Biomassa de Artemia na carcinicultura

Repercussões ambientais, econômicas e sociais

Por: Marcos Rogério Câmara, Ph.D.
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Os microcrustáceos do gênero Artemia ocorrem em ambientes hipersalinos, especialmente em lagos salgados interiores e salinas costeiras. Cistos (embriões em diapausa) e biomassa (indivíduos juvenis e adultos) de Artemia são coletados nesses ecossistemas, processados e utilizados como alimento para uma enorme variedade de peixes e crustáceos. No Brasil, a produção de cistos, da ordem de duas toneladas anuais, não apresenta perspectivas de aumento a curto prazo, uma vez que depende unicamente da produtividade natural (extrativismo) das salinas do Rio Grande do Norte. Esse mesmo extrativismo, por outro lado, é capaz de suprir integralmente as necessidades atuais de biomassa de Artemia dos laboratórios e fazendas de cultivo de Litopenaeus vannamei no Brasil, ao redor de 250 toneladas anuais.

O quadro atual de produção de cistos e biomassa de Artemia no Rio Grande do Norte será delineado em uma série de dois artigos. O presente artigo dá especial atenção às repercussões ambientais, econômicas e sociais decorrentes do extrativismo (pesca) e uso de biomassa de Artemia na carcinicultura brasileira. O segundo, por sua vez, enfocará a produção de cistos e será publicado na próxima edição da Panorama da AQÜICULTURA.


1 As idéias contidas nesse artigo decorrem de várias e frutíferas discussões realizadas no âmbito do Projeto INCO Artemia Biodiversity (http://allserv.ugent.be/aquaculture/rend/inco.htm)


Biologia, ecologia e uso de Artemia na aqüicultura

O gênero Artemia (Crustacea, Anostraca) – um complexo de espécies bissexuais e partenogenéticas definidas pelo critério de isolamento reprodutivo – ocorre em ambientes hipersalinos, especialmente em lagos salgados interiores e salinas costeiras. Cistos (embriões em diapausa) e biomassa (indivíduos juvenis e adultos) de Artemia são coletados nesses ecossistemas, processados e utilizados na aqüicultura como alimento para uma enorme variedade de peixes e crustáceos.

No Brasil, o microcrustáceo Artemia é encontrado nas salinas do Rio Grande do Norte em conseqüência de inoculações feitas em 1977 no município de Macau, com cistos provenientes da baía do San Francisco (Califórnia, Estados Unidos). Ao longo dos anos, a Artemia introduzida se dispersou por toda a região salineira do Rio Grande do Norte e exerceu papel importante no desenvolvimento e consolidação da carcinicultura do nordeste do Brasil, especialmente em relação à provisão de cistos e biomassa utilizados nas larviculturas e nos laboratórios de maturação. Recentemente, avaliações de DNA mitocondrial (mtDNA) realizadas na Grécia (Aristotle University of Thessaloniki) confirmaram que as populações existentes no Rio Grande do Norte pertencem à espécie Artemia franciscana.

1 - Coleta de biomassa de Artemia para análises experimentais no LNAqua (UFRN)
1 – Coleta de biomassa de Artemia para análises experimentais no LNAqua (UFRN)
2 - Biomassa de Artemia imediatamente após a coleta nos evaporadores de salina
2 – Biomassa de Artemia imediatamente após a coleta nos evaporadores de salina

O Grande Lago Salgado (Utah, Estados Unidos) é o maior produtor de cistos de Artemia no mundo. No entanto, flutuações ambientais têm interferido na produtividade primária do lago e na quantidade de cistos coletados. De fato, dados preliminares indicam que a safra de 2003 (encerrada em 24 de janeiro de 2004) no “Great Salt Lake” (GSL) representará aproximadamente 430 toneladas de cistos (peso seco), inferior às registradas em 1997 (700 toneladas de cistos), 2000 e 2001 (2.300 toneladas), e 2002 (2.900 toneladas), e muito aquém da demanda mundial por cistos de Artemia, hoje superior a 2.000 toneladas anuais.

3 - Lavagem de biomassa de Artemia (fase que precede o congelamento)
3 – Lavagem de biomassa de Artemia (fase que precede o congelamento)

A presente escassez de Artemia no mercado mundial tem estimulado a exploração de novas fontes de cistos, principalmente na Ásia. Nesse contexto, biótopos como o Lago Urmia (Irã), por exemplo, podem vir a ter uma participação importante no futuro. No entanto, a ausência de informações bioecológicas sobre esses ambientes dificulta a estimativa de seu potencial para a produção extrativista de cistos de Artemia para a próxima década. Também é importante ressaltar que os principais locais de produção de cistos de Artemia (GSL, por exemplo) já atingiram a sua capacidade máxima de coleta de cistos. Também é importante relativizar o sucesso obtido no Brasil e em outros países (Tailândia e Vietnã, por exemplo) a partir da inoculação do microcrustáceo Artemia para uso na aqüicultura local e, nesse sentido é didática a comparação entre o “Great Salt Lake” (EUA) e as salinas do Rio Grande do Norte. Embora a produtividade anual média obtida no Brasil seja compatível com as limitações de área, volume e tipo de produção existentes nas salinas do Rio Grande do Norte, a produção brasileira de cistos é insignificante em relação àquela obtida no enorme lago americano (Tabela 1).

Tabela 1. Quadro comparativo entre a produção de Artemia nos Estados Unidos (GSL, Utah) e no Brasil (salinas do RN)
Tabela 1. Quadro comparativo entre a produção de Artemia nos Estados Unidos (GSL, Utah) e no Brasil (salinas do RN)
Biomassa de Artemia após a lavagem.
Biomassa de Artemia após a lavagem.

Embora os náuplios eclodidos a partir de cistos continuem a representar a forma mais usual de consumo, a biomassa de Artemia tem assumido um papel cada vez mais importante na dieta de vários organismos aquáticos. Exemplos clássicos da utilização de biomassa de Artemia ocorrem na China e no Brasil. Na China, o consumo de biomassa de Artemia nos cultivos de Fenneropenaeus chinensis realizados na baía de Bohay (China) é superior a 3.000 toneladas anuais. Aqui no Brasil, cerca de 250 toneladas de biomassa de Artemia franciscana – espécie dominante na América do Sul, América do Norte e Caribe – são coletadas anualmente na região salineira do Rio Grande do Norte e utilizadas nos cultivos de Litopenaeus vannamei, complementando a dieta de reprodutores, pós-larvas e, em especial, de juvenis, fase na qual essa complementação alimentar é considerada essencial para uma alta sobrevivência dos camarões nos processos de aclimatação e transição entre berçários e viveiros de engorda.

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a) Tabletes congelados de biomassa de Artemia estocados em câmara fria b) Tabletes congelados de biomassa de Artemia
a) Tabletes congelados de biomassa de Artemia estocados em câmara fria e b) Tabletes congelados de biomassa de Artemia
Extrativismo da biomassa: repercussões sociais

A produção de Artemia no Rio Grande do Norte ocorre como subproduto da indústria de extração de sal, cuja área de abrangência corresponde aos principais estuários do Litoral Norte do Estado e seus entornos. A indústria salineira é tradicionalmente importante para a socioeconomia dessas regiões, onde aproximadamente 25.000 ha de evaporadores são utilizados na produção anual de 5 milhões de toneladas de cloreto de sódio (NaCl) através da evaporação da água do mar.

Do ponto de vista da repercussão social do extrativismo de biomassa de Artemia, é inicialmente necessário delimitar e caracterizar a área de ocorrência desse microcrustáceo no Rio Grande do Norte: as salinas localizadas nos estuários Apodi-Mossoró, Piranhas-Assu, Galinhos-Guamaré e seus entornos, no litoral norte do Estado. Essa região corresponde a 16 municípios e 363.115 habitantes, que representam 13 % da população estadual. Apresenta clima semi-árido, rede hidrográfica quase inexistente, vegetação de caatinga tipo hiperxerófica, e manguezais bastante degradados. As condições climáticas específicas desse setor costeiro e o aporte de água doce restrito, limitam as atividades econômicas àquelas de uso intensivo de capital, tais como: produção do sal marinho, extração de petróleo, fruticultura irrigada e cultivo do Litopenaeus vannamei. Portanto, a valorização da biomassa de Artemia franciscana, decorrente de sua crescente utilização na carcinicultura brasileira, contribui para a geração de emprego e renda e para a superação das assimetrias sociais nas comunidades litorâneas da região salineira do Rio Grande do Norte.

As salinas são classificadas como operações de fluxo paralelo, nas quais a água do mar ou estuarina com salinidade entre 35 e 40 ‰, é inicialmente bombeada para cercos de evaporação (evaporadores ou chocadores). Em seguida, por gravidade e/ou bombeamento, a água flui através de uma seqüência de evaporadores e um gradiente de salinidade é estabelecido. A cristalização do sal é finalmente obtida em cercos menores (cristalizadores), a partir da concentração dessa salmoura.

O extrativismo de biomassa de Artemia é realizado tanto nas salinas artesanais localizadas principalmente no município de Grossos, como nas grandes salinas mecanizadas dos municípios de Areia Branca e Macau. As condições ambientais prevalecentes nesses biótopos são adequadas à presença do microcrustáceo Artemia durante o ano inteiro.

Localizadas em áreas de mangue ou estuarinas, as salinas apresentam solos constituídos por silte e areia de origem marinha, com depósitos de lama orgânica e têm o fundo dos evaporadores cobertos por tapetes de cianofíceas, principalmente aquelas pertencentes ao gênero Aphanothece. Por sua vez, as microalgas – que servem de alimento para as populações de Artemia – estão representadas por diatomáceas dos gêneros Navicula e Nitzschia e por clorofíceas do gênero Dunaliella. Em geral, a vegetação é composta por tufos arbustivos ou gramíneas (Sporobolus virginicus, Ipomea pescaprae e Iresine portulacoides) nos taludes dos evaporadores e por mangues (Rhizophora mangle e Laguncularia racemosa) nas áreas adjacentes às salinas. Um nível aceitável de produtividade primária é alcançado em função da localização da captação de água em mangues e estuários – ambientes ricos em nutrientes. O pH flutua entre 7.0 e 8.2 e a temperatura média anual da água é superior a 25.0 oC durante os doze meses do ano. O aumento da salinidade (35 a 280 ‰) é alcançado nos evaporadores em função da alta taxa de evaporação diária (> 7 mm) e baixa pluviosidade anual (< 1.000 mm). Ademais, a contínua incidência de ventos alísios auxilia a evaporação e proporciona níveis adequados de oxigênio (> 2 mg/L) nos evaporadores onde as populações de Artemia ocorrem.

Os locais usuais para coleta de biomassa de Artemia são evaporadores com salinidade entre 100 e 150 ‰. Embora a biomassa de Artemia apresente elevada heterogeneidade na sua distribuição, a ação dos ventos e a busca por refúgios com temperaturas mais amenas concorrem para a concentração da biomassa em canais, depressões ou extremidades dos evaporadores, de onde é colhida, normalmente no início da manhã, através de redes, puçás e sacos de algodão. Após a coleta, a biomassa é transportada pelos próprios pescadores para as unidades de processamento e congelamento. Nesses locais, a biomassa de Artemia é processada (lavagem rápida para retirada de detritos e excesso de sal); embalada em sacos plásticos; armazenada em congeladores de uso doméstico ou câmaras frias industriais; e finalmente, comercializada em tabletes congelados, por preços ao redor de US$ 1 por quilo.

O processamento, congelamento e venda de biomassa de Artemia na região salineira do Rio Grande do Norte é conduzido por empreendimentos familiares (de baixo capital financeiro e tecnológico), localizados em Grossos/Areia Branca (seis empreendimentos) e Macau (três). Tais empreendimentos não detêm os meios de produção ou acordos oficialmente estabelecidos com os proprietários das salinas e, por conseguinte, dependem da coleta de biomassa de Artemia realizada por pescadores artesanais. Esse modelo informal de pesca é, em sua essência, clandestino, e implica tensões sociais no relacionamento entre processadores, salineiros e pescadores artesanais.

A questão social é particularmente complexa em Areia Branca, Grossos e Macau, onde, após várias tentativas infrutíferas de normatizar e regulamentar o extrativismo clandestino de cistos e biomassa de Artemia, ficou terminantemente proibido pelos proprietários da maioria das grandes salinas localizadas nesses municípios, o acesso dos pescadores aos locais de coleta (evaporadores).

Uso de biomassa: repercussões ambientais e econômicas

O camarão marinho cultivado no Brasil consome Artemia como náuplios vivos – eclodidos a partir de embriões encistados, usados na alimentação de larvas e pós-larvas, e como biomassa – utilizada como produto vivo ou congelado, para alimentar juvenis e estoques reprodutores de camarão. Embora toda a biomassa de Artemia e uma fração significativa dos cistos consumidos no Brasil sejam colhidos localmente como subprodutos da indústria salineira, há sérias preocupações sobre a sustentabilidade das práticas de extrativismo atualmente em uso. Isso ocorre não somente por conta da conversão de centenas de hectares de salinas em viveiros de camarão, mas, principalmente em função do desconhecimento da capacidade máxima sustentável dos locais de pesca (evaporadores de salinas) e da coleta indiscriminada de Artemia (cistos, náuplios, juvenis e adultos).

A produção comercial do camarão marinho Litopenaeus vannamei cultivado no Brasil cresceu de 40.000 toneladas em 2001 para 60.128 toneladas em 2002. Essa expansão requer quantidades crescentes de área, pós-larvas e rações, entre outros recursos. A demanda brasileira para pós-larvas de Litopenaeus vannamei, por exemplo, cresceu de 0,5 bilhões em 1994 para 11,4 bilhões em 2002, e 16,4 bilhões em 2003. Como conseqüência, o consumo estimado de cistos e de biomassa de Artemia alcançou 16,4 toneladas e 246 toneladas, respectivamente (Tabela 2).

Tabela 2. Produção anual de pós-larvas de Litopenaeus vannamei e consumo de cistos e biomassa de Artemia no Brasil, no período 1994-2003 1 Toneladas (peso seco)  2 Toneladas (peso úmido)
Tabela 2. Produção anual de pós-larvas de Litopenaeus vannamei e consumo de cistos e biomassa de Artemia no Brasil, no período 1994-2003 1 Toneladas (peso seco)  2 Toneladas (peso úmido)

Cerca de 250 toneladas de biomassa de Artemia foram coletadas em 2003 para atender a demanda dos cultivos de Litopenaeus vannamei estabelecidos no Brasil. No entanto, aproximadamente 15.000 ha de evaporadores em operação nas salinas do Rio Grande do Norte apresentam salinidade entre 100 ‰ e 150 ‰ e, por conseguinte, podem ser utilizados como locais de pesca de biomassa de Artemia. Considerando uma capacidade máxima sustentável de 0,2 toneladas por hectare/ano, a produção atual (250 toneladas) poderia ser incrementada em até 12 vezes (3.000 toneladas) nos 15.000 ha de evaporadores disponíveis (Tabela 3).

Tabela 3. Produção (ton./ano) de Artemia (cistos e biomassa) nas salinas do Rio Grande do Norte em 2003 (A) e potencial de expansão em diferentes cenários de extrativismo (B, C) e cultivo (D).
Tabela 3. Produção (ton./ano) de Artemia (cistos e biomassa) nas salinas do Rio Grande do Norte em 2003 (A) e potencial de expansão em diferentes cenários de extrativismo (B, C) e cultivo (D).

A utilização de insumos alternativos de alta qualidade nutricional na formulação de rações é requisito essencial para desenvolvimento de uma aqüicultura sustentável, tanto do ponto de vista de eficiência econômica como de prudência ambiental, especialmente em relação ao alto custo (econômico e ambiental) da farinha de pescado – fonte de proteína animal utilizada pelos fabricantes de rações para animais terrestres e aquáticos. Embora a utilização de biomassa de Artemia na formulação de rações para camarão não possa ser descartada no quadro atual de disponibilidade – e mesmo no cenário de expansão acima projetado (3.000 toneladas/ano), é importante mencionar que a biomassa de Artemia apresenta um teor de umidade da ordem de 95 %, fato que deve ser levado em conta na sua transformação em farinha protéica (farinha de biomassa de Artemia). Também deve ser considerado o uso atual da biomassa congelada na alimentação de pós-larvas, juvenis e adultos de Litopenaeus vannamei, bem como as repercussões econômicas do aumento de demanda que se seguiria à utilização de Artemia como insumo na formulação de rações artificiais.

Dadas as limitações quantitativas enfocadas no parágrafo anterior, o uso alternativo de biomassa de Artemia como fonte de substâncias potencialmente atrativas e estimulantes alimentares deve ser considerado, já que implica em quantidades relativamente menores. Com efeito, o papel dos atrativos e estimulantes alimentares no melhoramento da palatibilidade das dietas artificiais utilizadas na aqüicultura, na eficiência alimentar dos organismos cultiváveis e na redução das perdas de nutrientes na água (lixiviação) é amplamente reconhecido. Incorporados às dietas artificiais sob a forma de aminoácidos sintéticos ou naturais, peptídeos, açúcares, ácidos graxos poliinsaturados, e extratos de peixes, crustáceos e moluscos, entre outras substâncias, os atrativos e estimulantes alimentares facilitam a localização do alimento e estimulam o seu consumo. Em perspectiva, a adição de biomassa de Artemia às dietas artificiais (rações) atualmente utilizadas no Brasil, incrementará a resposta dos camarões marinhos frente ao alimento, reduzirá o seu desperdício e favorecerá a manutenção da qualidade da água (dos viveiros e dos efluentes de cultivo) em níveis adequados.

No entanto, independentemente da forma de utilização, a concretização do potencial de expansão da produção de biomassa de Artemia no Rio Grande do Norte, dependerá da inserção de critérios biológicos no manejo das salinas e da oficialização das relações comerciais e de trabalho entre proprietários de salinas, pescadores artesanais e processadores de biomassa de Artemia.

De um lado, é necessário que a coleta de biomassa seja realizada em consonância com a capacidade máxima sustentável de cada evaporador. Do outro, é essencial que as relações comerciais e de trabalho sejam minimamente oficializadas, de modo que os conflitos sociais entre proprietários de salinas, pescadores artesanais e processadores de Artemia não se tornem obstáculos à adoção de critérios sustentáveis de coleta de biomassa e à incorporação industrial desse insumo à cadeia produtiva dos cultivos de Litopenaeus vanamei no Brasil.