As enfermidades ainda ameaçam

O sucesso da carcinicultura pressupõe boas práticas de manejo

Por: Alitiene Moura Lemos Pereira;
Angela Puchnick Legat e Jefferson F. Alves Legat
Embrapa Meio-Norte – Núcleo de Pesquisa em Pesca e Aqüicultura (NUPAQ)
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O Brasil, a partir do final dos anos 90, apresentou um crescimento exponencial na produção de camarões cultivados. O sucesso e a lucratividade na carcinicultura foram finalmente alcançados após inúmeras tentativas frustradas de cultivos comercialmente sustentáveis, iniciadas ainda na década de 70.

Após o uso de espécies exóticas e nativas, que apresentaram problemas de adaptação ao meio ambiente e baixa produtividade, o setor concentrou seus esforços para o desenvolvimento de um sistema de produção de uma outra espécie exótica natural do oceano pacífico. Essa espécie, o Litopenaeus vannamei, já amplamente estudada, demonstrava bom desempenho em cultivo, rusticidade, possuindo tecnologia de produção e formulação de ração balanceada adequada aos seus requerimentos nutricionais.

O fator decisivo para adoção dessa espécie para cultivo foi o fechamento do ciclo de produção em território nacional (produção de “ovo a ovo”), tornando-nos independentes da compra de larvas e reprodutores de outros país.

Apesar do sucesso financeiro e do crescimento exponencial da produção, passando de 2.880 toneladas em 1996 para 25.000 toneladas em 2000, os pressupostos do sistema empregado apresentavam falhas. Ainda que tenham sido adaptadas e desenvolvidas novas técnicas, o crescimento na produção não foi acompanhado de um aumento significativo da área cultivada e sim, da intensificação do sistema de produção.

O sistema intensivo de cultivo de camarão, em muitos casos, foi empregado em fazendas com instalações inadequadas e sem o monitoramento e conhecimento técnico necessário. A inexistência de medidas de segurança permitiu o livre trânsito de larvas e reprodutores entre os diversos estados, sem o mínimo controle de enfermidades nos camarões transportados.

A única medida de biossegurança adotada no Brasil foi para proteção contra a entrada de enfermidades provenientes de outros países. O governo, após observar os danos à produção causados por doenças na Ásia e Equador, criou a Instrução Normativa de 4 de Novembro de 1999, proibindo a importação de crustáceos em todas as suas formas.

Em 2002, uma doença observada eventualmente em ambiente natural, passou a causar grandes perdas na produção nacional. A mionecrose infecciosa (IMNV) foi diagnosticada como vírus em 2004, considerado exclusivo do Brasil até o momento. Com esse fato, começaram a se tornar evidentes os sinais da falta da sustentabilidade do sistema de cultivo até então empregado na carcinicultura brasileira. A rápida disseminação da doença em território nacional, a ocultação do problema por parte do setor produtivo e a completa desinformação do setor científico nacional sobre o evento, agravaram a situação e retardaram o diagnóstico e descoberta de soluções.

Os benefícios das boas práticas de manejo

A redução da produção nacional de camarão, de 90.000 toneladas em 2003 para 75.000 toneladas em 2004, demonstrou o impacto das enfermidades na produção e a urgência da necessidade de aplicação de medidas de biosseguridade e boas práticas de manejo dentro do território nacional.

Nesse sentido, o diagnóstico de mancha branca no Brasil em janeiro de 2005, apesar do fechamento das barreiras sanitárias desde o final da década de 90, corroborou a fragilidade do sistema de cultivo empregado, iludido com os recordes de produtividade alcançados.

É importante salientar que a presença de enfermidades não inviabiliza a lucratividade da atividade, apenas impõe adaptações à nova realidade. Todos os países produtores de camarão já tiveram problemas com enfermidades e ainda assim a carcinicultura é considerada uma atividade lucrativa.

As adaptações referem-se principalmente a mudanças no manejo, tecnologia de cultivo, biosseguridade e na garantia de larvas saudáveis por parte dos laboratórios.

No quadro é possível visualizar os principais agentes causadores de enfermidades que afetam a carcinicultura brasileira, bem como a solução apresentada.

Principais agentes causadores de enfermidades na carcinicultura e suas características
Principais agentes causadores de enfermidades na carcinicultura e suas características

As boas práticas de manejo são fatores comuns para se evitar a presença de enfermidades ou mitigar seus efeitos no cultivo. Constituem ações que envolvem desde a decisão de quando povoar, a densidade mais apropriada às condições do viveiro, o momento de despescar, tratamento do solo, fertilização e a escolha da ração mais adequada ao sistema de cultivo.

A comunicação entre produtores é importante na troca de informações, principalmente quando dependem de um mesmo manancial. O problema de um indivíduo hoje pode ser o problema de todos amanhã. A tomada imediata de medidas pode evitar a instalação de uma enfermidade na região ou acelerar a busca de suas causas e possíveis soluções.

A união de produtores também é importante no momento de exigir de outros setores garantia de qualidade. Por exemplo: dos fabricantes de ração, a composição descrita na embalagem; ou ainda, dos laboratórios de produção de pós-larvas, o certificado de sanidade do lote adquirido.

Outro fator importante para a manutenção da atividade no país é o desenvolvimento de um programa de melhoramento genético nacional. A participação de órgãos públicos no processo garante o acesso a todos os produtores nacionais interessados. Esse processo já foi iniciado com o RECARCINE – Rede de Pesquisa em Carcinicultura do Nordeste, financiado através de recursos da FINEP. O grupo é composto atualmente por quatro instituições, Universidade Estadual do Ceará, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Embrapa Meio-Norte, e tem por objetivo o melhoramento dos índices zootécnicos do L. vannamei cultivado no Brasil, além do desenvolvimento de linhagens resistentes a enfermidades. O programa iniciou em 2005, porém os resultados, como de qualquer melhoramento genético, demandam tempo, muitas vezes anos, até que sejam aplicados na produção.

Importação é a solução?

A importação de animais livres de patógenos, apesar de ser uma alternativa mais rápida, não soluciona o problema. A compra desses animais, quando feita de empresas respeitadas onde existe um monitoramento constante da sanidade, garante que as larvas não trarão doenças à propriedade. Porém, o desempenho desses animais como reprodutores é limitado. A variabilidade genética é propositalmente baixa, o que provoca o aparecimento de problemas de desempenho zootécnico (crescimento, sobrevivência, deformidades) em pouco tempo.

No momento essa estratégia deixa os produtores dependentes de importações periódicas para a manutenção da qualidade de seu plantel reprodutor. O uso de larvas livres de patógenos, porém, não impede que as mesmas sejam infectadas se inseridas em ambientes contaminados, mas evita a disseminação de enfermidades em novas áreas de cultivo e oferece tempo para a manutenção econômica da atividade enquanto desenvolvemos nossas próprias linhagens.

Assim percebe-se que a continuidade da carcinicultura como atividade econômica sustentável depende do uso de recursos combinados para evitar a introdução de enfermidades nas propriedades, através de larvas livres de patógenos, e de boas práticas de manejo, inclusive nas propriedades onde as enfermidades já estão presentes. Essas ações não inviabilizam o negócio, apenas exigem a aplicação das medidas de monitoramento e controle do cultivo.

A Embrapa atuando na carcinicultura
Técnicos realizando extração de DNA, Laboratório de Biotecnologia Aquática, Embrapa Meio-Norte
Técnicos realizando extração de DNA, Laboratório de Biotecnologia Aquática, Embrapa Meio-Norte

Um grande desejo dos aqüicultores sempre foi ver a Empresa de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, desenvolvendo pesquisas relacionadas à produção de organismos aquáticos, e cada vez mais isso vem se tornando realidade, tanto para peixes como para camarões. O Núcleo de Pesquisa em Pesca e Aqüicultura da Embrapa Meio-Norte, localizado em Parnaíba, litoral do PI, está trabalhando para resgatar a exploração comercial do camarão nativo Farfantepenaeus subtilis, espécie conhecida comercialmente como camarão-rosa, e que por sua cor obtém melhores preços de mercado que o Litopenaeus vannamei. A pesquisa, que visa levantar os requerimentos nutricionais e a avaliação das rações, é desenvolvida através da Rede de Carcinicultura do Nordeste (Recarcine), formada pelas universidades federais de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba, além da Embrapa Meio-Norte e a Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária – IPA. O projeto “Avaliação de rações comerciais no cultivo do camarão marinho F. subtilis”, realizado pela pesquisadora da Embrapa Alitiene Pereira, foi iniciado em 2005 e tem previsão de término para o final desse ano”. Os recursos da ordem de R$ 90 mil destinados ao projeto são provenientes do Ministério da Ciência e Tecnologia e foram conseguidos através da FINEP. Além dessa pesquisa, a Embrapa Meio-Norte apresentou em fevereiro último ao Banco do Nordeste, outro projeto para trabalhar com o camarão nativo: “Desenvolvimento de Microssatélites de DNA em Camarão-rosa para Análise Genômica e o Estabelecimento de Linhagens Viáveis ao Cultivo”, cuja coordenação é do pesquisador Fábio Mendonça Diniz. Para o L. vannamei, estudos genéticos também estão sendo desenvolvidos em Parnaíba sob a coordenação da pesquisadora Angela Puchnick Legat. São eles: “Estudo da Variabilidade Genética dos Plantéis de Reprodutores do Camarão Marinho Litopenaeus vannamei Cultivado no Estado do Piauí” e “Melhoramento Genético da Espécie Litopenaeus vannamei no Nordeste do Brasil – estratégias para a formação de plantéis a partir da diversidade genética existente”.