Camarões Marinhos Fundamaentos da Engorda em Cativeiro

Alberto J.P. Nunes, Ph.D.
Agribrands Purina do Brasil
Gerente Técnico – Aqüicultura
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A criação de camarões marinhos em cativeiro está cada vez ganhando mais popularidade no Brasil. A atividade que começou de uma forma tímida e incipiente nos anos 80 na Região Nordeste, hoje apresenta-se estabelecida em escala industrial em vários estados litorâneos do Brasil, desde a Região Sul ao Norte do país. Práticas de cultivo aparentemente simples, mas sofisticadas do ponto de vista técnico e ambiental, foram desenvolvidas e aprimoradas pelos carcinicultores brasileiros. Essas inovações na indústria permitiram posicionar o Brasil como líder mundial em produtividade de camarão, incluindo o país no ranking dos 10 maiores produtores de camarão cultivado do mundo. Atualmente muitos planejam investir em um empreendimento de carcinicultura marinha, mas se deparam com a carência de informações básicas, atualizadas e confiáveis, sobre os processos de produção desta atividade. Este artigo resume alguns dos princípios e mais recentes técnicas de engorda de camarões empregadas no Brasil.

Grande parte das fazendas de camarão marinho são localizadas em regiões próximas a estuários visando facilitar a captação de uma água de altíssima qualidade biológica, livre de poluentes e rica em microorganismos aquáticos. Contudo, outras áreas costeiras e áreas interiores com a disponibilidade de águas oceânica (proveniente diretamente do mar; Fig. 1) ou oligohalina (de baixa salinidade) podem também ser empregadas. As áreas estuarinas são geralmente colonizadas por vegetação de mangue. Os mangues servem de indicativo dos limites da zona de influência de água salgada sobre o terreno a ser utilizado no cultivo, ou seja, delimita o que pode ser aproveitado para a construção de viveiros. Os terrenos de salgado ou vasas lodosas, cobertas por apicum, como também salinas desativadas (Fig. 2) e antigos viveiros de marés utilizados no cultivo extensivo de peixes estuarinos, demonstram grande potencial para uso na carcinicultura. Esses ambientes apresentam-se muitas vezes sem qualquer cobertura vegetal ou apenas com uma pequena vegetação rasteira. A construção de viveiros de engorda para camarões marinhos em locais de difícil acesso deve ser evitada. É preferível locais distantes de grandes centros urbanos ou indústrias devido ao elevado risco com poluição hídrica de natureza industrial e (ou) doméstica. Preferivelmente, escolha uma área próxima a rodovias e linhas de transmissão de força elétrica com fácil disponibilidade de materiais básicos para construção, como argila, areia, pedra e piçarra. Não devem ser adquiridas áreas em conflito com comunidades locais ou com outras atividades produtivas. O terreno para construção dos viveiros deve ser livre de rochas e outras estruturas de difícil remoção como árvores ou vegetação protegida pela legislação brasileira. O terreno escolhido deve possuir inclinação apenas para proporcionar condições de um total esvaziamento de água dos viveiros. O solo deve apresentar uma textura composta de uma mistura de silte, argila e areia com um pH próximo a 7, não contendo mais de 10% de matéria orgânica. A água deve estar disponível ao longo de todo ano em uma quantidade suficiente para o enchimento dos viveiros e reposição das perdas ocasionadas por infiltração e (ou) evaporação.

Fig. 2. Área de salina desativada, propícia para construção de uma fazenda de engorda de camarões marinhos.
Fig. 2. Área de salina desativada, propícia para construção de uma fazenda de engorda de camarões marinhos.
Fig. 3. Casa de bombas, onde ocorre a captação de água para abastecimento dos viveiros de produção.
Fig. 3. Casa de bombas, onde ocorre a captação de água para abastecimento dos viveiros de produção.
Fig. 4. Funcionários devidamente uniformizados em uma despesca de camarões.
Fig. 4. Funcionários devidamente uniformizados em uma despesca de camarões.


Construção da Fazenda

Os custos relacionados a construção de uma fazenda de cultivo de camarão marinho são elevados. No Brasil, a construção de 1 ha de área pode exceder US$10 mil, dependendo da textura do solo, topografia do terreno e do sistema de cultivo a ser adotado. É possível implementar o projeto em módulos, de forma gradativa conforme a disponibilidade e entrada de capital.

As instalações de uma fazenda de camarões incluem áreas destinadas ao armazenamento de insumos e equipamentos, como também escritório, refeitório e dormitórios. A infra-estrutura relacionada a produção de camarão é constituída basicamente das unidades de berçário e engorda. Associadas a estas, existem inúmeras outras instalações, como casa de bombas (Fig. 3) e sistemas de adução e drenagem de água. As instalações de engorda de camarões no Brasil são diversificadas, refletindo a evolução dos projetos de engenharia e leiautes ao longo dos anos e os vários níveis de intensificação encontrados na atividade. As primeiras fazendas de cultivo no país operavam em condições de baixa densidade de camarões, utilizando viveiros rasos (< 1,0m) com uma lâmina d’água muitas vezes excedendo os 15 ha. Hoje, os novos projetos são desenvolvidos para operar sob condições intensivas com o uso de aeradores mecânicos, exigindo viveiros com áreas mais manejáveis (< 2,0ha) e com profundidades mais elevadas, próximas a 1,5 m.

Independente do nível de intensificação, os viveiros empregados no país são escavados em terra, possuem uma configuração retangular ou seguem a conformação do terreno para otimizar o uso da área útil. Os diques são construídos em grande parte com o material proveniente da própria escavação dos viveiros e cobertos por uma proteção vegetal ou enroncados com lonas e pedras.

Organização da Unidade Produtiva

É importante que se estabeleça um organograma da empresa antes do início de suas atividades. Isto é particularmente importante em sociedades, onde pode haver conflito de interesses e opiniões gerando um clima de instabilidade e discórdia na empresa. Uma fazenda de camarões tem inúmeras áreas de atuação, e mesmo em fazendas de pequeno porte, as decisões e atividades são variadas. Uma fazenda semi-intensiva de 20 ha pode alcançar uma produção anual de 150 ton. de camarão, representando uma receita superior a US$500 mil por ano.

A estrutura organizacional da empresa varia conforme suas necessidades e dimensões. É indispensável que a fazenda conte com um Gerente Comercial ou Administrativo e um Gerente de Produção. Estes indivíduos deverão possuir metas e orçamentos a serem alcançados, previamente discutidos e estabelecidos. O Gerente Administrativo é o responsável por toda área contábil e financeira da empresa, como fluxo de caixa, investimentos, salários, além da compra de equipamentos, insumos, programação de vendas e comercialização do produto final. O Gerente de Produção é o indivíduo que fica a cargo das decisões técnicas do empreendimento, desde o desenvolvimento de cronogramas de povoamento e despesca até a definição das estratégias de cultivo que deverão ser seguidas. Este gerente deve possuir conhecimento e experiência técnica necessária para exercer suas tarefas de forma eficiente.

A empresa deverá contar também com uma equipe de funcionários fixos. Esta é em sua grande maioria, mão-de-obra local não especializada com baixo nível de escolaridade que deverá receber treinamento adequado na sua área de atuação. É importante priorizar a contratação de mão-de-obra local a fim de estabelecer uma boa relação com a comunidade circunvizinha. Dentro do possível, recomenda-se que a fazenda se envolva ou promova atividades comunitárias, contribuindo para melhorar as condições locais de saúde, educação e moradia da região. Um bom relacionamento com a comunidade deve ter inicio já nas fases de implantação do projeto através de reuniões para troca de informações, discussões e socialização. Isto permite atenuar conflitos sociais que porventura possam surgir.

Em fazendas de camarão é importante que se estabeleça prêmios ou bônus financeiros para os funcionários envolvidos com a produção objetivando incentivar a melhoria dos resultados. Isto pode ser feito fixando metas, como produtividades de camarão e conversões alimentares a serem alcançadas. A fazenda deve também fornecer condições adequadas de trabalho, desenvolvendo procedimentos emergenciais para lidar com casos de doenças e (ou) acidentes no trabalho. As normas de segurança e as expectativas da empresa quanto ao desempenho de cada setor do empreendimento deve ficar claro para todos os funcionários (Fig. 4).

Fig. 5. Pós-larvas prontas para o povoamento em viveiros de engorda.
Fig. 5. Pós-larvas prontas para o povoamento em viveiros de engorda.
Fig. 6. Berçários com formatos retangular e circular.
Fig. 6. Berçários com formatos retangular e circular.
Fig. 7. Submarinos, desenvolvidos especificamente para o transporte de pós-larvas de camarões.
Fig. 7. Submarinos, desenvolvidos especificamente para o transporte de pós-larvas de camarões.

Operacionalização

Existem inúmeros insumos e equipamentos necessários para iniciar uma engorda de camarões. Os equipamentos de elevado valor agregado como veículos, motores, bombas, geradores e transformadores de alta tensão são essenciais para o funcionamento de uma fazenda. Outros, como aeradores mecânicos, são dispensáveis sob determinadas condições de cultivo. Contudo são hoje amplamente utilizados para uma diversidade de situações e portanto devem ser inclusos na concepção do projeto. Itens simples comoredes de tarrafa e despesca, até itens mais sofisticados como equipamentos para o monitoramento dos parâmetros ambientais (refratômetro, pHmetro, oxímetro) são também essenciais. Estes últimos auxiliam nos processos decisórios diretamente associados ao manejo e portanto requerem um alto grau de precisão e resistência ao uso diário.

Da mesma forma que os investimentos iniciais, os custos para operar uma fazenda de camarão são também elevados, podendo exceder US$1,5 mil por ton. de camarão produzido. A utilização de recursos como ração, eletricidade, pós-larvas, adubos, corretivos agrícolas, etc., varia proporcionalmente com o nível de intensificação que a fazenda irá adotar. Rações e pós-larvas são considerados os insumos mais importantes, pois influenciam fortemente tanto nos resultados zootécnicos e financeiros da fazenda como também nos seus custos operacionais. Juntos este itens podem representar mais da metade dos gastos para operação de uma fazenda de cultivo de camarões.

Atualmente existem mais de 17 larviculturas em operação no Brasil com uma produção mensal excedendo os 600 milhões de pós-larvas. Os preços das pós-larvas têm uma relação com a qualidade genética dos animais, o volume adquirido pelo cliente, a demanda no mercado e os insumos empregados no cultivo, na sua maioria importados. As larvas são vendidas por milheiro (mil larvas) e comercializadas nas fases de PL10 ou PL11 (pós-larva com 10 a 11 dias de vida) a um valor médio por volta de US$3.5 (Fig. 5).

Manejo

As práticas de manejo empregadas na carcinicultura variam ligeiramente entre fazendas. As técnicas aqui apresentadas são em grande parte generalizadas e baseiam-se em procedimentos de produção considerados atualmente os mais eficazes do ponto de vista zootécnico, ambiental e econômico.

Fase de Berçário:

A fase de berçário representa a primeira etapa da engorda. É nos berçários que os camarões são aclimatados as condições ambientais da fazenda (Fig. 6). Se bem conduzida, esta fase permite no final de 10 a 20 dias, a obtenção de sobrevivências superiores a 90%. Os tanques berçários intensivos devem ser preparados pelo menos 5 dias antes do recebimento das pós-larvas. Esta preparação consiste basicamente na limpeza, desinfecção e enchimento do tanque, seguido da fertilização da água de cultivo.O enchimento do tanque é realizado com a água proveniente dos canais de abastecimento dos viveiros de engorda. Toda água de abastecimento deve passar por uma manga de filtração feita com uma malha de 300 micras, fixada na torneira do cano de entrada de água do tanque.

O enchimento deve ser realizado gradativamente, em combinação com o processo de fertilização química da água, utilizando para isto superfosfato triplo ou monofosfato de amônio a uma proporção de 4,0 e 0,4g/m3, respectivamente. Uma vez adquiridas, as pós-larvas podem ser recebidas na própria fazenda ou diretamente na larvicultura. Este último é preferível, pois permite que o produtor acompanhe as provas de qualidade dos animais no momento da venda, além dos processos de contagem, acondicionamento e embarque. Os testes de estresse visam fornecer apenas um critério subjetivo da qualidade das pós-larvas e devem ser feitos em combinação com avaliações da aparência morfológica e comportamental dos indivíduos. As pós-larvas são geralmente transportadas para fazenda por via aérea ou terrestre, em sacos de polietileno duplo com capacidade de 15 L, estocadas a uma densidade de até 1000 animais/L. Os sacos são acondicionados em embalagens de isopor para evitar aumento excessivo na temperatura da água de transporte. Pode também ser empregadas bombonas ou outras formas de containers, alguns destes desenvolvidos especificamente para o transporte de camarões (Fig. 7).

Na fazenda, as pós-larvas são submetidas a aclimatação, um procedimento para garantir índices de sobrevivência elevados após o povoamento dos camarões nos tanques berçários. A aclimatação consiste na mistura gradual e contínua da água de cultivo com a água de transporte das pós-larvas, até que as mesmas tenham se ajustado às condições da água do berçário. Basicamente são ajustados a salinidade, a temperatura e o pH da água. O período de aclimatação está relacionado com o tamanho e qualidade das pós-larvas e às diferenças de temperatura e salinidade da água. Pós-larvas maiores requerem menos tempo de aclimatação do que PL’s menores. De uma forma geral, a salinidade deve ser ajustada de 2 a 3 ppt por hora, a temperatura a uma razão de 1ºC por hora e o pH a 0,3 unidades por hora. Após serem aclimatadas, as pós-larvas devem ser sifonadas diretamente para o berçário a uma densidade de estocagem variando de 15 a 30 mil PL/m3.

A manutenção de uma boa condição nutricional das pós-larvas na fase de berçário é crítica para garantir elevados índices de performance na engorda. Das fases de PL7 a PL25, as pós-larvas devem ser alimentadas com uma ração apresentada na forma de pequenas partículas desintegradas contendo 40% de proteína bruta. O alimento deve ser distribuído por meio de lanços uniformes sobre toda área cultivada por períodos de 24hrs, em intervalos contínuos de 2hrs, ofertada de forma exclusiva ou em combinação com biomassa de Artemia. Nas alimentações com Artemia e ração, o arraçoamento deve ser realizado em intervalos contínuos de 2hrs de forma alternada (Artemia seguido de ração ou vice-versa). Após um período de cultivo entre 10 e 20 dias nos tanques berçários, as pós-larvas estão aptas para início da etapa de engorda em viveiros escavados. Neste ponto, os animais são removidos dos tanques através de um sistema de drenagem, o qual permite a concentração e captura dos animais (Fig. 8). As pós-larvas são transferidas para os viveiros em bombonas possuindo aeração constante, acondicionados a uma densidade de até 500 animais/L.

Fig. 8. Despesca de pós-larvas de um berçário através de sinfonamento.
Fig. 8. Despesca de pós-larvas de um berçário através de sinfonamento.

Etapa de Engorda

A fazenda deve ter um planejamento de forma a permitir uma perfeita sincronização entre as datas de recebimento de pós-larvas e de preparação dos viveiros para o início da engorda. Isto visa reduzir períodos de ociosidade dos viveiros de produção, aumentando a rotatividade dos ciclos e a produtividade anual do empreendimento. A preparação dos viveiros compreende a realização de uma série de processos entre os ciclos de produção que objetivam fornecer condições ambientais e estruturais para o povoamento de camarões e o início da engorda.

A preparação do viveiro deve começar logo após o último ciclo de engorda com a drenagem total da água de cultivo. Visando a eliminação de poças d’água e a completa secagem do solo, o viveiro é exposto ao ar e sol até ser capaz de suportar o peso de um homem sem afundar. Para auxiliar na eliminação de ovos e larvas de organismos indesejáveis é aplicado cloro (hipoclorito de cálcio) em poças d’água, diluindo o produto na proporção de 900g para cada 10L d’água. Deve ser também realizada uma coleta manual de camarões, siris peixes, caranguejos ou outros organismos que porventura tenham sobrevivido ao esvaziamento do viveiro.

As comportas de adução e drenagem, juntamente com suas respectivas telas e tábuas devem ser limpas por completo, removendo cracas e outros organismos. As tábuas devem ser fixadas e vedadas nas comportas de saída d’água. Antes do enchimento do viveiro e durante os primeiros 30 dias de cultivo, 2 jogos de telas com malhas de 1000 e 500 micras devem ser fixadas seqüencialmente na comporta de abastecimento do viveiro. O manejo da abertura das telas está diretamente relacionado com o crescimento dos camarões ao longo do ciclo. Ou seja, telas com malhas maiores entre 1 e 5mm devem ser utilizadas na medida em que os camarões atingem pesos corporais mais elevados. As telas necessitam ser escovadas a cada bombeamento para evitar o entupimento e rompimento das malhas.

O solo deverá ser analisado quanto ao seu nível de acidez ou pH. A calagem ou neutralização da acidez é necessária em solos que apresentam um pH abaixo de 5,0 unidades ou uma alcalinidade inferior a 100mg/L de CaCO3. Para se obter uma média representativa da condição do solo, o viveiro é mapeado para coleta de amostras de pontos eqüidistantes. Cada amostra deverá ser analisada utilizando-se um pHmetro. Com os resultados obtidos, calcula-se uma média para determinar a necessidade de calagem, e neste caso, a quantidade de produto a ser aplicado para neutralizar a acidez do solo.

Uma vez concluídos os processos acima, o viveiro deverá apresentar condições para o enchimento e fertilização. Viveiros com uma transparência da água superior a 40cm ou com uma contagem de diatomáceas inferior a 30 mil células/mL, geralmente necessitam de fertilização. Para início da fertilização, o viveiro deve ser parcialmente cheio, com cerca de 30cm de lâmina d’água. Os fertilizantes químicos devem ser aplicados em combinação a fim de alcançar um equilíbrio entre os nutrientes necessários. A uréia pode ser suplementada com monofosfato de amônia (MAP) ou superfosfato triplo (SPT) utilizando uma dosagem de 40 e 4-10 kg/ha, respectivamente, para se alcançar uma transparência d’água entre 30 e 40 cm. Em águas com baixas concentrações de sílica, convém aplicar silicato de sódio (10 kg/ha) a fim de estimular o crescimento de diatomáceas.

Os camarões são povoados nos viveiros de engorda geralmente com uma idade superior a PL20 (pós-larva com 20 dias de idade) e um peso corporal inferior a 0,5 g. O povoamento dos camarões pode ser iniciado logo após a constatação de níveis favoráveis de oxigênio dissolvido, salinidade, pH e transparência. A quantidade total de camarões a ser povoado no viveiro irá variar conforme as densidades de estocagem desejadas. Densidades de estocagem superiores a 400 mil pós-larvas/ha ou 40 camarões/m2 só são recomendadas com o uso de aeração suplementar.

Nos primeiros 20 a 30 dias de engorda no viveiro deve ser continuada a alimentação com uma ração com 40% de proteína, mas com partículas de maior diâmetro. Neste período, a ração é distribuída no perímetro do viveiro por meio de lanços manuais conduzidos dos taludes ou nas áreas mais afastadas com o auxílio de caiaques. A ração é ministrada diariamente em duas ou mais refeições em quantidades que variam conforme o consumo alimentar. A partir do 2° mês de cultivo, o arraçoamento passa a ser exclusivo em bandejas de alimentação. Durante esta etapa, são alocadas mais bandejas obedecendo proporcionalmente as densidades de estocagem de camarão (i.e., 1 bandeja/ha para cada 100 mil camarões/ha). Em situações mais intensivas de engorda, ou seja, com o incremento no número de camarões por área cultivada, a freqüência de arraçoamento é aumentada de 3 para 4 ou mais vezes/dia. Em condições normais (30 bandejas/ha), leva-se cerca de 2hrs para um homem realizar todo arraçoamento em um viveiro de 8ha com um total de 240 bandejas.

No 2º mês inicia-se a alimentação com rações peletizadas com uma granulometria variando entre 2,0 e 2,5mm de diâmetro, contendo entre 30% e 35% de proteína bruta. A distribuição da ração, a coleta das sobras e o monitoramento do consumo é realizado por meio de caiaques de fibra de vidro, movidos a remo (Fig. 9). Para uma rápida medição da quantidade de ração a ser administra da em cada bandeja são utilizados recipientes de diferentes volumes, geralmente confeccionados de canos de PVC. Toda ração não consumida dentro de um período de 4hrs deve ser coletada e devidamente descartada, em função da perda de estabilidade e palatabilidade do produto, além de uma diminuição de suas propriedades nutricionais.


Fig. 9. Processo de alimentação em bandejas por meio de caiaques.

Em sistemas intensivos e sob condições normais de qualidade de água, os aeradores só se tornam indispensáveis a partir do 2º mês de engorda. A partir deste ponto, o consumo de oxigênio dissolvido aumenta em resposta a maior biomassa de camarões estocada e as taxas de alimentação mais elevadas. Os aeradores são utilizados a níveis que variam entre 2 e 6 cv/ha. Em situações de até 60 animais/m2, por exemplo, são necessários de 4 a 6 cv/ha para garantir um fornecimento adequado de oxigênio, proporcionado produtividades mais elevadas de camarão. Os aeradores devem ser ligados principalmente em dias nublados ou chuvosos e durante os períodos noturnos, quando diminuem ou cessam os processos naturais de oxigenação da água através da fotossíntese. Em horários muito quentes, os aeradores devem também ser ligados para reduzir possíveis condições de estratificação térmica da água. Independente da situação, a medição do oxigênio dissolvido da água é o que determina a necessidade ou não do funcionamento dos aeradores.

Monitoramento do Cultivo

O cultivo deve ser monitorado em todos os aspectos, desde aqueles relacionados a segurança até os associados com o desempenho zootécnico dos camarões e das condições ambientais do cultivo. A segurança do cultivo deverá ser intensa ao longo de todo ciclo, mas em particular durante os períodos noturnos e nas fases mais avançadas da engorda devido a sua vulnerabilidade.

A fazenda deve estabelecer um rígido programa de monitoramento dos parâmetros ambientais e zootécnicos do cultivo. Diariamente, o oxigênio dissolvido, a salinidade, a temperatura e o pH da água devem ser analisados três vezes às 06:00, 14:00 e 24:00hrs. A transparência da água é verificada uma vez por dia, às 14:00hrs, por meio de um disco de Secchi. As determinações relacionadas a densidade e identificação de microalgas podem ser conduzidas semanalmente.

Simultaneamente, deverão ser conduzidas biometrias semanais. As biometrias têm como objetivo determinar as condições de saúde, crescimento e sobrevivência da população cultivada. Os camarões devem ser capturados com uma rede de tarrafa no centro do viveiro e próximo aos taludes (Fig. 10) para pesagem e análise visual (muda, cor, odor, presença de enfermidades ou necroses). Todos os resultados e observações coletadas devem ser tabuladas, analisadas e posteriormente armazenadas em um banco de dados. Este último procedimento torna-se importante quando no surgimento de problemas de ordem técnica ou ambiental. Isto também permite ao produtor conhecer melhor as características de cada unidade de engorda, além de projetar os padrões anuais de oscilação ambiental associados ao desempenho dos cultivos.

Despesca

Os camarões de cultivo são em grande parte despescados para comercialização dentro de no máximo 120 dias de engorda, quando atingem um peso médio de 12g. Contudo, o momento adequado para realizar a despesca é às vezes um tanto imprevisível. Em algumas situações é mais vantajoso prolongar a engorda (Fig. 11) para se alcançar preços mais atrativos no mercado, mesmo que isto acarrete custos operacionais mais elevados e uma menor rotatividade dos cultivos. O produtor deve sempre ficar atento as flutuações no preço do camarão nos mercados doméstico e internacional, como também as tendências de consumo ao longo do ano, visando maximizar seus ganhos na comercialização. Alguns critérios a serem obedecidos podem ser observados no box abaixo.

Critérios a serem obedecidos durante a despesca:

1. Realizar a despesca durante a noite (Fig. 12). As temperaturas mais amenas contribuem para uma melhor qualidade dos camarões. Durante o dia, os camarões podem apresentar um comportamento de enterramento, o que dificulta e estende o tempo de despesca.
2. Precedendo a despesca, realizar biometria para constatar o peso médio da população e a condição geral dos indivíduos. A aparência da cauda e da carapaça (ocorrência ou não de muda e necroses) são fatores decisivos para definir se os animais estão aptos a comercialização.
3. Interromper o arraçoamento com dois dias de antecedência da despesca. Estômago muito cheio pode acelerar o processo de degradação enzimática, ocasionando escurecimento do cefalotórax ou cabeça dos camarões, uma característica indesejável no mercado.
4. Com um ou mais dias de antecedência, iniciar a redução gradativa do volume de água do viveiro. Isto reduz a intensidade do fluxo de água nas comportas no momento da despesca, o que pode desencadear muda generalizada na população. A remoção efetiva dos camarões só deve começar quando o viveiro apresentar menos de 1/3 do seu volume.
5. Preparar as comportas para despesca removendo as cracas e ostras, a fim de evitar danos nas malhas ou acarretar acidentes de trabalho. Fixar a rede bag-net no canal de drenagem somente após este procedimento.
6. Adquirir gelo triturado em quantidade suficiente. Em geral, durante a despesca são empregados de 2 a 3kg de gelo por kg de camarão destinados ao processo de resfriamento e acondicionamento do produto.
7. Quando a despesca se prolonga por longos períodos é necessário monitorar as concentrações de oxigênio dissolvido e temperatura da água e em alguns casos, recompor parcialmente o volume de água do viveiro.

Fig. 10. Captura de camarões com rede de tarrafa para realização de biometria.
Fig. 10. Captura de camarões com rede de tarrafa para realização de biometria.

Fig. 11. Camarões com 15 g de um cultivo intensivo despescados em 150 dias de engorda.
Fig. 11. Camarões com 15 g de um cultivo intensivo despescados em 150 dias de engorda.
Fig. 12. Despesca noturna de camarões de um viveiro de engorda.
Fig. 12. Despesca noturna de camarões de um viveiro de engorda.
Fig. 13 Beneficamento de camarões em uma planta de processamento.
Fig. 13 Beneficamento de camarões em uma planta de processamento.
Fig. 14. Produto de valor agregado, destinado ao mercado japonês.
Fig. 14. Produto de valor agregado, destinado ao mercado japonês.


Contudo, o momento adequado para realizar a despesca é às vezes um tanto imprevisível. Em algumas situações é mais vantajoso prolongar a engorda (Fig. 11) para se alcançar preços mais atrativos no mercado, mesmo que isto acarrete custos operacionais mais elevados e uma menor rotatividade dos cultivos. O produtor deve sempre ficar atento as flutuações no preço do camarão nos mercados doméstico e internacional, como também as tendências de consumo ao longo do ano, visando maximizar seus ganhos na comercialização. Alguns critérios a serem obedecidos podem ser observados no box acima.

Beneficiamento

O beneficiamento de camarões marinhos consiste basicamente da limpeza do produto, eliminação de camarões fora dos padrões de qualidade, além da classificação de tamanhos, resfriamento, elaborações ou tratamentos adicionais ao produto, determinação do peso final, empacotamento e congelamento. Todo camarão despescado, incluindo o comercializado in natura, deve passar por um processo de beneficiamento, seja este primário ou integral.

O beneficiamento primário é aquele realizado durante a despesca, envolvendo a limpeza, resfriamento e acondicionamento do produto final em caixas isotérmicas. Neste caso, uma vez removidos do viveiro, os camarões são manualmente separados de corpos estranhos (pequenas pedras e gravetos) e de outros animais (peixes e siris), sacrificados por meio de choque térmico e acomodados em camadas alternadas de gelo e camarão em caixas isotérmicas. Nestas condições, o produto apresenta-se pronto para posterior beneficiamento ou comercialização no mercado interno na forma in natura.

O beneficiamento integral é realizado em camarões destinados ao mercado externo. Este beneficiamento deverá ser realizado por uma unidade credenciada pelo Ministério da Agricultura, que obedeça a um sistema de controle de qualidade denominado HACCP (“Harzard Analysis Critical Control Point”, em português Análise dos Riscos e Controle dos Pontos Críticos). A adoção aos critérios de qualidade do sistema HACCP é uma exigência dos mercados internacionais e requer em suma, a implementação de princípios que objetivam prevenir ou eliminar condições de risco durante a despesca e o processamento dos camarões.

Uma vez despescados, os camarões devem ser imediatamente encaminhados para a unidade de beneficiamento onde serão lavados, classificados por tamanho e pesados (Fig. 13). Esta classificação obedece a padrões internacionais, no qual o tamanho individual do camarão é expresso em número por libra (lb) ou kg. Os camarões comercializados com cabeça são classificados em número de peças por kg, enquanto os camarões sem cabeça são classificados em número de caudas por lb (453 g = 1 lb).

Os camarões classificados são embalados em caixas de papelão revestidas de filme plástico devidamente rotulada, submetida a um congelamento sob uma temperatura de -30ºC por um período de até 6 hrs em armários de placa ou em um túnel de congelamento. Estas caixas são acondicionadas em caixas master box e estocadas em câmaras frigoríficas sob uma temperatura de -20ºC até sua posterior comercialização (Fig. 14).