Carcinicultura para os Iniciantes – Parte I

Pensando Embaixo D’Água

Autor: Alexandre Alter Wainberg*


O cultivo de camarões, tal qual outras modalidades de aqüicultura, ainda é uma atividade de alto risco. Os lucros são proporcionais aos riscos e ambos podem ser muito altos. Recentemente, a estabilização macroeconômica, o mercado amplo e remunerador, e a disponibilidade dos insumos básicos (pós larvas e ração) favoreceram o surgimento de pequenos e médios carcinicultores (como são chamados os criadores de camarões). A atividade, antes restrita a grandes empresas, está se difundindo como opção de melhoria no padrão de qualidade de vida do meio rural nas regiões costeiras do nordeste. Esta tendência concentra-se principalmente no litoral do Rio Grande do Norte, ao sul da capital Natal, mas também existe em menor intensidade na maioria dos Estados costeiros de norte a sul do Brasil.

Sendo um pequeno produtor e vice-presidente de uma cooperativa que congrega mais de 60 pequenos e médios carcinicultores, a COOPERCAM, recebo freqüentemente em minha fazenda, visitantes de diversas regiões do Brasil interessados em tornarem-se carcinicultores, ou produtores buscando informações sobre o manejo ou infra-estrutura. A expansão da atividade pelo lado do pequeno e médio produtor amplia o espectro da atuação social da carcinicultura, mas traz consigo alguns riscos. Os maiores problemas estão relacionados a falta de disponibilidade tecnologia básica a nível de extensão rural, que possa dar sustentação a este crescimento onde ele ocorre: nas fazendas. Sem acesso a tecnologia disponível, as fazendas são mal locadas, projetadas e construídas, e os melhores métodos de manejo não são utilizados, interferindo na viabilidade econômica e ambiental do empreendimento a médio e longo prazo. Atualmente, o alto preço do camarão no mercado nacional encobre as deficiências existentes, que serão mortais a medida que a oferta crescente das fazendas suprir a demanda do mercado, o que deverá ocorrer no Brasil em não mais de 2 anos. Eu vendia camarão em 1994 por US$12 / Kg e atualmente vendo a US$5 / Kg (preço pago na fazenda).

Aprendendo a pensar

Na região onde tenho minha fazenda, os produtores estão tentando ganhar escala e resolver seus problemas comuns através de uma cooperativa, que vem tentando apoiar tecnicamente o produtor dentro da sua propriedade com visitas periódicas de técnicos extensionistas. Esta experiência tem revelado as principais lacunas no conhecimento do produtor rural, que muitas vezes não se interessa pela biologia e ecologia do animal, mas por preferindo dispor de um receituário de métodos diários.

A carcinicultura é uma atividade muito semelhante, e no entanto muito diferente das outras atividades agropecuárias. Este paradoxo precisa ser entendido pelo produtor rural, que precisa acostumar sua mente a pensar em termos aquícolas:

A água tem uma densidade muito maior que o ar. Objetos soltos no ar caem. O ambiente de cultivo é bidimensional. Na água os objetos pedem flutuar ou afundar em maior ou menor velocidade, além da natação ativa, tornando o ambiente tridimensional;

Na carcinicultura a interação do animal com o ambiente é mais dramática que nos cultivos terrestres. Grande parte da excreção (fezes e urina) dos animais aquáticos e outras contribuições do cultivo ficam dissolvidos na água. Eventualmente, em um curral, o gado pode estar sobre uma camada considerável de esterco, sem que morra sufocado. Na carcinicultura, o “esterco” do camarão, dissolvido na água, pode envenena-lo dependendo da concentração;

Nos cultivos terrestres o oxigênio é abundante e circula mais ou menos igualmente por todo o planeta. E não falta. A concentração do oxigênio na água é muito menor que no ar. A carcinicultura é realizada em viveiros que são ambientes mais ou menos fechados e a falta de oxigênio pode ocorrer se não forem usados métodos de apoio tais como renovação de água e/ou aeração artificial;

Na aqüicultura cultiva-se a água. É como se na terra cultivássemos o ar. A manutenção de uma água boa é meio caminho andado para o bom desenvolvimento do cultivo. Cultivar a água é manejar as microalgas do plancton, que são plantas com mais ou menos as mesmas necessidades que as terrestres, só que são minúsculas e vivem suspensas na água;

Na carcinicultura, o produtor possui pouco ou nenhum controle sobre alguns fatores vitais para o animal, tais como a temperatura e a salinidade da água, que são determinados pelas características do local onde a fazenda está instalada. Não existe local perfeito e cada um terá suas vantagens e desvantagens. Todo cuidado é pouco na escolha do local, pois depois não adianta chorar pelo leite derramado. Consulte um técnico. Por mais caro que isto possa lhe parecer, ainda é mais barato quando comparado às conseqüências de erros neste momento crucial.

Na carcinicultura a qualidade do piso dos viveiros tem enorme importância, uma vez que os camarões passam a maior parte do tempo em íntimo contato com o solo. No solo encharcado do viveiro os ciclos naturais são muito mais lentos e os nutrientes tendem a se acumular. Como está submerso a maior parte do tempo, o manejo do solo é efetuado entre os cultivos e é parecido com o da cana de açúcar (arar, corrigir o pH, etc.) com a diferença que a cana custa menos de US$15 / tonelada e o camarão custa US$ 5.000 / tonelada. Portanto, vale a pena.

Nos cultivos terrestres o produtor vê o animal, pode conta-lo e vê-lo crescer. Na carcinicultura, se o produtor vê o camarão é porque alguma coisa está errada. Todo cultivo é feito imaginando quanto camarão tem realmente no viveiro tomando como base amostras feitas com tarrafas e acompanhando o consumo de ração. A única maneira precisa de quantificar o estoque é pescar;

A maioria dos produtos usados na carcinicultura tem origem agrícola, no entanto funcionam diferente na água. A água é um solvente universal e na prática, uma vez na água, é muito difícil determinar o destino de qualquer insumo. Por exemplo, somente cerca de 20% dos nutrientes da ração transformam-se em camarão a ser pescado. O restante polui a água, o solo e o meio ambiente.

Dentre os itens acima, todos estão relacionados com as diferenças de pensar para produção em sistemas terrestres e aquáticos.

Os próximos temas a serem abordados nesta seção objetivarão esclarecer:

(2) a biologia relacionada a engorda ;

(3) locação, projeto e construção;

(4) melhores métodos de manejo (3M’s);

(5) fazendo contas; e

(6) enfrentando os problemas.

Estes artigos “para os iniciantes“ serão restritos à fase de engorda, uma vez que a produção de pós larvas não é absolutamente coisa para iniciantes.

Boa produção!


* Alexandre Alter Wainberg é biólogo marinho, carcinicultor, proprietário do Sítio São Félix com 42 hectares de viveiros, vice presidente da COOPERCAM e secretário da ABCC – Associação Brasileira dos Criadores de Camarões. E-mail. [email protected]