Bactérias em Cultivos de Peixes

Por Andréa Belém Costa
Laboratório de Patologia e Fisiologia de Peixes,
Universidade de Nagasaki – Japão
E-mail: [email protected]


A ocorrência de doenças durante um cultivo é conseqüência de diversos fatores tais como hereditariedade, variações ambientais bruscas, alimentação, densidade de cultivo, traumas mecânicos ou poluição, que contribuem para modificar a anatomia e/ou fisiologia do pescado.

 

A maioria dos problemas de saúde em peixes são causados por agentes patológicos vivos tais como parasitas, fungos, bactérias ou vírus.

Em sistemas de cultivo intensivo, as práticas de manejo muitas vezes são inapropriadas, especialmente quando se refere ao regime alimentar e a limpeza dos viveiros.

Os dejetos excretados pelos peixes, a comida não consumida e animais mortos, contribuem para o desenvolvimento de comunidades microbianas que podem ser responsáveis pela ocorrência de doenças.

Quando o estoque apresenta densidade elevada e os animais estão estressados, altas perdas por mortalidade podem ocorrer, uma vez que tais condições debilitam os animais, diminuindo a sua resistência específica a patógenos facultativos, especialmente víbrios, pseudomonas e aeromonas. Estes patógenos infiltram-se nos tecidos ou células do pescado, multiplicando-se, causando infecções e produzindo sintomas de doenças.

Até o presente, mais de 50 espécies de bactérias têm sido associadas a doenças em peixes marinhos e de água doce, dentre as quais podemos citar alguns gêneros como Aeromonas, Vibrio, Pseudomonas e Pasteurella que causam septicemias hemorrágicas agudas, passando o peixe a apresentar cor escura com hemorragias irregulares na superfície do corpo e base das nadadeiras. Edwardsiellosis, causada pela bactéria Edwardsiella tarda é caracterizada pela formação de abcessos na região da cabeça e do pedúnculo caudal e por lesões na pele e em órgãos internos em catfish, carpas e enguias.

O tratamento nestes casos baseia-se em melhorar as condições de cultivo, com a redução de poluentes orgânicos e diminuição da temperatura, quando possível, e ainda tratamentos com antibióticos ou sulphonamidas, contudo, o tratamento deve ser iniciado quando o peixe ainda está em condições de se alimentar, pois normalmente estes antibióticos são misturados à ração (Tabela 1).

Profilaxia

Cuidados preventivos podem ser adotados visando diminuir ou atenuar os problemas relativos à saúde do pescado. Algumas destas medidas profiláticas são:
1. Assegurar e manter as boas condições de cultivo e manejo, como a qualidade da água (controle da poluição e aeração adequada);
2. Prevenir a entrada de agentes externos como parasitas;
3. Restringir o movimento do estoque infectado, diminuindo os riscos de transferência da doença;
4. Utilizar uma dieta alimentar balanceada;
5. Aumentar a capacidade de resistência do pescado através da imunoprofilaxia, seja por imunização ativa (vacinas) ou passiva (tratamento com antiserum), contra os patógenos ou seus produtos tóxicos;
6. Uso de antimicrobianos (quimioprofilaxia e quimioterapia), apenas em último caso, quando todas as outras possibilidades já foram esgotadas.

Impacto

A piscicultura intensiva é uma indústria relativamente nova e que cresce a cada dia. Como conseqüência deste rápido crescimento, deu-se a expansão dos cultivos em todo o mundo, acompanhado do aumento das taxas de mortalidade.

Considerações devem ser feitas em relação ao possível impacto de doenças dentro de quaisquer sistemas de aqüicultura, seja ela marinha ou de água doce. Mortalidade elevada, anomalias, taxas de fecundidade reduzidas e crescimento lento devido a doenças, representam uma ameaça a viabilidade comercial de um sistema de produção, pois implica em prejuízos financeiros e ambientais.

A piscicultura japonesa é atualmente a mais extensa e produtiva do mundo. Espécies como Anguilla japonica (enguias), Paralichthys olivaceus (linguado), Plecoglossus altivelis e Pagrus major (red seabream), recebem grande atenção e a literatura referente a doenças envolvendo estas espécies é extensa.

Nos Estados Unidos, apenas nos cultivos da região sudeste, as infecções bacterianas representam 27% do total de casos de doenças.

Muito tem sido e está sendo feito nesta área, no entanto, pouco se sabe sobre os processos ecológicos envolvidos ou as mudanças fisiológicas que ocorrem no peixe durante uma invasão ou multiplicação bacteriana.

A existência de microorganismos dentro de um cultivo não significa que tais organismos sejam patogênicos. Estas comunidades microbianas são também usadas para melhorar a qualidade do ambiente de cultivo, sendo benéficas e muitas vezes necessárias à saúde do pescado. No entanto, ao primeiro sinal de um desequilíbrio biológico ou ambiental, deve-se procurar a orientação de um profissional capacitado a identificar as possíveis causas e diagnosticar um tratamento correto a fim de restabelecer o equilíbrio do cultivo.

Saúde humana

Infecções por bactérias em peixes ou derivados, pode influenciar a saúde humana, seja induzindo a doenças, seja através dos resíduos de antibióticos usados nas terapias dos cultivos.

As infecções humanas que podem ser causadas por bactérias de peixes incluem intoxicação alimentar, gastroenterites e ainda mycobacterioses. Os patógenos que podem ser transferidos para o homem através de pescados ou pelo ambiente aquático são mostrados na tabela 2.

A maioria das bactérias comensais ou patogênicas de peixes, são psicrófilas e não conseguem crescer devido a temperatura do corpo humano (37°C), como é o caso de Aeromonas salmonicida, enquanto outras preferem temperaturas mais baixas. Algumas crescem bem tanto em peixes quanto em humanos e são capazes de causar doenças em ambos; Vibrio parahaemolyticus pode causar vibrioses em peixes e intoxicação alimentar em humanos.

A contaminação da carne do pescado durante o processamento, se dá quando um peixe portador de lesões não detectadas, causadas por bactérias patogênicas é processado, contaminando toda a linha de processamento. Isto requer a interrupção do processo, seguida de limpeza e desinfecção dos equipamentos.

Em muitos casos, a negligência frente aos aspectos da saúde pública ocorrem porque os vários setores da sociedades ligados a aqüicultura – produtores, vendedores, transportadores, processadores, consumidores e as autoridades competentes – não estão cientes da importância de uma aqüicultura saudável.

Programas de monitoramento sistemático sobre contaminantes, compostos bioativos e microorganismos devem ser considerados e corresponder a padrões internacionais, além de ser necessário maior desenvolvimento e transferência de tecnologia e pesquisa aplicada, que corresponda às várias regiões brasileiras. .

Natureza dos riscos associados a agentes antimicrobianos

Alguns dos riscos em potencial, associados ao uso de antibióticos são:
1. aumento da resistência a antibióticos de bactérias entéricas de origem animal;
2. ingestão pelo homem de bactérias resistentes (Salmonellae) resultando em infecções humanas;
3. ingestão de resíduos de antibióticos com conseqüências tóxicas ou alérgicas;
4. surgimento de espécies resistentes à drogas humanas.

Estes riscos são geralmente considerados muito baixos, porém um controle estrito do limite de resíduos em produtos animais para consumo humano, deve ser assegurado. Um exemplo de valores MRL (máximo limite de resíduos) permitidos em países europeus em carnes, incluindo peixes, para compostos antimicrobianos normalmente usados, são os seguintes:


Informações mais detalhadas a respeito da quantificação dos resíduos de antibióticos em peixes, são limitadas. Em 1984, amostras de trutas cultivadas na Inglaterra revelaram a não existência de resíduos de sulphonamidas e de furazolidone, mas foi detectado a presença de oxytetracyclina entre 0,008 e 0,04mg/kg em sete de 54 amostras de oito a dez peixes, todas no entanto, abaixo dos valores correntes de MRL.

Observações práticas

Alguns pontos devem ser observados pelo piscicultor, para ajudar a identificar rapidamente a ocorrência de doenças, permitindo que se controle a sua disseminação para outras áreas do cultivo. Ao observar o comportamento dos peixes ou outros aspectos, deve prestar particular atenção nas áreas de águas mais calmas, nas regiões do fluxo de entrada e de saída da água e nos lados de pouca correnteza do viveiro.

Natação e cardumes – O comportamento normal vai variar de acordo com a espécie cultivada; qualquer desvio do comportamento normal deve ser registrado. Peixes doentes são geralmente letárgicos, permanecendo à parte do cardume.

Movimentos anormais – Ataxia (incapacidade de coordenação dos movimentos musculares voluntários), natação em movimento espiral e explosões espasmódicas.

Natação lateral – Alguns peixes podem apresentar dificuldade em coordenar a natação. As causas possíveis são choque de temperatura ou traumas físicos. Condições que afetem a bexiga natatória podem apresentar sintomas semelhantes.

Saltos – Podem ser conseqüência de irritações causadas por ectoparasitas ou distúrbios no ambiente. As seqüelas resultantes são traumas mecânicos e outros problemas relacionados ao stress.

Atividade respiratória – Se o peixe estiver hiperventilando ou permanecer próximo a superfície ou a entrada do fluxo de água, suspeite de doenças nas brânquias (gill disease), anemia ou baixo nível de oxigênio.

Cor – Peixes doentes tem aparência mais escura que o normal e podem ser visto nas áreas de água parada ou, pelo contrário, podem tornar-se pálidos. A perda da cor pode significar más condições de saúde ou também estar associada ao ciclo reprodutivo.

Anormalidades na superfície do corpo – Excesso de muco e também lesões superficiais são mais fáceis de serem observadas quando o peixe está na água, portanto, anote a sua distribuição sobre o corpo do peixe. Restos orgânicos e algas podem acumular-se sobre estas lesões, alterando sua aparência.

Resposta alimentar – Este é um importante indício sobre a saúde do peixe. Uma diminuição na resposta alimentar é sempre a primeira indicação de um problema. Planeje para que os peixes não sejam alimentados antes da inspeção e ofereça a ração após concluí-la. Em grandes viveiros esta é uma oportunidade para observar de perto os estoques normais, por outro lado, perturbações podem ser necessárias para visualizar e coletar amostras de peixes doentes, como é o caso em tanques-rede.

Conclusão

A maioria dos problemas de 31saúde em peixes está relacionada com o stress ambiental, assim como aos efeitos provocados pelo manuseio do pescado ou pela baixa qualidade da água. Quando uma doença infecciosa ocorre, ela é apenas o resultado final da interação entre os organismos patogênicos, o hospedeiro suscetível (o peixe) e o stress ambiental. Um manejo adequado pode ajudar a minimizar a ocorrência de doenças em peixes ou aliviar seus efeitos. Os pontos-chave que devem ser levados em consideração, podem ser resumidos da seguinte maneira:

1. Certos patógenos de peixes podem ser agentes primários de doenças para peixes suscetíveis e todos os esforços devem ser feitos para restringir sua expansão através do controle do movimento do estoque, inclusive de ovos e alevinos.
2. As fazendas de cultivo devem procurar adquirir seus exemplares de plantéis comprovadamente livres de patógenos primários de significância comercial e a ova deve ser corretamente desinfectada antes de chegar a fazenda.
3. O suprimento de água deve ser mantido livre de peixes não pertencentes ao cultivo e outros animais, bem como de aves, que podem introduzir doenças ou favorecer ao ciclo de vida de parasitas.
4. Os peixes com diferentes classes de idade devem ser mantidos separados e os equipamentos utilizados no cultivo devem ser desinfectados antes do uso em diferentes grupos de peixes.
5. Todos os viveiros devem ser completamente secos e desinfectados quando vazios, ou pelo menos uma vez por ano.
6. Informações devem ser mantidas registrando a temperatura da água, velocidade do fluxo de água, nível de oxigênio dissolvido, peso dos peixes, consumo de ração, mortalidades diárias, tratamentos utilizados, etc. O simples exame da pele ou brânquias fornece informações úteis ao monitoramento da saúde dos peixes.
7. O fluxo de água e a densidade do estoque devem ser monitorados freqüentemente para assegurar a qualidade da água e evitar a entrada de doenças externas.
8. O manuseio dos peixes deve ser reduzido ao mínimo necessário e feito após um período em que os peixes não foram alimentados, durante uma hora do dia em que a temperatura da água esteja mais baixa.
9. A ração utilizada deve ser corretamente formulada e estocada, além de mantida sempre seca e utilizada no período determinado pelo fabricante.
10. Maior ênfase deve ser dada à prevenção de doenças que ao tratamento destas.
11. Sempre que possível o tratamento em peixes só deve ser feito após um diagnóstico definitivo sobre qual o medicamento apropriado a ser utilizado. Infecções externas são geralmente tratadas por meio de químicos adicionados a água enquanto infecções sistemáticas são geralmente tratadas com antimicrobianos adicionados à ração.
12. Cálculos corretos sobre a quantidade de medicamento a ser adicionado a água são essenciais. A medicação via oral, misturada à ração, deve levar em conta a palatabilidade aos peixes e a data para a despesca deve ser considerada, a fim de evitar que resíduos de antibióticos ainda estejam presentes na carne do pescado durante o abate.