As Carpas

O Policultivo Integrado no Sul do País

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Jorge de Matos Casaca -médico veterinário e especialista em aquicultura. EPAGRI – Chapecó – SC
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As carpas produzidas através do sistema de policultivo integrado com outros animais, principalmente nos estados do sul do País, lideram as estatísticas de produção de peixes cultivados no Brasil, e confirmam a importância da piscicultura orgânica, a despeito da tecnificação que, cada vez mais, toma conta do cenário atual da piscicultura brasileira.

A reciclagem dos resíduos provenientes da suinocultura, avicultura e bovi-nocultura, permite elevadas produtividades de peixes e garantem a harmonia entre a produção e o meio ambiente, concorrendo para uma autosustentabilidade.

Em 1994, 84% do pescado produzido pela aqüicultura, ou seja 15,8 milhões de toneladas, foram produzidos pelos países em desenvolvimento. Cifras expressivas se compararmos com os 13,9% ou 2,5 milhões de toneladas dos países industrializados e os 1,3% ou 0,24 milhões de toneladas dos países com economias em transição.

Mas foram os cultivos dos ciprinídeos, em particular as carpas chinesas, produzidas em grande parte nos sistemas semi-intensivo e extensivo, que dominaram a produção mundial com 9,2 milhões de toneladas, principalmente na China. ( FAO, 1997).

No Brasil, a estimativa da produção aqüícola brasileira para as espécies de peixes de água doce no ano de 1995 foi de 40.137 toneladas, tendo as carpas contribuído com 42% ou 16.865 toneladas, seguido pelas tilápias com 29,93% ou 12.013 toneladas, pacu com 9,89% ou 3.971 toneladas, tambaqui com 5,8% ou 2.330 toneladas e bagre africano com 5,63% ou 2.263 toneladas.

Os estados da Região Sul do país foram os que mais contribuíram para a produção brasileira de peixes de água doce no ano de 1995. O Paraná produziu 9.981 toneladas, São Paulo 8.280 toneladas e Santa Catarina 7.178 toneladas. O cultivo das carpas nestes estados representaram para o Paraná 35,70%, São Paulo 51,69% e Santa Catarina 64,26%. Mesmo se tratando de estimativa de produção, os dados apresentados no documento do CEPENE/IBAMA – 1995, pode conter algumas distorções, como a produção do Estado do Rio Grande do Sul com 1.080 toneladas que, segundo previsões mais realistas, deve ter alcançado a produção de 4.000 toneladas na safra daquele ano.

Santa Catarina

A produção total da aqüicultura de Santa Catarina no ano de 1996, foi de 9.455 toneladas de peixes de água doce, sendo que 8.949 toneladas foram de peixes tropicais e 509 toneladas de trutas, apontando um crescimento de 31,72 % sobre a safra do ano de 1995.

O grupo das carpas representaram na produção total do estado de Santa Catarina 64,07% ou 6.058 toneladas, caracterizando que o estado é um tradicional produtor dessas espécies. Das carpas cultivadas (Tabela 1) a carpa comum Ciprinus carpio, representou 57,41% ou 3.478 toneladas, seguido da carpa capim Ctenopharyngodon idella com 18,14% ou 1.099 toneladas, da carpa cabeça grande Aristichthys nobilis com 14,11% ou 855 toneladas e da carpa prateada Hypophthalmichthys molitrix com 10,32% ou 625 toneladas (EPAGRI, 1997).

A História

A tradição de se criar carpas vem com as colonizações alemãs e italianas do sul do país. Primeiro a velha carpa comum escama, criada em açudes, na maioria das vezes sem sistema de escoamento, onde permaneciam por anos se reproduzindo.

Era uma piscicultura de subsistência, onde os peixes eram tratados com resíduos da propriedade, principalmente quirera de milho.

A partir da década de 70, com o surgimento do serviço de extensão específico para fomentar a piscicultura em Santa Catarina, iniciou-se o estimulo a produção de alevinos de carpa comum para povoamento de açudes, agora construídos com caixa de nível. Passou-se a utilizar 1 alevino/m2, adubações esporádicas e complemento alimentar na base de resíduos ou cozidos de mandioca, batata, etc. Os peixes eram despescados na Semana Santa, após mais de 12 meses de cultivo e comercializados em feiras de peixe vivo, com peso variando de 200 g a 1,0 kg. A produtividade média deste sistema era de 800 kg/ha/ano.

Com a introdução das carpas chinesas: prateada, cabeça grande e capim, em 1987, os resultados dos cultivos começaram a melhorar. Atingiu-se produtividades de 1.500 kg/ha/ano, e procurava-se resolver problemas cuja origem vinham da falta de alevinos, da falta de experiência com policultivo e do desestímulo com as altas taxas de mortalidade nos cultivos.

Em 1991, com a introdução da tecnologia para produzir peixes em policultivo integrado (suinocultura, avicultura), associado ao uso do alevinos II para o povoamento, com peso variando entre 10 e 50 gramas, deu-se inicio a consolidação da piscicultura no sul do Brasil, tal como a conhecemos. O sucesso das carpas na região deve-se a diversos fatores, destacando-se dentre eles, o clima apropriado com estações bem definidas e invernos muitas vezes rigorosos, com temperatura da água chegando a 15 oC por 2 a 4 meses. Essas temperaturas não limitam o crescimento das carpas, ao contrário do que ocorre com outras espécies como as tilápias, que são afetadas e podem morrer com temperaturas abaixo de 12 ºC.

Para essas condições, é recomendado somente o cultivo de espécies resistentes como as carpas que em temperaturas baixas (10 a 18 oC ), continuam comendo e crescendo, embora com uma velocidade menor.

O perfil das pequenas propriedades rurais da Região Sul (menores que 25 ha), também contribuiu para o crescimento da ciprinicultura, com sua pouca disponibilidade de mão de obra e seu gerenciamento quase sempre conduzido pela família. Essas propriedades possuem diversificação na produção de grãos (milho e feijão) e animais (aves e suínos) e grande disponibilidade de matéria orgânica, provenientes da avicultura, suinocultura e bovinocultura. Além disso, seus proprietários estão sempre buscando mais uma atividade que aumente sua renda, de preferência com pouco investimento inicial e durante o cultivo.

 

Cultivo Orgânico de Peixes

O policultivo integrado ou cultivo orgânico de peixes, é o cultivo de duas ou mais espécies de peixes, com hábitos alimentares diferentes em um mesmo viveiro, com o uso de fertilizantes orgânicos.

Dentro do policultivo, o que se busca é atingir a Produção Estacionária Crítica, ou seja, a melhor produção possível, oriunda do alimento natural, já que os viveiros respondem diferentemente a cada tratamento que é dado. Fertilizantes orgânicos possuem uma capacidade de manter certas produções estacionárias crítica que, no caso das carpas, em sistemas integrados com suínos, alcançam de 2.500 a 4.500 kg/ha, nas condições de manejo das propriedades.

Os fertilizantes orgânicos são importantes para o desenvolvimento de organismos tanto autotróficos quanto heterotróficos, mediante a administração de matéria orgânica no ecossistema do viveiro, servindo principalmente, como substrato para o crescimento de bactérias e protozoários, os quais por sua vez, servem como alimento rico em proteínas para outros animais do próprio viveiro, incluindo os peixes.

Os hábitos alimentares dos peixes devem ser levados em consideração na escolha das espécies que serão utilizadas num policultivo, para que não haja competição entre elas. Outro fator importante é a disponibilidade e preço dos alevinos e a aceitação do peixe no mercado, além de seu valor comercial. As espécies de peixes recomendadas para fazer parte dos policultivos integrados para a região sul do país, com seus respectivos hábitos alimentares podem ser vistas na Tabela 2.

Integrações

A grande disponibilidade de fertilizantes orgânicos, principalmente oriundos da suinocultura, na região oeste de Santa Catarina, a custos muito baixos, foi um fator determinante na escolha e desenvolvimento do sistema de cultivo de peixes integrado com animais, atualmente adotado.

São utilizados 60 suínos ou 500 aves por hectare de viveiro. No caso dos suínos, são utilizados animais tipo integração, com peso inicial de 20 kg e final de 90 – 100 kg. A utilização de 60 suínos/ha em cultivo integrado, garante a produção de pelo menos 2.000 kg/ha/ano de carpa comum, como espécie principal, nas características da região oeste de Santa Catarina.

Observações a campo, feitas desde 1988, mostram que a utilização de cultivos integrados com suínos em modelos verticais, onde as baias dos animais são construídas sobre o viveiro, com piso ripado, tem apresentado resultados de produção 20% superiores àqueles que utilizam modelos horizontais.

O uso de resíduos orgânicos frescos de suínos possibilita um aproveitamento das macro partículas, principalmente restos de farelo de soja e milho, utilizados na ração dos suínos. Segundo alguns trabalhos, os suínos não absorvem de 13 a 21% dos nutrientes que compõem a sua ração. Além disso, outra vantagem dos resíduos orgânicos frescos é a suspensão na água de partículas coloidais que entram diretamente na cadeia trófica dos peixes filtradores. As espécies de peixes que mais aproveitam essas macro partículas são a carpa comum, tilápia, pacu, carpa capim, bagre africano e cascudo.

Para que o resíduo orgânico desempenhe o seu papel nas cadeias tróficas, há a necessidade de que a água apresente boas concentrações de alcalinidade, dureza, pH, oxigênio, etc. Quanto mais freqüente for a taxa de aplicação do fertilizante, melhor será o resultado de produção do viveiro, sendo as maiores produtividades observadas com aporte diário e, quanto mais diluído for este material orgânico, melhor será para a produtividade primária e heterotrófica.

Cuidados especiais devem ser tomados quando da recomendação técnica das taxas de aplicação de fertilizantes orgânicos, uma vez que erros podem acarretar baixos níveis de oxigênio, altos teores de amônia e até a mortalidade dos peixes. Especial atenção deve ser tomada com relação a cama de aviários.

Geralmente possuem maravalhas de madeiras resinosas podendo ao serem colocadas em viveiros de piscicultura, acarretar uma grande queda de oxigênio. Além disso, essas camas são freqüentemente desinfetadas com produtos químicos que podem também ser tóxicos para os peixes. Assim sendo, no caso das aves, recomenda-se trabalhar com frangos ou marrecos.

Nas propriedades em que não existe a possibilidade de integrações com animais, recomenda-se que as fertilizações sejam feitas com outros estercos disponíveis no local ou proximidades e, para tanto, pode-se usar os seguintes parâmetros: aplicar fertilizantes orgânicos na taxa de 40 a 80 kg de matéria seca/hectare/dia, controlar a taxa de fertilização através do disco de Secchi, mantendo a transparência entre 20 e 30 cm de profundidade e, distribuir os fertilizantes o mais uniforme, freqüente e particulado possível. A periodicidade ideal é a diária.

Produtividade

A produtividade do viveiro está diretamente relacionada ao tratamento dado a ele e seu conhecimento é um dos pontos principais para o planejamento. Através deste indicador é que se pode estabelecer a quantidade de alevinos a ser povoada.

Recomenda-se usar o parâmetro de 2.000 kg/ha/ano, estabelecido para a espécie principal, no caso a carpa comum ou tilápia nilótica monossexo.

Na Tabela 3 pode ser observado um exemplo indicativo da produtividade da carpa comum, sendo criada em policultivo integrado com suínos.

Tabela 3: Produção da carpa comum em função do número de suínos.
Tabela 3: Produção da carpa comum em função do número de suínos.

Durante muitos anos o período de cultivo de peixes era pré estabelecido como sendo de um ano. A partir do uso dos policultivos integrados e com as experiências de diversos anos chegou-se a resultados que permitem períodos de cultivos menores (entre 8 e 10 meses), obtendo-se peixes de tamanho comercial exigidos para a região.

As despescas devem ser realizadas levando-se em consideração a avaliação do crescimento da espécie principal pré-estabelecida no planejamento do cultivo. Em relação as espécies cultivadas em policultivo, onde todas as espécies devem ser retiradas do viveiro e comercializadas ao mesmo tempo, pode-se tomar os dados da Tabela 4 a seguir, como forma de orientação, pois facilita a despesca total e também a comercialização.

Tabela 4: Peso médio esperado ao final do cultivo e função das espécies
Tabela 4: Peso médio esperado ao final do cultivo e função das espécies
Planejamento do Povoamento

Para se calcular o povoamento da espécie principal, usa-se a fórmula a seguir:

Onde: TE = Taxa de estocagem; AV = Área do viveiro; P = Produtividade da espécie principal no viveiro; PMF = Peso médio final; PMI = Peso médio inicial; e S = Sobrevivência.

Para melhor entendimento, segue um exemplo: Vamos considerar uma propriedade que possui um único viveiro de engorda, com área superficial de 1,0 ha, em que o piscicultor dispõe de um sistema integrado com 60 suínos de engorda e a espécie principal será a carpa comum, que deverá ser despescada com 1,0 kg de peso médio. Além disso, o piscicultor sabe que irá adquirir alevinos II com peso médio de 0,05 kg (50 g); e estima-se uma taxa de mortalidade de 20 %. A pergunta que se faz é: qual a Taxa de Estocagem de alevinos II de carpa comum para este viveiro?

Aplicando a fórmula da Taxa de Estocagem chegaremos ao seguinte resultado:

T E = 2.631 alevinos II de carpa comum, com peso médio de 50 g. (ou para facilitar: 2.600 alevinos).

Definida a espécie principal, poderemos calcular as espécies secundárias e as espécies complementares do policultivo e para isso teríamos de conhecer detalhadamente a produtividade de cada viveiro que se está trabalhando. Como muitas vezes é difícil para o produtor, ou mesmo para o técnico, conhecer essas características, são apresentadas na Tabela 5 e 6 as recomendações técnicas, supondo que todos os peixes que compõe o policultivo deverão estar prontos para serem comercializados quando da despesca total.

 

Tabela 5: Classificação das espéceis em função da categoria de uso no policultivo com seus percentuais.
Tabela 5: Classificação das espéceis em função da categoria de uso no policultivo com seus percentuais.

Dando sequência ao exemplo, veremos na tabela 6 composto por:

 

Tabela 6: Quantidades de alevinos de cada espécie que comporá o policulivo.
Tabela 6: Quantidades de alevinos de cada espécie que comporá o policulivo.
Custos

Desde de 1991 a Epagri tem acompanhado o custo de produção nos sistemas de cultivos da região oeste de Santa Catarina e, ao longo desses anos, o custo médio para produzir um kg de peixes em policultivo integrado tem variado entre R$ 0,20 e 0,40. Os diversos canais de comercialização podem ser vistos na Tabela 7, tomando-se por base a cidade de Chapecó – SC.

 

Tabela 7: Locais e formas de comercialização de peixes em Chapecó-SC
Tabela 7: Locais e formas de comercialização de peixes em Chapecó-SC

No caso dos pesque-pagues a procura pelas carpas é maior no período do inverno (maio a agosto), quando deixam de trabalhar com as tilápias e os peixes redondos. Os preços praticados na comercialização das carpas variam em função da espécies, da época do ano, dos tamanhos, das quantidades, da região produtora e da forma de comercialização. Na época do inverno as carpa tem alcançado seus maiores valores e, nesta safra de 1997, os compradores para pesque pagues chegaram a pagar R$ 2,00 por kg vivo na propriedade. Mas em média, o preço das carpas tem ficado a R$ 1,00 por kg vivo como pode ser visto na Tabela 8.

 

Tabela 8: Espécies e preços praticados em Santa Catarina / Setembro-97
Tabela 8: Espécies e preços praticados em Santa Catarina / Setembro-97
Problemas

O desenvolvimento que a piscicultura teve nos últimos anos, trouxe sérios problemas sanitários, com destaque para a Lérnea, que tem representado um impacto mortal nos policultivos envolvendo as carpas. Existe uma susceptibilidade muito grande principalmente pela carpa capim, seguido da prateada, comum e cabeça grande.

Não menos preocupante também, é a qualidade genética das carpas produzidas no sul do Brasil. Pelo que se sabe, nenhuma estação de piscicultura pública ou privada desenvolve um programa de melhoramento genético. Diversos problemas relacionados à má qualidade de alevinos tem sido observados a campo e a tendência é piorar se não for feito algo imediatamente. A expectativa é a de que tenhamos em breve um banco de reprodutores de carpas.

Perspectivas

A piscicultura orgânica, através da reciclagem de resíduos provenientes da suinocultura, avicultura e bovinocultura, consegue produzir proteína animal a um baixo custo e, por ser uma atividade que se desenvolve através deste princípio, dificilmente virá a ser a atividade principal na maioria das pequenas propriedades do sul do Brasil. Entretanto, estão aí os números da produção de peixes produzidos dessa forma, liderando as estatísticas de produção, para atestar a importância da piscicultura orgânica no cenário atual da piscicultura brasileira.

Além de produzir proteína de alto valor biológico para o homem, é uma atividade que vem somar esforços para reciclagem dos dejetos animais e garantir a harmonia entre a produção e o meio ambiente, concorrendo para uma autosustentabilidade.

A produção de peixes em policultivo, com uso de subprodutos orgânicos, é altamente recomendada, não só do ponto de vista ambiental, mas também econômico e social.