Carcinicultura: Preparado para crescer?

Recentemente foi lançado pela FAO/ONU o informe “Perfil da alimentação nas fazendas de criação de camarões marinhos e de água doce no Brasil”. Este trabalho, de 1988, foi realizado pelos biólogos André Nogueira e José Roberto M. C. da Silva. De lá para cá, muita coisa mudou para André Nogueira. Trabalhou três anos para as Rações SOCIL, como responsável pela região nordeste, convivendo desta forma muito proximo dos produtores. Recentemente André visitou novamente muitas das fazendas que ele conviveu e retratou em seu relatório à FAO. André nesse artigo revê o passado, fala do presente e, como não podia deixar de ser, fala do futuro da carcinicultura brasileira.

Curiosamente em 1988, época em que traçamos o perfil de alimentação, as fazendas mostraram-se bastante receptivas em relação a um levantamento de informações de seus métodos de arraçoamento e manejo. Esta abertura foi inédita já que, em anos anteriores, muitos criadores acreditavam ter o domínio tecnológico para obter sucesso em seus projetos e não eram receptivos. A abertura mostrou que muitos criadores precisavam discutir e que velhos tabús e antigos métodos precisavam ser revistos.

Nessa época os projetos de criação de camarões marinhos operavam basicamente no sistema extensivo, apesar de alguns operarem no sistema semi-intensivo (Maricultura da Bahia, Agroplan, etc.). A MR-25 da Purina era a ração utilizada e a Conte Brasil, a Germany e a Cargill testavam seus produtos. É importante frisar que os projetos construidos para o sistema extensivo não eram adequados ao uso de rações.

À partir de 1989, mesmo com o fechamento de muitas fazendas (Henrique Lage, CBA, Rena, Cruza, etc.), uma grande movimentação no sentido da semi-intensificação teve início. Era a profissionalização de algumas indústrias de ração, que criaram concorrência e motivaram alguns projetos a semi-intensificarem.

Os projetos de criação de camarões de água doce, por outro lado, operavam no sistema semi-intensivo (1988). A maior parte ou produzia sua própria ração (matérias primas locais) ou utilizava outras rações não específicas para camarões de água doce. Neste caso, apesar das fazendas terem sido construídas para o sistema semi-intensivo não haviam rações específicas disponíveis. Somente em 1989, com o surgimento da primeira ração específica para camarões de água doce no Brasil (Socil), muitos projetos abandonaram a própria ração ou a compra de produtos não específicos para esta atividade.

1989-1991 – CRISE

Foi uma fase de muita movimentação no setor, que conviveu com inúmeros problemas que até hoje atrapalham o bom desenvolvimento da atividade, tais como:

No cultivo de camarão marinho:

1 – dificuldade de captura (fiscalização do IBAMA) ou produção de pós-larvas (problemas técnicos) para povoar os viveiros em quantidades suficientes para o sistema semi-intensivo;

2 – dificuldade de utilização de rações em viveiros construidos para operarem em sistema extensivo aliada a baixa renovação de água;

3 – falta de consenso entre criadores de camarões marinhos sobre qual a melhor espécie a ser criada dentro do sistema semi-intensivo. Eram muitas as espécies cultivadas (P. schmitti, P. subtilis, P. penicilatus, P. paulensis e P. vannamei);

4 – os aspectos nutricionais das espécies não eram bem conhecidos, o que dificultava a produção de uma ração apropriada. Vale ressaltar a grande falta de informação básica dos requerimentos nutricionais do P. schmitti (espécie de interesse comercial).

5 – a qualidade da farinha de peixe, assim como a sua disponibilidade, eram inconstantes pois a farinha de peixe é considerada como sub-produto da indústria pesqueira;

6 – as rações sofriam com o problema de estabilidade na água já que as indústrias não tinham equipamentos adequados para sua produção e os ligantes não eram disponíveis no País. O milagroso Basfin (ligante da Basf) não era mais produzido e comercializado por ser considerado um produto cancerígeno;

7 – com a entrada de Collor no govêrno houve uma política recessiva e de supervalorização do cruzeiro em relação ao dolar, o que prejudicou os exportadores;

8 – havia deficiência técnica nos projetos de criação assim como falta de mão-de-obra qualificada;

9 – muitas tecnologias adquiridas no exterior não foram bem sucedidas;

10 – havia faltra de seriedade por parte de vários empresários;

11 – não existia um centro de pesquisas com recursos e condições de gerar uma tecnologia adequada às nossas condições.

Para o camarão de água doce:

1 – Dificuldade de produção de pós-larvas de Macrobrachium rosenbergii (problemas técnicos), capaz de povoar os viveiros disponíveis;

2 – concorrência desleal por parte dos larvicultores governamentais, frente as larviculturas privadas, pois existiam subsídios:

3 – falta de conhecimento técnico preciso. A atividade, por ser nova, precisava de readaptar as tecnologias utilizadas que eram quase sempre provenientes de outros países;

4 – o mercado (comercialização) não era tão fácil como diziam;

5 – havia falta de seriedade por parte de vários empresários;

6 – falta de condições dos centros de pesquisas nacionais capazes de gerar respostas aos inúmeros problemas técnicos;

7 – surgimento de inúmeras empresas de consultoria que não conheciam o assunto de forma prática, prejudicando o investimento seguiro de capital no setor.

No início de 1991, com todos esses problemas existentes, o setor apresentava sérios riscos de se apagar no Brasil. Nessa época eu residia no Nordeste e a impressão que eu tinha era que “tudo” estava indo contra o setor. Para se ter uma idéia, em encontros de 1989 da ABCC (Associação Brasileira de Criadores de Camarões) reuniam-se cerca de 20 empresários e, na reunião de 1991, mesmo com a entrada dos novos criadores de camarões de água doce na Associação, reuniram-se apenas 3 associados e 5 convidados especiais, entre eles eu. A atividade e a associação estavam bastante desmoralizadas. Os custos de produção e a crise econômica agravaram-se e, curiosamente, muitos investimentos foram feitos e muito se aprendeu com isso.

1991 – 1992 – MUDANÇAS

Algumas mudanças significativas ocorreram no setor de 1991 até 1992. Destaque para o maior incentivo a produção e comercialização de pós-larvas de P. vannamei visando os projetos semi-intensivos, vindo em segundo plano a produção de P. penicilatus e P. subtilis.

Mesmo com este consenso em torno do P. vannamei, devemos lembrar que atualmente a produção de pós-larvas desta espécie no Brasil está ainda abaixo da demanda acarretando dificuldades para a intensificação do cultivo o que, consequentemente, manterá baixa a demanda de rações à indústria nacional instalada. Ou seja, o problema de povoamento de pós-larvas ainda existe.

O P. vannamei tem uma tecnologia mais dominada em sistemas com alta densidade principalmente se comparada às espécies nativas.

Na minha opinião esta escolha foi um grande avanço. Trata-se de uma espécie de grande valor comercial, boa rusticidade em viveiros com manejo e nutrição bastante conhecidos, além de crescer bem com rações contendo cerca de 22% de proteína bruta o que torna mais barato esse insumo.

O P. schimitti era a espécie nativa de maior interesse comercial e por isso, em 1989, eu e Ana Carolina Guerrelhas, da Aquatec de Canguaretama – RN enviamos ao IFREMER pós-larvas de P. schimitti para que fosse avaliada a performance da espécie em sistemas intensivos. Infelizmente problemas de Baculovirus Penaei (BP) impediram o prosseguimento do experimento e, de acordo com Dennis Weidner, atualmente Cuba já desenvolveu uma tecnologia para esta espécie.

Outras mudanças ocorreram. Os erros do passado parecem estar ensinando muito o presente. A mão-de-obra hoje já está bem mais habilitada, assim como as tecnologias adquiridas no exterior estão mais adaptadas. O setor de rações se beneficiou com uma série de ligantes alternativos que foram lançados no mercado internacional aliados ao melhor manejo dos equipamentos das indústrias de rações (ração extrusada). Fora isso o dólar voltou aos padrões normais evitando problemas de exportação.

Mas os custos de implantação e operacionalização dos projetos camaroneiros ainda são muito altos no Brasil, se compararmos com o Equador por exemplo. Ainda hoje as más experiências do passado causam certa insegurança e, desta forma, a atividade atrai poucos novos empresários para o setor.

Por outro lado, também a criação de camarões de água doce fez elogiáveis progressos técnicos e comerciais apesar de vários projetos terem fechado no país (Frutos Alfa e Camarões do Hawai, por exemplo). O cultivo de camarões de água doce amadureceu tecnicamente. Testes de arraçoamento foram bem sucedidos (Socil) e as larviculturas operam mais conscientemente, apesar da dificuldade em atender a demanda. E, finalmente a atividade já conta com centro produtor de tecnologia (exemplo da UNESP de Jaboticabal) mas esbarra ainda na comercialização cuja venda do produto final, vale lembrar, não é fácil.

Estas atividades estão mais amadurecidas apesar de ainda serem incipientes num país com esse potencial climático, hídrico e mercadológico. O maior amadurecimento da atividade em termos técnicos e comerciais, trará empresários mais conscientes e não aventureiros, assim como favorecerá a expansão de empresas sérias de consultoria. Algum tempo será necessário para que possamos ter um parque camaroneiro semelhante ao Equador, Taiwan e etc. No entanto, conhecendo e aprendendo com todos os erros passados é que poderemos caminhar a passos seguros rumo ao futuro.

André Luiz de Mello Nogueira – Biólogo