BETTA: Um peixe bom de briga pelo mercado

O Betta splendens, ou simplesmente betta como é popularmente conhecido, é um peixe nativo da Tailândia, Laos, Vietnã, Camboja e Sião, onde é muito apreciado pela sua agressividade. Nestes países são comuns os encontros onde os criadores colocam os machos para lutar em combates, onde o mais fraco pode vir a morrer. São combates que também ocorrem na natureza, nas disputas por território e, principalmente, nas disputas pelas fêmeas. Como uma vitória do bom senso, atualmente os combates entre bettas são cada vez menos comuns, ao mesmo tempo que o seu cultivo se expande, tentando atender a crescente demanda.

Mas o que torna um peixe agressivo tão apreciado e desejado por aquaristas iniciantes e experientes? Talvez consigamos responder a esta pergunta discorrendo sobre as peculiaridades desta espécie e principalmente sobre a sua reprodução.


Por:
Manuel Vazquez Vidal Junior
Universidade Norte Fluminense
e-mail: [email protected]


Dimorfismo

Os indivíduos selvagens possuem coloração marrom com reflexos metálicos nas cores verde e azul, nadadeiras pequenas, sendo a nadadeira caudal arredondada e a dorsal pontiaguda, especialmente nos machos, que são ligeiramente maiores que as fêmeas. Esse peixe, que passaria despercebido em uma loja de peixes ornamentais, possui tamanha a plasticidade, que atualmente encontramos exemplares de diversas cores e formatos das nadadeiras.

O dimorfismo sexual é muito evidente, com as fêmeas raramente ultrapassando os seis centímetros de comprimento total, (foto 1) enquanto os machos podem facilmente chegar aos oito centímetros (foto 2), principalmente em função de suas longas nadadeiras, em especial a caudal. Outro aspecto do dimorfismo que torna os machos mais procurados pelos aquaristas, diz respeito às cores. Nas fêmeas comuns a cor predominante é o castanho e algumas linhagens produzem fêmeas coloridas (verde, azul, vermelho ou combinações destas) (Foto 3), mas mesmo estas não exibem cores tão firmes e intensas quanto os machos. (Foto 4).

Foto 1
Foto 1
Foto 2
Foto 2
Foto 3
Foto 3
Foto 4
Foto 4

O formato da nadadeira caudal dos machos também tem sofrido mutações. Até alguns anos atrás, só eram observadas nadadeiras arredondadas, simples ou dupla (foto 5), e apenas havia ocorrido mudanças no tamanho das mesmas. Atualmente são encontrados exemplares com a nadadeira caudal em delta e com raios duplos (foto 6).

Foto 5
Foto 5
Foto 6
Foto 6

Os bettas podem ser de linhagem azul, vermelha, verde, negra e amarela, além de existirem linhagens albinas. Estas características exclusivas dos machos lhes conferem um maior valor comercial, sendo o sonho dos produtores a obtenção de um cultivo monossexual masculino. Machos das linhagens tradicionais valem aproximadamente R$ 1,50 para venda aos distribuidores que repassarão aos atacadistas. Nas linhagens delta, super delta (nadadeiras em delta mais ou menos ampla) e pente (raios duplos na nadadeira caudal), o valor do macho é de R$ 3,00 a R$ 5,00, mas estas linhagens possuem um nicho de mercado muito interessante que é a venda direta aos aquaristas, em geral via internet. Neste caso deseja-se peixes monocromáticos e os mais valorizados são os negros que podem atingir mais de R$ 40,00 cada macho e até R$ 5,00 cada fêmea.

As fêmeas das linhagens tradicionais são vendidas pelos produtores por cinqüenta centavos e seu mercado é bem mais restrito. Muitos criadores, principalmente na Ásia não recriam todas as fêmeas, chegando mesmo a utilizá-las como ingrediente para confecção de ração.

Outra peculiaridade do betta é que possui um órgão chamado labirinto, localizado na cabeça, que permite trocas gasosas diretamente com o ar atmosférico. Este órgão forma-se quando o peixe está com aproximadamente 20 dias, e permite que o animal sobreviva por vários meses em águas com teor de oxigênio dissolvido próximo ou igual a zero. Esta particularidade permite que os criadores mantenham os machos adultos em pequenos potes, o que facilita seu cultivo, pois estes não podem ser criados juntos, uma vez que podem brigar até a morte. As fêmeas, mesmo adultas, podem ser mantidas em grupos, pois raramente brigam.

Reprodução

A reprodução desta espécie é simples, porém com um ritual de corte muito interessante. Para realizá-la, tanto de forma amadora quanto em cultivos comerciais, a técnica é basicamente a mesma e consiste em estimular o macho a construir o ninho de bolhas onde serão colocados os ovos. Para tal, em um aquário ou outro recipiente com aproximadamente 40 cm de diâmetro e altura de não mais que vinte centímetros, é colocado um casal. A fêmea deverá apresentar acentuado abaulamento na região entre o opérculo e a nadadeira anal, indicando estar com o ovário maduro, e ficará dentro de um pote transparente colocado no centro do recipiente. O macho ao ver a fêmea começará a construir o ninho de bolhas utilizando uma secreção mucosa de sua boca. Espera-se que um bom reprodutor faça, em um ou dois dias, um ninho com área de no mínimo 20 cm2 e altura de duas ou três camadas de bolhas. (foto 7)

Ao verificar que o ninho está formado, o produtor deverá observar a fêmea. Para que a desova tenha êxito não basta a fêmea estar com os ovócitos maduros, é preciso que ela esteja disposta a aceitar o acasalamento. Fêmeas nesta condição apresentam, após o contato visual com o macho, cores mais pálidas, listras verticais no corpo e, principalmente, adotam uma posição inclinada de 30 graus, com a cabeça para baixo (foto 8). Neste momento, a fêmea deverá ser solta no recipiente onde o macho se encontra. O pote onde a fêmea estava deve ser retirado com cuidado para evitar danos ao ninho.


O macho abrirá suas nadadeiras e nadará de lado empurrando a fêmea para debaixo do ninho. Este procedimento nem sempre é feito com delicadeza e a perda de partes das nadadeiras de ambos é normal. Após algumas tentativas, o macho abraça a fêmea e ambos liberam os gametas – ovócitos e espermatozóides (foto 9). Tanto os ovos fecundados quanto os reprodutores caem ao fundo e, curiosamente, os peixes ficam imóveis por alguns segundos como se acometidos de uma câimbra. O macho retoma os movimentos e começa a pegar os ovos com a boca e coloca-os no ninho (fotos 10 e 11), ao retomar o movimento a fêmea também procura os ovos, mas apenas interessada em comê-los (foto 12). Como é possível observar, o cuidado parental nesta espécie é exercido apenas pelo macho.

É comum encontrar na literatura a informação de que a coluna d´água deve ser menor que 20 cm, pois acima deste valor os ovos não resistem à pressão. Na verdade os ovos resistem a pressões causadas por colunas d´água de mais de um metro, entretanto caso a coluna seja elevada o macho demorará mais a coletar os ovos, uma vez que os leva um a um para o ninho e assim a fêmea terá mais oportunidade de canibalizá-los.

Em cada abraço a fêmea libera entre 8 e 20 ovócitos e a desova total pode chegar a mais de 600 ovos. Após completar a desova, a fêmea deve ser retirada do recipiente. Caso contrário o macho tentará expulsá-la de seu território mordiscando-a, o que pode levar a graves ferimentos ou mesmo ao óbito.

A incubação dos ovos dura de 40 a 54 horas e nesse período o macho recolhe os ovos que caem do ninho. Após a eclosão o cuidado parental perdura até a fase de pós-larva que, quando começam a nadar, saem do ninho (foto 13), momento em que o macho deve ser retirado, pois pode passar a comê-las.

Em cultivos comerciais é comum a retirada do ninho com os ovos para incubá-los artificialmente, tanto em incubadoras de fluxo de água contínuo quanto em pequenos recipientes apenas com aeração, onde é fundamental o uso de fungicidas como preventivo.

A incubação artificial não reduz o intervalo de desova nesta espécie, pois o cuidado parental não é exercido pela fêmea, entretanto ela permite uma maior pressão de seleção sobre o lote de machos.

Na fase de pós-larva, que tem início três dias após a eclosão (foto 14), a alimentação é o maior entrave e é nesta fase que se observa a maior mortalidade. A principal dificuldade é fornecer um item alimentar vivo e de tamanho compatível com a diminuta boca do betta nesta fase. Em geral utilizam-se plâncton selvagem e peneirado para que se obtenha itens com tamanho próximo a 60 micrometros (rotíferos em geral). Passados sete dias, os peixes já se alimentam de artemias ou daphinias, o que facilita muito o seu cultivo.
É também na fase de pós-larva que tenta-se utilizar técnicas de inversão sexual para esta espécie. Entretanto, o fato dela não se alimentar de ração nesta fase, obriga ao uso de hormônio bioencapsulados ou por imersão, além disso, o resultado é duvidoso do ponto de vista técnico e, principalmente, ético, uma vez que um elevado percentual de machos invertidos sexualmente não apresenta o comportamento típico masculino e, não raramente, ocorre reversão à condição fenotípica feminina.

Larvicultura

Após quinze dias (foto 15) os peixes podem ser cultivados em tanques externos, porém estes não devem ter contato direto com o solo. Atualmente mantas de vinil têm sido o material mais utilizado. É nesta fase que dá-se o início do arraçoamento.

Apesar de não ser um peixe muito exigente em relação à qualidade da água, o betta tem seu desenvolvimento otimizado em águas com pH entre 6,8 e 7,5. Por serem peixes de regiões quentes, preferem águas com temperatura de 24 a 28°C e, a condutividade elétrica de 80 a 300 m2 proporciona bom desenvolvimento e alta viabilidade dos ovos. Apesar de não ser exigente em oxigênio a partir da fase de juvenil, é aconselhável que a concentração de oxigênio dissolvido na água seja superior a 2,0 mg/L.

Apesar desta espécie não ter suas exigências nutricionais bem estudadas, sugere-se que sua necessidade de proteína esteja em torno de 40%. Quando atingem 40 a 60 dias (foto 16), a identificação do sexo se torna bem simples. Entretanto, os peixes podem ser mantidos juntos até os 90 dias de vida (foto 17), já que depois deste período os machos devem ser separados. Caso contrário, chegarão ao mercado com as nadadeiras danificadas, fazendo com que seu valor comercial seja diminuído.

Foto 17
Foto 17

Cultivar os machos jovens em unidades individuais é o segundo entrave do cultivo desta espécie. Alimentá-los e, principalmente, proceder a limpeza dos potes é extremamente trabalhoso, porém, negligenciar estes cuidados causa elevada mortalidade (foto 18).

Foto 18
Foto 18

Diversos produtores têm mostrado soluções criativas para esta fase, em geral elas se baseiam em recipientes pequenos agrupados em um tanque de cultivo de forma que as fezes sejam removidas em conjunto, entretanto a alimentação ainda necessita ser individualizada.

Cuidado e persistência é a chave para se ter sucesso com essa espécie e como recompensa tem-se um amplo mercado e uma demanda crescente para o seu produto.