Camarões Marinhos e o Pequeno Investidor

Quando se fala em cultivo de camarões marinhos, em geral tomamos como referência investimentos na ordem de centenas de milhares de reais. Lembramos daquelas fazendas imensas, com produção verticalizada, que inclui laboratório, viveiros e frigorífico. Com isto em mente nos sentimos impossibilitados de atuar no setor, que fica restrito somente aos grandes investidores. No entanto, isto não precisa ser necessariamente assim.

Na maioria dos países onde a aqüicultura é forte, a atividade sempre envolve do micro ao mega produtor e este fator é que constitui a base da atividade, uma vez que dá suporte também à atividades afins, tais como suprimentos de equipamentos e insumos, serviços e formação de mão-de-obra, que complementam as deficiências individuais de cada criador. Assim, a atividade envolve cada vez mais pessoas, tornando-se forte econômica e politicamente, gerando um processo auto sustentado de desenvolvimento.

Atualmente a tecnologia permite a produção de mais de 1500 kg/ha/despesca em viveiros pequenos (menores que 2 ha), com aeradores artificiais, rações e pós-larvas de alta qualidade, já disponíveis no Brasil. No entanto, para alcançar este patamar são necessários investimentos superiores a R$ 30.000,00/ha, inacessíveis ao pequeno investidor.

O pequeno investidor deve buscar um modelo de evolução para a fazenda, com baixo custo inicial de construção e antecipação da produção, de modo a financiar as melhorias estruturais necessárias a melhoria do sistema de cultivo. Por exemplo, se seu projeto é para a construção de 5 viveiros de 2 ha, existe a alternativa de construir um viveiro de 10 ha e, com a produção ir subdividindo até atingir seu objetivo. Os custos de construção podem ser reduzidos para R$ 5.000,00/ha se forem tomados alguns cuidados a nível de planejamento:

1 Sempre consulte um técnico (ou mais) pois isto evita muitos erros. Elabore um bom projeto de construção.

2 – Na aquisição da área, procure locais sem restrições ambientais ou litígio de posse.

3 – Observe se a área tem energia elétrica por perto. Um quilômetro de energia trifásica pode custar mais de R$ 7.000,00, sem incluir o transformador.

4 – Para diminuir a terraplenagem, os diques podem ser construídos com volume reduzido de material, estreitando a crista para permitir o tráfego estritamente necessário. Para os diques periféricos dois metros de crista são suficientes para um micro-trator tipo Tobata e, para os diques divisores, um metro é suficiente para andar a pé. A borda livre pode ser de 0,5 m para os diques periféricos e de 0,3 m para os divisores.

5 – A terraplenagem pode até ser feita manualmente, a um custo que pode ser inferior a R$ 5,00 o metro linear, dependendo do terreno. O transporte de material de fora com caçambas é caro e necessita diques muitos largos para que possam trafegar.

6 – As bombas podem ser instaladas sobre um cais simples de madeira e o tubos adquiridos em ferro velho. Isto requer alguma manutenção, porém sai barato. A instalação completa de um conjunto moto-bomba a diesel, com motor MWM 4 cilindros usado, e capacidade de 230 l/s, suficiente para 10 hectares, sai por cerca de R$ 7.000,00. Se houver energia elétrica pode sair mais barato.

7 – O canal de distribuição de água pode ser pequeno, não reservatório, construído de concreto ou alvenaria, com adução para os viveiros feita com tubos de PVC e cotovelo móvel ou pequenas comportas.

8 – No Nordeste existem terrenos com antigos viveiros de maré para cultivo de peixes estuarinos, onde o cultivo pode começar quase de imediato, de forma extensiva, antecipando a produção. No Sudeste Asiático, centenas de hectares de viveiros assim estão sendo reformados para cultivo de camarões. Dependendo da situação da área, com menos de R$ 3.000,00 é possível iniciar a produção.

9 – Coloque sua área em produção o mais rápido possível, reinvestindo a receita, isto diminui a pressão sobre seu orçamento e inicia a formação de laços comerciais. Vender bem é tão importante quanto produzir. No caso do exemplo citado de 10 ha, é possível a produção de 100 kg/ha/despesca, 2,5 vezes ao ano, resultando em 2.500 kg de camarão, que podem ser vendidos ao preço médio de R$ 7,00, resultando em R$ 17.500,00, o que ajuda a fazer muita coisa.

10 – Não se sinta frustrado por não estar realizando de imediato o cultivo no nível que desejaria. Construir uma fazenda auto financiada pela produção, pode levar até cinco anos. Isto pode parecer muito tempo, mas não é. Vários grandes projetos levaram este tempo, ou até mais para começar a produzir.

A construção de uma fazenda de 40 ha no sistema de cultivo rotativo, pode sair por R$ 200.000,00, discriminados na tabela abaixo. O sistema rotativo envolve uma etapa pré berçário em tanques com aeração e três etapas sucessivas de engorda em viveiros de terra de 1,3 e 6 ha, onde a população é diluída a medida que o camarão cresce, resultando em melhor aproveitamento da área e da alimentação.

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O pequeno investidor pode começar seu cultivo de camarões marinhos com capital inicial muito pequeno, até menor que R$ 20.000,00. Atualmente, com a retomada do desenvolvimento do setor, já se pode contar com o fornecimento de pós-larvas, rações e equipamentos no mercado nacional, havendo inclusive tendência de redução de preços e melhora da qualidade devido a crescente competição entre os fornecedores. Ao contrário do camarão de água doce, o mercado é certo pois o produto é conhecido, de consumo disseminado, e pode ser vendido fresco sem processamento. Existem variações de preços sazonais (verão, inverno e defeso), o que é mais uma vantagem para o aqüicultor, que pode programar sua produção de acordo.