Boas coletas garantem bons diagnósticos

Os cuidados na coleta e na remessa de amostras para exames bacteriológicos

Por:
Luciene C. Lima e Rômulo C. Leite 
Laboratório de Ictiossanidade,
Escola de Veterinária UFMG
[email protected]


A coleta e o envio de material para exames laboratoriais são passos fundamentais para um diagnóstico confiável das doenças e permite a adoção de um tratamento direcionado e eficiente. Infelizmente, no Brasil ainda faltam laboratórios especializados no diagnóstico de doenças infecciosas de peixes. Mas esta lacuna importante da piscicultura nacional está sendo preenchida. Este artigo aborda alguns aspectos de ictiossanidade (saúde dos peixes), com ênfase à coleta e remessa de material para bacteriologia.

A sanidade é um dos aspectos mais relevantes para a produção comercial de qualquer espécie, incluindo peixes. Doenças são uma das ameaças mais sérias ao sucesso da aqüicultura porque, além de não alcançarem bom desempenho zootécnico e terem sua reprodução comprometida, peixes doentes disseminam agentes patogênicos para o ambiente, geram prejuízos ao produtor e ainda podem representar riscos à saúde pública. Os organismos causadores de doenças estão presentes tanto no meio natural quanto em sistemas de cultivo, mas em cativeiro os patógenos encontram condições ideais ao seu desenvolvimento. De todas as doenças, aquelas causadas por bactérias são as que mais comumente atacam os peixes e as que também geram mais prejuízos para a piscicultura. Quando as enfermidades surgem, é importante saber como atuar rapidamente de modo a evitar ou minimizar mortalidades.

Embora a aqüicultura seja o setor de alimentos que mais cresce no mundo, doenças ainda representam um entrave primário ao crescimento da atividade. Experiências passadas mostram que as doenças de peixes podem trazer perdas econômicas consideráveis à atividade e um aumento dos riscos sanitários é projetado à medida que a aqüicultura continua a se expandir, intensificar e diversificar. A intensificação traz consigo a necessidade de manejos e transportes freqüentes, incremento das densidades de estocagem, aumento nas taxas de alimentação e geração de resíduos que comprometem a qualidade da água, tornando o estresse inevitável dentro dos ambientes de cultivo. A manifestação de doenças em peixes está diretamente relacionada com situações estressantes. Devido à sua particular condição de pecilotermia, os peixes são altamente sensíveis à flutuação dos parâmetros de qualidade de água que, através do estresse, reduz a resistência dos peixes e sua capacidade de enfrentar doenças. Assim, a manutenção da saúde de peixes produzidos em cativeiro é considerada, hoje, um dos aspectos mais importantes ao êxito da aqüicultura.

Entretanto, controlar doenças em sistemas aqüícolas não é tarefa fácil, sobretudo quando a adoção de medidas de controle é falha ou inexistente e os recursos para prevenção são limitados. Sabe-se que grande parte dos surtos de doenças em peixes resulta da falta de regulamentação do transporte de animais aquáticos, movimentação esta que facilita a introdução e disseminação de agentes patogênicos. A maioria dos países em desenvolvimento enfrenta desafios significativos na implementação prática de estratégias de manejo especialmente na área de diagnóstico, vigilância, análise de riscos, preparação para situações de emergência, quarentena e programas de certificação. Grandes indústrias, como a do salmão, entretanto, sabem do potencial dizimador das doenças, daí fazerem cumprir um controle sanitário rigoroso, inclusive com vacinação rotineira dos peixes. Para indústrias como a do salmão, um programa sanitário não é apenas uma atitude burocrática mas a garantia da chegada de seus peixes até o mercado consumidor sem transtornos no processo de produção.

Doenças infecto-contagiosas

Uma grande quantidade de doenças viróticas, parasitárias e fúngicas pode impactar negativamente sistemas aqüícolas. Entretanto, as de origem bacteriana ocasionam graves infecções sendo as principais responsáveis pelas grandes perdas de peixes cultivados (Foto 1). Elas são abundantes no ambiente e são capazes de se multiplicar rapidamente. A maioria das bactérias que causam doenças em peixes estão normalmente presentes no ambiente, daí serem chamadas de bactérias oportunistas, ou seja, capazes de causar doenças quando o sistema imunológico do animal está comprometido ou quando condições ambientais favorecem o invasor. Exemplos de condições que desencadeiam o ataque de bactérias oportunistas são alterações frequentes de qualidade de água e grande densidade animal. Alguns dos sinais mais evidentes de doenças bacterianas incluem o desenvolvimento de lesões avermelhadas, feridas e úlceras no corpo (Foto 2); base das nadadeiras avermelhada, nadadeiras erodidas (esgarçadas), mudança de coloração da pele, exoftalmia (olho esbugalhado). A distribuição das lesões é bastante variável, mas geralmente inclui cabeça, face, opérculo (estrutura que cobre as brânquias) boca, costas, lateral do corpo e pedúnculo caudal. Apesar de alguns sintomas serem indicativos desta ou daquela bactéria, somente o exame laboratorial pode confirmar o diagnóstico.

Foto 1 - Placa com colônias de Aeromonas sp., bactéria comumente isolada de peixes doentes
Foto 1 – Placa com colônias de Aeromonas sp., bactéria comumente isolada de peixes doentes
Foto 2 - Lesões na pele provocadas por Aeromonas hydrophila
Foto 2 – Lesões na pele provocadas por Aeromonas hydrophila
Amostras para exame bacteriológico

O protocolo de amostragem para a investigação de agentes infecciosos em peixes é tão importante quanto os métodos de diagnóstico propriamente empregados. A amostragem feita sem critérios e cuidados leva a falsos diagnósticos, a uma estimativa equivocada de prevalência das doenças ou ainda, pode impedir a identificação do agente causador da enfermidade.

O número de amostras precisa ser representativo, isto é, diante de um surto, vários animais da população devem ser examinados. O número exato de peixes amostrados vai depender do histórico do problema, dos sinais de infecção, da quantidade de peixes disponíveis e da estrutura e capacidade de processamento do laboratório de referência.

Peixes ainda vivos, mas que mostram sinais de enfermidade (moribundos), são os melhores espécimes para amostragem. Indivíduos moribundos usualmente abrigam grandes quantidades de bactérias causadoras de doenças. Após o sacrifício ou morte do peixe, os tecidos e órgãos afetados devem ser prontamente examinados. É importante ressaltar que quando o peixe morre, ocorre uma invasão rápida de bactérias contaminando os tecidos e órgãos internos. A rapidez da invasão bacteriana se dá em função de vários fatores, incluindo a temperatura que, quanto mais alta, maior a multiplicação bacteriana. Assim, a rapidez e a precisão da coleta de material são diretamente proporcionais à qualidade da amostra e dos resultados do exame.

Seleção e remessa de peixes para o laboratório

A investigação de bactérias exige um protocolo mais elaborado onde a seleção, preparação, embalagem e transporte são passos cruciais no processo de diagnóstico de doenças bacterianas de peixes, diferentemente da investigação de vírus, para a qual os animais podem ser enviados em refrigeração ou até congelados, ou para a pesquisa de parasitos, cujo material pode ser fixado em formol. Do contrário, amostras podem chegar ao laboratório em condições precárias, a ponto de impedir o trabalho de isolamento e identificação. As dicas a seguir são importantes para um bom resultado diagnóstico:

Envio de peixes vivos e ou moribundos

1- Selecionar os peixes que exibem os sinais clínicos mais comuns dentro da população acometida;
2- Encher um saco plástico limpo e forte (preferencialmente usar dois sacos) com 2/3 de água fresca e aerada;
3- Acomodar o peixe na água. Peixes pequenos sobrevivem até 48hs em sacos plásticos, desde que a água seja mantida fria, limpa, aerada e com uma densidade adequada de peixe por litro de água. Como referência, pode-se usar 10 larvas ou 5 alevinos por litro de água;
4- Peixes pesando acima de 500g devem ser acondicionados separadamente. Peixes menores podem ser agrupados em dois ou três por saco plástico;
5- Para manter a água resfriada, especialmente em condições tropicais e longas distâncias, usar sacos plásticos menores, fechados, com gelo triturado e colocar na água junto com o peixe;
6- Completar o saco com oxigênio puro ou ar comprimido;
7- Fechar o saco com elásticos de borracha bem apertados, evitando vazamentos;
8- Etiquetar claramente os sacos, de preferência usando etiquetas à prova-d´água. Não escrever diretamente nos sacos plásticos;
9- Acomodar os sacos plásticos em caixas isotérmicas. Usar uma camada bem distribuída de gelo debaixo e na sua parte superior dos sacos de peixe, antes de colocar a tampa da caixa;
10- A manutenção da temperatura baixa é crucial para a qualidade do material amostrado. O gelo em escamas ou triturado permite melhor distribuição do frio do que o gelo em cubos. Também podem ser usadas embalagens de gelo reusável;
11- Selar a caixa com fita adesiva resistente certificando que não há vazamentos;
12- Do lado de fora da caixa colocar uma folha com informações sobre o problema (quando começou a doença, espécies acometidas, quantos e como os peixes morreram, informações sobre a água do sistema, manejos, outras informações que julgar importantes);
13- Certificar com o despachante (transportadora, cia aérea, etc) se o material chegará ao lab dentro de 12 a 24 hs;
14- Avisar o laboratório sobre a previsão de chegada do material para as análises.

Envio de peixe recém-morto

1- Não sendo possível amostrar peixes vivos ou moribundos, contactar o laboratório de referência antes de enviar qualquer outro material. Somente o profissional habilitado poderá decidir sobre a validade do material disponível. Para resultados confiáveis e corretos, seguir rigorosamente as instruções do profissional.

Coleta asséptica de amostras para bacteriologia

Técnicas assépticas de amostragem são essenciais ao diagnóstico de doenças bacterianas. A qualidade da necrópsia e da coleta de material é dependente de um trabalho paciente, criterioso e consciente. Assim, somente um profissional bem treinado está em condições de cuidar desta etapa do diagnóstico. No laboratório, usando material e equipamentos adequados, os peixe são sacrificados, cuidadosamente examinados e têm seus órgãos e tecidos coletados para a investigaçao dos agentes causadores de enfermidades.

Em outras palavras, amostras de lesões de pele, fragmentos de brânquias, rim, fígado e cérebro (Fotos 4 A, B, C, D, E e F) são assepticamente coletados, inoculados em placas com meios de cultura convencionais e meios seletivos, incubados em estufa e avaliados periodicamente. As colônias isoladas passam, então, por testes de coloração, de triagem e por uma bateria de provas bioquímicas para identificação das bactérias. A confirmação dos agentes patogênicos é baseada nos testes acima, na comparação com amostras bacterianas de referência, além do uso de kits comerciais de diagnóstico. Dependendo do tipo de bactéria, o processo de isolamento e identificação pode levar cerca de 20 dias já que certos microorganismos são de crescimento lento e exigem meios especiais para se multiplicar, de modo que é preciso paciência para cultivá-los, fazer seu isolamento e identificação, até chegar ao diagnóstico definitivo.

Foto 4 – Coleta de amostras de lesões na pele (A); brânquias (B); rim (C); fígado (D); cérebro (E) e, necropsia (F)
Foto 4 – Coleta de amostras de lesões na pele (A); brânquias (B); rim (C); fígado (D); cérebro (E) e, necropsia (F)
Em aqüicultura prevenir é (mesmo!) melhor que remediar

Exames de saúde dos peixes são importantes não só na ocasião de surtos. Testes e exames preventivos são críticos para o controle e erradicação de doenças de animais aquáticos. Resultados de testes e exames são também importantes para atividades relacionadas à biossegurança, incluindo certificado de saúde, vigilância e programas de monitoramento de doenças, estudos epidemiológicos, identificação de doenças emergentes e respostas efetivas para emergências em saúde animal.

Embora se saiba da existência de doenças em nossas pisciculturas, não reconhecemos a importância da sanidade até depararmos com mortalidades. Certamente que todos nós produtores, técnicos e estudiosos reconhecemos a necessidade de manter patógenos longe das piscigranjas, mas, na prática, não temos avançado muito nas questões sanitárias da aqüicultura e várias doenças que vêm acometendo nossos peixes nunca chegam a ser diagnosticadas. Isto se dá, na maioria das vezes, devido à carência de técnicos habilitados para orientar produtores na área de ictiossanidade e também para realizar a amostragens adequadas de material para análises. Por outro lado, são poucos os laboratórios especializados em doenças infecciosas de peixes, uma situação que está se revertendo, com a atuação de duas universidades mineiras, UFLA e UFMG, que implantaram laboratórios especialmente dedicados ao diagnóstico de doenças infecciosas de peixes, ambos já em processo de credenciamento junto ao Ministério da Agricultura. O LIS – Laboratório de Ictiossanidade, integra o complexo laboratorial do LAQUA, um moderno laboratório de demonstração e pesquisa em produção comercial de peixes instalado na Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais. O LIS é responsável pelas pesquisas e assessoria na prevenção e diagnóstico de doenças de peixes para consumo ou ornamentais. O telefone do LIS é: (31) 3499-2126.