Brasil:

A hora e a vez da carcinicultura marinha 


A carcinicultura marinha, foi o ramo da aqüicultura que mais cresceu na última década, tendo sua participação na produção mundial de camarão, evoluído de 30.000 t. em 1980 (2,1 %) para 650.000 t. em 1990 (28%).

Dentre os países que mais se destacam na exploração dos seus recursos naturais através desta atividade, encontram-se a Indonésia e o Vietnã, ambos com 200.000 ha. de viveiros, a China com 150.000 ha., o Equador com 120.000 ha., a Índia com 70.000 ha., a Tailândia com 60.000 ha. e Taiwan com 5.000 ha..

No Continente Americano, além do Equador, destacam-se Honduras com 7.000 ha., México e Colômbia com 5.000 ha. e o Panamá com 4.000 ha..

O Brasil é um dos países do mundo que detém maior potencial para exploração da carcinicultura marinha. No entanto, a falta de uma política setorial de estímulos e incentivos, para atração de investimentos e tecnologia, contribuiu para que o país não se atrelasse ao amplo processo de desenvolvimento que a atividade de cultivo de camarão marinho apresentou a nível mundial.

Os carcinicultores brasileiros enfrentaram graves problemas, envolvendo desde a falta de definição de uma espécie apropriada às condições prevalecentes no Brasil, até as dificuldades para a importação de equipamentos e insumos, facilmente acessíveis aos demais produtores mundiais, afetando não só o estabelecimento de uma tecnologia própria, como também a consolidação da atividade de forma competitiva.

Tudo isso contribuiu para o amadurecimento do setor, que nos últimos anos vem libertando-se dos erros e indefinições do passado, onde erroneamente enfatizou-se a utilização da espécie Penaeus japonicus e algumas espécies nativas.

BRASIL

Atualmente existem no Brasil cerca de 2.500 ha. em operação e vários projetos em fase de implantação e análise pelos agentes financeiros. As condições climáticas altamente favoráveis, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, aliadas a uma invejável infra-estrutura básica, tais como, estradas asfaltadas, energia elétrica, comunicações, portos e aeroportos, colocam o Brasil em posição privilegiada para exploração e desenvolvimento da carcinicultura marinha. Assim, acreditamos que em face da eliminação das restrições à importação de insumos e equipamentos, aliado ao fato de que os principais países produtores se encontram em sérias dificuldades para a manutenção dos seus atuais níveis de produção, sem qualquer perspectiva de crescimento, o Brasil representa hoje, uma grande opção para investimentos nesta área. Especialmente quando se relaciona o destaque que se vem dando à qualidade dos produtos produzidos na aqüicultura e o fácil acesso, via aérea, desses produtos brasileiros para o importante mercado mundial de produtos in natura.

Desde 1990 a atividade tem passado por profundas transformações onde as indefinições e o amadorismo, que nortearam seu desenvolvimento, deram lugar a um profissionalismo, cujo planejamento e tecnologia assessoram com eficiência a mudança do sistema semi-extensivo para um sistema semi-intensivo. Graças a utilização de uma espécie com tecnologia conhecida como Penaeus vannamei, está se permitindo a superação dos problemas financeiros e já começa a prenunciar um futuro promissor para o setor.

Penaeus vannamei

Essas mudanças foram capitaneadas pela maior camaroneira do Brasil, a Maricultura da Bahia, que sempre investiu no desenvolvimento de tecnologia para a produção de P. vannamei, e que conta hoje com duas fazendas com área total de 755 ha. de viveiros, além de dois laboratórios com capacidade para 40 milhões de pós-larvas/mês e planta de processamento com capacidade para beneficiar até 10 t./dia.

Em 1992, a Maricultura da Bahia produziu mais de 1.300 t. e a projeção para 1993 é de 1.500 t.. Além disso, também na Bahia, a camaroneira Valença da Bahia, também cultiva a espécie P. vannamei com bastante sucesso. Sua produção de pós-larvas (8 milhões/mês) atende a outros pequenos projetos num sistema de parceria que envolverá também assistência técnica, fornecimento de ração, compra e processamento da produção. A Valença da Bahia possui 200 ha. de viveiros em operação, de um total de 350 ha. projetados e uma unidade de processamento, que será concluída no segundo semestre de 1993, com capacidade para beneficiar até 8 t./dia.

A disseminação da produção de pós-larvas e cultivo de P. vannamei já atinge todo o Nordeste do Brasil. O Rio Grande do Norte, além de pequenos e médios projetos de camarão marinho, conta com a Aquatec Ltda., laboratório comercial exclusivamente dedicado a produção e comercialização de pós-larvas de P. vannamei, cuja produção mensal é de 13 milhões de pós-larvas que se destinam principalmente aos projetos da Aquamaris (170 ha), Marine (120 ha) e a Camanor (80 ha).

A densidade média de estocagem nessas fazendas, é de ordem de 6-10 juvenis/m2, o que é bem superior à adotada para as espécies nativas (1-3 juvenis/m2).

Algumas empresas, notadamente nos estados do Ceará e Piauí, continuam empregando o sistema semi-extensivo utilizando as espécies Penaeus subtilis e Penaeus schmitti em baixa densidade e sem a utilização de ração balanceada, embora, em razão dos promissores resultados divulgados pelas empresas que utilizam P. vannamei, as mesmas já demonstrem interesse no sentido de acompanhar as mudanças já implementadas.

AERADORES DE PÁS

Como resultado dessa nova conjuntura da carcinicultura marinha no Brasil, tem se verificado novos investimentos, principalmente para as adequações ao sistema semi-intensivo. Alguns projetos, a exemplo da Marine S/A, já utilizam aeradores tipo paddle-wheel (aeradores de pás) em todos os seus viveiros (120 ha.), cuja densidade populacional está passando dos 6-8 ind./m2 para 15-20 ind./m2. Isso representará um incremento de 100% na produtividade, passando das atuais 2 t./ha./ano para 4-5 t./ha./ano.

RAÇÕES

A carcinicultura brasileira, que já contava com a participação de tradicionais produtoras de ração, ganhou uma nova opção. Recentemente foi inaugurada em Sergipe a SIBRA S/A, que conta com investimentos e tecnologia taiwanesa, cuja produção de rações será exclusivamente voltada para a aqüicultura.

A nova empresa representa uma importante contribuição à profissionalização da atividade, tanto pela qualidade de seu produto, como pelo fato de que certamente induzirá a uma salutar concorrência num setor vital para o sucesso dos cultivos.

Outros aspectos vem contribuindo para estimular novos investimentos no setor. Entre eles destacamos o apoio creditício, incentivos fiscais e a grande procura, por parte dos mercados europeu e americano, pelo camarão de viveiro produzido no Brasil. Encontra-se inclusive, em fase final de negociações o aporte de significativos investimentos internacionais, suficientes para colocar o nosso país definitivamente entre os maiores produtores de camarão marinho cultivado.

SIMPÓSIO

Atentos a essas mudanças, entendemos que o momento atual é extremamente favorável à realização de um evento técnico-científico que, além da promoção do intercâmbio tecnológico, vise principalmente divulgar o nosso potencial.

A realização do IV Simpósio Brasileiro Sobre Cultivo de Camarão e I Congresso Brasileiro de Aqüicultura, que ocorrerá de 22 a 27 de novembro em João Pessoa – PB, será uma rara oportunidade para que os diversos segmentos dessa atividade participem ativamente de forma a contribuir para o fortalecimento e consolidação da aqüicultura brasileira.

A programação do evento contará com a participação de renomadas autoridades e será realizada, paralelamente, uma importante Feira de Tecnologia e Produtos para Aqüicultura, cujo objetivo principal é possibilitar o acesso dos produtores brasileiros aos avanços tecnológicos divulgados em todo o mundo. Itamar de Paiva Rocha – MCR Aquacultura Ltda