Cargill investe US$ 10,5 milhões para solucionar o principal gargalo da salmonicultura

Inaugurado no Chile o mais moderno centro de pesquisas de patologia de peixes de todo o mundo


Por:
Jomar Carvalho Filho 
[email protected]
Biólogo e editor

Somente no Chile, segundo os cálculos da própria indústria, a SRS (Septicemia Rickettsial do Salmão) e o Caligus (piolho do salmão), causam perdas anuais de mais de US$ 1 bilhão, e situação semelhante acontece nos demais países produtores de salmonídeos. O salmão parasitado pelo Caligus tem a sua imunidade seriamente comprometida, oportunidade em que é contaminado pela bactéria.

“Portanto, numa primeira etapa, é de se esperar que as pesquisas do Centro de Inovação da Cargill foquem nesses dois problemas sanitários”, disse o Gerente Global para Saúde de Peixes da Cargill Aqua Nutrition, Simon Wadsworth, durante a cerimônia de inauguração das instalações em Calbuco.

A SRS é uma enfermidade produzida por Piscirickettsia salmonis, uma bactéria intracelular com alta prevalência no Chile. Segundo dados do Serviço Nacional de Pesca e Aquicultura (Sernapesca), em 2015 o patógeno foi responsável por 79% das mortalidades dos peixes por causas infecciosas e a principal razão para o uso de antibiótico no país.

Já os piolhos do mar (Caligus), tanto no Chile como na Noruega, são parasitos que têm grande incidência na produção de salmonídeos, e sua ação afeta a primeira barreira imune dos peixes: a pele. Vale lembrar que o piolho do peixe que afeta os salmões na Noruega (Lepeophteirus salmonis), não é o mesmo que afeta os peixes chilenos (Caligus rogercresseyi).

Soluções para os desafios sanitários

O projeto para a construção e operação de uma estação de pesquisa em Colaco, no Chile, nasceu dentro da “EWOS Inovação”, na Noruega, com a finalidade de abordar os desafios próprios do Chile. A ideia era construir um centro de inovação de alto nível, e as obras se iniciaram em 2015. A escolha do Chile se deu por inúmeras razões, explicou o pesquisador líder da Cargill, Javier Gonzales.

A primeira delas, é o fato de que o Chile conta com uma equipe de especialistas e pesquisadores de alto nível. Além disso, no país se cultiva as três espécies mais importantes sob o ponto de vista da aquicultura – o salmão do Atlântico (Salmo salar), a truta arco-íris (Oncorhynchus mykiss) e o salmão coho (Oncorhynchus kisutch).

Outro aspecto que pesou na escolha do Chile para sediar o centro de pesquisa, é que, salvo a Enfermidade do Pâncreas, estão presentes no país a maioria dos patógenos que hoje afetam os salmonídeos do mundo. Um laboratório perfeito para avançar nos temas de sanidade, garantiu Gonzales.

Em 2016, quando a EWOS foi adquirida pela Cargill, o projeto de investimento em Calbuco já estava pronto, e, evidentemente, o objetivo de oferecer à indústria as soluções para os desafios sanitários, foi mantido.

A concepção de um Centro de Pesquisa

Para a construção do Centro de Inovação da Cargill, os executivos da EWOS (ainda não havia sido comprada pela Cargill), correram o mundo analisando todas as tecnologias e normativas para dar forma a uma instalação capaz de cumprir com todas as expectativas e exigências de biossegurança, a principal preocupação dos projetistas.

Partiram da premissa que as instalações seriam utilizadas para pesquisas com patógenos de peixes. Portanto, seria necessário evitar a contaminação cruzada entre as diferentes dependências do centro, bem como a saída de patógenos para o meio ambiente.

O projeto final, com 2.950 m2 de área construída, deveria conter um laboratório completo (hatchery) para a produção de ovos e smolts proveniente de um material genético livre de enfermidades; uma Unidade de Desafio, composta por três salas individuais, com tanques de 200 a 4.000 litros, cada uma delas com a possibilidade de ser abastecida por seis tipos diferentes de água, com variações de temperatura, oxigênio dissolvido, salinidade e pH; um laboratório completo para a produção de Caligus, para serem usados nos estudos de desafios com os peixes e estudos in vitro e laboratórios capazes de executar aproximadamente 42 mil exames de qPCR por ano, cultivo celular, métodos in vitro, bacteriologia e parasitologia, além de manter e preparar inóculos de patógenos.

Além do citado anteriormente, as instalações de Calbuco possuem áreas para o tratamento de água doce e salgada, com filtros para remoção de partículas e de ferro, desgaseificação a vácuo e filtros Ultra Violeta de 350 mil uWs/cm2.

Por um sofisticado sistema, as águas – do mar e de poços profundos – são tratadas, esterilizadas e misturadas para que se possa obter uma água final com as características que se desejar. Da mesma forma, a estação de tratamento de efluentes é capaz de tratar 136 mil litros de água por hora, com remoção de lodo por meio de filtros rotatórios, sistema de desinfecção por ozônio e Ultra Violeta e incinerador para reduzir o lodo resultante.

Segundo o Gerente Global para Saúde de Peixes da Cargill Aqua Nutrition, Simon Wadsworth, o resultado foi um centro de pesquisa onde foram investidos US$ 10,5 milhões, equipado com tudo que é necessário para ser chamado de totalmente biosseguro, e capaz de fornecer um aporte significativo de desenvolvimento para a salmonicultura mundial.

O CIC inicia suas operações focando na busca de soluções para as duas principais enfermidades que preocupam a indústria do salmão, o SRS e o Caligus. A longo prazo, com o apoio da tecnologia que o CIC possui, poderão ser estudadas soluções nutricionais para qualquer enfermidade que afete os salmões de cultivo, tanto no Chile como em outros países produtores.

Segundo Simons Wadsworth, agora com o CIC, a capacidade total de se realizar testes e estudos em matéria de saúde de peixes aumentou de 4 a 5 vezes, permitindo o avanço mais rápido na busca de soluções.