Camarão de Água Doce: Contagem e transporte de pós-larvas

É comum ouvirmos reclamações dos compradores de pós-larvas, que receberam dos laboratórios, quantidades menores das que foram encomendadas e pagas, ou mesmo que as pós-larvas chegaram com um elevado índice de mortalidade nas sacolas de transporte. São questões importantes, pois mostram não só o desconhecimento de critérios e cuidados por parte de alguns dos responsáveis pelas larviculturas, como também a preocupação dos compradores somente com o melhor preço dos filhotes, em detrimento da qualidade destes. Atualmente, os laboratórios de produção de pós-larvas que operam no Brasil, utilizam basicamente três métodos de contagem:

1. Método por Comparação Visual

Determinado número de pós-larvas é contado, uma a uma, e transferido para um recipiente (balde ou bacia) com volume de água conhecido (amostra padrão). Outros recipientes iguais (formato e cor) devem estar preparados com o mesmo volume de água. Em cada um desses recipientes é colocado um número de PL’s que deverá ser igual ao da amostra padrão, comparando-se visualmente até que pareçam iguais entre si.

2. Método por Contagem Volumétrica

As PL’s a serem contadas são concentradas em recipiente com volume conhecido, e deste recipiente, após homogeneização adequada, são retiradas amostras de vo-lumes menores, conhecidos e iguais entre si. Cada amostra é então contada uma a uma, tirando-se depois a média das amostras. A partir da média, extrapola-se o número total de PL’s em função do volume total do recipiente de onde foram retiradas as amostras.

3. Método do Copo

É utilizado um recipiente (pode ser um pote de filme fotográfico), todo perfurado onde são colocadas as PL’s, até que se encha o pote. O excesso de água escorre pelos furos, permanecendo somente as PL’s dentro do pote. Desta maneira, retira-se pelo menos três amostras iguais do incubador a ser contado. As PL’s de cada uma das amostras são contadas uma a uma, tirando-se ao final a média das amostras.

Retira-se então as PL’s do tanque, passando-as pelo copo. Ao final, multiplica-se o total de copos retirados, pela média de PL’s das amostras, obtendo-se o total de PL’s do incubador.

Testes realizados em nosso laboratório mostraram que os métodos de contagem por comparação visual e pelo copo, apresentaram resultados muito próximos (diferença de 0,2%), enquanto o método volumétrico apresentou uma diferença de até 34% a mais, superestimando as contagens.

Esses resultados sugerem que a contagem pelo método volumétrico, aplicada por vários laboratórios particulares e governamentais, possa ser o responsável pelas reclamações de compradores que ocasionalmente conferem a quantidade de animais comprados. Isso pode explicar também os altos índices de sobrevivência e produtividade nos laboratórios e posteriores baixos rendimentos nos viveiros de engorda.

O método por comparação visual, por depender da exatidão das pessoas envolvidas no processo de contagem, e por apresentar maior possibilidade de falhas dos operadores, tem sido usado em nosso laboratório apenas para a contagem rápida de pequenas quantidades de PL’s. Por ouro lado, a contagem pelo método do copo vem nos mostrando ser o mais adequado e vem sendo utilizado rotineiramente em nosso laboratório, tanto para a comercialização a terceiros, como para o povoamento dos viveiros berçários da própria Fazenda. A partir da utilização corriqueira desse método, conseguimos obter melhores resultados nos viveiros berçários, além de não termos até hoje, recebido reclamações de compradores.

TRANSPORTE

Outro problema para os compradores de PL’s, diz respeito a alta mortalidade nas sacolas, quando do recebimento dos animais comprados. É praxe e rotina dos laboratórios no Brasil, embalar as PL’s em sacolas contendo água doce. No entanto, muitos desses laboratórios apresentam características de dureza e pH da água doce bem distintas das apresentadas na água salobra utilizada ao longo das larviculturas. Daí, em função de uma aclimatação deficiente para água doce, é comum ocorrerem mortalidades significativas de PL’s, ainda nos tanques de larvicultura e consequentemente nas sacolas de embarque.

A comercialização de PL’s de Macrobrachium rosenbergii, no Texas – EUA, é feita em sacolas com água em salinidade entre 2 a 6 % , com o objetivo de diminuir o estresse durante a viagem, além de manter baixos os níveis de amônia na água das sacolas. Realizamos testes em nosso laboratório para comprovar melhor estas informações. Foram comparadas três densidades de PL’s (2.000, 3.500 e 5.000 PL’s/sacola com 15 litros de água) em salinidades 0 e 3%, durante um período de 30 horas embaladas em condições de viagem (com sacudidas frequentes). Em água doce, os melhores resultados para o tempo estudado, foram com densidades de 2.000 e 3.500 PL’s/sacola, com sobrevivência em torno de 60%. Em água a 3 % de salinidade , o menor resultado foi obtido na densidade de 5.000 PL’s/sacola, com sobrevivência de 93% após 30 horas. Nas densidades de 2.000 e 3.500 PL’s/sacola, a sobrevivência foi em torno de 98% para o mesmo tempo de viagem.

Baseado nos resultados desses testes, passamos a adotar como rotina para as remessas de PL’s a terceiros, a embalagem dos animais em água com salinidade entre 2 e 3 %. Os compradores são avisados anteriormente e orientados com relação ao maior cuidado na aclimatação desses animais no povoameto dos viveiros. O manejo minucioso, sobretudo no que se refere a alimentação, a adoção da contagem pelo método do copo bem como a utilização de água com salinidade entre 2 e 3% na embalagem de PL’s, permitirão aos laboratórios não só a produção de pós-larvas com superior padrão de qualidade e saúde, como também atenderão plenamente os desejos dos produtores, principalmente aqueles mais distantes dos laboratórios produtores de PL’s.

Biólogo Marco Antonio de C. Mathias – Fazenda AGRIL (ES)