As Maravilhosas Vieiras da Ilha Grande

Por: Jomar Carvalho Filho


Mesmo sendo deliciosas, as vieiras são moluscos pouco conhecidos do público em geral. Talvez por seu nome curioso soar como um nome próprio. Por outro lado as “coquilles”, como também são conhecidas, são presenças certas nos cardápios de sofisticados restaurantes. Um acepipe da alta gastronomia do Brasil e do mundo.

As vieras, ou “scallops” como são conhecidas na língua inglesa, apesar de serem pouco conhecidas no Brasil, estão entre os 10 produtos aqüícolas mais cultivados no mundo. Em 2004, segundo a FAO – Fishstat, o cultivo de vieiras (pectinocultura) em todo o mundo gerou 1,16 milhões de toneladas, com a China produzindo 78% desse total, como pode ser visto na tabela. No Brasil, a produção comercial de vieiras ainda é muito pequena, proveniente, de pequenos produtores espalhados, principalmente, pelo litoral que vai do Espírito Santo até Santa Catarina.

Produção de vieiras em todo o mundo - Dados: FAO /Fishstat
Produção de vieiras em todo o mundo – Dados: FAO /Fishstat 
Rio Maricultura

Uma empresa, porém, destaca-se nesse cenário. Localizada em Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro, a Rio Maricultura, é a maior produtora brasileira de vieiras, há dois anos abastecendo o mercado com vieiras frescas, concorrendo em grande vantagem com o produto importado (músculo) congelado, usualmente encontrado no mercado.

Fundada em 2004 e hoje com 25 funcionários, a empresa opera, a partir de um escritório na cidade de Angra dos Reis, uma bem estruturada fazenda marinha localizada na Praia dos Meros, no extremo sul da Ilha Grande, voltada para o mar aberto. Para se chegar lá, uma hora e meia de barco navegando num dos mais belos cartões postais do litoral brasileiro.

O cultivo de vieiras da Rio Maricultura é realizado com o auxílio de 24 espinhéis de 80 metros de comprimento cada um, agrupados em quatro baterias. Ao todo são 1.920 metros de espinhéis, com lanternas de vieiras penduradas a cada metro.

O manejo da fazenda marinha foi definido após dois anos de pesquisas realizadas na Praia dos Meros, a partir de 2002. Os ensaios de engorda mostraram que o empreendimento no lugar se beneficiaria das melhores condições ambientais possíveis para a espécie, que não por acaso, é nativa do local. Os testes também serviram para dimensionar o complexo sistema de ancoragem, bem como a melhor disposição dos espinhéis de modo que possam enfrentar a grande dinâmica do mar no local. Os trabalhos iniciais foram conduzidos pelo oceanógrafo Júlio César Avelar e pelo biólogo Luiz Alberto Fernandes, ambos atualmente na direção da empresa.

No período que antecedeu a criação da empresa, além dos estudos relacionados à engorda, foram também realizados estudos de mercado, que apontaram para um cenário bastante positivo em termos de retorno de capital. Entretanto, segundo Júlio Avelar, posteriormente ajustes foram necessários, porque a escala de produção que o projeto veio a adotar aumentou os custos operacionais sem, entretanto, comprometer a viabilidade econômica do empreendimento.

Júlio César Avelar  e Luiz Alberto Fernandes, Responsáveis  pela produção da Rio Maricultura
Júlio César Avelar  e Luiz Alberto Fernandes, Responsáveis  pela produção da Rio Maricultura
Espinhéis Lanternas e Cabos

Cada um dos 24 espinhéis da fazenda opera a meia água, com seus cabos-mestre de polietileno, esticados numa profundidade média de três metros. Poitas especiais mantêm os cabos-mestre no local, suspensos com a ajuda das bóias e equilibrados com contrapesos, para que suavemente acompanhem, sem trancos, a dinâmica do mar.

Na seqüência de fotos, as lanternas com incrustações e parasitas são trazidas dos espinhéis e levadas para a limpeza, onde também são selecionadas por tamanho. A seguir são colocadas em lanternas limpas antes de voltarem novamente para o espinhel
Na seqüência de fotos, as lanternas com incrustações e parasitas são trazidas dos espinhéis e levadas para a limpeza, onde também são selecionadas por tamanho. A seguir são colocadas em lanternas limpas antes de voltarem novamente para o espinhel

A escolha dos materiais de que são fabricados os insumos utilizados numa fazenda marinha é muito importante. A ação do sol sobre as bóias, por exemplo, as tornam quebradiças. Sobre esse assunto, o diretor técnico da empresa, Júlio Avelar, prefere as de formato elíptico, por terem menor área exposta a incrustações. Sua recomendação aos fabricantes das bóias elípticas disponíveis no mercado, é que sejam fabricadas com um volume um pouco maior e que tenham as paredes mais grossas porque, à medida que ressecam, tornam-se frágeis e quebram com um mínimo impacto.

Outro importante insumo utilizado é a lanterna, onde são alojadas as vieiras. A Rio Maricultura optou por importá-las da China, fabricadas com malha de monofilamento, inclusive o piso. Um detalhe importante das lanternas da Rio Maricultura é que possuem 10 pisos e um diâmetro 50cm. Muitas das lanternas encontradas no Brasil, segundo Julio Avelar, utilizam discos plásticos como piso, com diâmetro de 40cm. A vantagem das lanternas feitas com rede de monofilamento é que, além de serem mais resistentes, tem uma menor aderência de fouling.

Sementes

Angra dos Reis também abriga o único laboratório que produz comercialmente as sementes de vieira. Outros laboratórios, localizados em Santa Catarina, também conseguem fechar o ciclo da Nodipecten nodosus, mas não em escala comercial como ocorre no Instituto de Eco-desenvolvimento da Baía da Ilha Grande (IED-BIG), no Estado do Rio de Janeiro.

O abastecimento de sementes sempre mostrou ser o elo mais frágil da cadeia produtiva das vieiras. Nos últimos anos, muitos problemas impediram que esse abastecimento se desse de forma contínua, o que chegou a causar instabilidade e insegurança entre os produtores, que investiram em insumos, aguardando as sementes para dar início ao cultivo. O cenário atual, porém, parece ser de estabilidade, tendo o IED-BIG conseguido ao longo do último ano atender, com sobras, a atual demanda.

A engorda

Para dar início à engorda são utilizadas sementes de tamanhos que variam de 8 a 10 mm, por serem mais resistentes. Inicialmente são abrigadas em lanternas de malha de menor tamanho (4 mm), numa densidade ao redor de 400 sementes por andar ou piso da lanterna, lembrando que as da Rio Maricultura possuem 50cm de diâmetro. Segundo Júlio Avelar, o crescimento dos animais tem uma curva muito acentuada nos primeiros meses de vida. É preciso, portanto, estar atento para realizar os manejos, também conhecidos como “desdobre”, nos momentos certos.

Nos primeiros 4-5 meses, os desdobres são realizados aproximadamente a cada 40 dias, o que, na prática, significa reduzir pela metade a densidade dos animais dentro das lanternas. Em geral, o primeiro desdobre é realizado após os primeiros 40 dias de cultivo, sendo repetido a cada 40 dias, sucessivamente. O manejo de desdobre é também o momento da retirada dos predadores, entre eles o caramujo peludo, e para se efetuar uma seleção de tamanho, já que o crescimento das vieiras não se dá de forma homogênea.

Ao longo da engorda são utilizados cinco tamanhos de malha: 4, 8, 12, 20 e 30 mm, em função do tamanho do animal. Após todos os desdobres, a densidade final nas lanternas da Rio Maricultura é de 15 a 18 animais de 8cm de diâmetro de concha, por cada piso da lanterna de terminação.

O manejo

A rotina diária da fazenda é voltada basicamente para os cuidados de desdobre e limpeza de lanternas, auxiliada por um programa de computador que informa a data que uma determinada lanterna deverá ser retirada da água para desdobre ou para despesca final e comercialização. Através de estreito controle, a todo o momento é possível saber o tamanho médio e a quantidade de vieiras de cada uma das 1.920 lanternas da Rio Maricultura.

Ao longo de um dia de trabalho na Praia dos Meros, é possível ver quase que a todo momento lanternas sendo retiradas da água e trazidas para as instalações, onde cada animal é limpo, selecionado por tamanho e recolocado em lanternas limpas, para retornar ao mar.

O parasita caramujo peludo
O parasita caramujo peludo
Comercialização

A parte comestível das vieiras é o seu grande músculo adutor. No mercado, e o maior problema que a Rio Maricultura enfrenta é a concorrência do músculo de vieira congelado, importado principalmente do Chile. Alguns países têm o hábito de comer apenas o músculo, como é o caso dos EUA. Os europeus já apreciam o músculo, com as gônadas aderidas a ele. A vantagem da empresa brasileira é que seu produto é absolutamente fresco, comercializado vivo, na casca. Isso permite que, além do músculo, o consumidor possa também aproveitar as gônadas (o coral, como chamam alguns restaurantes) que vêm aderidas, o que torna o produto ainda mais especial.

A empresa comercializa as vieiras em três faixas de tamanhos de casca: 80-85 mm (R$ 28,00/dúzia); 86-90 mm (R$ 30,00/dúzia) e 91-95 mm (R$ 34,00/dúzia), incluindo o frete. Atualmente a Rio Maricultura atende clientes em Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Distrito Federal e Pará. Segundo Mauro Nascimento, responsável pelo departamento comercial da empresa, são clientes da alta gastronomia, que reconhecem o sabor e o frescor das vieiras que são entregues vivas na casca.