Carcinicultura Brasileira: O Censo de 2003

A ABCC – Associação Brasileira de Criadores de Camarões , por intermédio de seu presidente, Itamar de Paiva Rocha e de seus colaboradores, Josemar Rodrigues e Luciano Leite, acaba de divulgar o censo 2003 para a carcinicultura brasileira. Este censo teve como principais objetivos, dimensionar: a infra-estrutura das fazendas com seus níveis de produção e produtividade, a capacidade instalada dos laboratórios e oferta de pós-larvas, além da capacidade de processamento e beneficiamento do camarão para o mercado internacional.

Visando reduzir as margens de erro e apresentando dados mais próximos da realidade do campo, pela primeira vez o censo da carcinicultura contou com a participação das associações estaduais de criadores de camarão. Além de revelar dados quantitativos do cultivo de camarão, que refletem seu crescimento no Brasil e em cada Unidade Federativa, este censo levantou e analisou alguns elementos qualitativos que, também pela primeira vez, mostram o avanço da carcinicultura brasileira em termos tecnológicos.

Produção Mundial e a Participação Brasileira no ano de 2003

Em 2003, a produção mundial do camarão cultivado em mais de 50 países emergentes, chegou a 1.630.000 toneladas, ou seja, 35,2% do total de camarões produzidos em todo o mundo, cujo volume anual considerando captura e cultivo foi de 4.630.000 toneladas. Estes números reforçam o fato de que o camarão proveniente da pesca extrativa, continua sendo o principal responsável pela oferta global deste produto (64,8%).
O hemisfério oriental é responsável pela maior parte da produção mundial de camarões cultivados, com 1.359.000 toneladas produzidas em 2003, correspondentes a 83,4% do total mundial, sendo os países do sudoeste asiático como China, Tailândia, Vietnã, Indonésia, Índia, Bangladesh e Malásia, os mais importantes produtores.

Com relação ao hemisfério ocidental, a produção de 2003 atingiu 271.000 toneladas, cerca de 16,6% do total mundial. Fechando o ano de 2003 com uma produção de 90.190 toneladas e superando países como Equador e o México, que, tradicionalmente ocupavam o primeiro e o segundo lugar, respectivamente, o Brasil consolidou a sua posição de líder deste hemisfério e como o sexto maior produtor de camarões cultivados do mundo. A Tabela 1, apresenta a posição do Brasil, na qual pode-se observar a eficiência da produção brasileira em comparação com os principais países produtores.

Resultados do Censo da Carcinicultura de 2003

Os principais dados levantados no censo da carcinicultura de 2003 e sua relação com o ano anterior, podem ser observados na Tabela 2, onde fica evidenciado um crescimento moderado da carcinicultura brasileira em termos de área produtiva e número de produtores, uma tendência que tem sido registrada nos últimos anos.A produção de 90.190 toneladas em 2003, demonstra um crescimento de 50% da produção brasileira de camarões, em comparação ao ano anterior. A produtividade média de 6.084 kg/ha/ano, situa o Brasil na liderança mundial em produtividade. Este valor continua crescendo através dos anos, ainda que em menor ritmo.

Tabela 2 – Principais Resultados de 2003 em Comparação com o Ano de 2002
Tabela 2 – Principais Resultados de 2003 em Comparação com o Ano de 2002

Na tabela 3, pode-se observar detalhadamente os níveis de produção e de eficiência produtiva em cada uma das Unidades Federativas. O Estado do Rio Grande do Norte lidera o ranking brasileiro com 37.473 toneladas e uma produtividade média de 6.937 kg/ha/ano, superior em cerca de 14% à média nacional (6.084 kg/ha/ano), seguido pelos estados do Ceará e Bahia.

A análise dos níveis de produtividade aponta o Estado de Alagoas, com apenas duas fazendas, com os melhores resultados (8.667 kg/ha/ano), seguido pelo Paraná (7.959 kg/ha/ano) com um único produtor, e pelo Ceará (7.676 kg/ha/ano) com 185 fazendas. O desempenho dos demais estados produtores, mostra, de acordo com os responsáveis pelo censo 2003, que existe ainda um amplo espaço para o crescimento da produção brasileira.

Tabela 3 – Quadro Geral da Carcinicultura Marinha por Estado em 2003 - FONTE: Censo ABCC 2003

Tabela 3 – Quadro Geral da Carcinicultura Marinha por Estado em 2003 – FONTE: Censo ABCC 2003Na tabela 4, pode ser observado o desdobramento desses números pelas Unidades Federativas, adicionando-se a classificação dos produtores, em função do tamanho de suas unidades de produção.
Observa-se que o Estado do Rio Grande do Norte lidera em número de produtores, área de viveiros e volume produzido, seguido pelo Ceará. Posteriormente, por ordem de importância produtiva, aparecem os estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Piauí e Santa Catarina.

O pequeno produtor (com menos de 10 ha) domina, em termos quantitativos, o cenário da carcinicultura brasileira, com aproximadamente 75% do total. Em volume de produção, esse domínio cai para 17,4%. Os grandes produtores (com mais de 50 ha), que representam 5,5% do total, são responsáveis por cerca de 55,3% da produção nacional. Na tabela 4, fica evidenciado o desenvolvimento acentuado da carcinicultura marinha nos estados da Região Nordeste, corroborando assim, seu enorme potencial para esta atividade.

Tabela 4 – Diagnóstico da Carcinicultura Brasileira em 2003 - FONTE: Censo ABCC 2003
Tabela 4 – Diagnóstico da Carcinicultura Brasileira em 2003 – FONTE: Censo ABCC 2003

Pode-se observar na Tabela 5, que cerca de 95% da produção nacional de camarões, além dos melhores resultados de produtividade, de fato são provenientes das fazendas localizadas no Nordeste, confirmando o camarão marinho, efetivamente, como uma nova riqueza do setor primário que abre perspectivas altamente favoráveis de retomada do desenvolvimento regional.

Tabela 5 - Quadro Geral da Carcinicultura Marinha por Região em 2003 - FONTE: Censo ABCC 2003
Tabela 5 – Quadro Geral da Carcinicultura Marinha por Região em 2003 – FONTE: Censo ABCC 2003
Evolução do Setor

Os resultados do censo de 2003 confirmam o ritmo de crescimento que o cultivo de camarões vem experimentando desde que iniciou sua produção comercial no Brasil com a espécie L. vannamei, entre 1995/1996. A área cultivada passou de 3.548 ha em 1997 para 14.824 ha em 2003, significando um aumento de cerca de 318%. Os níveis de produtividade passaram de 1.015 kg/ha/ano para 6.084 kg/ha/ano neste mesmo período, representando um aumento de cerca de 500%, o que indica o intenso aperfeiçoamento dos processos tecnológicos que a atividade vem alcançando. Além disso, o crescimento da produção nacional é bastante expressivo neste período, passando de 3.600 toneladas em 1997, para 90.190 toneladas, em 2003.

Nível de Tecnologia

Para que fosse possível a avaliação do nível tecnológico da carcinicultura marinha no Brasil, foi investigado o emprego de algumas práticas e procedimentos, pesquisados no censo 2003, tais como a utilização de bandejas fixas de alimentação, o tratamento do solo, o monitoramento de parâmetros da água, o emprego de aeradores e de tanques berçários. Os resultados do censo de 2003 revelam em primeiro lugar, um elevado grau de difusão ou dispersão tecnológica entre todos os produtores. Cerca de 98% dos produtores brasileiros, utilizam o sistema de alimentação “via uso de bandejas fixas”, que conservam a qualidade da água e do solo de cultivo. Além disso, 95% dos produtores realizam tratamento do fundo dos viveiros para a correção do solo, eliminação de metabólitos e para a degradação da matéria orgânica. Estes fatos indicam que o setor trabalha dentro do equilíbrio da produção biológica com a preservação ambiental. Em relação às demais práticas, ainda que as cifras indiquem elevadas proporções de uso, tanto em nível de médio como de pequeno produtor, considerando a tecnologia disponível, ainda existe espaço para o crescimento tecnológico do setor, principalmente no que se refere ao uso de tanques berçários, aeração artificial e melhor controle dos parâmetros da água de cultivo.

Laboratórios de Camarão

O domínio e aperfeiçoamento das técnicas de maturação, reprodução e lavicultura tem sido essencial, não somente para assegurar a existência do cultivo de camarões no país, mas também, para permitir o fornecimento de pós-larvas de boa qualidade às fazendas de engorda, o que vem garantindo os excelentes resultados de produtividade e de produção alcançados pela carcinicultura brasileira. A tabela 6 mostra que o setor de laboratórios no Brasil, operou em 2003 com 36 unidades, distribuídas em sete estados, cuja produção anual alcançou 66,8 bilhões de náuplios e 16,4 bilhões de pós-larvas. Com esta última cifra foi viabilizada a operacionalização de 14.824 hectares de viveiros em nível nacional. A produção de pós-larvas em 2003 cresceu 30,5% em relação ao ano de 2002, que teve uma produção de 11,4 bilhões de pós-larvas. Um dado importante destacado pelos responsáveis pela elaboração do censo 2003, é a capacidade de produção de nauplius, cujo número reportado para 2003 já é suficiente para suportar um crescimento de 100% na produção de pós-larvas.

Tabela 6 - Laboratórios e Produção em 2003 - FONTE: Censo ABCC 2003
Tabela 6 – Laboratórios e Produção em 2003 – FONTE: Censo ABCC 2003
Unidades de Beneficiamento

As unidades de beneficiamento ou frigoríficos processadores de camarões, desempenham uma função excepcionalmente importante na preparação do produto final e na manutenção da sua qualidade para o mercado internacional. Os dados revelados pelo censo 2003, identificam a existência de 42 centros de processamento que trabalham com o camarão marinho, distribuídos em dez Estados da Federação, cuja capacidade total instalada para beneficiamento/congelamento é de 21.620 toneladas. Estes números representam um considerável crescimento do setor de processamento do camarão cultivado, tanto em número de unidades quanto em capacidade de processamento, em relação ao censo de 2002 que registrou 38 unidades e capacidade de processamento de 390 toneladas.

Evolução das Exportações

Somente a partir de 1998, com um crescimento de 100% da produção em relação ao ano de 1997, a carcinicultura brasileira, que até então priorizava o mercado interno comercializando “camarões inteiros, frescos, conservados em gelo”, passou a encontrar dificuldades para o escoamento da sua produção, dando início às primeiras exportações, que corresponderam na época a 400 toneladas, equivalentes a US$ 2,8 milhões. A partir de 1999, houve um expressivo incremento das exportações brasileiras de camarões cultivados, cuja evolução destaca o desempenho alcançado em 2003 com 58.455 toneladas exportadas e captação de divisas da ordem de US$ 226,0 milhões. O crescimento das exportações de camarões cultivados, no período 1998 a 2003, foi da ordem de 14.514% em volume e de 7.968% em valores.