemias encontradas no resto da Europa e do mundo pertencem a mesma espécie descrita por este naturalista sueco.

De acordo com Sorgeloos et al. (1986), Artemia pode ser colocada na seguinte posição taxonômica: .

. PHYLUM _____Artropode
. CLASSE _____ Crustacea
. SUBCLASSE __Branchiopoda
. ORDEM ______Anostracea
.
 FAMÍLIA ____ Artemidae
. GÊNERO _____Artemia, Leach 1819

O gênero Artemia é um crustáceo pelo simples fato de ser um mandibulado aquático (que possui mandíbulas e que vive na água), é um braquiópode por ter as brânquias nos toracópodos (patas) e por último, é um anostráceo por carecer de carapaça, o que não quer dizer que não possua exoesqueleto. As espécies que existem na atualidade são: Artemia franciscana (América), A. tunisiana (Europa), A. urmiana (Lago Urmia, Irã), A. monica (Mono Lake, USA), A. persimilis (Argentina) e A. partenogenetica (Europa, Asia e Oceania). Esta última espécie ainda cria controvérsias entre os especialistas; muitos acreditam que o modo reprodutivo partenogenético não é uma característica de valor taxonômico.

MORFOLOGIA EXTERNA

Os adultos de Artemia possuem um corpo alongado, o qual está claramente segmentado (ver gráfico). As artemias apresentam um marcado dimorfismo sexual, sendo que as fêmeas são sempre maiores que os machos. O corpo divide-se em cabeça, tórax e abdômen. Na cabeça encontramos um par de olhos compostos pedunculados e as antenas, que no caso dos machos adotam um tamanho significativo, indispensável para o processo pré-copulativo (riding position). No tórax existem onze pares de toracópodos que são responsáveis pela natação, respiração e alimentação (condução do alimento até a boca mediante correntes de água). O abdome não apresenta nenhuma extremidade, mas nesta parte do corpo pode ser encontrado o ovissaco (útero externo) nas fêmeas, e um par de pênis nos machos. O último segmento abdominal é bifurcado e cheio de microscópicas setas, no meio da furca abre-se o ânus.

REPRODUÇÃO

Este é um dos aspéctos mais interessantes na biologia deste animal. As artemias apresentam reprodução tanto sexual como partenogenética. Na reprodução sexual os machos copulam as fêmeas para assim fertilizar os embriões estocados no ovissaco. Na reprodução partenogenética os machos são ausentes e as fêmeas sozinhas conseguem ter descendência.

Na reprodução sexual ainda existem dois modos reprodutivos diferentes: oviparidade e ovoviviparidade. A oviparidade caracteriza-se pela produção de cistos (embriões encistados), este modo se verifica quando as condições ambientais são adversas para a população, por exemplo: alta salinidade, baixos teores de oxigênio dissolvido e escassez de alimento. Por ser a casca dos cistos (córion) composta de hemetina (um derivado da hemoglobina), o ferro necessariamente deverá estar presente no alimento para que se verifique a formação de cistos. A ovoviviparidade tem como característica a produção de náuplios (primeiro estágio larval) e é mais comum quando as condições ambientais são favoráveis para o animal: salinidade moderada, alto teor de oxigênio e abundância de alimento (microalgas, detrito orgânico, etc.).

Uma fêmea adulta é capaz de produzir até 300 náuplios ou cistos a cada 5 dias. Logicamente, esta notavel fertilidade, assim como em qualquer outro animal, decai com o tempo.

CICLO DE VIDA

Seja através da oviparidade ou da ovoviviparidade, o primeiro estádio larval é o náuplio. Esta fase é de suma importância em aqüicultura, pois seu pequeno tamanho (0,45 mm) o torna apropriado para a alimentação de larvas de várias espécies de peixes e camarões. Igualmente, nesta fase, Artemia é rica em elementos nutricionais, sendo que os ácidos graxos poli-insaturados (HUFA) é um dos mais destacados (indispensável para crescimento e sobrevivência de larvas de espécies em cultivo). O teor de HUFA varia consideravelmente de uma cepa geográfica a outra. Geralmente as de origem marinha ( Macau – Brasil, São Francisco – USA., etc.) são as que mais HUFA apresentam, ao contrário das cepas de origem continental (GSL – USA.).

Os náuplios são seguidos pelos metanáuplios, estádio caracterizado pela formação de todos os apêndices locomotores. Os metanáuplios dão lugar aos pré adultos, fase em que se inicia o dimorfismo sexual e a formação das estruturas gonadais. Por último teremos os adultos, cuja característica principal será a sua capacidade por se reproduzir. Dependendo da cepa, das condições climáticas e da água, Artemia consegue fechar seu ciclo de vida em alguns poucos dias (normalmente o faz em 12 dias). Dependendo das condições naturais ou de cultivo, os adultos conseguem viver de 1 a 6 meses.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA E ECOLOGIA

Artemia é um crustáceo cosmopolita sendo encontrado em mais de 300 biotopos diferentes (salinas principalmente), ao longo dos 5 continentes. No Brasil, a espécie A. franciscana habita praticamente o nordeste (Rio Grande do Norte e Ceará), e também pode ser encontrada em Cabo Frio (Rio de Janeiro).

As artemias são extremamente tolerantes, sendo que podem sobreviver em salinas que vão de 5 a 280 ‰ ( a salinidade do mar é 35 ‰), temperaturas entre 6 e 35 ºC e níveis de oxigênio menores que um mg/litro. Por causa das difíceis condições ambientais que tem que suportar, estes animais tem desenvolvido três eficientes mecanismos de adaptação: osmorregulação, pigmentos respiratórios e oviparidade. O sistema de osmorregulação da Artemia é o mais notável que se conhece no reino animal; graças a isto, Artemia logra viver em salinidades onde nenhum ser vivo – a não ser algumas micro algas e bactérias – pode resistir (livre de predadores aquáticos). Os seis tipos diferentes de hemoglobina que Artemia possui, lhe garante uma grande capacidade para captar o escasso oxigênio presente nas salinas. Por último a oviparidade é a responsável pela preservação das espécies, devido a que no verão, quando os corpos de água hipersalinos secam, só os adultos morrem, mas não os cistos, os quais podem resistir nesse estado (diapausa) por vários anos. A primeira chuva ou maré grande que hidrate os cistos, fará com que a eclosão aconteça e prospere numa nova população.

CULTIVO

Por meio de técnicas de aqüicultura é possível produzir cistos e biomassa de Artemia sob condições controladas. Na atualidade existem dois tipos de cultivos bem definidos: extensivo e intensivo. O cultivo extensivo refere-se ao manejo de populações em ambientes naturais (salinas), viveiros de camarão ou peixes (quando as salinas o permitem) ou fazendas específicas de cultivo; as densidades praticadas ficam em torno de 100 artemias/litro. Nesse tipo de cultivo as microalgas são a principal fonte de alimento para as artemias e o seu crescimento pode ser promovido através da adubação da água com fertilizantes inorgânicos (uréia, super fosfato triplo, nitrato de amônia, etc.) ou orgânicos (esterco de galinha, gado, etc.). O cultivo intensivo apresenta duas modalidades: sistema “batch” ou de circuito fechado, onde não existe renovação de água e, sistema “flow-through” ou de circuito aberto, onde há fluxos constantes de água. Nesse tipo de sistema a alimentação pode ser realizada com microalgas cultivadas ou com farinhas de sub-produtos agrícolas (soja, milho, etc.). As densidades praticadas estão em torno de 10.000 artemias/litro.

AS ARTEMIAS NA ALIMENTAÇÃO HUMANA

Num futuro próximo poderá ser utilizada a biomassa de Artemia para melhorar a dieta de nossos povos latino-americanos e do Terceiro Mundo, onde a escassez de proteínas é cada vez mais alarmante. Existem evidências históricas que sugerem que estes crustáceos já foram parte integrante na alimentação de nativos de Abssínia e Líbia na África, e índios Sinaloa na Baja Califórnia (México e U.S.A.).

Segundo o “Artemia Newsletter” da Bélgica (nº 12, 1989), foi verificado que no Vietnã as pessoas dedicadas ao cultivo de artemia, tem incorporado a biomassa deste crustáceo na sua dieta habitual. Muedas (1986), mediante um estudo de degustação feito com estudantes universitários em Lima (Peru), descubriu que os hamburgues feitos com biomassa de Artemia não apresentaram maiores diferenças de aceitação em relação aos hamburgues de carne de boi!

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