CARCINICULTURA MARINHA

E O MANEJO INTEGRADO DOS RECURSOS COSTEIROS

Por: Walter Quadros Seiffert


O ecossistema costeiro abrange um espaço com fronteiras abertas entre a terra, a atmosfera, os oceanos e os corpos de água doce. A estrutura de funcionamento destes quatro ambientes é dinâmica e interdependente, apresentando comportamentos distintos conforme variações climáticas e ações do homem sobre a natureza. São inúmeras as atividades sócio-econômicas existentes na região costeira (ilustração), dentre as quais: o turismo, a pesca, a aqüicultura, a agricultura, a navegação, a indústria e a mineração. De acordo com os estudos da FAO, cerca de 60 % da população mundial têm sua residência no ambiente costeiro e mais de 50 % desta população não possui saneamento básico . Qualquer tentativa de administração pública com visão unilateral neste tipo de ecossistema está destinada ao insucesso e, devido à complexidade destes ambientes, o estudo das bacias hidrográficas envolvidas torna-se fundamental para manejo integrado dos recursos costeiros.

Como a base para o sucesso de qualquer tipo de planejamento é a precisão das informações, o uso dos recursos naturais em uma bacia hidrográfica exige que estas sejam atualizadas e em escala adequada às tomadas de decisões. Informações desatualizadas e inadequadas impedem a interpretação correta sobre a dinâmica dos ecossistemas costeiros. A utilização racional das potencialidades regionais, tida como desenvolvimento local, também depende da obtenção de informações regionais que identifiquem a dinâmica dos recursos naturais existentes. (Figura 1).

Figura 1 - Níveis de planejamento (FAO, 1993)
Figura 1 – Níveis de planejamento (FAO, 1993)


O Sensoriamento Remoto, sob a forma de fotos aéreas e imagens de satélite, o Sistema de Posicionamento Global (GPS) e os SIGs – Sistemas de Informações Geográficas, são ferramentas indispensáveis aos usuários do ecossistema costeiro, tanto para a obtenção, quanto para o processamento de dados ambientais em escalas adequadas. (Figura 2, na página 55)

Figura 2. Estrutura de um SIG
Figura 2. Estrutura de um SIG

No Brasil

São muitos os problemas decorrentes das informações imprecisas e desatualizadas que dizem respeito aos recursos costeiros em nosso país, o que vem prejudicando a tomada de decisão a respeito das linhas de desenvolvimento e legislações. O conhecimento dos fluxos de Carbono, Nitrogênio e Fósforo na escala regional pode auxilar na gestão integrada da carcinicultura marinha. Existe um ciclo de produção, degradação e ciclagem de nutrientes que precisa ser entendido antes que decisões sejam tomadas. Um programa de monitoramento dos fluxos de nutrientes e poluentes em escala regional é indispensável para um correto manejo dos recursos costeiros. Existem diferentes tipos de mangues, desde aqueles com 10 espécies até os que possuem 100 espécies, e especialistas nesses ecossistemas vêm afirmando que o cultivo de camarões em regiões circundantes a mangues é benéfico para o tratamento dos efluentes e conseqüente incremento da produtividade do próprio mangue (pesca e biomassa vegetal). Da mesma forma, é preciso não esquecer que os fluxos de nutrientes no Oceano Pacífico são diferentes daqueles que ocorrem no Oceano Atlântico, fato que interfere diretamente na produtividade aquática e está diretamente correlacionada com o uso da água para aqüicultura. A circulação de nutrientes numa lagoa costeira que possui contato sazonal com o mar é diferente de uma que possua contato direto com o mar, o que direciona a tomada de decisão quanto a capacidade do ecossistema local em receber um determinado número de projetos de aqüicultura. Perguntas como: “de onde vêm e para onde vão os nutrientes?” e, “até que ponto o sistema é pouco produtivo ou eutrofizado?”, não podem ficar sem respostas. Na orientação para o manejo integrado de recursos costeiros, os questionamentos atuais sobre o impacto ambiental da carcinocultura marinha devem ser discutidos, mesmo porque, esses cultivos estão entre as principais atividades a serem prejudicadas pela não manutenção da qualidade de água dos ecossistemas costeiros.

Poucos são os estudos concretos de monitoramento e quantificação sobre o impacto da carcinocultura nos ecossistemas costeiros. Destacamos o de PAEZ-OSUNA e colaboradores que estimaram os impactos do cultivo de camarões no México. (Figura 3, na página 55).

Os autores compararam os teores de nitrogênio e fósforo existentes nos efluentes oriundos do cultivo de camarões com os observados nas águas municipais servidas e os provenientes da agricultura. Destes, apenas 1,5 % do N (Nitrogênio) e 0,9 % do P (Fósforo) descarregados no ambiente costeiro mexicano eram provenientes de camaroneiras distribuídas em 27.500 ha. A agricultura e as águas urbanas servidas representaram a maior parte do nitrogênio e fósforo liberado nos ecossistema costeiro de toda a região produtora de Sinaloa e Sonora, onde os produtores sequer utilizam o sistema completo de manejo alimentar através de bandeja. Da mesma forma, Twilley e colaboradores destacam a falta de planejamento quanto a expansão desordenada das indústrias, da agricultura e do próprio cultivo de camarões como os principais causadores da degradação da qualidade de água as margens do estuário do Rio Guayas e Golfo de Guayaquil. Ficou provado que o Litopenaeus vannamei é realmente um animal resistente por suportar mais de 20 anos de cultivo em uma região onde a expansão desordenada sobre a base dos recursos costeiros é evidente.

Existem dados de diversos países que questionam a sustentabilidade da carcinocultura marinha. Contudo a visão unilateral destes dados pode acarretar em interpretações incorretas, como as conclusões atualmente defendidas pelos grupos ambientalistas no nordeste brasileiro. Alguns questionamentos devem ser efetuados: qual o sistema de cultivo que é considerado de alto impacto ao meio ambiente? Como deve ser o planejamento da expansão da atividade? Qual é o correto sistema de manejo a ser empregado?

A outrora incansável discussão “exótico versus nativo” no cultivo de camarões está hoje desmistificada, uma vez que no Equador e nos países asiáticos, onde diversos problemas sanitários ocorreram, as espécies cultivadas eram nativas. Cabe ressaltar que tantos as espécies exóticas como nativas, têm que ser cultivadas adequadamente. Na agricultura, suinocultura, avicultura e bovinocultura brasileira, quais as espécies nativas? A sustentabilidade da carcinicultura marinha foi aceita em reunião realizada em 1997 em Bangkok, com a presença de distintas ONGs e setores da sociedade organizada, desde que planejada e implantada de forma correta.

O estudo das interações entre os recursos costeiros e as atividades econômicas deve orientar a geração de renda e empregos nos países em desenvolvimento. É necessário que a massa crítica tomadora de decisões seja orientada por dados concretos já que existe uma prerrogativa utilizada pelos órgãos ambientais, onde o desconhecimento do impacto de uma atividade produtiva sobre a base dos recursos naturais, define a opção pelo não apoio ao desenvolvimento de tal atividade.

Dentro das condições brasileiras de apoio à pesquisa, necessitamos quantificar e monitorar os impactos existentes, bem como propor alternativas para mitigá-los. Caso isto não aconteça, como afirma uma das personalidades da carcinocultura marinha nacional, “as comunidades litorâneas irão morrer de fome abraçadas aos recursos costeiros, porque não podemos utilizá-los de forma responsável”. Não utilizar com responsabilidade os recursos costeiros brasileiros devido a comparações com exemplos negativos seria um atraso para o nosso país que tanto necessita de geração de renda e empregos.

O monitoramento da qualidade do recurso natural água nos distintos pontos da bacia hidrográfica forneceria uma radiografia do funcionamento do ecossistema costeiro já que isto identificaria os distintos problemas ocasionados pelas atividades produtivas. Neste sentido destaca-se a pressão que vem sendo feita pelos maricultores de Santa Catarina sobre as autoridades locais para haja saneamento básico nas cidades litorâneas. O cuidado com os recursos costeiros, como a limpeza da praia, lixo reciclável e fossa séptica são indispensáveis para a qualidade sanitária de seus mexilhões e ostras.

Lanço um desafio aos leitores para que não desistam de fornecer dados e propostas de desenvolvimento aos gestores e legisladores. O ecossistema costeiro precisa ser melhor conhecido, planejado e utilizado de uma forma responsável. A idéia é produzir com o mínimo impacto possível, mas gerando empregos que o país tanto precisa. “Produza com responsabilidade na terra antes que a terra utilize você para reciclar nutrientes”. Escrever e filosofar sobre o meio ambiente é confortável. Difícil é produzir com responsabilidade e propor alternativas concretas para a aqüicultura sustentável. Devemos continuar melhorando o manejo alimentar com dietas com menor impacto e menor teor de nitrogênio. Da mesma forma, serão cada vez mais importantes os sistemas de manejo com menor renovação, aproveitando a reciclagem dos nutrientes com a oxidação. O planejamento e a engenharia de construção integrada aos recursos costeiros devem também buscar formas de abastecimento de água e drenagens coletivas, ao mesmo tempo em que devem buscar o envolvimento e o bem estar das comunidades litorâneas, gerando empregos bem remunerados.

Figura3. Cargas de nitrogênio e fósforo derivadas da agricultura, dejetos urbanos e aqüicultura (PAEZ-OSUNA et al).
Figura3. Cargas de nitrogênio e fósforo derivadas da agricultura, dejetos urbanos e aqüicultura (PAEZ-OSUNA et al).

 

Bibliografia consultada

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