As carpas no Sul do Brasil

Foto: Abate de carpas na COTRIBÁ em Ibirubá, RS

Quem foi ao cinema ver O Quatrilho, o belo filme brasileiro indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro, pode ver a estonteante Patrícia Pilar mandar um rapaz ir ver “…as carpa no açude”. A ação, se passa em 1910 em Santa Corona nas serras gaúchas e está registrada no romance homônimo de José Clemente Pozenato.

Segundo o livro Piscicultura de Água Doce de Newton Castagnolli, as carpas chegaram ao Brasil em 1882. Poucas certezas se têm sobre quem as trouxe e para onde as levaram. O livro de Castagnolli fala apenas que as carpas chegaram ao Vale do Paraíba, em São Paulo, no início deste século e daí para diante, se espalharam por todo o país, até se tornarem os peixes mais cultivados por aqui, a exemplo do resto do mundo.

A mesma sorte não tiveram os norte-americanos. As carpas nos EUA são consideradas uma praga em certas regiões, levando o governo a promover programas para a sua erradicação.

A entrada das carpas no Brasil, aliás, só ocorreu por ter sido feita na segunda metade do século passado. Se hipoteticamente, como num filme, imaginarmos que até os dias de hoje, as carpas ainda não tivessem sido introduzidas por aqui, e um piscicultor incauto solicitasse oficialmente a sua importação, assistiríamos seu desapontamento ao ver a autorização negada.

Provavelmente, nossas autoridades tomariam por base o exemplo norte-americano e alegariam que, pelo fato de ser uma espécie exótica e se reproduzir naturalmente, seriam perigosas invasoras das nossas bacias hidrográficas, colocando em risco as nossas espécies nativas.

A realidade porém nos mostrou que após um século de sua introdução no Brasil, a carpa ainda não manifestou sua periculosidade e, se foi através dela que a Lernea chegou aqui, este é um outro assunto: a barbeiragem é que não fizeram a quarentena, uma prática ainda insubstituível.

RIO GRANDE DO SUL

O cultivo das carpas no Rio Grande do Sul brevemente festejará seu primeiro século de existência, já podendo desta forma, ser considerado um cultivo tradicional nesse estado e, mesmo convivendo com baixas produtividades, a ciprinicultura gaúcha vem se desenvolvendo graças, principalmente, ao trabalho realizado pelas cooperativas do interior do estado, entre elas a COTREL, COTRI-JUI e COTRIBÁ.

Somente na COTREL – Cooperativa Tritícula de Erechim, são 420 produtores que somam 450 ha de viveiros, uma área que segundo João Alcides Neyhaus, o Tuca, responsável pelo desenvolvimento da piscicultura da cooperativa, produz semanalmente 2,5 toneladas de carpas, sendo a metade composta por carpas húngaras e o restante dividido igualmente entre a capim, cabeça grande e prateada.

Os pesque-pague paulistas desde outubro passado têm consumido 20% desta produção. O restante é abatido e comercializado no mercado de Porto Alegre e na CEAGESP paulista, que consomem a húngara e a capim, abatidas, na faixa de peso entre 1 e 2 kg, e a cabeça grande e prateada somente acima dos 2 kg.

O período médio de engorda das carpas no Rio Grande do Sul, onde as águas no inverno chegam a 12 ºC, é de 14 meses. O povoamento dos viveiros com os alevinos, provenientes em sua maioria de Santa Catarina, ocorre entre outubro e fevereiro, quando são colocados de 3 a 5 mil por hectare.

Atualmente a COTREL possui o certificado do SIF para suas carpas vendidas abatidas inteiras ou evisceradas e está pleiteando o mesmo certificado para os produtos industrializados que breve estará produzindo. Seus planos de crescimento são animadores, a contar pelos equipamentos importados especialmente para o processamento dos peixes, entre eles uma despolpadeira, equipamento para produção de CMS (carne mecanicamente separada), máquina moldadora de fishburguer e empanados.

SANTA CATARINA

Devido aos rigorosos invernos que atingem a região do Planalto e parte do Oeste catarinense, a carpa comum vem sendo a principal espécie cultivada nesse estado, favorecida pela influência da colonização alemã e italiana, pelo perfil das propriedades rurais que se caracterizam pela diversidade das atividades agropecuárias e pela possibilidade de se cultivar a carpa em consórcio com aves e suínos.

No sistema consorciado, as taxas de povoamento situam-se ao redor de 3.000 peixes por hectare e o tempo de cultivo varia de 12 a 15 meses até que se atinjam o peso de 1 kg, com sobrevivência final de 70%. Neste sistema, o custo de produção também fica ao redor de R$ 0,40 o quilo com produtividades médias de 2,5 toneladas/ha/ano. Contudo, alguns produtores, com a utilização de melhores manejos ictiosanitários, monitoramento da qualidade da água, policultivos e utilização de alevinos II, têm obtido resultados bem superiores aos citados acima.

O quadro da piscicultura catarinense não se diferenciava muito do restante do Brasil, onde as vendas de peixe costumam se concentrar próximas da Semana Santa devido, principalmente, a falta de um programa mais efetivo de comercialização e a falta de uma estrutura de beneficiamento.

Nos últimos dois anos esse quadro vem se modificando no estado com a instalação de frigoríficos de médio porte e, ainda neste ano, devem entrar em operação duas unidades de maior capacidade, o Frigorífico Pompéia do Brasil, na cidade de Pompéia do Sul e a Sampesc Indústria e Comércio de Pescados, na cidade de Xanxerê, com capacidades de processamento diário por turno de 10 e 5 toneladas de pescado, respectivamente.

Para André Brügger da Fishtec Consultores Associados, empresa responsável pela implantação do sistema de integração da Sampesc, esta empresa se caracteriza por ser a primeira unidade industrial do país a produzir fishburguer utilizando como matéria prima somente produtos da aqüicultura e numa primeira fase, serão utilizadas somente carpas.

Segundo Brügger, além da necessidade de aumentar a produtividade, o que mais chamou a atenção foi o baixíssimo rendimento das carcaças dos peixes analisados, o que poderia até vir a inviabilizar o custo de produção do fishburguer. Como a avaliação da qualidade de um material zootécnico pode ser diretamente influenciada por suas condições de cultivo, André Brügger acha prematuro atribuir tais características à baixa qualidade dos reprodutores, principalmente quando se sabe das deficiências energéticas e protéicas apresentadas em grande parte dos cultivos.

Em linhas gerais, uma boa carpa é aquela com uma cabeça pequena em relação ao seu corpo e, cuja relação entre sua altura e o comprimento total seja da ordem de 1/2. Os índices que tem sido encontrados pelos técnicos da Fishtec são de 1/3 e até 1/4, muito próximos aos das carpas selvagens.

Ainda segundo os especialistas, outros problemas ainda deverão ser solucionados num curto espaço de tempo, para que a ciprinicultura catarinense possa vir a atender as exigências de crescimento da indústria. Entre eles destacam-se a padronização da produção, a questão do off-flavour (sabor desagradável da carne) e a baixa qualidade dos açudes que dificultam as operações de despesca, causando estresse e até mesmo lesões em parte dos animais.